Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 4ª etapa – Vila Nova de Poiares – Sardoal (248 km – 386 km)

“Também lhe não acena uma paisagem límpida e aberta. A não ser nos boqueirões e nos píncaros da Estrela, onde se desce ao inferno e se toca o céu, enrugada e morena, a natureza beirã só de quando em quando se espraia e alegra.” – Miguel Torga, in A Beira

Começamos a etapa de hoje com esta citação de Torga sobre a paisagem da Beira, a qual parece antecipar a ausência de grandes momentos. Nada disso. A paisagem e o património construído podem ser por vezes desengraçados, mas como Torga logo de seguida acrescenta aparecem-nos inesperadamente certos recantos, como “trechos do Alva, pedaços do Vale do Zêzere, curvas do Mondego”.

Assim é. A etapa de hoje da EN2 é fortíssima nas opções para um mergulho. Garganta do Ceira, Góis, Alvares, Albufeira do Cabril, Mosteiro, Zaboeira, Fernandaires, Penedo Furado, Aldeia do Mato. Ufa. Umas mesmo junto à Estrada, outras pouco dela desviadas, todas excelentes para combater o calor extremo do interior da Beira. Nesta etapa quase que podemos não sair da água dos seus rios, ribeiras e albufeiras, não fosse o caso de termos um caminho a seguir rumo ao mar.

Saindo de Vila Nova de Poiares pela EN2 em direcção a Góis, um desvio de apenas 6 kms antes do meio do caminho leva-nos até ao mais incrível pedaço do Ceira. Se não conhece, vá conhecer e mergulhar numa piscina natural por entre dois penedos enormes conhecidos pela designação Garganta do Ceira (ou Cabril do Ceira). Desde os tempos de nadadora que fiquei perita em vestir e despir o fato de banho num instante, pelo que pouco tempo perco neste ritual. Ou seja, mergulho na Garganta do Ceira? Feito.

De volta à EN2, as curvas sucedem-se, o típico na região. Continuam a não existir muitas povoações à beira da estrada, o desordenamento florestal é enorme, com a paisagem dominada pelos eucaliptos novos a rebentar depois dos recentes fogos. É aqui que finalmente percebo como esta árvore que me é totalmente familiar é feia, com um tom verde completamente desgarrado da restante paisagem. Mas, curiosamente, à aproximação de Góis tudo muda e a vegetação torna-se até luxuriante. Os fogos não terão andado por aqui recentemente, felizmente.

Descemos a Góis, a capital do Ceira, espreitamos o rio e atravessamos a Ponte Real que nos guia até ao pequeno centro histórico. Tem alguma nobreza, com destaque para a Igreja da Misericórdia e para a Fonte do Pombal, para além de uma ou outra casa nobre. Aliás, a vila foi pioneira na iluminação eléctrica pública, nisso precedendo até Coimbra, capital de distrito.

Saímos de Góis e, se dúvidas houvesse, Portugal é mesmo um país de serras. E de penedos. Obrigatório o desvio até à bela aldeia de xisto da Pena, protegida pelos Penedos de Góis. E com um pouco mais de tempo podemos até percorrer a estrada que liga a Pena às demais aldeias de xisto do concelho – Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira – até se voltar de novo à EN2. Em tempos fizemo-lo, é confirmar aqui.

Seguimos novamente pela EN2, montanhosa e com a companhia do pinhal, percebendo-se agora que o fogo terá andado há pouco por aqui e que a vegetação seria mais frondosa. Mas logo depois a paisagem abre-se e torna-se grande, onde um pequeno conjunto de casas se aninha sob um fileira de penedos.

Alvares, junto à Estrada é uma povoação, mas é sobretudo uma praia fluvial. Uma daquelas inspiradoras, num cenário a que não falta sequer uma pequena ponte de xisto.

De volta à realidade, eis umas placas de estrada a anunciar o nome de povoações como Picha ou Venda da Gaita. Confesso que acho este último melhorzinho do que Venda da Rapariga, nome de outra terra beirã afastada da EN2.

Pedrogão Grande é sede de concelho, mas possui ambiente de aldeia. Pequena, com cafés à beira da rua, destaca-se a cúpula em azulejo da igreja matriz, diferente até mesmo na arquitetura da sua fachada.

Para os loucos por praias fluviais e coleccionadores de aldeias do xisto, vale a pena o desvio de apenas 5 kms até à aldeia de Mosteiro. De qualquer forma, a praia fluvial da Albufeira do Cabril, com piscina flutuante demarcada nas águas do Zêzere e tudo, fica mesmo à beira da EN2.

Mais, também Pedrógão Pequeno, outra aldeia de xisto, tem aqui a sua porta. A paisagem aqui é poderosa, com o estreito e alto vale do Zêzere a impressionar. A ponte Filipina, edificada no século XVII, que se avista do alto da Estrada (embora haja um percurso pedestre que nos conduz a ela), já não cumpre a sua antiga função de ligar as duas margens do Zêzere, substituída pelo empreendimento da construção da barragem. Mas continua lá, bem pequenina no fundo do vale.

Cruzado o Zêzere na Albufeira do Cabril entramos na Beira Baixa. E logo conhecemos a simpática Pedrogão Pequeno, percorrendo as suas poucas ruas.

Até à Sertã surge a dúvida: isto é o pinhal interior ou eucaliptal interior?

A Sertã tem tudo para uma visita agradável. Castelo, ribeira, ponte filipina, parque verde, convento transformado em hotel e uma bela localização geográfica. É nela que visitamos o nosso castelo do dia. As suas origens remontam ao século I a.C., na época romana, e faria parte de um rede de fortificações em volta da Serra da Estrela. Diz a lenda de Celinda que esta corajosa mulher expulsou os romanos atirando sobre eles uma sertage, uma frigideira larga com azeite a ferver. E daqui derivará o nome Sertã. No século XII a vila e o castelo terão sido reedificados e hoje, quando subimos ao outeiro onde foi instalado, vemos o largo terreiro com a Capela de São João Baptista e uma das antigas torres. Caso raro, possui cinco quinas. As vistas para lá da muralha são amplas.

Já cá em baixo, passeamos pelo tranquilo Parque da Carvalha, ao redor da ribeira da Sertã. Aqui encontramos a ponte antiga, também da época filipina, a embelezar ainda mais o lugar.

A EN2 da Sertã até Vila de Rei é um género de via rápida ladeada por uma vegetação intensa de pinheiros. Um pouco antes de Vila de Rei fica o Picoto da Melriça, o centro geodésico de Portugal, conforme marca a Pirâmide aqui instalada em 1802. A 592m de altitude estamos exactamente no centro do nosso país, equidistante em relação aos quatro pontos cardeais. É um miradouro com vistas de 360º para uma série de serras, incluindo a Estrela lá bem ao fundo, sendo que a direcção de Mação é a mais bonita.

E em Vila de Rei várias opções de curtos desvios se nos colocam. Para as praias fluviais da Zaboeira ou de Fernandaires, ambas na Albufeira de Castelo de Bode, para o Penedo Furado – praia fluvial e caminhada para cascatas em passadiços – ou para a aldeia de xisto de Água Formosa (estas duas últimas com post escrito aqui).

Mas ainda não foi numa destas que voltámos a mergulhar. Continuámos, antes, a caminho do Sardoal e subimos a Entrevinhas, com uns cénicos moinhos e vinhas a caminho, claro. Num ponto alto, este é um parque de merendas com miradouro e uma área de pinhal. Recentemente foi aqui instalado um mega-baloiço, decoração da moda.

E depois desviámos, enfim, para a Aldeia do Mato para o mergulho de fim de tarde. Impressionou o fogo que rondava por perto, a pouca distância. E mais impressionou ver os sucessivos aviões canadair a ir buscar água à barragem de Castelo de Bode em voos rasantes aos veraneantes. Ou seja, a ideia de relaxar dentro de água ao final de mais uma quente jornada saiu furada, sem piada pela triste companhia.

O Sardoal é o início do Ribatejo, a transição da Beira Baixa para o Alentejo. É uma vila onde já se percebem muitas características desta última região, com as casas brancas com listas amarelas. E é bem bonita. As ruas e as casas estão decoradas com flores, ambas bem conservadas. Na praça principal, cuja requalificação esteve a cargo do arquitecto Raul Lino, em 1934, encontramos um painel em azulejo com a figura de Gil Vicente, em homenagem à sua ligação ao Sardoal por citar a vila em três das suas obras. E o final do dia, com as cores a condizer, chegou no largo do Convento da Caridade, simpático na sua arquitectura simples, mais uma vez em cor branca e amarelo.

No Sardoal, terminamos o dia com mais uma leitura de Torga: “Na sua planura fofa e ubérrima, na melodia dos seus chocalhos e na harmonia da sua cor, o Ribatejo é um grito de felicidade incontida no corpo da nação. É uma faixa escarlate e briosa à cinta de Portugal.” – Miguel Torga, in O Ribatejo

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