Trilho do Vinho do Porto – 3° desvio à EN2

“Conheciam o Douro palmo a palmo, a íngreme dureza das suas encostas, o peso dos seus cestos vindimos, a luz mortiça dos seus lagares.” – Miguel Torga, in Vindima.

Não nos cansamos do Douro e insistimos em passear ao seu redor.

Perto de Lamego fica a aldeia de Samodães, sobranceira ao rio, onde tem início (e fim) o Trilho do Vinho do Porto, mais 8 kms fantásticos por esta inesquecível região. Esta caminhada circular não é inteiramente fácil, pois embora a primeira parte seja toda a descer tendo depois uma recta plana ao longo do rio, os seus últimos 2 kms são sempre a subir, num total de cerca de 2h 30m a dar à sola.

Descemos desde a igreja de Samodães sempre com o Douro na mira. Baixamos por entre caminhos protegidos por muros de xisto com vinhas logo ao lado. E fazê-mo-lo atravessando povoações, daquelas com meia dúzia de casas.

Já descemos bastante e olhamos para cima, confirmando que deixámos Samodães bem no alto. Lá em baixo corre o rio Douro, encaixado no vale, enquanto as encostas estão quase todas ocupadas por vinha. As linhas que a plantação das vinhas formam são uma beleza e todas diferentes. Não nos cruzamos com ninguém e começamos a chegar ao fundo do vale, rodeados de montes a enquadrar o Douro a toda a volta. Incluindo a Serra do Marão, imponente lá ao longe. Como escreveu Torga no seu “Reino Maravilhoso”, “Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas”.

É um cenário grandioso e sereno ao mesmo tempo, onde apenas o cacarejar das galinhas e o latido insistente dos cães vai ecoando. Aqui é-se feliz e nem a sensação de que à nossa passagem uma cobra se esgueira para dentro das vinhas nos perturba. Afinal, elas têm mais medo de nós do que nós delas.

O Douro já está quase à nossa beira e seguimos os últimos metros da descida pela estrada. Já a tínhamos avistado de cima, mas agora passamos mesmo ao lado do Six Senses, o hotel de luxo instalado na antiga Quinta do Vale Abraão que Agustina nos deu a ler e Manuel de Oliveira a ver.

Daqui abeiramos o Douro e seguimos durante cerca de 1,5 km sempre com ele ao nosso lado. Este rio é carismático e não nos cansamos de mirá-lo, ainda para mais sendo ele dono de reflexos incríveis que teima em oferecer-nos. Só um lamento: porque é tão difícil encontrar um lugar para nele mergulhar em segurança?

E chegou, enfim, o momento da grande subida. Grande em todos os sentidos. Extenuante fisicamente mas épica nas vistas. Um aviso: é obrigatório subir uns passos e ir parando para olhar para trás. Nem é preciso a desculpa do descanso, é mesmo por esta ser a parte do percurso mais estupenda.

Aqui caminhamos bem junto à encosta carregada de vinhas. Tão perto que percebemos um rapaz a trabalhar o terreno com o seu veículo empoleirado nos socalcos. Socalcos esses que o Homem há séculos teve a arte e o engenho de criar com poucos meios, cavando o terreno xistoso, assim transformando e moldando a paisagem da região do Douro a custo para que esta se tornasse a maravilha que os nossos sentidos hoje testemunham.

À medida que vamos subindo a paisagem vai ficando ainda mais bruta, socalcos, vinha e rio num cenário de montes a perder de vista. Um portão para o imenso convida-nos a espreitar os “íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza”, novamente nas palavras de Torga.

Com a respiração arfante e já quase com a igreja de Samodães à vista, espaço ainda para perceber um pássaro incrível, castanho com listas brancas e pretas e com uma crista irreal. Seguimos o poupa (é este o nome desta ave) durante uns metros pensando que companheiros lindos tem este Douro. Pode ser uma sorte, a dele, mas é seguramente também a nossa.

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