Por Santiago do Cacém

Santiago do Cacém está para lá do Tejo e para lá do Sado, Alentejo ainda Setúbal. Tão próximo de Lisboa em linha recta que custava a acreditar que nunca tivesse por lá andado. A auto-estrada fica-se por Grândola e, seguindo a última trintena de quilómetros pela Serra de Grândola, percebe-se como o tão perto pode ser tão longe.

Em curva contra curva, a uma média de menos de um quilómetro por minuto, assistimos ao desfilar de um Alentejo pouco (re)conhecido, feito de muitas e verdejantes elevações. A mesma imagem que podemos testemunhar um pouco mais a sul, ao adentrar pela Serra do Cercal. Alguns vales quebram o rebolar da paisagem, um monte aqui e outro monte ali, muitos deles abandonados. Não chego a perceber a quem servirão tantas paragens de autocarro, mas aprecio a arquitectura simples de cada uma delas.

As vacas pastam à beira da estrada estreita, um asfalto que remedeia o esquecimento. Idem para as diversas barragens. A Barragem de Campilhas, obra do Estado Novo no âmbito do plano de rega do Alentejo, é uma imagem de pura pacatez rural onde o isolamento e remotidão não são meros tópicos, antes sensações evidentes. Não se pode dizer que o Homem abandonou estas terras, não, ainda não. Mas diante desta paisagem bela (e aqui vem à memória o porquê do topónimo Abela, mesmo se a bela possa ter sido a Nossa Senhora da Conceição que aí terá aparecido), onde com um sorriso somos obrigados a aguardar longos minutos na estrada pela passagem de um rebanho, sentimos que estamos longe do nosso habitat urbano não em distância espacial mas antes em distância temporal.

Bem mais distante ainda está a prova de que a região de Santiago do Cacém é desde há muito habitada, possivelmente desde a Pré-História. As Ruínas Romanas de Miróbriga são um dos sítios arqueológicos mais fantásticos do nosso país. A sua implantação é qualquer coisa de inspirador e aqui voltamos à paisagem alentejana que sabe não ser feita só de planícies. Habitada desde o período da Idade do Ferro, povos de origem céltica escolheram edificar o seu povoado na colina que agora visitamos – daí o topónimo “briga”, de significado povoado fortificado num ponto alto. Porém, no século II a.C. a povoação acabou romanizada e progressivamente foram sendo construídas as infra-estruturas que ainda hoje distinguimos na perfeição.

Saídos do Centro de Acolhimento e Interpretação da estação arqueológica (pequeno espaço museológico que faz o enquadramento histórico e apresenta alguns artefactos, o qual deixámos para visitar após a deambulação pelo espaço exterior das ruínas), visitamos o espaço sobranceiro da Ermida de São Brás (posterior, provavelmente quinhentista) e seguimos pela calçada romana até ao que era conhecido como o Forum.

Este era o centro político-administrativo e religioso, instalado na zona mais elevada do complexo. Esta praça pública estava construída em patamares, de forma a dar-lhe um aspecto monumental. Diante do templo dedicado ao culto imperial, claramente inspirado no púlpito de um teatro e hoje belamente enquadrado por uns pinheiros nas suas costas, percebemos que 20 séculos depois essa monumentalidade está ainda presente. Não são apenas pedras, e não é necessário ser-se apreciador de ruínas para nos deixarmos tomar pelo poder do lugar.

Chegou a pensar-se que Miróbriga seria apenas um santuário rural, mas terá sido mais do que isso, na verdade um aglomerado urbano. Senão, vejamos: imediatamente abaixo do Forum surgem as ruínas da zona comercial e, depois, as habitações. Mais abaixo ainda, nova surpresa: as Termas. À sua aproximação vemos claramente o engenho romano no aproveitamento do declive natural do terreno, encaixando as Termas, infra-estrutura que não pode faltar nas suas cidades, sobre um canal de água. Descemos e rodeamos as Termas, percebendo resquícios do sistema de escoamento de águas e suas caleiras, e voltamos pela Ponte Romana de um só arco que ainda resiste robusta para nos dar passagem. Nesta povoação havia ainda lugar para um hipódromo, a cerca de 1000 metros do núcleo visitável e cujo largo espaço temos de deixar à imaginação quando o vemos da estrada que segue até à entrada da Estação Arqueológica.

Há quem palpite que a implantação de Miróbriga neste lugar possa ter ficado a dever-se às minas de ferro que existiam por perto, em Grândola e no Cercal. E que talvez a água do mar viesse até às encostas de Miróbriga ou permitisse de alguma forma um canal navegável. Com assoreamento ou não, o certo é que Miróbriga manteve-se pujante até ao século III, mas no século seguinte entraria em decadência até ser gradualmente abandonada. Foi pilhada e a pedra das suas construções acabou por servir para construir as estruturas medievais daquela que é hoje a urbe de Santiago do Cacém, nomeadamente o seu castelo mouro. A cidade inicial instalada no cerro de Miróbriga transferiu-se, assim, para o Cerromaior, o apodo dado por Manuel da Fonseca à sua terra natal e título do seu primeiro romance.

A colina do Cerromaior – “cercado de cerros este é o mais alto” -, avista-se na perfeição à saída da antiga cidade celto-romana.

Em 1927 ainda não havia “Cerromaior” e para Raul Proença (responsável e co-autor do Guia de Portugal – Estremadura, Alentejo e Algarve) parecia também ainda não haver Miróbriga – mas havia já Milreu (Faro) e Ammaia (Marvão), o que me faz concluir que a “distância” e o esquecimento da região não são de hoje. Ainda assim, Raul Proença passou por Santiago do Cacém e considerou-a “um oásis encantador de arvoredo e de frescura”, “uma quebra na triste e monótona região entre o Tejo e o Sado” e “a terra mais simpática, afável e acolhedora de toda a Extremadura transtagana”. Não é exagero.

Conquistada definitivamente aos mouros no reinado de D. Afonso II, em 1217, a ajuda dos Cavaleiros de Santiago foi decisiva. O nome “Santiago do Cacém” acaba por ser uma mescla das influências por que a povoação passou, “Santiago” pela ordem que a conquistou e “Kassem” pelo alcaide mouro que a terá governado. Ou seria Santiago, o “mata-mouros”, e “cacens” a designação para todos os mouros? Pode especular-se, mas na Igreja Matriz, levantada junto ao Castelo pela Ordem de Santiago no século XIII e reconstruída diversas vezes desde aí, podemos ver o painel escultórico com o mata mouros em acção.

Começámos o passeio pela cidade precisamente por aqui, pelo alto da sua colina onde está instalado o Castelo. Provável construção moura do século VIII, mantém-se firme o seu longo pano de muralha, interrompido por sucessivas torres e cubelos e protegido por barbacã. Subimos à muralha e pelo caminho de ronda percorremo-la na quase totalidade, sempre testemunhando vistas largas para os cerros verdejantes ao redor e para a povoação logo abaixo. Tivesse-nos tocado um dia mais soalheiro e avistaríamos o Atlântico. Uma das curiosidades do Castelo de Santiago do Cacém é o seu interior, inteiramente ocupado pelo cemitério municipal.

Contíguo ao Castelo fica a Tapada dos Condes de Avillez, um espaço verde de lazer pontuado por construções arquitectónicas ideais para ajudar à evasão. Do lado de fora do muro chegamos a perceber parte da capela rosa rodeada pelo verde da vegetação, mas infelizmente a Tapada estava fechada por altura da nossa visita. Esta era parte do Palácio dos Condes de Avillez, uma das muitas casas de nobres que pelo século XIX foram construídas em Santiago. Descemos a colina, por onde se vai espraiando o centro histórico da cidade, e havemos de passar por mais edifícios distintos, como o Palácio da Carreira. No Largo do Pelourinho encontramos um conjunto com alguma monumentalidade dadas pelo edifício dos antigos Paços do Concelho e pelo antigo Hospital e Igreja da Misericórdia, com o seu pórtico lateral manuelino debaixo do arco que parece querer suster a estreita rua.

Mas a piada, como em quase todas as cidades e vilas alentejanas, está em caminhar pelas ruas, procurando apreciar detalhes nas suas casas à medida que vamos coleccionado cores.

Despedimo-nos de Santiago admirando-a desde um outro cerro vizinho, o Cerro da Inês, miradouro natural e lugar de uma torre que correspondia a um antigo reservatório. Os cerros e a vegetação continuam a dominar a paisagem.

Nesta jornada já passámos pela serra e por planícies e agora vamos do interior para o litoral. Não parámos no Badoca Safari Park, parque temático onde se podem ver diversas espécies de animais selvagens num ambiente natural, e passámos rápido por Vila Nova de Santo André, a hoje cidade que nos anos 1960 foi rasgada e traçada a régua e esquadro na areia e no pinhal, à boleia dos projectos da vizinha Sines – ou, como a apodou Henrique Raposo, “a nossa pequena Brasília”. A grande atracção do litoral do concelho de Santiago é outra: a Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha.

São cerca de 15 quilómetros de praias de areia branca (apenas um pequeno troço do longo areal que vai de Tróia a Sines) a que se juntam a dado momento lagoas à beira mar protegidas por um cordão dunar. É um habitat natural onde impera a diversidade ambiental ao nível de espécies de peixes e aves migratórias, mas também do coberto vegetal. O tempo de chuva não convidava a passeios (nem a fotos), mas na lembrança iam as reportagens da televisão que todos os anos pelo início da Primavera nos dão a ver a festa da abertura da Lagoa de Santo André ao mar. Com muitos populares como testemunhas, uma retroescavadora entra com a missão de ir furando a areia até formar um pequeno canal por onde a água da lagoa rompe e vai alargando o caminho até se juntar à água do mar. Esta tradição mais não é do que um passo essencial para a renovação do sistema lagunar, limpando as águas e permitindo a entrada de diversas espécies de peixes – daí também a sua importância para a comunidade piscatória.

Caso não esteja bom para um mergulho no mar, temos sempre a floresta e passeios pedestres pela Reserva. Na Herdade do Monte do Paio fica o Centro Nacional de Educação Ambiental e Conservação da Natureza, a recepção aos visitantes. A água da Lagoa de Santo André vem até aqui, cerca de dois / três quilómetros para lá da costa Atlântica. Este é talvez o último vestígio da chegada do mar até mais adentro, o mesmo mar que se avista do Cerromaior.

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