Por Sines

A costa alentejana é quase toda ela fechada ao mar, com escassas reentrâncias onde os barcos possam aportar. Uma verdadeira muralha, como lhe chegou a chamar José Hermano Saraiva. Até à decisão de construção do grande projecto portuário e industrial do Porto Atlântico, Sines não haveria de ser muito diferente da restante costa no que respeita àquela característica geográfica. À parte as suas águas profundas, vendo fotografias antigas tudo mudou. A povoação instalada em cima da arriba viu a baía abrir-se ainda mais ao mar, dois enormes pontões foram acrescentados e uma generosa língua de areia passou a proporcionar momentos de veraneio diante uma água sempre plácida.

O maior porto artificial de Portugal foi construído na década de 1970 e trouxe muitas esperanças de que pudesse servir de alavanca não apenas para a encomia local, mas para a de todo o país. Uma cidade, Vila Nova de Santo André, foi construída a reboque do complexo industrial. Muito falta fazer – ou não se fará mais, dando plena e definitiva razão àqueles que o consideram um projecto falhado.

O certo é que a cidade de Sines está bonita, requalificada urbanisticamente e é senhora de equipamentos e eventos culturais distintos e reconhecidos em todo o país. O topónimo Sines vem de “sinus”, sinónimo de golfo, e o mar é dominante, não surpreendendo assim que esta seja a terra natal de Vasco da Gama. Então terra de pescadores, não foi daqui, no entanto, que o navegador partiu à descoberta do caminho marítimo para a Índia. Mas foi aqui que nasceu, talvez no Castelo de Sines (onde o seu pai, Estêvão da Gama, era alcaide) ou numa casa ali perto. A sua memória perdura e hoje aqui o vemos com pose imponente em forma de estátua, virado ao Atlântico que se aventurou a percorrer.

O Castelo, construído no século XV, fica no alto da arriba, proporcionando vistas fantásticas desde a muralha. A Praia Vasco da Gama fica logo abaixo, com os seus dois pontões (um correspondente ao Porto de Pesca e outro ao Porto de Recreio) a protegerem a baía e fazendo dela quase uma concha. É no interior do Castelo, que acolhe um espaço museológico e tem um terreiro bem cuidado, que todos os anos decorre o Festival Músicas do Mundo.

O centro histórico de Sines estende-se do Castelo ao Forte do Revelim, estrutura defensiva construída no século XVI para defesa da costa face aos ataques dos corsários. Perto deste Forte e acima da Doca encontramos um dos marcos arquitectónicos da cidade, a Capela de Nossa Senhora das Salas. Construída no século XIII, mas reedificada de raiz por Vasco da Gama em estilo manuelino, a designação “Salas” é uma derivação de “salgas”, uma alusão à indústria local com origem na época romana.

Mas é ao redor do Castelo que o antigo casco urbano se desenvolve. Percorrendo as ruas estreitas entramos no tradicional jogo das cores das povoações alentejanas, mas aqui ficamos na dúvida se é o azul ou o amarelo a cor dominante. Mas logo uma fachada nos recorda outra tradição, a dos centros históricos das povoações portuguesas com edifícios desocupados, mas valha que aqui saudavelmente tomada pela arte urbana.

Pouco mais adiante, a marcar ora a entrada no centro histórico ora a saída para a cidade moderna, eis que surge um edifício contemporâneo feito de enormes blocos de pedra lioz. É o Centro de Artes de Sines, projecto de 2005 dos arquitectos Manuel e Francisco Aires Mateus. Obra de uma qualidade incrível, distinguida internacionalmente, para além da sua função cultural e educativa veio trazer dinâmica arquitectónica à urbe tardo-medieval. Ligando a cidade ao mar, a sua forma faz lembrar as muralhas do castelo. E, em especial num dia de chuva como o que nos tocou na visita a Sines, a imagem dos reflexos do rosa da pedra lioz na ruela entre blocos é incrível.

Ainda no que respeita à arte urbana, um graffiti junto ao Centro de Artes recorda-nos Al Berto, poeta que passou a infância em Sines e aonde voltava sempre em idade adulta.

É com “Salsugem” em mente que partimos, então, à descoberta das praias do concelho, um dos seus maiores atractivos. Começamos em São Torpes, porta de entrada do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Do centro da cidade já tínhamos notado (como não?) as inúmeras estruturas industriais que marcam de forma incaracterística e grave a paisagem, mas é em São Torpes que ela é mais evidente. As duas imensas chaminés da Central Termoeléctrica de Sines são as suas “Torres Gémeas”, aterradoramente belas sob o céu zangado.

A Praia de São Torpes tem pelo menos um restaurante fantástico (Trinca Espinhas), é frequentada por surfistas e, cortesia da Central, é aquela que possui as águas mais quentes do nosso país. Não é a mais bonita, mas pouco depois, a caminho de Porto Covo por uma das estradas costeiras mais bonitas de Portugal, hão de desfilar praias de uma beleza preciosa e, neste quesito, a da Samoqueira é a rainha.

Porto Covo é um lugar idealizado pelo menos desde o 1986, quando Rui Veloso cantou a tocante música com letra que o seu parceiro Carlos Tê escreveu. Quem nunca desejou cantar “Roendo uma laranja na falésia / Olhando o mundo azul à minha frente / Ouvindo um rouxinol na redondeza / No calmo improviso do poente / la, la, la / Havia um pessegueiro na ilha / Plantado por um Vizir de Odemira / Que dizem que por amor se matou novo / Aqui, no lugar de Porto Côvo” precisamente em Porto Covo e com vista para a ilha do Pessegueiro? Uma enorme emoção.

A par de Sines, Porto Covo constitui a outra freguesia do concelho. Povoação pequena e pitoresca, o Largo Marquês de Pombal é o seu coração e como tal as suas casinhas estão perfeitamente cuidadas com a delicadeza que se esperava. Daqui saem duas ruas rectas paralelas a caminho do mar, entrecruzando-se com umas quantas ruas que lhes são perpendiculares, um traçado construído no final do século XVIII sob inspiração do urbanismo pombalino da Baixa de Lisboa pós Grande Terramoto. Foi nessa época que a povoação foi criada, pensando-se então que aqui pudesse ser instalado um grande porto de pesca. Mas não foi aqui, também, que se conseguiu vencer o difícil acesso à costa extremamente recortada.

O actual porto é pequeno, ocupando a pequena angra onde a pequena ribeira desagua. Não nos deixemos enganar com tanta falsa pequenez: a língua de água que aqui se forma, rompendo terra adentro, é um feliz presente da Natureza, conferindo uma grandeza especial à paisagem.

Atravessada a estreita areia e subindo a falésia do lado contrário, já se vê a ilha do Pessegueiro, a “ilhota negra”, como a descreveu Raul Proença. Crê-se que os cartagineses andaram por aqui, mas foram os romanos que instalaram na ilha um centro de salga de peixe. No final do século XVI, no tempo do domínio filipino em Portugal, foi construído o Forte de Santo Alberto na ilha (hoje em ruínas) e o Forte de Nossa Senhora da Queimada no continente, um diante do outro, de forma a proteger a costa de piratas e corsários. Nessa época planeou-se uma ligação artificial entre ambas as margens, mas para se chegar à ilha só de barco ou a nadar, numa distância menor do que a superfície da própria ilha – cercada por dezenas de pequenas rochas que não chegam a ser ilhotas, a ilha tem apenas cerca de 340m de comprimento por 325m de largura.

Ainda com a música de Rui Veloso na cabeça, sentimos o poder do lugar. Não é preciso pisar a ilha para conferir se há por lá algum pessegueiro para perceber o seu encanto (na verdade, o seu nome deriva das palavras piscatório ou piscário). Basta vê-la da estrada para por ela nos deixarmos arrebatar irremediavelmente.

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