Alijó

O concelho de Alijó não é todo ele parte integrante do Vale do Tua. Na verdade, o seu lugar mais conhecido e reconhecido está mais a ocidente e é a vila do Pinhão, à beira do Douro, famosa pelas paisagens incríveis das colinas que galgam o rio e dos socalcos de vinhas que as ocupam, bem como pela sua bela estação ferroviária decorada com azulejos com cenas da vida duriense. O concelho é como se estivéssemos em dois territórios diferentes, um de terras de montanha, dominado pela presença de cereais, gado e floresta, e outro correspondente ao vale do Douro, com o domínio da cultura da vinha. Favaios é mais Douro do que Tua e consegue reunir estas duas características; por aqui iniciaremos este passeio pelo concelho.

A estrada que liga o Pinhão a Favaios (e Alijó) é pura beleza, subindo-se até se ir deixando o enorme cenário do rio Douro nas costas e o do rio Pinhão mesmo ao nosso lado esquerdo.

Favaios está situada num planalto acima da povoação do Pinhão e faz parte da Rota das Aldeia Vinhateiras do Douro (sendo, na verdade, uma vila). A paisagem circundante, e que chega a invadir mesmo o centro da povoação, é preenchida de vinhas, um manto que vai variando de cor conforme a época do ano. Mas não é de vinho do Porto de que se trata. A especificidade geográfica de Favaios permite que aqui haja espaço para a cultura de um outro vinho, o Moscatel – tanto assim é que Favaios e Moscatel confundem-se e são sinónimo um do outro. O Moscatel é um vinho licoroso doce e aromático que é produzido a partir de uma única casta que se desenvolve em terrenos acima dos 500 metros de altitude, altitude essa que já não favorece o vinho do Porto. Para além disso, os terrenos são aqui mais planos e com declives mais suaves e o clima mais fresco em decorrência dos nevoeiros e orvalhos matinais. Foi muito à conta do Moscatel que Favaios se desenvolveu, sobretudo desde o século XVIII, tendo transformado não apenas a paisagem, como também a arquitectura da povoação e contribuído para o aumento da sua povoação. Favaios ganhou foral em 1211 e foi couto da Casa dos Távoras, tendo chegado a ser sede de concelho. Com arquitectura típica duriense, os edifícios são maioritariamente em granito, alguns solares com brasão, o que confirma a nobreza da sua gente.

Um dos edifícios mais distintos é o da chamada “Casa da Obra”, antigo solar barroco hoje reconvertido em Museu do Pão e do Vinho, parte da Rede de Museus do Douro. Aqui se viaja pela cultura local, interpretando e divulgando as tradições, saberes e artefactos relacionados com o pão e o vinho Moscatel de Favaios. Sim, o pão, estes terrenos não são apenas bons para o vinho, também são férteis para os cereais, em especial o trigo. Fabricado exclusivamente com farinha de trigo, o pão de trigo de Favaios é cozido em forno de lenha e tem a singular forma de 4 cantos, havendo mesmo na vila uma série de padarias artesanais onde o podemos provar.

Alijó, a sede de concelho, é uma simpática povoação que nos recebe com o Monumento ao Homem do Douro, uma escultura que presta homenagem àqueles que fazem da sua vida a vinha e as vindimas. O coração da vila é o bonito conjunto composto pelos paços do concelho, pelourinho, fonte e igreja.

Seguindo em direcção ao rio Tua, São Mamede de Ribatua, a ele sobranceiro, está empoleirada numa encosta de um dos montes que tornam a paisagem do Vale do Tua um assombro de beleza. A mais de 400 metros de altitude, esta povoação é ainda mais antiga do que Favaios, tendo-lhe sido concedido foral ainda na época do Condado Portucalense, anterior, pois, à fundação da nacionalidade. É conhecida pelo seu vinho, azeite, cortiça e até laranja. E é aqui que encontramos a Porta de Alijó do Parque Regional Natural do Vale do Tua, instalada na antiga escola primária de São Mamede de Ribatua.

Depois de um agradável deambular pela aldeia, damos uma olhada à ponte romana sobre a Ribeira de São Mamede, rodeada de terras de cultivo, e seguimos em direcção ao Miradouro do Ujo, na estrada a caminho de Safres.

Inaugurado em 2019, rapidamente se tornou uma estrela do Instagram. A plataforma em ferro suspensa no ar como que nos faz planar sobre o Tua, ao mesmo tempo que nos deixa diante uma paisagem de cortar a respiração. São as chamadas Fragas Más que dominam o cenário, um daqueles que há décadas foi descrito no volume dedicado a Trás-os-Montes do Guia de Portugal sob um dilema: entre a tentação do turista moderno para o fotografar e a do viandante de tipo antiquado para o desenhar, a nossa ansiedade perante a paisagem dos “fraguedos dantescos” devia antes dizer-nos “em silêncio, com terrível e irónica seriedade: deixe-se de loucuras. Limite-se a olhar e siga.”. Claro que, ainda turistas modernos, não o resistimos a fotografar, mas o tempo fechado não nos deixou perpetuar em imagem digital toda a pujança da paisagem, ficando melhor guardada na memória toda a sua potencialidade em dias mais luminosos. Lembremos que esta paisagem mudou muito em anos recentes, com a inauguração da Barragem de Foz Tua, poucos quilómetros adiante, tendo ficado mais larga a passagem do rio que já não rasga tão apertado por entre as fragas.

Mais havia a visitar no concelho de Alijó. Região de ocupação humana ancestral, onde se encontram testemunhos da vida castreja e dolménica, o Abrigo Pré-Histórico de Pala Pinta é um dos exemplos, mas não fazia ideia de como lá chegar, pelo que não o visitei. Quanto às Caldas de Carlão, termas antigas à beira do Rio Tinhela (na fronteira dos concelhos de Alijó e Murça), apenas as espreitei e confirmei a sua tranquilidade. Já o topo do Monte da Senhora da Cunha, evitei-o com medo do tempo fechado e negro. Melhores dias virão.

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