Zaha Hadid

Dizer que admirava a arquitectura de Zaha Hadid é pouco. 

Talvez se recordar que numa viagem a Hong Kong planeei previamente uma escapada de um dia até Guangzhou, à distância de um visto de entrada na China e de duas horas de comboio, a admiração seja melhor classificada como fascínio.

Antes de Dezembro de 2012, apenas através de fotografias conhecia o trabalho da primeira mulher arquitecta a receber o Pritzker (em 2004), com excepção do Parque Aquático desenhado para os Jogos Olímpicos de Londres, mas mesmo esse, na altura que pude olhar para a sua fachada, estava muito modificado / adaptado para a ocasião do mega evento desportivo.

A visita à Ópera House de Guangzhou, edificio inaugurado em 2010 foi o meu primeiro verdadeiro encontro com a iraquiana tornada britânica. O seu trabalho nem sempre foi unânime entre os seus pares, que colocaram em causa a funcionalidade das suas obras, mas a espectacularidade das linhas que criou e que acreditou serem possíveis de executar e tornar realidade cativam os sentidos de muitos outros. Em Guangzhou as formas do seu edifico em concreto e vidro são fantásticas. Parece quase uma nave espacial, pronta a levantar voo.


Curiosamente, também de 2010 é o outro projecto de Zaha Hadid por mim visitado: o Maxxi, em Roma. As formas estrambólicas e futuristicas estão uma vez mais presentes. Curvas e mais curvas para nos encantarmos, jogos de pilares e de espelhos na cidade eterna oferecidos por uma arquitecta que não nos abandonará enquanto pudermos visitar as suas obras. 

Potzdamer Platz – O Renascer do Centro Antigo

Nas Asas do Desejo (Wings of Desire), filme de Wim Wenders, vemos um grande baldio junto ao Muro de Berlim. É a Potsdamer Platz. Melhor, era a Potsdamer Platz dos anos 80, altura em que foi rodado o filme. Melhor ainda, foi a Potsdamer Platz do período entre a 2ª Guerra Mundial e os anos 90 do século XX.
 
 
Outrora, até à 2ª Guerra Mundial, esta parte da cidade foi uma área histórica cheia de vitalidade. Correspondia ao centro de Berlim e era ali que se concentrava o comércio e entretenimento. 
Com a 2ª Guerra Mundial, Berlim foi fortemente bombardeada e a Potsdamer Platz foi destruída em 80%. 
A partir de 1961, com a construção do Muro de Berlim, em que um troço passava mesmo ali, e durante 28 anos, até à sua queda, tornou-se ainda mais uma área abandonada e esquecida, por se localizar na faixa “morta” ou terra de ninguém entre Berlim Ocidental e Oriental.
Nos anos 90 iniciou-se a sua reconstrução (em 1998, quando visitei pela primeira vez Berlim, esta área estava um verdadeiro estaleiro), que culminou, no início do segundo milénio, com o aparecimento de uma nova paisagem urbana pós-moderna. Inclusivamente, a Potsdamer Platz, passou a ser a área que melhor reflecte a dinâmica da Berlim reunificada.
Este novo território congrega praças, escritórios, museus, cinemas, teatros, hotéis, apartamentos e concentra o talento de arquitectos como Renzo Piano, Rafael Moneo, Richard Rogers, Helmut Jahn, entre outros.
Foi neste território renascido, no restaurante Facil (2 estrelas Michelin), inserido no The Mandala Hotel, que tivemos recentemente o prazer de fazer uma óptima refeição com Meryl Streep. O hotel e restaurante estão inseridos numa das três secções da Potsdamer Platz, a DaimlerCity, que congrega hotéis, centros comerciais, entretenimento, nomeadamente a gala da Berlinale, que decorreu durante a nossa estadia, daí a presença da Meryl.
 
 
 
Nesta secção podemos encontrar também arte pública, designadamente esculturas de Keith Haring, Robert Rauschenberg e Mark Di Suvero.
 
‘Boxers’ de Keith Haring
 
“Galileo” de Mark Di Suvero
 
É no sector da DaimlerCity que fica o Grand-Hyatt Hotel da autoria de Rafael Moneo e o edifício de comércio, escritórios e habitação desenhado por Richard Rogers.
 
 
 
Na DaimlerCity fica ainda o número 1 da Potsdamer Platz, a Kollhoff Tower do arquitecto Hans Kollhoff.
 

 
Para além de ser a sede de inúmeros e prestigiados escritórios de advogados, alberga a Panoramapunkt, um miradouro a 100 metros de altura, de onde se tem óptimas vistas sobre a cidade. Para aí se aceder sobe-se no elevador mais rápido da Europa.
Ainda a repormos o equilíbrio perdido com a velocidade estonteante do elevador, avistamos do topo a Casa das Culturas do Mundo, de Hugh Stubbins, no Tiergarten. 
 
 
A cúpula do Sony Center e o edifício dourado da Filarmónica de Berlim.
 
 
O edifício da Deutschen Banh e o Reichtag.
 
 
O Memorial do Holocausto.
 
 
A Leipzig Platz.
 
 
A Berliner Ferbsehturm, ou Torre da Televisão, e a área da Alexander Platz e da Ilha dos Museus, com a cúpula da Catedral de Berlim.
 
 
À frente da Kollhoff Tower, fica uma réplica do semáforo mais antigo da Europa, que teve como primeira morada este local.
 
 
As outras secções da Potsdamer Platz são o Beisheim Center e o Sony Center.
 

 
À frente do Beisheim Center fica a entrada principal da estação de comboio Bahnhof Potsdamer Platz e alguns segmentos do Muro de Berlim.
 

 
 
Mais segmentos do Muro são possíveis de encontrar junto ao Sony Center e à Liepzig Platz.
 
 
A cúpula da praça central do Sony Center, desenhada por Helmut Jahn, é provavelmente o elemento mais icónico da Potsdamer Platz. Inspirada no Monte Fuji, é feita de vidro e aço e rompe céu acima, pelo que é visualmente muito forte.
 
 
 
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Na secção do Sony Center localiza-se também, entre outros elementos, o edifício dos escritórios da Deutsche Bahn.
 
 
 
Apesar do conjunto de constelações do mundo da arquitectura parece-me que este território não é tão extraordinário como poderia ser. Apesar de um espaço público de qualidade, a área não respira de tanta concentração e densidade de edifícios. Tirando um ou outro edifício, quase que é impossível apreciar as obras de arquitectura aqui instaladas. 
Contudo, não restam dúvidas que esta nova Potsdamer Platz voltou a dar muita vitalidade a esta área da cidade, que, tal como no passado, voltou a ser uma das centralidades de Berlim.

Museu Judaico

O Museu Judaico de Berlim, aberto em 2001, mostra na sua exposição permanente dois milénios de história judaico-alemã.
O Museu é composto por dois edifícios, um antigo, que alberga a área de recepção do museu, salas de exposições temporárias, a loja e o restaurante, e uma construção recente, onde se encontra a exposição permanente.
O edifício mais recente é uma obra de Daniel Libeskind, arquitecto de origem polaca e filho de judeus sobreviventes do holocausto. Trata-se de uma obra arquitectónica impressionante. Não só o exterior, mas sobretudo o interior, um espaço repleto de significados e simbolismos, onde a arquitectura recria atmosferas em ligação directa com a temática patente no museu.
Foi a história dos judeus na Alemanha, a perseguição e o holocausto que inspiraram Libeskind.
O edifício revestido em chapas de zinco expõe a dureza e rigidez do metal. Caracteriza-se por poucas aberturas para o exterior, sendo que as existentes constituem cortes estreitos em formatos diferentes. Essas aberturas representam a Estrela de David estilhaçada, isto é, Libeskind transformou o signo maior da cultura judaica num símbolo de fracturação e sentimento de revolta em relação à barbárie sofrida pelos judeus.
O edifício de Libeskind, apesar de só de uma perspectiva aérea se perceber, tem uma forma em ziguezague.
No interior após descermos as escadas que ligam o edifício antigo ao novo deparamo-nos com três eixos que se cruzam. Estes eixos correspondem a três momentos da história dos judeus na Alemanha: o “Eixo do Exílio”, o “Eixo do Holocausto” e o “Eixo da Continuidade”.
O “Eixo do Exílio” é um percurso inclinado, com paredes também inclinadas, que se vai estreitando e que tem expresso nas paredes as várias cidades do mundo que serviram de exílio aos judeus. Esse eixo culmina numa porta pesada que conduz ao “Jardim do Exílio”, que é um jardim externo caracterizado por um espaço inclinado, composto por 49 blocos de cimento ponteados no topo por árvores Elaeagnus, as quais pretendem representar as oliveiras, as quais por causa do frio não podem ser cultivadas na Alemanha.
Nesse espaço não é possível ver o que se passa ao redor, apenas sentir os barulhos e  movimentos da rua. No conjunto o espaço procura provocar instabilidade e desorientação, sentimentos que os judeus sentiram com a expulsão. As árvores no topo dos blocos aumentam a sensação de um espaço inatingível, mas simultaneamente deixam alguma esperança, até porque segundo a tradição judaica as oliveiras simbolizam paz e esperança.
O número 49 homenageia o ano de fundação de Israel, 1948, que somado ao último pilar do meio, que representa Berlim, totaliza aquele número.
O “Eixo do Holocausto” é um caminho que também se vai tornando cada vez mais estreito, acentuado, escuro e conduz igualmente a uma pesada porta, onde do outro lado está a “Torre do Holocausto”. Trata-se de um espaço com cerca de 20 metros de altura, fechado, vazio, frio, escuro, com apenas uma pequena abertura no tecto por onde entra uma ténue fresta de luz. Quando a porta se fecha fica a sensação de solidão, desconforto, medo e abandono, sentimentos representativos da existência dos judeus na vida e na história de Berlim.

 

O recurso a corredores estreitos, entre paredes cegas, no “Eixo do Exílio” e no “Eixo do Holocausto” pretende transmitir a sensação de repressão e opressão sofrida pelos judeus. Por outro lado, a força contida nas paredes transmite a ausência de liberdade de seguir outro caminho e a incógnita do futuro.
Ao longo destes dois Eixos cruzamo-nos com elementos expositivos que contam a história de quem foi tanto para o exílio como para campos de concentração.
O “Eixo da Continuidade” começa como os outros dois, mas é mais longo e na parte final transforma-se completamente, pois o tecto torna-se muito alto e desemboca numa escadaria enorme, que à medida que o visitante a sobe apercebe-se das vigas de betão que se cruzam. Este eixo simboliza a continuação da história e o caminho da superação dos outros eixos, mas com consequências, feridas e cicatrizes, expressas pelas diversas vigas que rasgam de forma assimétrica.
A escadaria conduz à exposição permanente e a uma das instalações com mais impacto no museu.
No interior do museu existem cinco corredores lineares, que são chamados de voids (vazios) pois são marcados pela ausência e ladeados de paredes despidas. Estes vazios são uma analogia aos vazios criados pela destruição da vida dos judeus na Europa, onde muitos sucumbiram no holocausto.
Num desses vazios, o único acessível, chamado “Memory Void”, situa-se a instalação “Shalekhet” (“Folhas Caídas”) do artista israelita Menashe Kadishman. Trata-se de um chão coberto por 10 mil rostos de metal, todos diferentes, que quando pisados por quem percorre este espaço chocam uns contra os outros e provocam um barulho sinistro que se propaga pelo espaço. Pisar os rostos é angustiante e coloca-nos também como parte responsável pelas atrocidades provocadas pela sociedade.

 

Nesta obra o artista procurou homenagear não só os judeus mas todas as pessoas que já sofreram por causa da violência.
No piso de cima, a área de exposição permanente apresenta um formato tradicional e o edifício deixa de ser o protagonista. Esta área é vasta e apresenta a vida dos judeus na Alemanha desde  tempos remotos à actualidade, bem como a sua contribuição intelectual, económica e cultural. Cartas, fotografias, documentos variados, vídeos, dispositivos interactivos, peças de roupa, mobiliário, tudo serve para transmitir as tradições e cultura judaica.
No conjunto, edifício e exposição, é oferecido uma sucessão de sensações que oscilam entre a opressão, desconforto e desconcerto. Contudo, é sobretudo o edifício, pela experiência sensorial que permite, a obra mais significativa do Museu.