Giro In Macchina In Sicília Occidentale

Sicília é riquíssima em sítios arqueológicos. O objectivo era escolher um. Entre os vários, tivemos dúvidas entre qual escolher, mas o nosso itinerário acabou por desempatar e escolhemos Selinunte.


Não nos arrependemos. Nem um pouco. É impressionante e cativante. É um pouco da Grécia em Itália. De facto, em tempos, foi a colónia grega mais a ocidente e contemplava mais de 100 000 habitantes e templos importantes.

Hoje sobrevivem algumas ruínas espantosas desses templos, cuja beleza é acentuada pela maravilhosa localização, com o mar como vizinho.

Junto à imensidão das colunas e do mar, que se esprai logo ali, percebemos quão pequenos somos e, simultaneamente, como imensos somos para, em tempos longínquos, projectarmos obras daquela magnitude.

Seguindo a costa Sul para oeste, cruzamo-nos com a Tunísia. Não, não atravessámos o mar para o continente africano. Permanecemos na ilha, em Itália.


O ponto é que Mazara del Vallo, por estar mais próxima da costa africana do que da ponta nascente da Sicília, apresenta muitas influências urbanas e culturais do vizinho continente. O centro histórico é o kasbah, coração desta cidade de origem sarracena. Apresenta-se labiríntico e polvilhado de magníficos edifícios barrocos e Normanos.



Ao mesmo tempo que a nossa vista alcança uma igreja, logo de seguida, surpreendentemente, vislumbramos uma mesquita, enquanto isso sentimos aromas do norte de África. 

Percebemos o porquê quando nos sentamos à mesa para nos deliciarmos com um maravilhoso couscous de peixe, a comida típica local, um chá e doces árabes.

A mistura de influências seduz e emociona. Assim como nos faz pensar na quantidade de dimensões e camadas inerentes a uma identidade e como são ridículas as xenofobias e intolerâncias, infelizmente, cada vez mais exacerbadas.
As influências árabes continuam a fazer-se sentir no presente, já que a cidade, um importante porto, acolhe muitos habitantes tunisinos e do Magreb, vizinhos do outro lado do Mar Mediterrâneo.

Enquanto deambulamos pelas sinuosas ruas do kasbah, vamo-nos cruzando com diversos azulejos pintados à mão, os quais decoram as paredes dos edifícios.


Na praça central, a Piazza della Reppublica, concentram-se diversos edifícios elegantes e monumentais, como a Catedral, o Palazzo e o Seminário Vescovile .


Prosseguimos a nossa viagem e paramos em Marsala, terra do vinho doce homónimo. Charmosa e elegante são dois adjectivos que lhe acentam bem.


No seu pequeno centro histórico impressiona a elegante pavimentação, caldeiras e sistema de drenagem em mármore. Assim como a graciosidade das praças e dos edifícios barrocos.

Ainda na costa oeste, em direcção a norte, entre Marsala e Trapani, surge a paisagem evocativa das salinas e dos moinhos. O sal ali produzido é considerado o melhor de Itália.


As salinas de Trapani são um centro de produção de sal desde tempos antigos e foram um grande negócio durante séculos. Embora o negócio actualmente não seja tão florescente, a paisagem encanta pela serenidade e organização.


Continuando para norte, depois de subirmos serpenteantemente monte acima, chegamos à fascinante Erice, alcandorada a 750 metros acima do mar. Durante a subida, aproveitamos e surpreendemo-nos com a belíssima paisagem e as cores magnetizantes do final de tarde.

Erice é uma vila medieval fortificada e charmosa, repleta de património, do qual se destaca o Duomo. 

Mas também as várias praças, onde vamos desembocando na nossa deambulação.
As múltiplas igrejas e o castelo também encantam.

Pela sua posição geográfica oferece-nos magníficas panorâmicas para Trapani e seu porto, ilhas Egadi, Mar Tirreno e para o Monte Cofano.

Para além destes inúmeros argumentos ainda alberga a famosa pastelaria Maria Grammatico, considerada uma das melhores da Sicília. 

De Erice, que merecia mais tempo, seguimos para San Vito Lo Capo, onde passámos os dias seguintes. Aí abriu-se um novo capítulo da nossa viagem. O próximo a ser relatado.

Palermo

Em Palermo, capital da Sicília, encontrámos uma cidade fervilhante, cheia de contradições, onde a herança aristocrática de outros tempos convive e tenta sobreviver com a actualidade difícil e pobre, ainda hoje marcada pela outrora forte e demolidora intervenção da máfia, resultando numa decadência charmosa e, surpreendentemente, fascinante.

Por outro lado, cruzámo-nos com elementos arquitectónicos que marcam as imensas influências que a cidade recebeu das diversas culturas que ali estiveram ao longo da história.


A cidade congrega um imenso património, embora parte dele em más condições, fruto das dificuldades económicas há anos presentes na região. Ainda assim, ocorre-me pensar na dificuldade, perante determinadas escalas e diversidade patrimoniais, de se alcançar a manutenção de tudo, já que os principais elementos patrimoniais apresentam-se com a dignidade que merecem.

É um deslumbre deambularmos pela cidade e após virarmos a esquina de uma rua esconsa, mas ainda assim pontuada por igrejas e palácios barrocos, apesar de alguns deles decrépitos, nos confrontarmos com a magnitude da Cattedrale di Palermo, no seu estilo árabe-normano.

O mesmo estilo arquitectónico encontramos no Palazzo dei Normani e na sua Cappella Palatina, que nos extasia e nos deixa com um torcicolo por querermos abarcar todos os ângulos ocupados pelos magníficos mosaicos bizantinos e trabalhos de mármore em estilo árabe, bem como o mobiliário em madeira (muqarnas). Naquele espaço, com arte, reconta-se o Antigo Testamento.

Todas estas maravilhas se concentram a poucos metros de distância no bairro de Albergheria, onde se localiza o efervescente Mercato di Balarò, o principal mercado de rua da cidade, onde navegamos entre aromas.

No bairro de Capo, a norte de Albergheria, outro mercado, o Mercato del Capo, também espalha pelas ruas a sua vivacidade e confirma-nos como a comida de rua é uma das riquezas da Sicília e, em particular, de Palermo.

No centro da cidade antiga fica Quattro Canti, uma espantosa, inusitada e elegante intersecção entre o Corso Vittorio Emanuele e a Via Maqueda. Trata-se de um círculo perfeito formado por fachadas curvas, estupendamente adornadas com estátuas que representam as estações do ano, os soberanos espanhóis e as santas palermitanas, espalhadas em três ordens, colunas Dóricas na base, Iónicas no meio e compostas no topo. Magnífico momento urbano.

Próximo encontra-se a superlativa Fontana Pretoria, um dos maiores símbolo da cidade.

Adjacente, situa-se a Piazza Bellini, onde o inusitado acontece.

A La Martorana e a Igreja de San Cataldo ombreadas por palmeiras fazem-nos questionar onde estamos. O exótico aterrou ali. La Martorana foi planeada para ser uma mesquita, por dentro é adornada por uns magníficos mosaicos bizantinos, chegou a ser um templo católico e actualmente é uma igreja da comunidade grega ortodoxa. Portanto, a síntese do que é a Sicília.

A Igreja de San Cataldo, com as suas curiosas cúpulas vermelhas, é mais um exemplo da arquitectura árabe e normana. Fascinante determo-nos a absorver toda esta arquitectura.

O interior fascina igualmente.

Em La Kalsa, estamos à beira do Golfo de Palermo, mas a relação da cidade com o frente de água está por fazer, com excepção da parte onde se localiza a Marina, um pouco mais a norte.

Neste bairro pobre, a regeneração urbana aos poucos está acontecer, com a recuperação do património e instalação de alguns locais trendy.

Valores seguros são o Museu da Inquisição, localizado no Palazzo Chiaromonte Steri, a Galleria d’Arte Moderna e Chiesa di San Francesco d’Assisi.

Igualmente com um passado pobre e marcado pela criminalidade e violência, o bairro de Vucciria, ficou imortalizado na obra artística do pintor siciliano Renato Guttuso, o qual pintou a magnífica e arrebatadora La Vucciria, inspirado no mercado homónimo. Tivemos a oportunidade de ver esta obra genial numa exposição temporária no Palazzo dei Normani.

Este mercado, actualmente, não tem a mesma vivência de outrora, mas é cativante, nomeadamente a convivência do local peixe-espada como o Padrinho, em modo de arte urbana.

Sentir o quotidiano contagia igualmente pela simplicidade. 

Nos limites com a cidade nova fica o Teatro Massimo, em estilo neoclássico, a casa da ópera da cidade e a maior de Itália. Já nessa parte mais recente, ainda que antiga, encontra-se o Teatro Politeama Garibaldi, onde apanhámos o autocarro para Mondello.

Nesta vilazinha costeira, a pouca distância de Palermo, damos mergulhos revigorantes nas águas azuis turquesas, transparentes e quentes. Que maravilha. É uma praia urbana, a praia dos Parlemitanos, pelo que com muita procura. No entanto, o contexto envolvente rodeado de montanhas brutas fascina.

Aqui, apesar de ser uma praia muito procurada, é possível descontrair do intenso bulício de Palermo e prepararmos a partida para outros pontos da ilha, com a riqueza de Palermo no coração.

Cefalù

Logo que chegámos à Sicília dirigimo-nos para Cefalù, a poente e a cerca de uma hora de comboio de Palermo, onde passámos os primeiros dias da nossa viagem.
Esta cidadezinha é a capa da última edição do guia de viagens Lonely Planet. Com frequência se vê nas publicações turísticas a imagem clássica e sempre deslumbrante do seu pequeno porto.

Cefalù é bonita. Tão bonita e emocionante como o filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Foi pelas ruas e praças desta cidadezinha medieval que foram realizadas parte das filmagens deste belíssimo e comovente clássico do cinema italiano.


Banhada pelo mar Tirreno, Cefalù é simplesmente bonita. De pequena escala, sabe bem andar pelas suas ruazinhas e perscrutar o mar quando se dobram algumas delas. 

Sentarmo-nos a comer uma das especialidades locais enquanto o mar bate nas rochas é igualmente um prazer.

Mergulhar, dar umas braçadas, olhar para terra e ver o casario à sombra das imponentes e portentosas montanhas para além de um prazer, é um privilégio.

Na imponência montanhosa fica La Rocca, onde subimos e alcançamos vistas fabulosas sobre a cidade, em tempos uma cidadela árabe. 





Herança desses tempos é a arquitectura árabe-normana, da qual o Duomo de Cefalù é um magistral exemplo.


Cefalù é um sítio para se estar sem pressas. Para se praticar as pequenas e simples coisas da vida, nas quais se incluem caminhar pela lungomare, a marginal, e comprar um gelado e/ou um brioche com gelado e deleitarmo-nos enquanto a vida corre calma pelas ruas.

Entre Caminhos Se Faz a Riqueza e a Beleza

A meio caminho entre a Europa e África há uma ilha que ao longo dos tempos foi recebendo influências de várias culturas. Muitos andaram por lá. Gregos. Romanos. Bizantinos. Árabes,  conhecidos como Normanos. Sarracenos, os espanhóis muçulmanos. Espanhóis cristãos.
Todo este cruzamento de culturas contribuiu para a construção da identidade actual da Sicília. Foi para esta ilha italiana que embarcámos numa viagem feita de sensações várias, todas elas enriquecedoras e boas.
Palermo. Mondello. Cefalù. Selinunte. Mazara del Vallo. Marsalla. Erice. San Vito lo Capo. Scopello. Foram alguns dos sítios que percorremos. Todos diferentes e magníficos. Todos na parte ocidental da ilha, onde concentrámos a nossa viagem para podermos desfrutar e saborear tudo com mais calma.

Cefalù

Palermo

Selinunte

Riserva dello Zingaro

Cidade, praia, cultura, mergulhos, comida houve de tudo um pouco. E todo o pouco encheu as medidas de forma enorme.
Embarquemos.