Ready to be Heartbroken

No dia seguinte ao José Cid fui ouvir Lloyd Cole na Aula Magna.
Pela primeira vez ao vivo, também.
“Neva em Nova Iorque” transformou-se em “NYC Sunshine”.
Outra diferença – enorme – é que desde há muito esperava por este concerto e deste artista conhecia todas as músicas. Nada de estranhar, afinal de contas Lloyd é o meu cantor preferido e aquele que encabeça a minha lista da pergunta clássica “que músicas levaria para uma ilha deserta”.
Seria emocionante só por esse motivo. O concerto foi certinho, Lloyd sabe algumas palavras básicas em português (o que bate certo com a sua apregoada proximidade com o nosso país, bem como com a grande legião de fãs que por cá (man)tem), cantou muitos dos seus mais recentes temas (ainda que só 2 ou 3 do último álbum) e alguns antigos grandes sucessos. Músicas curtas, num registo acústico, sem muitos arranjos, o próprio tempo total não terá passado da 1h 10 m.
Creio que não surpreendo ninguém, nem sequer a mim, se disser que o concerto não chegou a empolgar a assistência. As coisas são como são. Lloyd é inglês, a sua música melancólica, mais dada a ser trauteada em tom baixo do que gritada a plenos pulmões.
Dito isto, sim Lloyd, I was ready to be heartbroken mas foi o macaco e as favas do Cid que me deixaram louca!

Ontem, Hoje e Amanhã

Se há uns (poucos) tempos alguém me dissesse que me tinha visto num concerto de José Cid diria que essa pessoa estava maluca. Afinal, depois do dia 20 de Novembro, a maluca sou eu.
As coisas mudam. Não sei bem o que mudou em mim, mas o certo é que fiquei com vontade de ir ao Casino de Lisboa ver o José Cid.
E com que me deparei? Centenas de pessoas – a maioria da minha geração (30 anos) e mais velhas – em delírio. Num agradável e bem disposto delírio. Algumas empunhando cartazes “Gosto mais de ti do que o macaco de banana”, “És a mãe do rock português”, “D. Sebastião está vivo”, “Dá-me favas”. A princípio não entendi o significado de nenhum deles. Quer dizer, o do macaco não me era de todo estranho, achava que já tinha ouvido ou lido qualquer coisa a respeito. Depois de ouvir a música confirmei que só podia ter lido algo sobre ela, pois a melodia era-me de todo estranha.
Será possível? Onde passei a minha juventude, que músicas ouvi, com quem me dei? Parecia que tinha caído naquele lugar de para-quedas (o que não andará muito longe da verdade). Não fazia ideia de que “Cai neve em Nova Iorque / Há sol no meu país / Faz-me falta Lisboa / Para me sentir feliz” e que há uma “Cabana Junto à Praia”. Quanto às “favas”, estava curiosíssima para saber que raio era aquilo que TODOS à minha volta pediam. Certamente nenhum dos restaurantes do Casino se dedicam a este exemplar da nossa gastronomia. Mas o bom do Cid não ligava nenhuma aos insistentes apelos às favas. Até que, já se ia embora, deu meia volta, deve se ter arrependido, cedeu e começou as primeiras palavras que enlouqueceram ainda mais o seu público. O meu novo herói não foi capaz de cantar o “não sei viver sem ti amor, diz-me o que hei-de fazer / faz-me favas com chouriço, o meu prato favorito” – o público cantou por ele –, mas confessou que não fazia ideia “o que é que vocês vêem de jeito nesta música”.
Como é que esta música e esta história saborosamente romântica me pode ter passado ao lado?
Em compensação tive direito a ouvir e cantar a plenos pulmões, e por 2 vezes, uma conhecida minha: “Vem, viver a vida, amor / Que o tempo que passou / Não volta mais / Sonhos que o tempo apagou / Mas para nós ficou / Esta canção”.
Enfim, uma noite apoteótica, na primeira vez em que ouvi alguém conseguir enfiar a palavra “ladrilhar” numa letra para música. Kitsch, numa palavra.
Um “Bem Hajam” para José Cid, sua banda e técnicos.

Apesar dos pedidos, desta vez Cid não tirou a roupa

BAJOFONDO TANGO CLUB


Tango com electrónica. Mas não só. Ao bandoneon foi acrescentado guitarra eléctrica, violino, baixo, piano, computador. Tudo mixado dá um som algo parecido com tango, rock, jazz, hip-hop.
Ou, melhor dito nas palavras dos integrantes do grupo, é um som do Rio da Prata, terra do velho tango, terra do novo tango.
Não podendo estar presente no concerto que os Gotan Project vão dar em Lisboa, no princípio de Julho, altura de férias, não podia deixar de ir ouvir e ver os Bajofondo, no Teatro Variedades, Parque Mayer, integrado nas festas de Lisboa.
5 estrelas. A experiência musical não podia ser melhor. Eu, que penso sempre que detesto dançar, dei por mim a abanar o corpo como não imaginava que o pudesse fazer. Foi a responsabilidade e o contagio de estar na primeira fila. Ou talvez tenha sido mesmo o som e o ambiente muscial que não deixa ninguém indiferente. Nem mesmo o casal de velhinhos de cerca de 80 anos que se mantiveram até final.
– “Então, o que achou?” – “Bem, não é muito o meu género, mas gostei”.

Kings of Bergen em Lisboa


Os Kings of Convenience são uma daquelas bandas não mainstream que fazem um surpreendente sucesso em Portugal. Como Lloyd Cole, Tinderticks e outros dedicados às músicas melódicas.
Sábado encheram por completo a Aula Magna, em Lisboa.
Erlend, um dos elementos do duo, já era sobejamente conhecido por ser um animador nato, seja nas músicas mais suaves dos KOC, seja a solo com músicas mais viradas para a electrónica ou mesmo como DJ.
Eirik, mais sério, contrabalança o ruivo com ar de nerd estouvado. Tão sério, tão sério, que arriscou cantar “Corcovado” de Tom Jobim num português praticamente impecável, mesmo se a pronúncia de algumas palavras da letra tenham arrancado risotas do imenso público presente.
A banda vem de Bergen, Noruega. E Erlend contou-nos nessa noite que há uns anos atrás esteve no Lux e passeou bem juntinho ao rio. Esta semana voltou a jantar para os lados da Bica do Sapato e deu de caras com o mesmo que já tinha visto em Bergen: a vedação que impede os cidadãos de usufruirem em pleno o espaço junto ao rio. Rio Tejo em Lisboa, Oceano Atlântico em Bergen. Hoje apenas se espreita o rio ou o mar.
Em ambas as cidades a água tem um presença fortíssima.

Em Bergen, como se não bastasse a água dos fiordes que entra pela terra a dentro, existe ainda um enorme lago (artificial?) bem no centro da cidade.

Em Lisboa os desejos de todos os alfacinhas de verem na cidade uma maior comunhão com o Tejo, que não exclusiva da zona do Parque das Nações, não tem vindo a tornar-se realidade. Pelo contrário, às intervenções prometidas, se vierem mesmo a ser concretizadas, esperam-nos décadas de estaleiros de obra, à semelhança do que acontece no Terreiro do Paço.
Porque temos de nos sentar à beira-rio com uma rede a separar-nos fisicamente e esteticamente do que deveria ser nosso por inteiro?
Regras da UE, que não olha a nomes nem às especificidades dos locais, seja Portugal ou Noruega, ou qualquer um outro que não tenha relação com a água.
Assino por baixo o que o norueguês dos KOC afirmou: É um crime. Roubaram-nos os locais onde nos costumavamos apaixonar.

I still love you, New York

Deixo mais esta letra da música “New York, New York” de Ryan Adams, do albúm “Gold”, de 2001. O lançamento do albúm e deste single coincidiu com os atentados de Setembro de 2001 e tornou-se como que um hino da resistência da cidade, ainda que não seja sobre a ela, mas antes sobre uma míuda.

“New York, New York”
Well, I shuffled through the city on the 4th of July
I had a firecracker waiting to blow
Breakin’ like a rocket who makin’ its way
To the cities of Mexico
Lived in an apartment out on Avenue A
I had a tar-hut on the corner of 10th
Had myself a lover who was finer than gold
But I’ve broken up and busted up since

And love don’t play any games with me
Anymore like she did before
The world won’t wait, so I better shake
That thing right out there through the door
Hell, I still love you, New York

Found myself a picture that would fit in the folds
Of my wallet and it stayed pretty good
Still amazed I didn’t lose it on the roof of the place
When I was drunk and I was thinking of you
Every day the children they were singing their tune
Out on the streets and you could hear from inside
Used to take the subway up to Houston and 3rd
I would wait for you and I’d try to hide

And love won’t play any games with me
Anymore if you don’t want it to
The world won’t wait and I watched you shake
But honey, I don’t blame you
Hell, I still love you, New York
Hell, I still love you, New York
New York

I remember Christmas in the blistering cold
In a church on the upper west side
Babe, I stood their singing, I was holding your arm
You were holding my trust like a child
Found a lot of trouble out on Avenue B
But I tried to keep the overhead low
Farewell to the city and the love of my life
At least we left before we had to go

And love won’t play any games with you
Anymore if you want ‘em to
So we better shake this old thing out the door
I’ll always be thinkin’ of you
I’ll always love you though New York
I’ll always love you though New York, New York, New York

Manhatã visto por Cazuza

NY acolhe cidadãos vindos de todos os cantos do mundo e, como afirmei em post anterior, estima-se que 32% da sua população tenha mesmo nascido fora dos EUA.
Daí a dificuldade em caracterizar-se NY e os seus residentes sem se recorrer às palavras cosmopolitanismo e respeito pela diferença.
Aqui se buscará o verdadeiro estilo de vida nova-iorquino, que rapidamente se cola a quem lá chega, seja turista ou emigrante, legal ou ilegal.
Deixo aqui a letra da música “Manhatã”, de Cazuza, o meu brasileiro preferido que, em certas fases da sua vida, escolheu e viu-se obrigado a viver uns tempos em NY.

“Manhatã”
Cheguei aqui num pé de vento
Já tenho carro e apartamento
Sou brasileiro mandigueiro
Tô aqui pelo dinheiro
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus

Agora eu vivo no dentista
Como um bom capitalista
Só tenho visto de turista
Mas sou tratado como artista
E até garçon me chama de sir
Oh! Baby, baby, só vendo pra crer

Eu andando pela neve
Em pleno Central Park
Com as estrelas do cinema
Faço cenas no metrô
Com meus tênis All Star
Deixando as louras loucas
Com meu latin style
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã

E quando a saudade aumenta
Descolo um feijão com pimenta
E um Hollywood no chinês
Lá na Rua 46
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus

Eu fumando um baseado
Em frente a um policial
Aqui tudo é tão liberal
Vou xingando em português
Depois, gasto o meu inglês
Deixando as louras loucas
Com meu baticulelê
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã »

NY – O Jazz de Vanguarda

Como confessei no post anterior, o jazz não é o meu forte. Não consigo enumerar mais do que 4 ou 5 grandes nomes do jazz clássico e, se passarmos para os grandes nomes do jazz de hoje, não me lembro de mais ninguém senão do Woody Allen (missão cumprida: estava a ver que escrevia não sei quantas linhas sobre NY e não conseguia falar qualquer coisa do Woody).
Apesar de não ser conhecedora de jazz, gosto de o ouvir, principalmente num bar. Aliás, a minha primeira saída à noite fora de Portugal foi a um bar de jazz nos arredores de Paris, há tempo suficiente para nem sequer me lembrar em que bairro isso aconteceu.
Em NY, uma ida a um clube de jazz é essencial. O difícil é escolher a qual. No Harlem existem uns quantos da velha escola, mas é na West Village que se encontram a maior parte dos clubes de jazz.
Provavelmente, o mais famoso é o Blue Note.
Porém, o facto de ter lido que, também provavelmente, o de maior prestígio era o Village Vanguard, levou-me para este lado. Neste clube, aberto desde os anos 30´, tocaram os maiores nomes do jazz. Numa sala cheia e intimista – até demais, com os meus joelhos e cotovelos a tocarem-se com os do vizinho do lado – assisti a um show de jazz como nunca pensei existir. O trio que se apresentou era composto por Joe Lovano (saxofone), Bill Frisell (guitarra) e Paul Motian (bateria).
Sei hoje que cada um destes nomes é dos mais importantes na sua especialidade. E sei também que o jazz pode meter bateria. E que da mistura de todos estes instrumentos pode resultar um som muito à frente. Realmente de vanguarda.
Boa escolha. A repetir numa próxima ida a NY.