Para Refrescar

A primeira vez que ouvi falar em horchata foi com a música dos Vampire Weekend. Nada bom para o currículo, já sei, mais até porque a dita música saiu para a rua no último Outubro.
Já que a mais famosa horchata é a de Valência (a horchata de chufas), toca a tentar a redenção e, vai daí, prová-la onde deve mesmo ser: numa das horchaterias da Praça de Santa Catalina.
Para quem só bebe – e aprecia – água, a experiência foi até muito interessante. Bebida fresquinha, muito doce, sabor algo leitoso e amendoado. A repetir.

Jardín del Turia

E sobre Valência, entre o muito que falta ser dito, não poderei esquecer outro dos pontos que mais me impressionou pela positiva. É o caso da transformação que souberam fazer desviando o Rio Turia, elemento central da cidade. Dito assim parece loucura e um passo para acabar com uma cidade, ainda que o Mar Mediterrâneo esteja ali à porta.
Em 1957 inundações pela cidade devido ao transbordo do Rio Turia levaram a uma tragédia que causou a morte a muitas pessoas. Em consequência, as entidades governamentais decidiram desviar o Rio Turia e, aqui sim veio a jogada de mestre, transformar o extenso canal citadino por onde o rio passava não numa auto-estrada (como era a ideia inicial) mas antes num imenso jardim público – o maior jardim urbano de Espanha.
Aqui chegados, por baixo das pontes antigas preservadas e de outras entretanto construídas, observamos hoje caminhos para serem percorridos a pé, a correr ou de bicicleta, campos de futebol, parques infantis. O Bioparc, o novíssimo zoo de Valência, fica aqui. Assim como fica aqui a Cidade das Artes e das Ciências. Incontornável, não?

Ciudad de las Artes y las Ciencias

Valência será sempre uma cidade imperdível mais não seja pela fantástica Cidade das Artes e das Ciências. Apesar de só ter gasto uma parte de uma tarde para conhecê-la, o meu entusiasmo foi tão grande que creio que uma semana inteirinha a deambular por aqui não me iria aborrecer.
Desenhada pelos arquitectos espanhóis Santiago Calatrava e Felix Candela, e inaugurada em 1998, a Cidade das Artes e das Ciências é um complexo que, aparte a sua arquitectura fabulosa, pretende ser um centro cultural e de entretenimento.


O L´Hemisfèric, o primeiro edifício a ser inaugurado, passa filmes IMAX e outras projecções futuristas e serve também de planetário;


O Museo de las Ciencias Príncipe Felipe é, como o nome o indica, um museu dedicado às ciências com cerca de 40000 m2;


O Palau de las Artes Reina Sofia é dedicado à música;


O Oceanogràfic bate o nosso Oceanário de Lisboa como o maior da Europa (e é o único equipamento desta “cidade” que não é desenhado por Calatavra, mas antes por Candela);


O L´Umbracle é uma mega estufa que alia o gosto pelas doces plantinhas ao gosto pela própria estrutura onde elas estão implantadas – linda, linda.


Assim como lindos, lindos são os passeios que nos permitem caminhar por entre os vários edifícios, sempre bordejados pela água e ponteados aqui e ali por esculturas que alindam ainda mais o sítio.


Mais recentemente, e como se pudessem ainda conferir mais elegância à “cidade”, chegaram a Puente de l´Assut de L´Or e El Ágora, espaço que já serviu para realizar vários concertos e eventos desportivos.

Bom, mas esta é a versão oficial da história.
Por largos momentos lá, e quando ainda hoje, a uns kms de distância, penso na Cidade das Artes e das Ciências, o espaço parece-me uma outra coisa.



Pese embora a vegetação e a água que os rodeia, tomo o Palau como uma enorme nave espacial ou como a cabeça de um assustador monstro de outro planeta; o L´Hemisfèric não pode deixar de ser um dos 3 olhos desse monstro; e o Museo é o corpo – em esqueleto – cheio de ossos desse monstro.

Mas na verdade nada é assim tão assombroso. Ou pelo menos num sentido de assombro negativo. Sim um assombro estético superior de feliz imaginação e ainda mais feliz execução.

Valência

Valência, a 3.ª cidade de Espanha, 4.ª da Península Ibérica, digo eu, só para Lisboa lhe ficar à frente.
Mas Valência ganhou, precisamente, a America´s Cup à nossa capital e, com isso, nós perdemos a hipótese de ver a zona de Pedrouços requalificada e eles ganharam a certeza de um porto novo. E com o novo porto e a maior prova de vela do universo tiveram ainda o bónus de, na mesma zona, ficarem com a organização de um 2.º GP de F1 em Espanha. Posso acrescentar ainda a esta grandeza desportiva, mas esta a título de desabafo, que na 5.ª feira santa, data da minha chegada a Valência, a equipa local ia receber à noite, para os 4.ºs de final da antiga Taça Uefa, o Atlético de Madrid, aquela equipazeca que eliminou o sempre imenso Sporting. Ao passar de táxi perto do estádio Mestalla não pude deixar de me imaginar lá dentro a acudir (é sem ponta de vaidade que me auto felicito pela muito boa utilização desta palavra) os Patrício, Grimmi, Tonel, Pereirinha e Postiga da época.

Voltando ao que interessa, à conta do porto surgiu o muito equilibrado e alvo edifício Veles e Vents do arquitecto David Chipperfield. Daqui até ao bairro Cabañal, antigo pouso dos pescadores, é uma pacata caminhada à beira do Mediterrâneo com a surpresa de encontrar o extenso areal das praias de Las Arenas e Malvarrosa. Não houve direito a banho, que o dia de sol bonito não fazia esquecer a aragem fresca, mas houve direito a tapas na Casa Montaña, na barra, como convém.

No outro dia, feriado, ocupei-me do centro da cidade. Falta-lhe a uma Praça Maior, à semelhança de outras cidades espanholas? Não, não lhe faz falta nenhuma. Vamos tendo várias praças mais pequenas, sempre acolhedoras (e numerosas: só à volta da Catedral são uma mão cheia delas), e temos a deliciosa e mínima Plaza Redonda, que mais parece retirada de uma cena de aldeia de décadas idas, com as bancas de bordados e retrosaria e quinquilharia afim.

Apesar dos bons transportes da cidade – metro, autocarros e táxis baratos – qualquer caminhada pelo centro e bairros que o circundam é extremamente agradável. Cidade plana, edifícios cuidados e monumentais, ruas largas, parte velha pedonal.
É impossível escaparmos à Catedral, quanto mais não seja para subirmos à Torre Miguelete e identificarmos dos céus todas as marcas que distinguem Valência. Lá está a medieval Torre de Serranos, o quase centenário Mestalla, o desaparecido Rio Turia, a novíssima Cidade das Artes e das Ciências. Mas o mais bonito será podermos ver a Plaza de la Reina bem ali debaixo.

Mais difíceis de identificar lá de cima, mas sempre presentes e merecedores de uma visita:


o Mercado Central (edifício em estilo modernista, com cúpulas em vidro e azulejo, tudo grandioso a deixar adivinhar o ambiente de pregões que se vive lá dentro);


o Mercado de Colón (mais parece um palacete em metal inspirado em Gaudi, restaurado já neste século para acolher lojas finas);


a Estação do Norte (ao lado da por fora pacata Praça de Touros, a elegância das suas linhas impera – as laranjinhas e florzinhas que decoram a sua fachada ainda adocicam mais a sua beleza modernista de princípios do século passado);


o Museu de Cerâmica e respectivo edifício (instalado no Palacete del Marquês de Dos Aguas, vale pela sua colecção, mas, sobretudo, pelo edifício em estilo rococó que na sua fachada transborda um exagero muito benéfico para o nosso sentido visual);

o Instituto Valenciano de Arte Moderno – IVAM (para quem não consegue fugir à cultura);



e, cereja no topo do bolo, La Lonja de la Seda, património da Unesco que muito influenciou Santiago Calatrava, arquitecto valenciano omnipresente na sua cidade (e, já agora, acrescente-se, autor da lisboeta Estação do Oriente). La Lonja, um dos melhores exemplos do estilo gótico civil na Europa, foi construída entre 1482 e 1548, altura em que Valência era o centro do mundo comercial e os mercadores não deixavam de a visitar e à sua La Lonja para fazer as suas trocas comerciais. A não perder o seu interior com colunas helicoidais, os jardins de laranjas e todos os pormenores que a nossa vista alcança em toda a sua poderosa fachada.

Para post autónomo fica a Cidade das Artes e Ciências, instalada em parte do que outrora foi o Rio Turia.