Zurique

Zurique, a maior cidade suiça e o centro financeiro do país, poderia muito bem ter como cognome “a Revolucionária”.

Nos idos de 1219 tornou-se uma cidade imperial livre; em 1336 viu os seus artesãos desafiarem o poder dos patrícios e organizarem-se em guildas; em 1519 o pastor da sua Grossmünster, Ulrich Zwingli, iniciou a Reforma da igreja de Zurique e mudou a história da Suiça; em 1916 o movimento artístico Dada de rejeição à lógica e estética tradicional foi aqui fundado por exilados da I Grande Guerra Mundial; em 1917 tornou-se a cidade escolhida por Lenin para viver antes de rumar à Revolução Russa do mesmo ano; a década de 1980 viu ser iniciada uma requalificação urbana que vem transformando a industrializada zona ocidental de Zurique num pólo moderno, urbano e criativo.

Histórica e pós-industrial, estas são as duas facetas da vibrante Zurique de hoje.

Comecemos o passeio por Zurique pelo seu centro histórico. O Lago Zurique é dominador e quando este não se avista é o rio Limmat que o substitui no factor água.

O Limmat divide o centro histórico em dois.

De um lado, saindo da estação de comboios temos a Bahnhofstrasse que vai vendo o característico eléctrico azul e branco percorrê-la. Esta é a rua da cidade onde encontramos as marcas mais famosas do mundo. E as mais caras, a lembrar que Zurique, cidade de bancos, tem de ter também lugares para gastar o dinheiro que guarda. Nas suas costas, em direcção ao rio, fica a Augustiner-Gasse, uma pequena rua onde podemos observar edifícios de várias cores e com uns curiosos balcões.

Este era o coração da próspera Zurique do século XVI, onde os comerciantes se organizavam em guildas. Bem antes disso, porém, a cidade teve ocupação romana e era então conhecida como Turicum. O Lindenhof Hill terá sido o lugar de fundação de Zurique e aquele onde uma fortificação foi erigida. Situado numa zona elevada em relação ao rio, este é hoje um miradouro e daqui se alcançam umas bonitas vistas.

Por esta margem do Limmat ficam duas das igrejas cujas torres marcam a paisagem da cidade.

A Fraumünster é uma das mais queridas dos seus habitantes e destaca-se pelas obras de arte dos vitrais de Chagall e da rosácea de Giacometti que vemos no seu interior. A outra, a St Peterskirche, é conhecida por possuir o maior relógio do mundo de torre de igreja.

Do outro lado do Limmat as duas torres da Grossmünster impõem-se. Foi aqui que no século XVI Zwingli pregou contra a igreja católica e que, inspirado por Erasmus de Roterdão e Martinho Lutero, iniciaria a Reforma Protestante na confederação suíça.

O Niederdorf é o bairro mais animado desta margem, com ruas estreitas e pedestre e cheio de restaurantes e cafés. Conhecido pela sua vida nocturna, as boates ainda marcam presença, mas para a história fica o facto de ter sido aqui que foi criado o Movimento Dada e ter sido numa das suas ruas que Vladimir Lenin residiu. Uma placa lá está a assinalá-lo, mas registei a acolhedora pracinha que o testemunhou durante o ano em que o russo aqui passou.

O Cabaret Voltaire, ali bem perto, também segue vivo. O lugar oficial de nascimento do Dadaismo é hoje um bar onde nos podemos sentar a beber ou a conversar ou a assistir a exposições. A sua irreverência ainda se faz notar pelos desenhos e mensagens picantes dos pósteres da sua decoração.

O Dada foi um dos mais importantes movimentos avant-garde de arte moderna e literatura no princípio do século XX, declarando o fim da arte estabelecida. A Suiça, por ter assumido a sua neutralidade durante a I Grande Guerra Mundial, e Zurique em especial, era o local ideal para os artistas (escritores, poetas, revolucionários, filósofos, psicanalistas, cientistas) se dedicarem às belas artes longe da guerra. Aí se juntaram e o Cabaret Voltaire era a sua casa e a revista de mesmo nome o seu veículo de propaganda. Em 1916 este tornou-se o local de encontro de artistas como Hugo Ball e Tristan Tzara, um lugar de entretenimento e troca de ideias que testemunhou serões loucos. Um espaço experimental com soirées, leitura de poemas simultâneos e dança moderna expressiva.

E para algo mais cândido (trocadilho fácil com a novela de mesmo nome de Voltaire, inspiração para os dadaistas), nada como uma caminhada pelo Limmatquai. À beira rio, é um prazer seguir por esta margem, adiando o atravessar de uma das suas pontes, para que, depois, cedendo, o façamos e voltemos no caminho pela margem contrária.

Tão junto à água podemos observar em detalhe as diversas pequenas embarcações. Ou, melhor ainda, podemos dar com uma passagem numa pequena e estreita arcada fechada, um miradouro privilegiado bem junto à água.

O ambiente do centro histórico de Zurique estava ainda mais fantástico nesta época Pascal. O encerramento da visita às torres da Grossmünster acabou por ser compensado pela melodia dos sinos das várias igrejas que teimavam em soar repetidamente no sábado.

Se o centro histórico de Zurique é compacto e relativamente pequeno, a cidade não o é assim tão pequena. Diversos pontos de interesse há mais para explorar. Desde logo, a entrada pelo Lago, onde o Limmat desagua. Numa muito agradável caminhada de cerca de 30 minutos desde o centro podemos seguir até ao Parque Blatter. Aqui fica o Pavilhão Le Courbusier. Este foi o último projecto deste arquitecto modernista (hoje designado Heidi Weber Museum), cuja construção foi concluído em 1967, já após a morte de Le Courbusier. Infelizmente, o edifício está por estes dias em restauro total e não consegui perceber nada da sua arquitectura. Tive de me contentar com a estrambólica escultura de Tinguely à beira lago.

Retornando ao centro da cidade pelo mesmo caminho, uma boa opção provar uma cervelat no Sternen Grill para os lados da Bellevue. Este tipo de chouriço / salsicha de porco é uma das comidas a provar na cidade, ainda mais obrigatória para mim, que não suporto o omnipresente queijo.

Atravessado o Quaibrücke o Lago Zurique abre-se majestoso.

Daqui seguimos ao longo do Schanzengraben. Originalmente este era o fosso da antiga fortificação barroca de Zurique. Hoje é um canal com uma promenade muito agradável para se passear. Vemos os pequenos barcos ali atracados e, mais curioso, até um “campo” de caiaque polo aquático.

Atravessada esta área residencial, depois de uma longa caminhada chegamos à Langstrasse. Como o nome o indica, esta é uma rua bem longa conhecida por ser o centro da vida nocturna da cidade e o seu quarteirão da luz vermelha.

Círculo quase completo efectuado, voltamos à centralidade da estação de comboios, a Hauptbahnof. Junto a ela fica o Schweizerisches Landesmuseum, o Museu Nacional Suíço. Não o cheguei a visitar, mas o seu exterior representa a preservação e regeneração de Zurique. Uma nova ala de arquitectura modernista foi acrescentada ao edifício apalaçado já existente. Antigo e novo lado a lado.

E com esta ideia presente partimos a explorar o distrito Züri West, a Zurique ocidental. Antiga área industrial, a sua reconversão urbana sustentada é um sucesso. Houve uma mudança radical de identidade, mas com um respeito integral pelo seu passado industrial. Assim, no lugar das antigas fábricas e indústrias vemos nascer desde os anos 80 novos usos e funções, como empresas de investigação, design, media e entretenimento e ofertas culturais e gastronómicas. Atraídos por estas dinâmicas urbanas e culturais e pela criação de novos espaços públicos, novos residentes chegaram. As chaminés ainda fumegam, mas agora com uma nova arquitectura como vizinha.

Alguns exemplos da criatividade deste distrito, também conhecido como Kreis 5:

O Viadukt é o projecto que aproveitou a ponte da linha elevada do comboio para converter a sua parte inferior, nomeadamente sob os seus arcos, em lojas e espaços criativos. Roupa, mobiliário, design, restaurantes, ginásio, espaço para crianças, tudo isto debaixo do comboio que ainda rola e com vista para um novo parque verde.

Ali perto fica a Prime Tower, o arranha-céus da cidade com o sky-bar Clouds no alto dos seus 126 metros – um miradouro improvável considerada a melhor vista da cidade, com os Alpes protetores, o Lago Zurique ao fundo e os comboios ali à mão.

Onde está a criatividade deste arranha-céus, perguntar-se-á? Está em que, praticamente ao seu lado, fica uma outra espécie de arranha-céus, dir-se-á pós industrial. É a loja mãe da Freitag, a marca de malas feita de materiais reciclados, estabelecida numa série de contentores empilhados, formando uma original torre.

A entrada do Frau Gerolds Garten é aqui. Aproveitando também os contentores dos antigos navios este bar com esplanadas cheias de cor e grafittis transforma-se até em praia nos meses mais quentes.

O Schiffbau era a antiga fábrica de construção de barcos a vapor, hoje reconvertida em espaço cultural. São três auditórios para teatro, um restaurantes da moda e um club de jazz, o Moods, onde se promovem concertos ao vivo.

O Puls 5 era uma antiga fundição, hoje enorme espaço coberto com restaurantes, bares e escritórios. Reteve alguma da sua arquitectura interior, deixando algum do material e cabos à mostra, imagem perfeita da reconversão dos espaços industriais em espaços do século XXI.

Antes da nova vida deste distrito ocidental já uma outra antiga fábrica tinha entrado no roteiro urbano de Zurique. Junto ao lago, acessível de transporte público, a Rote Fabrik, antiga fábrica de tecidos, foi sendo tomada pelos jovens que já nos anos 60 pretendiam um espaço a que pudessem chamar seu. Desde aí foi-se transformando num centro de eventos culturais e concertos, tendo por lá passado nomes como o escritor Nobel Günter Grass e a banda Nirvana.

Zurique pode ser histórica, mas cheira a espírito jovem.