Viajante na própria cidade

A ideia era percorrer a carreira do eléctrico 28 da Graça à Estrela, passeio pela Lisboa pitoresca das colinas e dos bairros históricos, aconselhado por 11 em cada 10 guias turísticos sobre a cidade. Apesar de ter nascido em Lisboa e vivido sempre às suas portas, nunca havia realizado este passeio. Da Carris já chega as viagens obrigatórias nos seus autocarros, pensava. Mas, esta viagem no seu eléctrico é feita com outro espírito, com tempo, sem preocupações com as filas e os encontrões entre cidadãos utilizadores de transportes públicos.
Apanhado o 28 na primeira paragem, na Graça, foi fácil arranjar lugar sentada à janela. Na verdade, não estava cheio, o que melhor permitia contemplar as ruinhas da Graça e as suas vilas operárias pelo exterior. Chegado ao Martim Moniz, a desilusão. O percurso terminava temporariamente ali, pois devido a obras num edifício numa das ruas por onde passa habitualmente, o eléctrico estava impedido de continuar.
Ok. Vencida mas não convencida. Há que aproveitar o tempo bom e o tempo disponível. Reformulação do itinerário: subida até ao Chiado, descida até à Rua de Santa Justa, subida no elevador de mesmo nome – outro passeio inédito –, volta até ao Martim Moniz e visita aos seus centros comerciais, e, por fim, regresso a pé à Graça atravessando a Mouraria.
A subida no elevador de Santa Justa, em si, não vale grande coisa, vupt, já passou, leva aí uns 20 segundos. Mas a vista lá de cima vale bem a pena. Os nossos olhos abarcam do Rio Tejo até ao Parque Eduardo VII, passando pelos telhados de toda a Baixa Pombalina, Rossio, Sé, Castelo. E vislumbra-se também um nicho de bom gosto, um terraço ajardinado pertencente ao Hotel do Chiado, certamente a merecer uma futura visita ao seu bar. Apesar da vista compensar tudo, não posso calar a armadilha que é a viagem – da Carris – no elevador. Lá em cima há um bar ordineco, com café a preço astronómico – para turista ver –, enquanto a passadeira que o ligaria ao Carmo e à Trindade permanece fechada. Ou seja, só serve mesmo como meio para se chegar a uma plataforma única e exclusivamente com função de miradouro e bar mediocre. Dada a primeira função, não é mau de todo.

O Martim Moniz é um daqueles locais em Lisboa que me faz sentir estrangeira. Não que a sensação seja desagradável. É, simplesmente, diferente, parece saído de um cartão postal de um sítio distante ou de um filme. Nos seus centros comerciais – Martim Moniz e Mouraria – pode encontrar-se de tudo, a preços bem em conta. E para quem está farto de comer sempre o mesmo às refeições, pode experimentar aventurar-se pelos supermercados “étnicos” que por lá vão crescendo como cogumelos. Estas iniciativas sabem-me bem.
De regresso à Graça, subindo por uma das colinas da cidade, pelas ruas estreitas e pitorescas, com os seus edifícios de habitação pejados de azulejos e com as portas da rua encostadas ou mesmo escancaradas, uma Lisboa mais distante daquele cosmopolitanismo que se vive lá em baixo. Lá chegando, um dos troféus maiores: os seus miradouros, o da Graça e o da Nossa Senhora do Monte, com Lisboa aos pés.

Para uma próxima ficará, então, a continuação da carreira do 28 até à zona ocidental da cidade, menos popular mas igualmente autêntica.

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