A Nova China

No império do meio faz ainda mais sentido olhar para o mapa, aquele em que me sinto perdida, tentando encontrar o meu rectângulo à beira mar no centro do dito. Mas ele não está lá. Continua no centro o continente euro-asiático, mas agora com a terra dos han a dominar o centro das atenções, e nós relegados mais para a esquerda, no lugar da América, e esta no lugar da Ásia.
Causa-me sempre alguma confusão quando oiço ou leio opiniões de que a China vai dominar o mundo, tomando o lugar do “ocidente”. 
Desconhecerão que a sua é uma das mais antigas e grandiosas civilizações? Que apesar da política de se manter isolada do resto do mundo, baseando as suas relações num sistema tributário ao qual estava subjacente o entendimento da sua auto-suficiência, a sua “decadência” não terá durado mais de 100 anos?
Pois, para a memória curta, só nos lembramos dos episódios das guerras do ópio e do retalho do país pelos ocidentais, russos e japoneses na segunda metade do século XIX e princípios do século XX. 
Mas que dizer do testemunho de Marco Polo que por lá passou no século XIII e que despertou a curiosidade e encantou o “velho mundo”? Que dizer do fascínio pelas porcelanas Ming, pelas sedas, pelo chá, após Portugal ter ligado comercialmente as duas costas do mesmo continente?
Isto para não ir ainda mais atrás, pois a partir daqui deixou de haver desculpas para o nosso desconhecimento da grandeza de uma outra civilização.
Os orientais, ao contrário dos ocidentais (ler o livro The Geography of Thought – How Asians and Westerners Think Differently…and Why, de Richard Nisbett, para melhor esclarecimento), têm tendência a ver o universo de uma forma cíclica (nós é mais linhas rectas, uma visão que se costuma apodar de linear). A  anunciada tomada do governo do mundo pelos chineses em breve (apregoado, entre outros, por Martin Jacques em Quando a China Mandar no Mundo) mais não é do que um retomar do papel da China na história mundial de acordo com com esta visão cíclica, em que se volta sempre ao início da rodinha.
Uma nota mais. São os próprios chineses a admitir que o seu país não é comunista. Duibuqi, também não é capitalista. É um país que segue um projecto próprio, comunismo de rosto capitalista. Ou capitalismo de rosto comunista. As grandes marcas ocidentais, tipo a Nike, estão a fugir de lá porque a mão de obra mais barata deixou de estar aqui. Mas outras grandes marcas ocidentais, tipo a Apple, continuam cá porque sabem que os chineses são bons a trabalhar com tecnologia. Ou seja, os chineses estão a enriquecer, estão a estudar mais, estão a viajar por todo o lado, seja no seu país, na Ásia ou em todo o mundo – a China já é o país que mais contribuí com viajantes para o turismo mundial. Abrem delegações do Instituto Confúcio por todo o mundo – o mandarim está na moda. 
Não ignoro os custos deste novo rumo da China, em que todos nos campos parecem querer demandar às cidades e que para cumprir o seu sonho de um futuro melhor que lhes foi prometido terão de trabalhar o dia todo, a semana toda, o ano todo. E isso, também, prova as características especiais deste modelo de China. Nem bom, nem mau. É o que calhou nesta parte do ciclo.

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