A Ponte Sobre o Drina

Por muitos considerada a obra prima do nobel bósnio Ivo Andric, a história de “A Ponte Sobre o Drina” desenrola-se ao longo de quatro séculos, desde a construção da ponte da cidade de Visegrad, na fronteira com a Sérvia, até à entrada para a I Grande Guerra Mundial. Ao longo desse tempo o autor vai-nos contando histórias sobre as gentes da terra, sempre com a ponte como protagonista principal, as quais foram sofrendo a influência otomana – a ponte sobre o Drina foi mandada construir pelos turcos no século XVI -, sérvia e austríaca, até à emergência do nacionalismo.
Entre o relato de histórias de amor ou de pequenas vivências na passagem pela ponte de uma margem do Drina para a outra, impossível não deixar de refletir nas palavras do autor quando mostra, primeiro, a convivência pacífica entre as várias etnias e, depois, a quebra dos laços fraternos de séculos entre elas.
Primeiro:
“Os velhos conceitos e valores colidiam com os novos e opunham-se-lhes, combinavam-se ou coexistiam como se estivessem à espera para ver quais deles sobreviviam aos outros. O povo fazia contas em florins e em kreutzers, bem como em groshes e paras, media e pesava em côvados, em okas e drams, mas também em metros, quilos e gramas, fixava as datas para os pagamentos e encomendas pelo novo calendário, mas também, e na maior parte das vezes, segundo o velho costume: no dia de São Jorge ou no dia de São Demetrio.”
Depois:
“Só então é que na cidade começou a verdadeira perseguição aos sérvios e a tudo o que lhes estava ligado. Todo o povo se dividiu em perseguidos e perseguidores. A fera que existe dentro do homem e que só ousa mostrar-se quando as barreiras da lei e dos hábitos são removidas, estava agora à solta. Dado o sinal, as barreiras caíram. Como tantas vezes acontece na história humana, a violência, a pilhagem e mesmo o assassínio eram tacitamente permitidos desde que fossem cometidos em nome de interesses superiores, em conformidade com regras estabelecidas e contra um número limitado de pessoas de uma determinada espécie e credo. Um homem de espírito puro e de olhos abertos que então vivesse poderia testemunhar como é que se dá esse milagre e como uma sociedade inteira se podia transformar num único dia. Em poucos minutos a tradição secular da cidade foi devastada. É certo que sempre tinha havido secretos ódios, intolerância religiosa, infâmia e crueldade, mas também sempre houvera amizade e magnanimidade, e um sentimento de decência e de ordem que mantinham todos os instintos vis dentro dos limites do suportável, e que, ao fim e ao cabo, os acalmava, e os submetiam ao interesse geral da vida em comum.”
Publicada em 1945, esta obra confirma como os equilibrios nos Balcãs foram sempre dúbios e assim permanecem para além dela.

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