Mostar e arredores

Desde que fiz o caminho Dubrovnik – Mljet há doze anos que as montanhas da vizinha Bósnia não me saíram mais da imaginação. Adriático azul intenso de um lado, montes calcários lindos do outro. 
Desta vez tiramos um dia para visitar Mostar, a cerca de três horas de carro de Dubrovnik. 
A estrada segue sempre junto ao Adriático, sai da Croácia, entra na Bósnia (em Neum, na sua única cidade costeira, daí que se tenha que aproveitar todo o metro de terra, num claro contraste com a paisagem urbanística da Croácia), volta a sair da Bósnia e a entrar na Croácia para, já interior, entrar definitivamente na Bósnia. O tempo gasto nas fronteiras foi quase nenhum, excepto nesta última que nos levou cerca de uma hora e meia de fila parada sob um calor intenso. Assim, as três horas de viagem de carro passaram a quase cinco (penso, no entanto, que esta situação foi um mero azar e que a passagem para piscar o olho aos passaportes se costuma fazer célere).
Dizer Bósnia é o mesmo que dizer Bósnia Herzegovina, o nome oficial do país. Mostar e os arredores que visitámos ficam na província da Herzegovina.

Mostar entrou incontornavelmente na infeliz história mundial pela sua destruição na Guerra da Bósnia. Em Novembro de 1993 a sua Ponte Velha (Stari Most, construída originalmente pelos turcos em 1566) foi bombardeada e totalmente destruída. Apenas em 2004 voltou à vida, tendo sido reconstruída com o recurso aos materiais locais e seguindo o modelo original. A maior parte da ajuda financeira veio da Itália, país mecenas que se mostra muito presente quer na Bósnia, quer no Montenegro.
Mostar foi capital provincial quando a região estava sob o domínio do império otomano. No entanto, apesar de ser por demais evidente a influência turca na paisagem, quer pelas casas quer pelas mesquitas aqui presentes, esta cidade representa um verdadeiro encontro entre o ocidente e o oriente, consequência das referidas influências otomanas, sim, mas também influências austro-húngaras, império que aqui exerceu influência antes da criação da ex-Jugoslávia. A ocupação multi-étnica da cidade vinha de trás e os ódios raciais exacerbam-se de tempos a tempos.

A cidade velha de Mostar desenrola-se pelos dois lados do rio Neretva, ligado precisamente pela Stari Most, uma bela ponte de pedra em arco. As ruas são estreitas, calçada de pedra, casas preenchidas quase todas por lojas de souvenirs e cafés. É um bazar interminável, bem ao gosto da maioria dos turistas que aqui vêm. E são muitos. 

A ponte, sempre a ponte. Os turistas ocupam-na por inteiro – não é muito longa, pelo contrário, é surpreendentemente curta – sobretudo no momento em que alguns rapazes locais se preparam para saltar do seu arco, 21 metros a pique até à água do rio. E muitos mais turistas ficam cá em baixo, na margem do Neretva. Este é todo um folclore local. Um rapaz em calção de banho anda lá por cima, a recolher dinheiro da turistada, enquanto outro faz que salta mas não salta. Abre os braços, estica um pouco, ameaça a queda, mas em conjunto chegam à conclusão de que o cesto para recolher dinheiro ainda não está suficientemente preenchido. Novo acto, com poucas alterações para o primeiro. Podemos andar meia-hora nisso. Até que um dos pseudo-saltadores vem mesmo cá abaixo, sacar o dinheiro ao resto da assistência – onde me encontrava já sem paciência para esta peça de teatro mal amanhada. Eis que de repente aparece um terceiro rapagão em cena que salta da ponte e num ápice cai na corrente forte do rio. Feito.
(por curiosidade, no fim de semana passado a Stari Most de Mostar foi palco de uma etapa da Red Bull Cliff Diving, que também passou há pouco pelos Açores)
Está mais que visto que Mostar para mim é a ponte e pouco mais. A sua localização é incrível, belíssima mesmo, e muito há para escolher para melhor vista da mítica ponte. De baixo, com as casinhas enquadradas dentro do arco, ou de cima, com as montanhas como companheiras de postal perfeitas.

Tal como a ponte, a cidade velha foi reconstruída, porém, à sua entrada são ainda visíveis alguns edifícios com sinais de balas, balas essas que são vendidas nas lojas para turistas. Que lindo.
Típico por típico optámos por almoçar um cevapi, deixando o burek para outra altura.

De Mostar seguimos para a pequena vila de Blagaj, a cerca de vinte quilômetros de distância. Este lugar é extremamente bonito, idílico até se estiver vazio ou com muito menos de centenas de pessoas, como era o caso (vou parar de me queixar da gente em demasia que tal como nós escolheu passear por estas bandas). Ao longo de um pedaço do rio ficam uma série de restaurantes com esplanada, num parque fluvial cujo maior interesse é a Tejika, uma casa de madeira dervish debruçada no rio e à entrada de uma cave, com água azul e verde mesmo à porta. Lindo.
Em Blagaj assistimos a algo curioso e que não entendemos – um funeral onde só seguiam homens como acompanhantes.

Daqui seguimos para a Kravice, um pouco distante pelas voltas que se tem de dar, umas quedas de água que se estendem ao longo de 25 metros, num parque natural que acaba por se transformar numa bela piscina. Chegámos já ao fim do dia e por isso não estava muita gente. Boa.

Melhor ainda, depois disso seguimos para Pocitelj, a caminho da Croácia, e aí não estava praticamente ninguém para além das senhoras que vendiam fruta, de tal forma embalada que mais parecia buquês de flores. Pocitelj é uma aldeia otomana fortificada. A sua localização parece ter sido escolhida a dedo – não falo de um ponto de vista estratégico, mas antes antes da beleza do lugar. Fica na encosta da montanha, rodeada de vegetação, altaneira para o rio que passa lá em baixo. Irrompendo a caminho do céu vemos os minaretes e a torre do relógio, com o castelo lá no alto. 

Foi a forma perfeita para terminar o dia na Bósnia, mas mal sabíamos nós àquela hora que de volta à Croácia muito mais trânsito nos esperaria. Pois é, aquela estrada belíssima junto ao Adriático tem uma faixa de cada lado, os rapazes a conduzir são um bocado Sennas, daí que qualquer acidente tenha como resultado o encerramento, pura e simples, da estrada. Volta. 
PS: Após a saída da Croácia e a entrada na Bósnia uma das visões mais inquietante foi observar as placas da estrada a anunciar o nome das terras riscadas. Os croatas usam o alfabeto latino; os bósnios usam também o alfabeto cirilico. Fácil, pois, perceber quem riscou aquelas placas com letras para nós imperceptíveis.

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