Universidade de Coimbra – Alta e Sofia

Coimbra estará no imaginário de quase todos os portugueses. Não arrisco dizer que todos nós sentimos um carinho especial por esta cidade, capital de Portugal antes de Lisboa, mas arrisco dizer que aquela que até há poucas décadas foi a terceira cidade do país gera simpatia na maior parte dos portugueses. 

Não só pela universidade que formou historicamente a elite portuguesa, numa dialética muito particular e intensa com a cidade, mas também pelas históricas românticas de que foi palco. Pedro e Inês amaram-se aqui, na Quinta das Lágrimas; a Rainha Santa Isabel escolheu recolher-se para o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha após a morte de seu marido, D. Dinis, rei de Portugal. Este Mosteiro sofreu nos últimos séculos com a subida das águas do Mondego, outro elemento essencial na imagem de Coimbra, e neste milénio aparece com vida nova, após anos de restauro.
Para mim Coimbra sempre foi um ponto de passagem nas idas para a Aldeia das Dez, freguesia do distrito de Coimbra. Quando o caminho até lá durava horas intermináveis, sabia bem parar no Portugal dos Pequenitos, o qual não nos parecia assim tão pequeno. Habituei-me a ouvir falar de Coimbra como um centro de excelência no domínio da saúde, uma vez que no Portugal dos anos 80 (e ainda hoje) era aos seus hospitais que os habitantes da Serra tinham de se deslocar. Mas, sobretudo, Coimbra era (e é) a Académica, paixão do pai legada à filha, sem que todavia esta lá tivesse estudado ou jogado rugby. 
Em 2013, depois de muitos anos na expectativa, a Unesco classificou a “Universidade de Coimbra – Alta e Sofia” como Património Mundial da Humanidade.
Cidade média do Portugal de hoje (a sétima em população segundo o último censo), nem por isso é possível conhecer Coimbra num dia. Aproveitando a Corrida do Conhecimento (uma das Running Wonders) de há dois fins de semana, com partida na Universidade e chegada junto ao Mondego – da Alta à Baixa – fizemos o aquecimento no dia anterior e os alongamentos pós-corrida caminhando pela área agora reconhecida institucionalmente como possuindo um valor internacional de excelência. Como não podia deixar de ser, muito mais que merecia uma visita ficou de fora.

De quase qualquer ponto de Coimbra se avista destacada na paisagem a Torre da Universidade (construída entre 1728 e 1733). Ela surge por entre os edifícios das ruas medievais da cidade ou até da outra margem do Mondego.
A Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa, está situada na parte Alta da cidade, num monte debruçado sobre esta, como se fosse a sua guardiã. E para todos os efeitos é mesmo. Crê-se que a Universidade tenha sido fundada em 1290 e desde aí foram sendo criados toda uma série de edifícios e colégios a ela relacionados que se foram desenvolvendo ao longo dos séculos por toda a cidade. A Rua da Sofia, na Baixa da cidade, uma das mais míticas, era disso exemplo: colégios de um lado, comércio do outro. O planeamento desta Rua constituiu uma novidade na época mesmo em termos europeus, rompendo com o traço medieval e aqui instituindo 27 colégios, dos quais sete ainda se mantém. Na Igreja de Santa Cruz, onde está sepultado D. Afonso Henriques, tem a Rua da Sofia – sabedoria – o seu início.
Coimbra é desde então um exemplo excepcional de cidade universitária, com a sua cidade e universidade em plena comunhão. 

O Paço Real da Alcáçova, na Alta, que D. Afonso Henriques tornou primeiro paço real do país e onde habitou – aqui nasceram quase todos os reis da primeira dinastia -, é hoje o Paço das Escolas, já não centro do poder político, mas agora centro do poder do conhecimento. Desde 1537, data em que a universidade em Portugal passou a estar exclusivamente em Coimbra, este Paço é o centro da vida universitária. O espaço é belíssimo, piso bem desenhado, árvores aqui e ali, telhas que preenchem os edifícios do Paço formando um conjunto pictórico superior, onde o óbvio domínio do ocre é pincelado por um verde forte, estátua de D. João II de costas para o Mondego, mas de frente para a Torre da Universidade e para a Via Latina. A Via Latina é uma galeria com colunas à qual se acede por uma escadaria belíssima. Para além da entrada desta espécie de arco triangular, em que as esculturas dominam, fica a Sala dos Capelos, antes Sala do Trono. Não se pode imaginar maior solenidade decorativa para acolher os actos mais importantes da Universidade: rodeados de retratos dos reis de Portugal, quer os reitores que tomam posse ou iniciam o ano lectivo quer os estudantes que defendem as suas teses de doutoramento têm de se sujeitar a doses de simbolismo e tradição para prosseguir os rituais ancestrais da Universidade. 

Para além destas belezas, dentro do Paço fica ainda a Capela de São Miguel e seu órgão (coberto para restauro quando o visitámos) e a soberba Biblioteca Joanina. Este é o edifício que ninguém quer deixar de visitar, mesmo que para isso tenha que esperar horas pela entrada, a qual se faz em grupos limitados de indivíduos de 20 em 20 minutos.

A construção da Biblioteca Joanina teve início em 1717 por iniciativa de D. João V e originalmente era a livraria de estudo da Universidade. Na fachada domina o portal que faz as vezes de arco do triunfo, com o Escudo Real ao centro. Lá dentro são três andares (o mais baixo foi prisão académica), mas é o piso da Biblioteca, distribuído por três salas, que nos hipnotiza e deslumbra. As estantes da Biblioteca em madeira dourada preenchem todo o espaço, dividido por dois lanços de prateleiras separadas por um belo varandim. Os tectos rivalizam com as edições luxuosas e raras dos livros (cerca de duzentos mil, datados de entre os séculos XVI e XVIII) que são donos da Biblioteca. Eles e os seus amigos morcegos, que os protegem das traças que destroem as obras literárias.

A entrada do Paço das Escolas faz-se pela Porta Férrea, cujo portal é encimado pela figura da Sapiência, sendo ainda identificáveis na sua decoração imagens e símbolos ligados à Universidade e à realeza que contribuiu para o seu desenvolvimento. 

Cá fora a Universidade continua, mas agora os edifícios são já de outras épocas que não a medieval. É a cidade universitária da Reforma Pombalina do século XVIII e do Estado Novo dos anos 1940. Um dos aspectos que distinguem Coimbra como cidade universitária é a sua autenticidade mesmo se os seus edifícios mais distintos pertencem a diferentes épocas. A arquitectura de cada uma dessas épocas é representativa de cada um dos tempos, quer historicamente, artisticamente ou até ideologicamente, como é evidente nesta universidade mais recente. Com esta deu-se uma completa reorganização urbanística da zona alta da cidade, deixando-se as ruas estreitas rumo aos grandes espaços e edifícios modernistas, mas com influência do classicismo, acompanhados de estatutária representativa das ambições do período.
Até 1911 a Universidade de Coimbra foi a única de todo o mundo português colonial e ultramarino (após a sua instalação definitiva em 1537, colocando fim a anos de alternância entre Lisboa e Coimbra, e com excepção do período entre 1559 e 1759 em que existiu também a Universidade de Évora). Aliás, um dos critérios que levaram à sua distinção como Património Mundial da Humanidade foi o facto de a Universidade ter tido um papel determinante como centro de formação de uma elite dos territórios sob administração portuguesa e, com isso, ter sido um centro de produção de literatura e pensamento de língua portuguesa.
Por outro lado, para além do valor patrimonial do conjunto edificado, a Unesco realçou a Universidade de Coimbra como símbolo de uma cultura que produziu impacto na humanidade: a cultura e a língua portuguesa com dimensão mundial e capacidade de influenciar a humanidade. 
Da Coimbra Património da Humanidade faz ainda parte o Jardim Botânico, construído no tempo do Marquês de Pombal, o qual possui uma importância inestimável no domínio das ciências e património biológico. 

Do lado contrário ao Jardim Botânico e ao Aqueduto de São Sebastião (Arcos do Jardim) fica a Sé Velha, ainda na Alta e igualmente incluída no perímetro da classificação da Unesco. Edifício do século XII em estilo românico de tons amarelados, tem numa das suas laterais uma obra que parecendo estranha a uma primeira vista lhe acaba por assentar na perfeição. É a Porta Especiosa, construída no século XVI em estilo renascentista, em tom branco, obra escultórica atribuída a João de Ruão. 

No Museu de Machado de Castro (escultor régio conimbricence e nome maior da escultura portuguesa) encontramos muitas mais obras de qualidade ímpar, incluindo uns retábulos enormes também atribuídos a João de Ruão. Este Museu, a meio caminho do Convento de Jesus (hoje Sé Nova) e da Sé Velha, apesar de não estar incluído no perímetro da Unesco, é por si só uma verdadeira jóia, quer pela sua arquitectura, quer pelo espólio fantástico que acolhe. O complexo do Museu ocupa o espaço que pertencia ao Paço Episcopal de Coimbra e está assente sobre os vestígios arqueológicos da antiga cidade romana de Aeminium, (o percurso pelas galerias do Criptopórtico romano é todo um mundo aparte). Inaugurado em 1913, fechou para obras de requalificação e ampliação em 2006 e reabriu em 2012 com projecto do arquitecto Gonçalo Byrne premiado internacionalmente. O edifício novo que daqui surgiu está brilhantemente enquadrado com o antecedente e é ele que acolhe a superior colecção de escultura do Museu: até a Capela do Tesoureiro foi transladada para aqui. Mas não só de arqueologia e escultura trata este belíssimo Museu, um dos melhores do país: tem também obras de pintura, cerâmica, têxteis, mobiliário e ourivesaria. O acervo do Museu foi reunido de peças maioritariamente vindas de conventos, mosteiros, igrejas e colégios universitários da região de Coimbra. 

A vista da loggia do edifício antigo do Episcopado (e da nova esplanada da cafeteria e restaurante, igualmente projecto de Byrne) é uma das mais bonitas de toda a Coimbra, aberta à cidade velha e ao rio Mondego, juntando a este enquadramento cénico o ambiente inspirador dos arcos da passagem entre edifícios do Museu de Machado de Castro.

Voltando à Sé Velha, é essencial descer a Rua do Quebra Costas (para não ter de se subi-la e ficar a arfar), passando pelo Arco da Almedina e desembocando na Rua Ferreira Borges, centro da Baixa de Coimbra. Os últimos dois anos produziram uma verdadeira revolução no Quebra Costas e hoje esta zona declivosa está ocupada por lojas, restaurantes e bares para se beber e ouvir música (jazz e fado). A música é uma presença forte aqui e por toda a Coimbra. Sabe bem descer o Quebra Costas até à Almedina a ouvir Adriano Correia de Oliveira, não esquecendo que também Zeca Afonso por aqui passou.

Se Coimbra é uma lição, como diz o fado, Coimbra é também tradição e mais tradição. Muitos rituais de ontem mantém-se autênticos até hoje. Há os doutoramentos Honoris Causa, há a Abertura Solene das Aulas, há o cortejo da Latada e há os estudantes trajados, um símbolo da vida da cidade. Quando os turistas apanham um estudante vestido de capa e batina logo a curiosidade os faz cercarem-no, questionando sobre as cores, motivos, insígnias, tudo. 

E pelas ruas do centro, claro, não faltam as Repúblicas de estudantes, umas menos discretas na decoração exterior do que outras, a revelar a originalidade e criatividade dos seus habitantes. Outra constante pelas ruas estreitas da Alta, ao redor da Sé Velha, para além do ostensivo abandono do edificado, deixado a cair, é a inscrição de mensagens nas paredes: um activismo  feminista a um tempo, anti-praxe a outro. 

Apesar do adormecimento urbanístico da Coimbra velha, a massa crítica estudantil parece permanecer acordada e pronta a tomar posição na defesa dos valores que a move. Continuará Coimbra a influenciar a elite portuguesa?

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