Hospital Miguel Bombarda

O Hospital Miguel Bombarda ocupa um largo quarteirão da cidade de Lisboa junto ao Campo Mártires da Pátria, ainda hoje também conhecido como Campo de Santana. Hospital encerrado, zona nobre da capital, sinónimo de pressão imobiliária e muita especulação acerca do futuro destes terrenos. Virá a existir aqui um hotel de charme? Emergirá mais um condomínio? 

O Hospital Miguel Bombarda está classificado como imóvel de interesse público pelo que, aguentem-se, terão que negociar um pouco a bem da preservação do património cultural do nosso país.
Para lá dos muros do antigo Hospital existem duas jóias arquitectónicas que constituem exemplos bem originais. O Balneário D. Maria II e o Pavilhão de Segurança (Enfermaria n.º 8) são dois segredos bem guardados de Lisboa.



Antes, porém, dizer que o próprio edifício onde veio a ser fundado o primeiro hospital psiquiátrico de Portugal (Hospital de Rilhafoles), em 1848, também não é de desprezar. A antiga quinta e convento de Rilhafoles, construída no século XVIII, teve várias funções, foi convento de padres de São Vicente de Paula, foi lugar da Missão de Portugal da Companhia de Jesus, viu aí funcionar o Colégio Militar após a extinção das ordens religiosas até ser transformado pelo marechal Duque de Saldanha em hospital de doentes mentais, os alienados, como se dizia na época. O retrato do Duque de Saldanha é presença assídua ainda hoje nas poucas salas decoradas do edifício principal do Hospital. Uma delas, logo à entrada, mantém o seu retrato numa tela grande com um buraco de bala, uma das balas disparadas para assassinar o então director do Hospital, Dr. Miguel Bombarda, a 3 de Outubro de 1910, na antevéspera do regicídio que levou à implantação da República – diz-se que foi um dos doentes mentais a assinar Miguel Bombarda, mas há também quem defenda que o acto possui relação com o movimento anti-monárquico, uma vez que o médico lutava por ele. 

Neste edifício principal, de fachada neoclássica, temos ainda relativamente conservadas a sua elegante escadaria, a capela e o salão nobre e sua arte azulejar. À entrada podemos testemunhar uma fonte de arquitectura simples mas delicada, a lembrar aquela que os monges construíram no Buçaco.



Um dos pontos altos da visita ao Miguel Bombarda é o Balneário D. Maria II, onde foram em tempos experimentados banhos terapêuticos inovadores ao serviço dos doentes mentais. Construção oitocentista, inaugurada por D. Maria II em 1853, está por agora totalmente coberta com uma lona e preenchida com andaimes para escoramento do edifício. Se espreitarmos podemos constatar ao mesmo tempo a lástima que é o seu estado de degradação e o esplendor arquitectónico de que terá sido portador. Em estilo romântico, a elegância da obra é nos ainda assim passada, nomeadamente através da decoração esfuziante dos seus azulejos.


O outro ponto alto do antigo Hospital é o seu Pavilhão de Segurança, ou 8ª Enfermaria, este sim com a sua arquitectura totalmente preservada. Este Pavilhão de Segurança teve como arquitecto José Maria Nepomuceno que inovadoramente nos deixou o único exemplo do género no país e um dos poucos no mundo. Falo, concretamente, do estilo conhecido como Panóptico, donde de um determinado ponto se consegue observar todo o edifício (as mais das vezes penitenciárias) – “o olho que tudo via” -, neste caso um edifício circular cuja inauguração em 1896 viria a antecipar em algumas décadas os princípios da arquitectura modernista do início do século XX. 




O Pavilhão, uma enfermaria-prisão, um pouco afastado do edifício principal do Hospital, destinava-se ao acolhimento de reclusos com problemas mentais vindos da Penitenciária ou doentes considerados perigosos, os quais eram aqui totalmente vigiados. O edifício branco em betão de um piso é um círculo com pequenas divisões – dormitórios, lavabos, refeitórios e uma sala de reuniões – à volta de um pátio interior a céu aberto relvado. Esta arquitectura circular, com pequenas janelinhas rasgadas na fachada, parece simples mas não foi de fácil execução para a época. Assim como não foi fácil a solução do telheiro curvo circular em zinco que rodeia o pátio interior. Pormenores interessantes ao nível arquitectónico e social não faltam por aqui. Por exemplo, a ideia do pátio interior a céu aberto – onde os doentes podiam passar parte do seu dia – vinha ao encontro do que se entendia possibilitar uma melhoria do estado de saúde dos doentes mentais, para além de evitar a transmissão de doenças. Os bancos e os vãos das portas e janelas, todos os cantos do espaço enfim, por seu lado, são arredondados para evitar que os doentes mais agitados se pudessem ferir. Ou seja, esta arquitectura é uma arquitectura funcional.





Em 2000 o Pavilhão de Segurança foi desactivado e os últimos doentes foram saindo. Deste lugar considerado maldito que a administração dos novos psicofármacos veio substituir resta hoje a memória. O espaço foi convertido em museu em 2004 e na enfermaria-museu, para além de artefactos e documentos do foro, podemos visitar uma exposição de Arte Outsider, um conjunto de pinturas de autoria de doentes do hospital. 

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