Tresminas, Ouro em Terras de Aguiar

Se não fosse conselho amigo atirado para o ar por descendente de vizinha de Tresminas não me ocorreria uma visita ao lugar. Mas há tiros certeiros e assim se fica a conhecer lugares inesperados deste nosso mundo. Sim, mundo, porque Tresminas espera vir a ser distinguida como Património da Humanidade pela Unesco. Por enquanto prepara-se para subir à categoria de Monumento Nacional, o que não é pouca coisa.


Situado na Serra da Padrela, no limite este do concelho de Vila Pouca de Aguiar, o Complexo Mineiro Romano de Tresminas é um testemunho histórico, cultural e paisagístico. 

Só chegar a Tresminas vindo das Pedras Salgadas já é todo um programa. Subimos por uma estrada cheia de curvas e mais curvas, cotovelos apertados, pinheiros que carregam intensamente a vegetação. Damos enfim com a estrada principal e um planalto se nos abre. Mas a ruralidade volta a aparecer com pouca demora e os pastos verdejantes com vacas e espigueiros fazem parte da paisagem.

A visita ao Complexo Mineiro começa na aldeia de Tresminas, no seu Centro Interpretativo, um espaço museológico instalado num edifício bem recuperado e adaptado para o efeito que foi a antiga casa paroquial. Aqui é nos dado o enquadramento histórico e arqueológico da área mineira que os romanos entenderam explorar durante os séculos I a III. Nessa essa época, que terá durado cerca de 250 anos, esta foi uma das mais importantes explorações de ouro de todo o Império Romano. A actividade mineira girava à volta da extracção do ouro, sim, mas também da prata e do chumbo.

Feita a introdução histórica, onde vemos alguns vídeos, maquetes, artefactos e ficamos a saber que o ouro aqui extraído terá servido exclusivamente para a cunhagem de moeda, continuamos a nossa visita – sempre acompanhados pela guia do Centro – e saímos para o exterior, uns dois quilómetros afastados da aldeia, para a visita às cortas e à galeria subterrânea.


O curioso desta exploração mineira romana é que era efectuada a céu aberto através do sistema de cortas. Explicando melhor, os vales com configuração de desfiladeiros que hoje vemos na paisagem mais não são do que alterações a essa mesma paisagem provocadas pelo Homem, precisamente cortes nos montes e nas rochas (os veios xistosos) efectuados pelos romanos através dos quais iam extraindo os minérios. 






Existem diversos pontos altos – miradouros – donde podemos observar de forma privilegiada estas cortas, ou seja, estes locais de exploração de minério. 
São elas a Corta de Covas (com 450 metros de comprimento, 120 de largura e 90 de altura), a Corta da Ribeirinha (com 370 metros de comprimento, 160 de largura e 100 de altura) e a Corta de Lagoinhos (com 60 metros de comprimento, 4 de largura e 12 de altura).


Esta exploração estava, porém, também associada a um sistema de galerias e poços subterrâneos que foram escavados na sequência de trabalhos arqueológicos e podem hoje ser visitados. Uma das galerias que visitamos é agora morada de um sem número de espécies de morcegos, pelo que aqui ao interesse pelo património histórico e arqueológico acresce ainda o interesse pela fauna e habitats naturais.


Esta é uma região de granito, mas aqui é o xisto que predomina. E a urze (incrível constatar as parecenças com a distante mas para mim familiar Serra do Açor). Lugar ainda para uma centenária “Silha de Urso”, uma fortaleza de pedra circular do século XVII que servia para proteger a produção do mel do ataque dos ursos, a qual se avista ao longe.


Nos poucos séculos que os romanos aqui estiveram a explorar o ouro trouxeram os seus técnicos especialistas e das aldeias vizinhas vinham os trabalhadores. 
A água possuía uma importância fulcral para que o sistema funcionasse. O rio Tinhela, que hoje em rápida visita não damos por ele, era decisivo para o abastecimento do complexo e os romanos construíram uma rede de canais e até uma barragem para o alimentar. 

Mas o ouro e o restante minério demoravam a ser transportados até ao centro do império e quando os romanos encontraram alternativas de extração mais próximas, nomeadamente no que é hoje a Roménia, abandonaram Tresminas.

Durante 18 séculos este património permaneceu escondido e desconhecido. Até que nos anos 50 do século passado se entendeu ir em busca de alternativas às minas de Jales (donde se extraiu ouro até aos anos 1990) e se deu com as vizinhas minas de Tresminas. Bem preservadas, protegidas pela natureza, a pouco e pouco foi-se percebendo que as explicações que os locais utilizavam para caracterizar o terreno não encontravam eco apenas em lendas e mitos.

Foi, porém, apenas na década de 1980 que as escavações arqueológicas em Tresminas se intensificaram graças a um casal de arqueólogos alemães.

Referir ainda que o topónimo Tresminas nada terá a ver com a ideia de “três minas”, antes derivará do nome medieval “Tresmires”. De qualquer forma, tudo por aqui é inspirador, remotamente inspirador, e convida a que se volte em busca de muito mais surpresas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s