Monção

Monção, juntamente com Melgaço (e outras regiões da Galiza, para lá da fronteira), é conhecida como a terra do Alvarinho, o mais apreciado vinho verde português. Não surpreende, pois, que à aproximação de Monção vindos de Arcos de Valdevez sejam muitas as quintas vinícolas que desfilam no caminho.

A uns 6 quilómetros da entrada na vila é fácil perdermos uma das mais distintas casas senhoriais do país. É o Palácio da Brejoeira, enorme propriedade privada para lá dos muros que dão para a Estrada Nacional 101. Classificado como Monumento Nacional e exemplo de arquitectura residencial neoclássica e neobarroca do início do século XIX, a sua imensa fachada destaca-se de imediato. Mas apesar das visitas públicas que se fazem desde há uns anos, é a sua tradição na produção do vinho da casta Alvarinho que faz a sua fama. Quase metade da área do Palácio e Quinta está plantada com vinha exclusivamente Alvarinho.

Monção não partilha apenas esta casta com a Galiza. O Rio Minho divide as duas províncias, mas a comunhão entre elas é evidente. A dado passo, passeando pela fortaleza junto ao rio, damos com uma quadra do poeta local João Verde, publicada em 1902:

“Vendo-os assim tão pertinho

A Galiza mail’ o Minho

São como dois namorados

Que o rio traz separados

Quasi desde o nascimento

Deixai-os, pois, namorar

Já que os pais para casar

Lhes não dão consentimento”

A Galiza e Espanha ficam no outro lado, ali bem juntinho, depois de uma estreita largura de água azul e uma imensidão de arvoredo verde. Esta foi a primeira de muitas paisagens de tirar o fôlego com que nos deparámos.

Gozando de uma posição geográfica estratégica, Monção foi fundada por Afonso III. Ainda que não seja certo, crê-se que muito antes os gregos lhe tenham dado o nome de Orosion, ou Monte Santo. Daí o nome evoluiu até Monzon e, finalmente, Monção.

O castelo da povoação construído por D. Dinis em 1306 desempenhou um papel importante nas guerras com Castela, mas o castelo original acabaria por se transformar no século XVII na fortaleza poligonal que resiste até hoje. Com uns pontos melhor conservados do que outros, vemos baluartes e muralhas e as portas medievais de acesso ao antigo burgo.

Ruas estreitas entrecruzam-se desalinhadas. Muitos edifícios estão degradados e pressente-se o abandono do centro histórico. Mas muitos outros ali continuam, alguns deles ostentando orgulhosos o brasão das suas famílias ancestrais. A Igreja Matriz surge discreta encaixada nas ruelas, mas não se furta na apresentação do seu elegante pórtico.

Monção é ainda terra de lendas e tradições.

É impossível não nos deliciarmos com a lenda de Deu-La-Deu, a mulher que venceu um cerco castelhano a Monção durante as guerras fernandinas com uma acção simples mas astuta. A sua vila cercada vivia momentos de fome, mas a então mulher do alcaide local atirou aos espanhóis os últimos pães que restavam, levando-os a recuar, criando neles a ideia de que Monção tinha provisões suficientes para continuar a resistir por muito mais. Deuladeu Martins é hoje símbolo de Monção e a sua imagem de meio corpo em cima de uma torre com um pão em cada uma das mãos é parte das armas da vila. Também João Cutileiro se deixou seduzir pela história e criou uma escultura para a imortalizar, onde vemos a marca inconfundível do artista.

Na Praça Deu-La-Deu fica um chafariz encimado por uma outra figura de mulher lendária de Monção. Danaide viveu também tempos de guerra com Espanha e viu o seu marido sair para se juntar à defesa de Portugal. Quando voltou soube que Danaide o havia traído e decidiu que só a perdoaria quando ela terminasse de peneirar toda a água do Rio Minho. Tarefa impossível, já se vê, Danaide nunca conseguiu o perdão do seu marido, mas ficou imortalizada na estátua do tal chafariz da praça principal de Monção, segurando a peneira numa das suas mãos.

E Monção é ainda sinónimo de Festa da Coca. Esta tradição popular que já vem desde o século XVI é celebrada todos os anos no dia de Corpo de Deus e representa a luta do bem contra o mal. São Jorge, o cavaleiro, contra a Coca, o dragão. Acaba sempre com São Jorge a cortar uma das orelhas à Coca e a ganhar o duelo. A palavra “coca”, no Minho, é sinónimo de maldade. Tendo chegado dois dias depois do feriado de Corpo de Deus, apenas pudemos testemunhar os restos da festa que decorre no antigo terreiro de Monção, hoje Praça Deu-La-Deu, vendo ainda a vila engalanada em tons de vermelho e verde para comemorar esta tradição que mescla o religioso com o pagão.

Saindo de Monção em direcção a Valença, desviamos até Lapela à beira do rio. Aqui fica a Torre da Lapela, intitulada “Sentinela do Minho”, antiga torre de menagem de um castelo medieval provavelmente mandado construir por D. Afonso Henriques, o que fará dele contemporâneo da formação de Portugal.

Esta torre ergue-se num pequeno penhasco e a povoação de Lapela cerca-a, num ambiente rural onde uns espigueiros parecem quase desempenhar a função de porta de entrada deste monumento e umas galinhas cacarejam quebrando o silêncio profundo do lugar. Do alto da Torre alcançamos uma vista esmagadora. O rio Minho divide os dois países sob uma intensa vegetação e cá do alto refletimos que custa a crer que alguma vez tivesse existido a necessidade de se invadir o que quer que fosse, como se esta imensidão de pacatez e serenidade merecesse alguma vez ter sido perturbada e não devesse ser por todos fruída.

Após o final das Guerras da Restauração da Independência a maioria das estruturas militares da raia portuguesa ficaram degradas e tornaram-se obsoletas. O antigo Castelo de Lapela foi um dos que ficou em muito mau estado e, por decisão de D. João V, em 1706 começou a ser demolido e a sua pedra foi reaproveitada para a construção da fortaleza da vizinha Monção. A Torre de Menagem foi a única estrutura que chegou aos nossos dias e a sua visita é obrigatória para a compreensão não apenas da história de Portugal, mas sobretudo para se conhecer um dos locais mais sublimes do nosso país.

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