Os Passadiços da Barrinha / Lagoa de Paramos

“Estava na carreira de tiro de Esmoriz. Não via o mar, mas sentia-o no peito dilatado. Perto de mim uma mouta de pinheiros novos; e as agulhas escorriam molhadas de fresco. Uma nora, um choupo. Ao longe barracas de madeira agrupadas – Páramos. Uma gaivota pairando sôbre um charco… Para o outro lado campos lavradios com milho rasteiro que sabe a ar salgado, casas de lavradores perdidas entre as sebes, de telhados muito baixos onde secam abóboras amarelas.”

Raul Brandão, Os Pescadores

Conhecidos por ambos os nomes, Passadiços da Barrinha ou Passadiços da Lagoa de Paramos, este pedaço de natureza em Esmoriz passou a estar desde 2017 no mapa das caminhadas.

É um percurso circular de 8 kms à volta de uma laguna com vista para o mar. Podemos percorre-lo a pé ou de bicicleta. Optámos pelas duas rodas, tomando o comboio Lisboa – Espinho e daqui pedalando os menos de 5 kms sempre junto ao Atlântico (não perder a imagem dos estendais no paredão da Praia dos Pescadores, talvez mais junto à areia do que às casas) até ao início dos novos passadiços junto à Praia da Barrinha.

Para a requalificação desta zona lagunar foi preciso esperar décadas pela eliminação da poluição vinda das fábricas das redondezas que aqui descarregavam, valorizando-se um lugar de claro interesse ambiental e beleza. A instalação dos caminhos de madeira que hoje proporcionam o usufruto deste espaço natural por parte de todos nós teve como preocupação a preservação do ecosistema, o qual não é perturbado nem pelos postos de observação de aves, nem pelo mobiliário urbano que vamos encontrando amiúde.

Esta é a maior zona lagunar do norte de Portugal, com 396 hectares. Dunas de um lado, canaviais do outro, água pelo meio. Nos céus, muitas aves. O passeio é feito quase sempre sob o canto dos pássaros, mas infelizmente por vezes esse canto é perturbado pelo zumbido irritante dos motores dos parapentes e avionetas que levantam voo do aeródromo vizinho.

O percurso é sempre plano, fácil portanto. Umas vezes aberto à paisagem, outras envolto na vegetação, com arvoredo de um lado e canavial do outro. Passamos por uma casinha rústica com um barquinho à porta num cais improvisado e, mais adiante, por vivendas com vista para a laguna.

A biodiversidade do lugar é grande e levou à sua classificação como Sitio de Importância Comunitária e integrada na Rede Natura 2000. Entre a fauna característica pode observar-se o pato, garça-real, lagostim vermelho, rouxinol bravo, lampreia-de-riacho, rãs, enguias, ginetas ou morcegos.

São muitos os pontos para se tirar belas fotos, mas a imagem mais icónica da laguna é a da ponte norte-sul de madeira em arco. Sobre ela temos uma vista quase completa de todo o percurso ciclável e sobretudo para o canal que rompe as dunas para ligar a água da laguna à do mar, a água doce à salgada – daí o termo “laguna” ser mais correcto do que “lagoa”. No lugar desta ponte havia uma outra, construída em 1854, que originalmente ligava as margens da Barrinha e à qual Júlio Dinis fez referência na sua obra “O Canto da Sereia”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s