Na Ria de Aveiro pelos trilhos da Murtosa

“A laguna (…) iria formar um acidente único, sem parceiro na Península. Tudo isto se passou nos tempos da formação da nacionalidade. Podemos dizer com orgulho que a Ria de Aveiro e Portugal se formaram ao mesmo tempo. Nasceram simultaneamente por alturas do século XII e poderíamos dizer, fantasiando um pouco, que, enquanto os nossos primeiros Reis e os seus homens iam dilatando as terras peninsulares, a Mãe-Natura ia conquistando ao mar esta jóia prodigiosa que generosamente viria ofertar às nossas terras alavarienses”

Orlando Ribeiro, Origens da Ria de Aveiro

Da Praia de Esmoriz seguimos até à Murtosa. Passámos pelas praias e povoações da Cortegaça e Furadouro (uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão) ambas, a par da Torreira, com características semelhantes: uma larga avenida que vai dar até ao mar ladeada com edifícios de todo o género. Um ou dois pisos, com ou sem azulejos, varandas ou varadins, uns em art nouveau, outros modernistas, outros até contemporâneos. Uma amálgama total não apenas de épocas construtivas, mas sobretudo de gostos.

Até se chegar ao Canal de Ovar, já a cheirar a Ria de Aveiro, a Cicloria leva-nos a pedalar uma vintena de quilómetros por uma estrada no meio do pinhal, afastada do mar. Não sentimos o odor a maresia, mas o cheiro dos pinheiros não lhe fica atrás em sentimento. Chegados ao dito Canal de Ovar a água passa a acompanhar-nos à esquerda e na estrada chamam-nos a atenção os barquinhos típicos aí atracados e as bancas com as senhoras a vender fruta e legumes. Por ocasião da povoação Quintas do Norte atravessamos a ponte construída estrategicamente no ponto mais curto da Ria e iniciamos finalmente o passeio planeado pelos trilhos da Ria na Murtosa.

O projecto Murtosa Ciclável aproveitou caminhos rurais e ribeirinhos que já existiam e é por eles que seguimos a pedalar partindo à descoberta do coração da Ria. A Ria que Raul Brandão dizia ser “lago e mar ao mesmo tempo”.

A Ria de Aveiro é um acidente geográfico ocorrido há cerca de 1000 anos que resultou do recuo do mar, estendendo-se por cerca de 45 kms desde Ovar a Mira. Aqui desaguam os rios Vouga, Antuã, Boco e Fontão. Em 1808 foi aberto um canal artificial entre as povoações da Barra e de São Jacinto de forma a que a Ria comunicasse com o mar. E é esta ligação estreita, com a inevitável junção das águas, que faz deste espaço um habitat natural riquíssimo, um dos mais importantes ecossistemas húmidos da Europa, com uma enorme diversidade de flora e fauna no estuário e na laguna.

A natureza e as paisagens são grandiosas. De uma serenidade tocante. Os flamingos com as suas elegantes patas assustam-se, sem razão, à nossa passagem e logo abrem e fecham as suas asas vigorosamente, pintalgando de rosa o cenário com fundo azul. Esta foi a primeira imagem que nos tocou ao iniciar o trilho da Bestida e não mais a esqueceremos. Adoptámos os flamingos como mascotes do nosso passeio e sempre que os víamos parávamos e deixávamo-nos estar a contemplá-los em silêncio, para não voltar a perturbá-los.

Mais adiante, a Ria não apenas como espaço natural mas também como espaço de lazer. Uns barcos atracados no cais, outros soltos numa pequena enseada de areia e um papagaio no ar a puxar um homem sobre uma prancha. Estas águas acompanhadas do vento local são ideais para o kitesurf, entre muitos outros desportos náuticos.

Não temos um barco e por isso continuamos a pedalar, agora por um trilho ladeado por canas de feno e milho. Os terrenos da Ria são férteis e em tempos viam-se muitas terras cultivadas não apenas com milho, mas também trigo, feijão, chicória, couves e outras. Inclusivamente, algumas das ilhas da Ria eram usadas para a criação de gado e produção de sal. Hoje já nada disso se passa e é mais fácil ver uma ilha à venda do que gente a trabalhar a terra.

A Ribeira de Pardelhas é um dos lugares mais bonitos deste percurso. Deixamos de seguir junto à Ria por breves 2 kms para trocá-la pela Ribeira onde uns antigos armazéns deram lugar ao Centro de Educação Ambiental e à Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro – com os incontornáveis barcos típicos atracados no cais -, para além de um parque de merendas e de um bar.

Já de volta à beira da Ria, a paragem seguinte é no Cais do Bico, o maior e o mais frequentado da Murtosa, uma vez que é também o mais acessível. Tem até uma praia de areia. Este foi em tempos um lugar de descarga de moliço, sal e materiais de construção, e até chegou a funcionar aqui um estaleiro naval. Nos dias de hoje continua a ser um lugar de poiso e apoio da comunidade piscatória local, mas agora num espaço modernizado.

Não muito distante encontramos novo cais, a Cova do Chegado.

Continuamos a pedalar até ao Cais da Cambeia e daí em diante entramos numa zona de esteiro, cheia de braços estreitos com vegetação rasteira na água. Não muito longe desta zona desagua o Rio Antuã.

Uns curtos passadiços levam-nos ao último cais do passeio, o Cais da Ribeira Nova. A natureza continua a imperar, mas vai sendo deixada para trás à medida que seguimos até ao centro da Murtosa onde fazemos a última paragem antes do término da jornada na Torreira. Da ponte de Varela até ao Cais da Ribeira Nova são à volta de belos 17 kms.

O Museu Municipal da Comur está instalado na antiga fábrica conserveira que marcou toda uma vida da comunidade local e impulsionou a economia da região. Foram as características específicas da Murtosa e da Ria que deram origem a esta fábrica, a Fábrica de Conservas da Murtosa, criada em 1942, mas foi sobretudo o período da II Grande Guerra Mundial, onde a procura por alimentos era imensa, o grande impulsionador do negócio. No museu aprendemos sobre todo o processo conserveiro, desde a chegada do peixe até à expedição das conservas. São diversas espécies de peixe, como a enguia – a imagem de marca da Comur -, mas também berbigão, mexilhão, carapau, tainha, carpa, truta, polvo, choco, lula, bacalhau e atum. Numa época como a de hoje em que o turismo – interno e externo – trouxe de volta antigas formas de saber-fazer e a (re)comercialização de produtos que pareciam esquecidos, é possível adquirir as coloridas latinhas de conservas da Comur em muitas lojas de conservas, incluindo no Museu da Comur e no centro de Aveiro.

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