Os Passadiços de Esgueira

“A alma desta terra é na realidade a sua água. A ria, como o Nilo, é quási uma divindade. Só ela gera e produz.” – Raul Brandão, Os Pescadores

Acordámos na Torreira e pedalámos até São Jacinto, sempre junto ao amanhecer dormente da Ria, com os flamingos ainda a espreguiçarem-se. Como pedalar nas dunas não é para meninas, de São Jacinto retivemos apenas uma espreitadela à sua praia e logo apanhámos o barco até à Gafanha para daí pedalarmos até Aveiro.

Após um breve almoço num dos restaurantes do colorido Canal da Praça do Peixe partimos do Cais de São Roque rumo ao Cais de Esgueira, a menos de 2 quilómetros, ponto inicial oficial dos novos Passadiços de Aveiro. Estes passadiços, mais conhecidos pelos Passadiços de Esgueira, foram inaugurados no Verão de 2018 e são sete quilómetros lineares quase sempre sobre estacas de madeira assentes sobre a Ria até Vilarinho de Cacia.

A paisagem é sempre fenomenal, uma natureza em estado bruto feita de canais, esteiros, charcos, sapal, zonas tão baixas que as mais das vezes os barcos atracados não flutuam, antes estão enterrados na Ria, talvez para a melhor sentir, como que dizendo “este pedaço de paraíso é nosso”.

O percurso é muito fácil e extremamente prazeroso. No caminho temos bancos para descansar ou fazer um piquenique. E por vezes saímos da madeira para pisar a terra adentro na floresta. Mas logo voltamos para bem perto da Ria.

O final destes passadiços, enquanto não forem ligados aos trilhos do concelho de Estarreja, acontece no cais de Vilarinho. Apesar do estaleiro de obras montado por altura da nossa passagem, este é um lugar incrivelmente tranquilo e é aqui que o rio Vouga desagua na Ria. É curioso pensar que há pouco mais de 1000 anos a Ria de Aveiro não existia e os rios desaguavam então directamente no mar, ao invés de primeiro se recrearem neste cordão lagunar paralelo à costa.

Retornando o caminho, repetimos as vistas mas tudo parece sempre novo e a beleza não cansa nunca.

Os barcos que aqui repousam são um espectáculo à parte, compondo de forma perfeita o cenário. Nesta foto vemos inscrita na madeira a expressão “andar à rola” e muitas outras nos aparecem no caminho, para que à experiência pela natureza se junte também umas pitadas da cultura regional.

Mas a natureza, mais especificamente a sua biodiversidade, é a grande protagonista. São dezenas de milhar as aves migratórias que para aqui vêm nidificar, fazendo deste um lugar privilegiado para se observar aves. Deviam estar escondidas à nossa passagem, mas já estávamos de barrigudinha cheia com tanta beleza.

No entanto, de volta ao centro de Aveiro ainda lá cabiam mais uns doces de ovos moles e uma tripa, para repor devidamente as energias dos 136 quilómetros em dois dias a pedalar de bicicleta entre Espinho e Aveiro.

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