Sibiu, a cidade com olhos

Sibiu foi a mais bonita das cidades romenas que visitei. A Capital Europeia da Cultura de 2007 é apaixonante e qualquer apreciador de urbes com praças monumentais, edifícios coloridos e ruas de pedra ficará por ela arrebatado.

E, depois, Sibiu tem uma característica especial: em que outra cidade nos sentimos vigiados e não nos incomodamos com isso? Começo por aqui, pelos olhos de Sibiu. Podem ser dois, cinco ou infinitos os olhos que saem dos telhados das casas de Sibiu, olhar para nós de forma directa ou de esguelha, mas estão sempre lá, atentos. Não é a Transilvânia uma terra de lendas e ficções? Pois deixemos que a imaginação flua e vejamos nestes olhos algo mais do que a sua original função, a de janelas nos telhados dos sótãos que serviam de ventilação à carne, queijo e grão que aí eram armazenados sem que a luz solar neles incidisse em demasia.

Sibiu foi fundada pelos colonos saxões em 1191 e desde logo se tornou uma das mais importantes cidades da Transilvânia. As 19 guildas que chegou a acolher atestam bem o seu desenvolvimento económico e como era procurada pelos mercadores. Alemães, húngaros e romenos sempre partilharam a cidade, que ainda hoje possui uma pequena comunidade de descendentes de alemães, os saxões, donde provém Klaus Johannis, o actual presidente romeno. Compositores como Strauss, Brahms e Liszt tocaram na cidade no século XIX. E a importância de Sibiu revela-se ainda no facto de ter sido pioneira na região da Transilvânia ou até da Roménia em muitos aspectos. Esta foi a primeira cidade electrificada do país, em 1897, e foi aqui que abriu a primeira farmácia também do país, em 1494. E Sibiu foi ainda o lugar da primeira tipografia da Transilvânia, em 1525, e o lugar do primeiro museu da Transilvânia, aberto ao público em 1817 no Palácio de Brukenthal.

Para além dos olhos e do pioneirismo, Sibiu possui ainda outra característica curiosa, a de desenvolver-se em dois níveis, desdobrando-se assim na cidade baixa e na cidade alta, uma a 419 e a outra a 431 metros de altitude. A baixa foi onde a ideia de cidade começou e a alta era uma fortificação que acabou por se expandir e ser incorporada na urbe. Ambas possuíam muros ao seu redor e estavam ligadas por torres e bastiões. Hoje, passagens estreitas e escadarias ligam-nas. A Sibiu mais monumental é a cidade alta, onde historicamente os saxões mais abastados viviam, deixando a cidade baixa para os camponeses nas casas mais pequenas e coloridas. Não podemos deixar de caminhar por estas ruas, descobrindo vestígios da antiga fortificação.

No Parque da Cidadela, no flanco sul da cidade, encontramos também bem visíveis os muros da antiga Sibiu. Num espaço verde aprazível e bem gizado, algumas das antigas torres e bastiões seguem levantados. Outra das curiosidades de Sibiu é que a cada torre correspondia uma guilda da antiga cidade medieval. Assim, para além da função de protecção, cada uma delas estava ligada a um tipo de actividade comercial diferente.

Se as torres pertencentes à fortificação da antiga cidadela possuíam – e possuem – um carácter marcadamente militar, as torres intra-muros da cidade alta de Sibiu que pululam um pouco por toda a parte são mais distintas e delicadas. Refiro-me, claro, às torres das igrejas e à Turnul Sfatului (Torre do Concelho), lugares privilegiados para uma panorâmica belíssima de Sibiu. As fotografias seguintes foram captadas, a primeira, da torre da Igreja Luterana, e as outras da Turnul Sfatului.

A Turnul Sfatului é uma das imagens de Sibiu e serve de passagem para ligar a Piata Mare à Piata Mica, literalmente, a Praça Grande à Praça Pequena. O termo “pequena” é completamente enganador, uma vez que ambas as praças são enormes. Estas são as tais praças monumentais que arrebatam mesmo qualquer ser desprovido de emoções. Só para as ver, só para nelas estar, já merece a pena a viagem até Sibiu. De forma irregular, acompanham-nas uma série de belos edifícios. São, enfim, duas praças abertas aos sentidos.

Este é desde há muito o coração de Sibiu e tudo aqui está cuidado com extremo bom gosto, criando uma perfeita atmosfera medieval em pleno século XXI.

Nestas duas praças existe uma série de restaurantes e cafés, com esplanadas inspiradoras. Sempre foram e são ainda espaços privilegiados para acolher eventos e festividades. Por altura da minha visita a Piata Mica estava ocupada com bancas de artesanato e a Piata Mare tinha um palco para algum concerto.

E em ambas as praças temos uma série de outros edifícios e estruturas, para além da já citada Turnul Sfatului, a que vale a pena dedicar não só o nosso olhar como também o nosso tempo. A Ponte das Mentiras, na Piata Mica, é ideal para se perceber o desnível entre a cidade baixa e a cidade alta. Este é um dos pontos mais populares de Sibiu e conta a lenda que esta ponte tem ouvidos e percebe quem dos que a atravessam é mentiroso, rangendo à sua passagem.

O Palácio Brukenthal, onde está instalado o tal primeiro museu da Transilvânia, é outro dos lugares de visita obrigatória, agora na Piata Mare. Construído para o Barão Samuel von Brukenthal, governador da Transilvânia no século XVIII, este edifício de arquitectura barroca tem um jardim interior tranquilo e salas de exposição de arte europeia e romena. Mas vale, sobretudo, pela sua arquitectura interior e pelo mobiliário palaciano exposto.

E da Piata Mare sai (ou entra, conforme a perspectiva) a Strada Nicolae Balcescu, a rua pedonal por excelência da cidade. Os edifícios que a ladeiam possuem motivos decorativos bastantes para nos continuar a entreter para além da magnificência das praças anteriores.

Umas palavras mais para uma obrigatória visita à Igreja Ortodoxa, com o exterior em estilo bizantino inspirado na Hagia Sofia de Istambul e o interior com uns frescos celestes, e para voltar à Catedral Luterana, da qual já vimos o panorama desde a sua torre. Em estilo gótico, esta construção do século XIV é altiva e a sua torre com 73 metros domina os céus de Sibiu. As quatro pequenas torres à sua volta eram um sinal para os visitantes de outros tempos de que a cidade possuía o direito de condenar à morte os criminosos. É tão grande esta Catedral que o terreiro à sua frente parece exíguo. As casas que a rodeiam são, como não podia deixar de ser, também bem antigas e algumas encontram-se em restauro.

Em épocas festivas, por aqui instala-se uma feira e, por fim, descobrimos por onde andam os roma da Roménia.

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