Sibiu, a cidade com olhos

Sibiu foi a mais bonita das cidades romenas que visitei. A Capital Europeia da Cultura de 2007 é apaixonante e qualquer apreciador de urbes com praças monumentais, edifícios coloridos e ruas de pedra ficará por ela arrebatado.

E, depois, Sibiu tem uma característica especial: em que outra cidade nos sentimos vigiados e não nos incomodamos com isso? Começo por aqui, pelos olhos de Sibiu. Podem ser dois, cinco ou infinitos os olhos que saem dos telhados das casas de Sibiu, olhar para nós de forma directa ou de esguelha, mas estão sempre lá, atentos. Não é a Transilvânia uma terra de lendas e ficções? Pois deixemos que a imaginação flua e vejamos nestes olhos algo mais do que a sua original função, a de janelas nos telhados dos sótãos que serviam de ventilação à carne, queijo e grão que aí eram armazenados sem que a luz solar neles incidisse em demasia.

Sibiu foi fundada pelos colonos saxões em 1191 e desde logo se tornou uma das mais importantes cidades da Transilvânia. As 19 guildas que chegou a acolher atestam bem o seu desenvolvimento económico e como era procurada pelos mercadores. Alemães, húngaros e romenos sempre partilharam a cidade, que ainda hoje possui uma pequena comunidade de descendentes de alemães, os saxões, donde provém Klaus Johannis, o actual presidente romeno. Compositores como Strauss, Brahms e Liszt tocaram na cidade no século XIX. E a importância de Sibiu revela-se ainda no facto de ter sido pioneira na região da Transilvânia ou até da Roménia em muitos aspectos. Esta foi a primeira cidade electrificada do país, em 1897, e foi aqui que abriu a primeira farmácia também do país, em 1494. E Sibiu foi ainda o lugar da primeira tipografia da Transilvânia, em 1525, e o lugar do primeiro museu da Transilvânia, aberto ao público em 1817 no Palácio de Brukenthal.

Para além dos olhos e do pioneirismo, Sibiu possui ainda outra característica curiosa, a de desenvolver-se em dois níveis, desdobrando-se assim na cidade baixa e na cidade alta, uma a 419 e a outra a 431 metros de altitude. A baixa foi onde a ideia de cidade começou e a alta era uma fortificação que acabou por se expandir e ser incorporada na urbe. Ambas possuíam muros ao seu redor e estavam ligadas por torres e bastiões. Hoje, passagens estreitas e escadarias ligam-nas. A Sibiu mais monumental é a cidade alta, onde historicamente os saxões mais abastados viviam, deixando a cidade baixa para os camponeses nas casas mais pequenas e coloridas. Não podemos deixar de caminhar por estas ruas, descobrindo vestígios da antiga fortificação.

No Parque da Cidadela, no flanco sul da cidade, encontramos também bem visíveis os muros da antiga Sibiu. Num espaço verde aprazível e bem gizado, algumas das antigas torres e bastiões seguem levantados. Outra das curiosidades de Sibiu é que a cada torre correspondia uma guilda da antiga cidade medieval. Assim, para além da função de protecção, cada uma delas estava ligada a um tipo de actividade comercial diferente.

Se as torres pertencentes à fortificação da antiga cidadela possuíam – e possuem – um carácter marcadamente militar, as torres intra-muros da cidade alta de Sibiu que pululam um pouco por toda a parte são mais distintas e delicadas. Refiro-me, claro, às torres das igrejas e à Turnul Sfatului (Torre do Concelho), lugares privilegiados para uma panorâmica belíssima de Sibiu. As fotografias seguintes foram captadas, a primeira, da torre da Igreja Luterana, e as outras da Turnul Sfatului.

A Turnul Sfatului é uma das imagens de Sibiu e serve de passagem para ligar a Piata Mare à Piata Mica, literalmente, a Praça Grande à Praça Pequena. O termo “pequena” é completamente enganador, uma vez que ambas as praças são enormes. Estas são as tais praças monumentais que arrebatam mesmo qualquer ser desprovido de emoções. Só para as ver, só para nelas estar, já merece a pena a viagem até Sibiu. De forma irregular, acompanham-nas uma série de belos edifícios. São, enfim, duas praças abertas aos sentidos.

Este é desde há muito o coração de Sibiu e tudo aqui está cuidado com extremo bom gosto, criando uma perfeita atmosfera medieval em pleno século XXI.

Nestas duas praças existe uma série de restaurantes e cafés, com esplanadas inspiradoras. Sempre foram e são ainda espaços privilegiados para acolher eventos e festividades. Por altura da minha visita a Piata Mica estava ocupada com bancas de artesanato e a Piata Mare tinha um palco para algum concerto.

E em ambas as praças temos uma série de outros edifícios e estruturas, para além da já citada Turnul Sfatului, a que vale a pena dedicar não só o nosso olhar como também o nosso tempo. A Ponte das Mentiras, na Piata Mica, é ideal para se perceber o desnível entre a cidade baixa e a cidade alta. Este é um dos pontos mais populares de Sibiu e conta a lenda que esta ponte tem ouvidos e percebe quem dos que a atravessam é mentiroso, rangendo à sua passagem.

O Palácio Brukenthal, onde está instalado o tal primeiro museu da Transilvânia, é outro dos lugares de visita obrigatória, agora na Piata Mare. Construído para o Barão Samuel von Brukenthal, governador da Transilvânia no século XVIII, este edifício de arquitectura barroca tem um jardim interior tranquilo e salas de exposição de arte europeia e romena. Mas vale, sobretudo, pela sua arquitectura interior e pelo mobiliário palaciano exposto.

E da Piata Mare sai (ou entra, conforme a perspectiva) a Strada Nicolae Balcescu, a rua pedonal por excelência da cidade. Os edifícios que a ladeiam possuem motivos decorativos bastantes para nos continuar a entreter para além da magnificência das praças anteriores.

Umas palavras mais para uma obrigatória visita à Igreja Ortodoxa, com o exterior em estilo bizantino inspirado na Hagia Sofia de Istambul e o interior com uns frescos celestes, e para voltar à Catedral Luterana, da qual já vimos o panorama desde a sua torre. Em estilo gótico, esta construção do século XIV é altiva e a sua torre com 73 metros domina os céus de Sibiu. As quatro pequenas torres à sua volta eram um sinal para os visitantes de outros tempos de que a cidade possuía o direito de condenar à morte os criminosos. É tão grande esta Catedral que o terreiro à sua frente parece exíguo. As casas que a rodeiam são, como não podia deixar de ser, também bem antigas e algumas encontram-se em restauro.

Em épocas festivas, por aqui instala-se uma feira e, por fim, descobrimos por onde andam os roma da Roménia.

Castelo de Bran

No post anterior acabámos a admirar o panorama desde o topo do monte de Tampa. Mas Tampa, já se sabe, não é o único monte em terra de montanhas. Os Cárpatos estendem-se longe e reproduzem-se em elevações, cada uma mais bonita do que a outra.

O destino é agora a povoação de Bran, a 30 kms de Brasov. Pelo meio da viagem passamos por Rasnov e a experiência em Bran haveria de fazer com que lamentasse não ter deixado tempo para a sua fortificação.

Bran, então. Bram Stoker criou o personagem ficcional Conde Drácula em 1897 e fez situar a sua história na Transilvânia. Desde aí, como se de uma bolinha de neve se tratasse, muitas ligações da obra a Vlad, o príncipe da Wallachia, foram tentadas, sem que haja qualquer realidade nos esforços para fazer coincidir o personagem de Stoker com Vlad ou sequer com Bran e o seu castelo. Já se disse aqui, apesar de Vlad ter nascido na Transilvânia (Sighisoara), o real castelo de Vlad não está sequer nesta região, antes na Wallachia, em Poienari, o tal encerrado pela colónia de ursos que presentemente ocupa as suas imediações. Vlad era efectivamente conhecido como dracul mas essa palavra em romeno significa “filho do dragão”. Ainda assim, a cultura popular gosta de lendas e insiste em encontrar nelas um elo com o real. Vai daí, o Castelo de Bran foi o único lugar pejado de turistas que encontrei na minha viagem pela Roménia, mas de tal forma que se tornava insuportável percorrer as salas do castelo sem encontrões. Veredicto final: não gostei.

Foram os Cavaleiros Teutónicos quem em 1212 construíram a primeira fortaleza num castro em Bran. Os saxões chegaram século e meio depois e tomaram o controlo da fortaleza, dando-lhe a forma actual, para a utilizarem como protecção da rota comercial até Brasov, procurando controlar e evitar os tártaros e os otomanos. Tendo a protecção da fortaleza deixado entretanto de ser uma prioridade, esses saxões acabaram por abandonar a aldeia no século XVII, sendo então o local ocupado por pastores vindos de Brasov. Esta breve história da povoação e seu castelo fecha com a doação efectuada à Rainha Maria da Roménia em 1920, tendo a família real aqui residido até 1947. Tornado museu, nos últimos anos a história passa a folclore, com muitas bancas de souvenirs, todas com alusões a Drácula, a terem de ser superadas para se chegar aos jardins que nos deixam face a face com o promontório onde o Castelo de Bran está instalado.

Pese embora todo o descrito, o lugar é lindíssimo e o castelo idem.

Realce para as suas torres e telhado vermelho, caindo em vários níveis e direcções, resultando num efeito visual delicioso, pormenores acrescentados já no século XIX. Em estilo gótico, o seu interior teria piada de ser percorrido – não fosse a companhia de magotes. São inúmeras salas pequeninas com chão de madeira, zigzagueando de forma aleatória, ideais para nos perdermos, todas elas decoradas com o mobiliário da família real. E, depois, quando alcançamos uma janela e a vista fica desimpedida, reconciliamo-nos com a história, o folclore e a realidade e agradecemos por, ainda assim, termos vindo até ao “Castelo do Drácula” e podermos admirar aquelas montanhas.

Brasov

Brasov é uma das cidades mais amadas e visitadas pelos romenos. Carismática e bela, é a sua implantação geográfica que primeiro seduz, rodeada das montanhas pejadas de floresta. Foi neste cenário que os saxões resolveram instalar uma das suas primeiras cidades quando no século XII vieram ocupar a Transilvânia, embora o lugar já tivesse tido ocupação desde o Neolítico. Nessa época ainda não havia por perto o Castelo de Bran nem o Castelo de Peles, nem se caminhava por prazer pelo ar da serra nas montanhas Bucegi. Estes são alguns dos atractivos que tornam inevitável uma passagem por Brasov. Mas acontece que a própria cidade obriga a que nela se fique sem pressas, mergulhando nas suas ruas para admirar os edifícios e igrejas de arquitectura gótica, barroca e renascentista e os bastiões que nos recordam ter sido esta uma cidade-fortaleza medieval.

Cheguei a Brasov ao fim do dia, ainda a tempo de assistir ao por do sol desde a Cidadela, parte do sistema de fortificação exterior e instalado num monte sobranceiro ao centro histórico com vistas amplas e privilegiadas para a tal implantação geográfica de luxo da cidade. Nessa noite ainda deu para sentir o pulso e atmosfera da cidade, com ruas cheias de cafés e restaurantes e animada pelos muitos visitantes.

No dia seguinte, manhã cedo, tinha a cidade quase só para mim e parti a explorar o seu centro histórico. A povoação é cénica, com um ar medieval burguês, quase altivo até. E essa postura virá dos tempos antigos, daqueles em que Brasov estava na intersecção das rotas que ligavam o Império Otomano à Europa Ocidental, o que fez com que os mercadores saxões enriquecessem e ganhassem influência política na região. Daí o seu então nome germânico, Kronstadt, ou seja, “cidade da coroa”. E daí, também, a necessidade de a proteger através de um sistema defensivo de fortificações, com muitas torres, muros e portas, construído sobretudo durante os séculos XV e XVII.

Parte desse sistema está ainda preservado e pela Rua Dupa Ziduri, literalmente “para além dos muros”, conseguimos juntar ao ambiente medieval umas pitadas de bucolismo, caminhando à beira de um fio de água de um ribeiro e sob as frondosas copas das árvores de passagem pela Torre Branca e pela Torre Negra. Delas obtemos boas panorâmicas do centro histórico, com o enorme corpo da Igreja Negra em destaque, e da montanha de Tampa, com o letreiro “Brasov” ao estilo Hollywood por entre os caracóis da vegetação.

Contornada a cidade pelo seu lado ocidental, é agora o momento de entrar por uma das suas portas sul, a bela Porta Catarina ou a Porta Schei.

A palaciana Porta Catarina foi construída em 1559 e era então a principal entrada, sendo a única das portas originais da cidade medieval que ainda resiste.

Já a Porta Schei foi construída em 1827 em estilo neoclássico e era a única que os habitantes do bairro de mesmo nome estavam autorizados a usar para entrar no centro histórico. Era no bairro Schei que viviam os romenos, proibidos pelos saxões de terem propriedades no interior da cidadela, e para a ela acederem não só tinham horários definidos como tinham de pagar portagem. Agora os tempos são outros e podemos livremente caminhar por qualquer rua de Brasov. Incluindo por aquela que é conhecida como uma das ruas mais estreitas da Europa, a Strada Sforii, com uma largura entre 1,1 e 1,3 metros. Originalmente uma passagem entre ruas para os bombeiros, hoje foi transformada num lugar onde os artistas de rua intervêm na pintura das janelas nas fachadas dos edifícios que a sustentam e onde o visitante comum pode deixar o seu apontamento.

Chegamos, enfim, ao coração do centro histórico de Brasov, onde estão a Igreja Negra e a Praça da Câmara.

A Igreja Negra, do século XIV, é a maior igreja gótica da Roménia – aliás, o maior edifício religioso entre Viena e Istambul – e deve o seu nome não ao facto de ser escura – não o é – mas sim a um grande fogo que a atingiu em 1689 e que fez com que as chamas e fumo escurecessem então a sua fachada.

A Praça da Câmara deve ser bonita. E digo deve porque à minha visita estava vedada – o acesso e a vista – para preparação de algum evento. Este é um daqueles factos que me impedirá de ter Brasov para sempre como cidade preferida na Roménia, sentindo que não a conheci na sua plenitude. Mas, enfim, está sempre a acontecer chegar a um lugar e vê-lo entaipado para restauro ou para qualquer outra actividade, restando-nos a expectativa de que um dia voltaremos para completar o serviço.

De qualquer forma, deu para perceber que a Piata Sfatului, o seu nome romeno, é não apenas bonita como está acompanhada de belos edifícios com pormenores deliciosos, ou não constituísse a praça do mercado dos bem instalados saxões.

Continuo, em seguida, a caminhar pelas ruas de Brasov em direcção a montanha de Tampa, sem deixar de admirar a forma dos seus elegantes edifícios.

Passamos mais umas estruturas defensivas, muros e bastiões, e agora é a natureza a grande protagonista. Para se alcançar o topo de Tampa podemos fazê-lo a pé (cerca de uma hora) ou através do teleférico. Mesmo chegando ao cimo de teleférico ainda teremos de caminhar por uns 5 minutos totalmente envolvidos na floresta para alcançarmos o letreiro “Brasov” que já se tinha avistado ao longe: é aqui, a 960 metros de altitude, que todos queremos estar para levantar o prémio da panorâmica mais fabulosa sobre a cidade, o infinito e mais além.

Sighisoara

Sighisoara é uma daquelas povoações que vem em todas as listas das mais bonitas aldeias, vilas e cidades da Roménia. Não há que desconfiar, a unanimidade é merecida. O charme e romantismo medieval da Transilvânia está cá todo, com o bónus de vir acompanhado de um argumento decisivo para muitos: foi aqui que Vlad Tepes nasceu. E o turismo mais comercial aproveita estes dois factos, mas como estamos na Roménia nada é de massas.

Foi muito antes do mito de Vlad, o Empalador e da ficção do Conde Drácula que Sighisoara foi fundada pelos saxões, uma das sete cidades iniciais criadas por estes colonos alemães no século XII. A cidade foi entretanto crescendo para além dos muros da sua fortificação, sendo hoje como que duas, mas o seu centro histórico continua preservado e um mimo. É este pedaço que está distinguido pela Unesco e é este que mais nos encanta.

A cidadela de Sighisoara está instalada num terreno altaneiro. Cá em baixo, junto ao rio, percebemos que é feita mais de torres do que de muralhas. Eram 14 as suas torres e 5 os seus bastiões. Hoje restam 9 e 2, respectivamente.

Subimos por qualquer um dos lados da cidade e entramos por uma das torres que servem de portas. Logo pisamos a pedra das suas ruas estreitas e irregulares com casas coloridas de ambos os lados, quase um arco-íris.

Muitas destas casas pertenciam aos antigos mercadores da então cidade medieval. Situada nas rotas comerciais da Europa Central, a Sighisoara de então era uma das mais importantes cidades da Transilvânia e para aqui vinham artesãos de todo o lado. Pensa-se que entre os séculos XVI e XVII eram cerca de 15 as guildas e 20 as lojas de bens diversos. Hoje grande parte destes edifícios foram transformados em cafés, restaurantes e lojas de souvenirs. Quando na praça principal da cidadela é fácil sentirmo-nos transportados para essa época.

O charme de Sighisoara está em caminhar pelas ruas e admirar as suas torres. Uma das mais famosas é a Torre do Relógio (atente-se aos seus bonecos em madeira), do século XIV, a antiga entrada principal da cidade onde está hoje instalado um museu. Mas a ela subimos sobretudo pelas vistas fantásticas que do seu topo se alcançam.

A envolvente de Sighisoara é floresta e esta foi tomada pelo edificado que daqui de cima mais não se vê do que telhados ocres sobre telhados ocres, numa harmonia perfeita com a natureza.

Imediatamente abaixo é o recorte da pitoresca e colorida praça principal que se destaca na perfeição.

E da Torre do Relógio percebe-se ainda que a cidadela se expande monte acima, com as torres da Igreja no Monte a dominarem o cenário. Para se chegar aqui desde o centro histórico há que subir os 176 degraus da escadaria de madeira coberta.

A saída deste túnel escuro deixa-nos naquilo que é uma espécie de terceiro patamar da cidade e oferece-nos o verde da floresta protegida pelos muros fortificados. A fortificação da cidadela, muros e torres, já se sabe, tinha como objectivo guardá-la dos ataques turcos. Turcos que, sabe-se igualmente, terão sido as maiores vítimas de Vlad Tepes, o Empalador.

Junto à igreja dos dominicanos a cidade faz questão de lembrar o seu filho mais conhecido, num busto tão assustador como as histórias que dele se contam. Não deixa de ser, no entanto, irónico que tal personagem tenha vindo ao mundo precisamente num ambiente tão bonito.

Transilvânia, a terra das aldeias com igrejas fortificadas

As viagens têm destas coisas. Na preparação desta pela Roménia estava ansiosa por conhecer Maramures e Bucovina, as duas regiões que me fizeram querer viajar até à Roménia. Da Transilvânia, por todos a associarem a Drácula e eu não ter qualquer qualquer interesse por histórias de vampiros, não tinha criado quaisquer expectativas. Pese a ignorância, isso, descobri-o uma vez mais, é o primeiro passo para que as viagens nos surpreendam. Esta região acabou por ser a que mais me impressionou e seduziu, de tal forma que voltava já amanhã.

A Transilvânia está rodeada pelas montanhas dos Cárpatos e fica situada bem no centro da Roménia. No entanto, apenas se juntou ao reino após a I Grande Guerra Mundial. Até aí a região era parte da Hungria e foram os magiares quem no século XII convidaram os colonos saxões para aqui se estabelecerem na tentativa de fazer face às investidas turcas, protegendo as suas fronteiras. Nem sempre o conseguiram e muitos outros povos, incluindo os mongóis, atravessaram a região – já dá para ver o cruzamento de povos que por aqui historicamente deambularam.

Foram esses saxões que acabaram por conferir o carácter arquitectónico e cultural que ainda hoje podemos admirar na Transilvânia, sobretudo nas povoações por si levantadas – originalmente sete (Bistrita, Sibiu, Cluj-Napoca, Brasov, Medias, Sebes e Sighisoara), dando origem ao nome alemão da região, Siebenbürgen. O regime comunista que governou a Roménia no século XX e as dificuldades económicas que o país enfrentou após a sua queda fizeram com que aquele grupo étnico alemão abandonasse o país em massa a partir de 1989. Felizmente, não puderam levar consigo as suas aldeias.

É no sudeste da Transilvânia que encontramos a maior parte das 150 aldeias saxãs, sete delas classificadas pela Unesco como Património da Humanidade (Biertan, Calnic, Darjiu, Prejmer, Saschiz, Valea Viilor e Viscri), tendo como elemento distintivo o facto de serem igrejas / aldeias fortificadas. Tudo isto num cenário belíssimo e num ambiente pré-industrial. A ruralidade é cativante. Nas estradas secundárias os carros são substituídos pelas carroças – e foi aqui que dei de caras com a tal senhora a falar ao telemóvel enquanto era transportada pelos cavalos. Vêem-se campos de milho, salpicando de amarelo uma paisagem maioritariamente verde, e a palha está empilhada artisticamente em rolinhos. Para além dos cavalos que servem de meio de transporte, vemos vacas, ovelhas e até patos. As montanhas estão sempre lá, embora muitas das vezes discretas, com elevações suaves.

Vida simples, já se vê, que parece não ter mudado desde há séculos. E, para comprová-lo, eis que surgem amiúde as tais aldeias fortificadas. À semelhança do nosso Alentejo, onde as povoações mantém uma coerência arquitectónica entre si, mas sempre muito própria, também as povoações da Transilvânia possuem elementos que facilmente a identificam, embora não sejam de todo iguais. Ou melhor, iguais apenas na sua pacatez, tranquilidade e qualidade pictórica, poéticas, até. Um pequeno rio sempre a correr por perto serve um ponto no mapa cruzado por uma estrada com casinhas típicas de ambos os lados, numa arquitectura simples colorida em tons pastel. E às vezes é mesmo apenas isso, uma estrada ou um rio a dividir a povoação. Isso e a tal igreja fortificada.

As igrejas fortificadas da Transilvânia são cidadelas erguidas pelos saxões entre os séculos XIII e XVI. A expansão da aldeia era feita a partir da sua igreja, uma interpretação muito própria da arquitectura gótico-vernacular, e através das fortificações a aldeia inteira poderia sobreviver durante uns tempos em caso de ataque e cerco inimigo. Ou seja, estas igrejas tinham um propósito quer religioso quer defensivo, mas estas fortificações são diferentes de castelos, uma vez que apenas pretendiam defender uma comunidade pequena. À aproximação destas aldeias, que ainda hoje preservam o secular sistema de organização e uso de terra por parte das famílias, percebe-se logo o seu carácter defensivo, vendo-se desde ao longe as torres e os muros erguidos na Idade Média.

Para se conhecer a paisagem da Transilvânia e as suas diversas igrejas fortificadas é essencial lançarmo-nos ao caminho de carro. As distâncias são longas e há que fazer uma série de desvios por estradas estreitas de uma só faixa, as tais que raramente partilharemos com outros carros ou sequer tractores, apenas carroças e manadas ou rebanhos. Dá vontade de visitar todas as aldeias, mas o tempo e a sensatez obrigam a escolhas.

Em seguida, um passeio por algumas destas aldeias, começando por aquela que mais me fascinou, Viscri.

Chegar a Viscri vale qualquer viagem. É a Transilvânia no seu melhor e mais autêntico. As paisagens são belíssimas e no caminho avistamos outras aldeias fortificadas.

A aldeia de Viscri é basicamente duas ruas de terra batida com campos de cultivo ao seu redor. As suas casinhas têm tonalidades várias, mas todas suaves. Destaque, no entanto, para o azul. Os telhados ocres mais parecem um chapéu, o chapéu típico das casas da Transilvânia. E Viscri tem, como não podia deixar de ser, a sua igreja fortificada. Diz-se que esta igreja será a mais antiga da região, construída pela comunidade Székely em 1100 e depois fortificada pelos saxões no século XIII. É uma pequena fortificação de paredes brancas, guaridas de madeira e telhados cores. Do exterior parece quase que uma fortaleza de brincar e no seu interior confirma-se esta impressão. Podemos visitar a sua igreja e caminhar quer pelo piso baixo da fortaleza como pelo piso superior. O ambiente medieval é total, incluindo as madeiras periclitantes a ranger. Viscri é a mais poética e romântica das aldeias da Transilvânia, puro charme.

Biertan, à semelhança de Viscri está também classificada pela Unesco. Um dos primeiros assentamentos dos saxões na região, as suas casas são igualmente um deleite para os nossos sentidos. E a sua localização geográfica é fantástica, com os telhados a sobressaírem no meio dos campos verdes encostados a um pequeno monte.

A igreja fortificada de Biertan não é, no entanto, nada pequenina. Pelo contrário, esta que é uma das mais visitadas e reconhecidas fortificações é imponente e tem várias torres que protegem a igreja gótica. Ultrapassada a entrada somos transportados através de uma escadaria coberta em túnel de madeira que nos deixa num plateau superior. Vagueamos por este espaço inspirador a que não faltam sequer belas vistas da paisagem que circunda a fortificação. A sua igreja é uma das poucas que ainda preserva o altar original datado do século XVI.

Malancrav é uma das povoações que tem vindo a atrair cada vez mais visitantes. Um fio de água, que o atrevimento poderia chamar rio, divide as duas estradas da aldeia, cada uma ladeada das típicas casinhas que não me canso de gabar.

A torre da igreja fortificada surge elegante como vigia nas suas costas. Como curiosidade, esta aldeia era propriedade de uma família, os Apafi, e os habitantes seus servos. A servidão terminou apenas no século XIX e Malancrav é hoje a aldeia com a maior comunidade de saxões na região.

Alma Vii é a mais remota das aldeias fortificadas que visitei, de tal forma que afirmar que é uma viagem no tempo que nos espera não é cliché. Passamos por pedaços de floresta que surgem de rompante para logo darem lugar a prados, ultrapassamos com respeito as carroças com os agricultores locais que retornam do dia de trabalho e eis que mais uma fiada de casinhas de tons pastel nos aguarda. Um pouco mais elevada na paisagem aí está a igreja fortificada. Infelizmente, ao fim da tarde a fortificação já estava encerrada, restando-me apenas contorná-la no seu exterior. Não é a mesma coisa, mas chegou para me tornar mais feliz.

De passagem avistei ao longe Rupea e Saschiz, o que chegou para me maravilhar. Lamento até hoje a falta de tempo para uma certamente merecida paragem nestas e em muitas mais igrejas fortificadas da Transilvânia.

Estrada Transfagarasan

A vontade de conduzir a Estrada Transfagarasan foi o motivo que me fez ir adiando a visita à Roménia. Devido ao clima, esta estrada de montanha apenas está aberta no verão, daí que para nela rolar se tenha de estar atento não apenas ao calendário mas também ao boletim meteorológico.

E qual a piada de conduzir nesta estrada? Serve dizer que a Transfagarasan foi considerada pelo programa de TV Top Gear como a melhor estrada do mundo?

Esta estrada atravessa as montanhas Fagaras, as mais altas da Roménia, as quais constituem a fronteira tradicional entre a região da Wallachia e da Transilvânia. Havia e há outras estradas que atravessam de forma menos abrupta os Cárpatos e ligam estas duas regiões, mas nos anos 70 Ceausescu decidiu levar adiante o projecto desta estrada. Foram quase cinco anos de construção, toneladas de dinamite para rebentar as rochas da montanha, muitos trabalhadores mortos por acidente, tudo isto porque o ditador temia uma invasão inimiga e com esta estrada – a mais alta asfaltada da Roménia – teria uma ligação militar mais directa entre o norte e o sul no país.

A Transfagarasan é fabulosa.

São 92 épicos quilómetros que atravessam um castelo, florestas, montanhas, lagos e cascatas, desde a povoação de Arefu, no condado de Arges, até Cartisoara, no condado de Sibiu.

Do aeroporto de Bucareste até Curtea de Arges, a antiga capital da Wallachia no século XIV, são pouco mais de duas horas, grande parte delas em auto-estrada. A partir daqui com pouca demora passamos pelo Castelo de Poienari, o verdadeiro castelo de Drácula, o príncipe Vlad Tepes, ou Vlad, o Empalador, que dele fez fortaleza e prisão neste já então lugar estratégico como Passo entre as duas regiões. E digo “passamos” e não “visitamos” porque uma colónia de ursos deambula por aqui, tornando o caminho de subida até ao castelo perigoso – para os ursos, que se assustam com as pessoas – e, por isso, encerrado temporariamente. Diz-se que Ceausescu adorava ursos e proibiu a sua caça. Em resultado, eles tornaram-se tantos que na Roménia vivem 80% dos ursos de toda a Europa.

Após o Castelo de Poienari começamos a perceber o porquê da viagem. A paisagem é maravilhosa, com a montanha cortada a meio pelo rio que corre ao fundo. Subimos bem, sempre a baixa velocidade, não só pela pendente mas também pelas curvas fechadas que se sucedem. E eis que surge o primeiro lago, o Vidraru, uma barragem onde uns barcos navegam nas tranquilas águas sob o recorte das montanhas.

A velocidade mantém-se baixa, sempre atentos à beleza da estrada, aproveitando para fazer de Fittipaldi nas breves rectas. Ao redor do lago Vidraru a floresta é densa, interrompida aqui e ali pela agua a escorrer à beira da estrada, vinda não se sabe muito bem de onde.

Continuamos a subir e a temperatura vai descendo – cerca de 13° entre o início da subida e o ponto mais alto da estrada – até chegar a uns 15° e não se conseguir imaginar a quanto baixará no Inverno.

Parece perto mas ainda demora até se chegar ao Lago Balea, o tal ponto mais alto da estrada, a 2034 metros de altitude. Antes passamos uma cascata, uma pequena capela, um refúgio de montanha e vemos os picos a aproximarem-se e a ficarem mais afiados a querer rasgar o céu. Curva contra curva, a estrada de asfalto encaixada num vale estreito de verde raso a preencher as paredes montanhosas. Já estamos bem no alto, ainda que não no ponto mais alto, e já completamente rendidos a este cenário.

Há-de vir o mais longo túnel da Roménia, quase um quilómetro, e então sim, eis o Lago Balea com os tais 2034 metros de altitude. O lugar mais famoso da Estrada Transfagarasan é também o mais concorrido. O lago é bonito, fácil e agradável de se contornar, mas o que querermos agora é procurar assento na montanha para contemplarmos a imagem com que havíamos sonhado. É uma incrível descida vale abaixo onde a estrada de asfalto se vai contorcendo. Parece o traçado de um circuito de Fórmula 1 ou até, gosto de lembrar, uma daquelas pistas de carros que montava no hall de casa quando era criança.

Chega, então, o momento de descer esta pista, igualmente a baixa velocidade pelos cotovelos apertados e pela vontade de fazer com que o tempo não passe. A cabine do teleférico vermelho voa sobre nós, rasgando o azul do céu rumo ao verde da montanha. A Cascata Balea está mais abaixo, perto da entrada da estação do teleférico, mais um lugar muito concorrido, e logo voltamos a ficar rodeados de floresta e em breve a Transfagarasan terminará.

E o bom desta aventura é que não é preciso nem um carro como os da Fórmula 1 ou do Top Gear ou as suas loucas velocidades para nos divertirmos a valer na condução desta enormíssima estrada. Aqui, a velocidade cruzeiro é a mais prazerosa.

Bucovina

Mais uma vez, foram as imagens e palavras de outros que me inspiraram no desejo de visitar a região de Bucovina. Um artigo na revista Fugas, há três anos, com uma capa com um mosteiro com uns frescos de um azul encantatório fez com que desde aí sonhasse mas por qualquer razão fosse adiando a viagem à Roménia. Até este ano e, claro, Bucovina tinha de constar do itinerário.

Bucovina fica situada na histórica Moldávia, o principiado independente que a par da Wallachia se juntou no século XIV para formar a primeira noção de estado romeno. Foram séculos de luta para não se deixar subjugar aos otomanos, mas o território moldavo acabou por ser separado – em 1775 Bucovina, região mais a norte, foi anexada pelo império austro-húngaro e em 1812 o que é hoje a República da Moldávia (antiga Basarabia), mais a leste, foi anexada pela Rússia. Restou a Moldávia província romena. Uma grande confusão, está visto, ainda mais se dissermos que a Bucovina tradicional incluía territórios hoje da Ucrânia e fazia fronteira com a Polónia.

História à parte, Bucovina é uma região bucólica, terra de montanhas e de mosteiros medievais. O nome “bucovina” significa, literalmente, “terra da faia”. E são enormes manchas de arvoredo de faias o que vemos desfilar pela nossa vista, imaginando que talvez a nossa ilha Faial pudesse assemelhar-se a Bucovina caso ainda mantivesse a sua plantação autóctone original.

Suceava é maior cidade de Bucovina e um bom ponto de partida para se visitar o maior símbolo da região: os seus mosteiros. Apesar de a cidade ser servida por um aeroporto com ligação a Bucareste (e até a Londres e Bolonha), o turismo não abunda, de tal forma que estive até à última para tentar reunir um grupo de 3 para seguir num tour de um dia, senão teria de arcar com o seu custo na totalidade. Suceava foi em tempos uma cidade real, capital do principiado da Moldávia por mais de 200 anos, mas acabou por crescer e desenvolver-se como uma cidade industrial. Nas últimas décadas fez questão de restaurar as ruínas da antiga Cidadela Real, do século XIV, de cujo topo se obtém uma panorâmica larga. Já cá em baixo, na cidade, encontramos uma série de igrejas, incluindo a do Mosteiro de São João o Novo, classificado pela Unesco e um aperitivo para o que veremos em seguida.

Stefan cel Mare (Stefan, o Grande), príncipe moldavo do século XV, é um herói romeno e uma enorme figura de Bucovina. Guerreiro, lutou grande parte da sua vida contra os invasores otomanos, mas para nós, visitantes da Bucovina do século XXI, o seu legado manifesta-se em termos culturais. Foi por sua iniciativa ou com o seu apoio que foram erguidas uma série de comunidades monásticas, e os seus descendentes acabaram por dar continuidade a esta ideia. Nesse sentido, nos séculos XV e XVI foram erguidos diversos mosteiros com uma arquitectura muito especial, mesclando características locais com elementos bizantinos e góticos. Mais distintivo, cada um destes mosteiros foi preenchido quer na fachada quer no interior por uma infinidade de frescos com a representação de temas religiosos – o que faz com que hoje conheçamos as igrejas de Bucovina como os “mosteiros pintados de Bucovina”.

E são oito os Mosteiros Pintados de Bucovina distinguidos pela Unesco como Património da Humanidade: Arbore, Probota, Patrauti, St George, Humor, Voronet, Moldovita e Sucevita. Visitámos os últimos 5 e pudemos constatar como todos eles chegaram incrivelmente bem preservados desde a época medieval até aos nossos tempos, com as pinturas bem vivas. Cada um destes mosteiros está mais associado a uma determinada cor e as pinturas da sua fachada sul estão sempre mais bem conservadas do que as da fachada norte, cortesia dos ventos agrestes de norte. Todas as pinturas que admiramos nestes mosteiros foram apenas limpas e restauradas, mantendo-se os frescos originais, não tendo voltado a ser pintados. E cada um destes mosteiros está mais associado a um determinado motivo bíblico. Estas podem ser algumas diferenças, cor e motivos bíblicos, mas a motivação para a construção destes mosteiros e criação dos frescos foi a mesma: a de promover a religião cristã ortodoxa ao mesmo tempo que se procurava educar os iletrados, dando-lhes a conhecer a história da cristandade através das imagens das pinturas – daí as pinturas e o simbolismo nelas representado também nas fachadas exteriores, para que todos as pudessem ver e entender. Como resultado, a fé aliada à arte, marca identitária de toda uma região.

A qualidade artística destes frescos é soberba, de uma beleza, originalidade e carácter único surpreendentes, gabados não apenas pela sua composição e interpretação, mas sobretudo pela inventiva aplicação da cor e harmonia. A cor é, aliás, a grande sedutora e causa igualmente surpresa como se pôde manter ao longo da passagem do tempo e do clima.

Já se disse, cada mosteiro possui uma cor dominante e em cada um deles o pintor-artesão responsável interpretou as cenas bíblicas à sua maneira, embora respeitando o programa iconográfico. Em seguida, um breve tour por alguns destes mosteiros, instalados no campo, fora das povoações, ainda hoje habitados por freiras integralmente vestidas de preto que fazem questão de deixar os jardins que os circundam impecavelmente verdes e com rosas a desabrochar.

O Mosteiro de Humor foi construído em 1530 e é um recinto fortificado com uma torre donde se alcança um bom cenário para a pacatez do campo.

A sua igreja é atípica, uma vez que não possui a costumeira torre que se observa nas demais igrejas da região. A razão será o facto de ter sido mandada construir por um nobre e não por um príncipe reinante. A cor dominante da igreja do Mosteiro de Humor é o vermelho acastanhado. Os frescos na fachada sul exterior mostram a história de São Nicolau e a Anunciação – e é brutal constatar a enorme diferença de conservação dos frescos nas fachadas sul e norte, devido ao já mencionado factor vento.

O Mosteiro de Voronet é azul. Um azul tão luminoso e intenso, de uma distinção tal que foi mesmo criado o termo “azul de Voronet”.

Mandada construir por Stefan, o Grande em 1488, há quem diga que esta é a mais famosa das igrejas romenas. O seu telhado parece um chapéu de elegantes abas, mas este é apenas o primeiro elemento que retém a nossa atenção. A obra de pintura da fachada exterior é considerada a Capela Sistina do leste. Na fachada oeste da igreja encontramos pintada uma incrível cena do Juízo Final, uma interpretação poderosa da Bíblia por parte de um artista completo, versado e talentoso não apenas na pintura, mas também um estudioso. A escolha desta representação do Juízo Final na fachada oeste não é alheia ao facto de ser aqui que o sol se põe, despedindo-se do dia, pretendendo-se assim que esta cena bíblica que representa o fim da vida esteja também associada ao fim do dia. Na fachada sul vemos representados diversos filósofos, como Aristoteles, Platão e Sócrates, o que não é assim tão comum em temáticas religiosas. O interior da igreja de Voronet é igualmente deslumbrante (como o de todas as outras igrejas visitadas). Decorado interiormente, de alto a baixo, temos a primeira sala do calendário, com 365 pequenas pinturas com alusão a factos e cenas de cada um dos dias, uma segunda sala com a história de São Jorge (o nome desta igreja) e uma terceira sala com o altar. Curiosamente, em Bucovina as igrejas possuem 3 salas, ao contrário das de Maramures que possuem apenas 2 salas, embora em ambas as regiões as igrejas sejam cristãs ortodoxas.

O Mosteiro de Moldovita foi construído em 1532 e aqui estão as pinturas mais bem preservadas de todas as igrejas de Bucovina.

Situado bem no meio da floresta, a cor dominante das pinturas da sua igreja da Anunciação é o amarelo. A cena com a representação da tomada de Constantinopla é superior. Nas igrejas destes mosteiros anuncia-se a proibição de fotos no seu interior, mas no de Moldovita elas são toleradas.

Entre o Mosteiro de Moldovita e o de Sucevita passamos pelo Passo de Ciumarna. O tour por mim escolhido foi fantástico, com informação e simpatia preciosas por parte do guia, com muito tempo para a visita a cada mosteiro, mas com poucas paragens para se poder admirar a paisagem e, logo, para fotografias. A excepção foi este Passo, a 1109 metros de altitude, lugar de uma icónica escultura de uma mão gigante e onde estão montadas umas bancas de comida e souvenirs, para além de um parque aventura com uma zip line. Não perdi nem um segundo com estas atracções, ávida de olhar só para este pedaço das montanhas dos Cárpatos.

Depois do almoço, veio a visita ao último dos mosteiros do dia, o de Sucevita.

Também fortificada, a igreja da Ressurreição foi construída em 1583 e pintada por volta de 1595, ou seja, cerca de 50 anos após as demais, sendo considerado o último exemplar destas maravilhas. A partir daí não mais se criaram estas autênticas obras de arte, uma vez que então os otomanos já marcavam presença forte na região e para além do tributo a pagar-lhes ficava muito dispendioso gastar recursos financeiros com estas peças religiosas e artísticas. A cor de Sucevita é o verde e o seu maior destaque é o fresco com a representação da Escada do Paraíso, com os anjos a ajudar os virtuosos a lá chegar e os pecadores a serem derrubados para o inferno.

Inferno, porém, é algo que não parece conjugar com Bucovina, seu ambiente e sua arte. É tudo tão bonito e belo que olhando o céu azul dava-me vontade de arriscar voltar no Inverno inclemente, só para poder ver a cor branca brilhante da neve lado a lado com as cores reluzentes das pinturas dos mosteiros.

As Igrejas de Madeira de Maramures

As igrejas de madeira de Maramures são a marca distintiva da região, tendo despertado a atenção da Unesco que distinguiu 8 destas igrejas como Património da Humanidade. Porém, arrisco-me a dizer, para além destas oito qualquer uma das outras é um mimo.

Instaladas sobretudo nas aldeias ao longo dos vales dos rios Mara e Iza, estes exemplares de arquitectura religiosa datam desde o século XIV, embora a maioria sejam dos séculos XVII e XVIII, construídos após as incursões invasoras dos tártaros pela região.

O uso da madeira como material construtivo destas igrejas não se deve apenas ao aproveitamento dos recursos naturais autóctones. A razão está antes no facto de no século XIV os cristãos ortodoxos romenos terem sido proibidos pelos católicos húngaros de construir as suas igrejas em pedra, de forma a que estas não perdurassem no tempo. Mas, recorrendo à madeira, os engenhosos habitantes de Maramures não só conseguiram que estas igrejas resistissem ao clima severo de montanha como resistissem ao passar dos séculos. Mais, com a sua criatividade e saber-fazer artístico conseguiram ainda que esta muito própria interpretação vernacular das tradições de construção em madeira aplicadas à arquitectura religiosa atingisse um estatuto de obra de arte que muitos séculos depois seria distinguida e admirada por toda a Humanidade.

Estas igrejas construídas inteiramente em madeira, maioritariamente de pinheiro ou de carvalho, estão, muitas das vezes, implantadas em locais rodeados de floresta, o que lhes confere um ar ainda mais mágico, não sendo necessário possuir uma fé ou espiritualidade cristã para ser por elas seduzido. De estrutura pequena, o realce vai quase sempre para o seu telhado, seja simples ou duplo, a cair um sobre o outro. Bem junto à construção podemos perceber a forma como estes telhados estão montados, pequenas telhas sobre pequenas telhas.

Realce maior ainda para as torres em estilo gótico. São autênticas agulhas, altas e estreitas, que parecem querer furar o céu.

Deambulando pelo espaço exterior de qualquer uma das igrejas de madeira de Maramures, é inevitável caminhar por entre as campas de quem já cá não está. O costume local é o de os cemitérios serem contíguos à igreja, sem qualquer divisória, o que torna o sentido destas igrejas ainda mais completo.

O seu interior, nem sempre de portas abertas, possui pinturas de cores vivas com cenas bíblicas e do quotidiano da vida rural e é surpreendente constatar como estas pinturas chegaram aos nossos dias.

Em seguida, (para além da de Breb, já focada em post anterior) alguns exemplos destas mais de 100 igrejas, começando por três que não estão classificadas pela Unesco, mas que foram provavelmente as que mais gostei de visitar pela parceria perfeita entre arquitectura e ambiente que as rodeia.

Manastirea, datada de 1633, aqui se chega após atravessar uma trémula ponte sobre o rio Mara e se subir um monte; é talvez a mais pequena e remota destas aldeias de madeira.

Sat Sugatag, datada de 1642, no povoado de mesmo nome atravessamos um portão decorado em madeira à beira da estrada e caminhamos ao encontro da floresta.

Calinesti, a Susani, datada de 1883, está ainda mais embrenhada na floresta, tendo de se subir uma escadaria para a descobrir.

Entre as classificadas pela Unesco, a de Barsana foi talvez a que mais gostei de visitar. Deslocada em 1803 para num ponto altaneiro em relação à aldeia de mesmo nome, daquelas se observando todo o vale, esta igreja de madeira construída em 1720 tem uma vista desimpedida de árvores, o que nos permite admirá-la em todos os pormenores. O interior também pode ser visitado.

Budesti, construída em 1643, a sua torre tem 18 metros de altura, mas, mais especial ainda, é acompanhada por 4 pequenas torres que a rodeiam; é a maior das igrejas de madeira classificadas pela Unesco.

Ieud, construída em abeto, não se sabe ao certo a sua data; uns apontam para o século XVII, mas outros há que a situam no século XIV, fazendo dela a mais antiga da região.

Poienile Izei, construída em 1604, é uma das mais bonitas e de localização mais inspirada; diz-se que o seu interior (fechado na altura da minha visita) possui as mais belas cenas do Dia do Juízo Final.

Surdesti, situada mais a sul e construída em 1721, é uma das mais fantásticas igrejas de madeira de Maramures; a sua torre de 54 metros, a mais alta de todas estas igrejas, é também uma das mais altas estruturas de madeira do mundo e avista-se ao longe. Esta igreja tem ainda como elemento característico as duas fileiras de arcos acima da varanda. O seu interior possui cenas da Paixão de Cristo e do Apocalipse.

Plopis, uns 2 kms adiante Surdesti, data do fim do século XVIII e por altura da minha visita estava em restauro.

Deixei passar (estupidamente) a igreja de madeira de Desesti e não cheguei até à de Rogoz, as outras duas classificadas pela Unesco.

Maramures

Localizada no noroeste da Roménia e na fronteira com a Ucrânia, Maramures é uma das regiões mais rurais e isoladas da Europa, um recanto onde o tempo parece parado algures numa era remota e onde as tradições perduram desde há séculos. Romanos, magiares, turcos e polacos passaram por aqui mas nunca se conseguiram impor e dominar a região e os habitantes de Maramures orgulham-se do seu espírito indómito que a tudo lhes tem permitido resistir.

Há anos havia assistido a um documentário na RTP2 sobre Maramures, um daqueles que parecem saídos da época em que este canal só abria a sua emissão no período da tarde. Não mais esqueci esse documentário e a região tinha, por isso, de ser incluída neste meu itinerário pela Roménia. Paisagens verdejantes e ondulantes, carroças puxadas por cavalos como meio de transporte (ainda) principal de pessoas e bens, mulheres vestidas em trajes típicos e igrejas de madeira, todos estes elementos eram já personagens principais do dito documentário e visitada Maramures neste ano de 2019 pude constatar que todas essas personagens não são ficcionais, são bem reais, parte do dia a dia.

Maramures é, pois, como que um museu a céu aberto. Para o descobrir, nada melhor do que alugar um carro e sair para conhecer este museu vivo.

Nesta região maioritariamente de aldeias, Baia Mare e Sighetu Marmatiei são as duas principais cidades. Começámos o nosso itinerário em Baia Mare, a maior delas, para onde se pode voar directamente desde Bucareste. O seu nome não tem nada a ver com mar ou lagoas, pelo contrário, é uma cidade do interior. Não sei o que significa “Baia”, mas “Mare” significa “grande”. E na verdade esta é como que duas cidades numa. Uma delas com longas avenidas e grandes blocos de apartamentos, com uma enorme catedral ortodoxa como destaque, tudo marcas de uma cidade industrial que se desenvolveu exponencialmente nos anos do comunismo. E uma outra com um centro histórico pequeno mas bem restaurado onde se destacam o Bastião Macelarilor (significa algo como talho ou matadouro), um conjunto de belas igrejas e a espaçosa e luminosa Praça da Liberdade com os seus edifícios medievais.

Mas porque não são as cidades que nos interessam em Maramures, de Baia Mare saímos rapidamente rumo a norte numa estrada fantástica de montanha para um périplo de dois dias pela região rumo à sua ruralidade. Sobe-se a bom subir, curva apertada contra curva apertada, sob um protector chapéu de abas imensas feito de arvoredo cerrado. Um lamento, porém, na falta de espaço para poder parar o carro na beira da estrada e admirar aquele cenário grandioso.

Os rios nunca andam muito longe de nós em Maramures e depois de serpentearmos com o carro pelo meio da floresta aparece-nos uma cascata à beira da estrada quase a chegar à povoação de Mara. Junto à dita cascata é um bom local para uma paragem para almoço, num daqueles restaurantes típicos do centro da Europa, instalado no meio da natureza e com mesas espalhadas por um jardim, onde as trutas são o prato forte.

Passada Mara, começa o desfile de aldeias ao longo de montes e vales e confirmamos toda a cativante ruralidade e autenticidade de Maramures. Foram as aldeias, e em especial as suas igrejas de madeira, que nos fizeram querer visitar a região. A estas igrejas de madeira, algumas datadas do século XIV e muitas classificadas pela Unesco como Património da Humanidade, dedicaremos o próximo post, mas assinalamos desde já a de Breb, a nossa primeira paragem.

Breb é uma das aldeias mais reputadas e procuradas de Maramures. Lugar remoto, para lá chegarmos temos de fazer um desvio numa estrada secundária. Após uma curva apertada começamos a descer e o cenário para lá do pórtico de recepção é majestoso. A aldeia está preenchida de casas de madeira e no seu final, quase que escondida no meio da vegetação, encontramos a igreja de madeira datada do século XVI. Para além de mim, apenas mais um visitante (romeno?). O ambiente é mágico, um pequeno e mimoso edifício totalmente em madeira rodeado de um verde intenso. E, afinal, não estamos sozinhos. Muitos corpos e almas repousam aqui, uma vez que é costume local sepultar os mortos ao redor das igrejas. Não me assusta nem incomoda deambular pelas campas, sempre em busca de um ponto de vista ainda mais fantástico e bucólico nesta paisagem ligeiramente alterada pelo Homem.

A Breb seguiu-se Budesti, Sarbi, Calinesti, Barsana, Ieud e Poienile Izei. No dia seguinte, viriam Cornesti, Giulesti, Manastirea, Sat-Sugatag e Desesti. Mais do que os nomes difíceis, o que ficará na memória é a delicadeza das pequenas igrejas com torres altas destas aldeias, repito, inteiramente construídas em madeira. Não é à toa que Maramures é também designada como a civilização da madeira. Quase todo o território é floresta e o aproveitamento dos recursos naturais como a madeira é omnipresente. Seja para a construção das casas, das igrejas, dos utensílios, o uso da madeira realça ainda a qualidade superior dos artesãos de Maramures.

Se as igrejas são o seu indisputado ex-libris, os portões de madeira das residências mesmo junto à beira da estrada merecem igualmente toda a nossa atenção e arrebatam-nos por igual. Característicos da região, possuem motivos decorativos que incluem desde cenas da vida quotidiana a cenas religiosas, e servem como pórtico de separação do espaço exterior e interior, constituindo também uma demonstração do poder das famílias, sendo em Barsana que melhor se pode apreciá-las.

O portão desta foto pertence, todavia, a um espaço de Dragomiresti onde está instalado um pequeno museu etnográfico que representa uma casa típica de Maramures.

Entramos e um pátio ajardinado recebe-nos, com algumas esculturas pelo caminho. Uma velhota em trajes típicos, camisa branca com motivos florais e lenço na cabeça, guia-nos e explica-nos os moldes da casa típica de Maramures. Eu não falo romeno, ela não fala senão romeno. Incrivelmente, entendemo-nos e não apenas pelos gestos mas também pela similitude das duas línguas faladas, romeno e português, e entabulamos uma conversa improvável. Mostra os bolos que se servem nos dias de festas, os vários utensílios do dia a dia, quase todos eles incrivelmente datados, trajes, fotos, um verdadeiro mini-museu etnográfico.

De volta à estrada, e fugindo das principais, a tranquilidade é absoluta e é aqui que somos mais felizes. Paramos, enfim, o carro num qualquer pedaço de estrada sem temer o incómodo de seja quem for e deixamo-nos estar a contemplar uma paisagem maior. Uma silhueta de montes de recorte delicado, verde sobre verde, montinhos de palha artisticamente empilhados aqui e ali, um rio sempre a correr por perto, discreto e sereno como a terra que o acolhe.

Não é preciso vir para estas estradas para se verem carroças puxadas por cavalos – elas estão por toda a parte e parecem em número superior aos tratores – mas é por aqui que vemos os trabalhadores agrícolas em acção e percebemos melhor como esta actividade é ainda maioritariamente um trabalho manual. Homens e mulheres, elas sempre de lenço na cabeça, como se vê cada vez menos no nosso país, trabalham a terra e esse é o seu principal sustento.

Mesmo a norte, na fronteira com a Ucrânia, fica Sighetu Marmatiei, a segunda cidade de Maramures em dimensão e a sua antiga capital. Cidade pequena, bem cuidada e agradável, aqui encontramos um número surpreendente de museus, entre os quais a Casa Museu de Elie Wiesel, escritor Prémio Nobel da Paz em 1986, e o Memorial das Vítimas do Comunismo e da Resistência. Neste edifício, entretanto transformado em museu, funcionava uma prisão para onde após a II Grande Guerra Mundial foram enviados os opositores do regime comunista romeno. Caminhando hoje pelos corredores, celas e jardim da antiga prisão aprendemos sobre a história do comunismo na Roménia e países vizinhos e tentamos imaginar o dia a dia dos presos políticos e as condições que aqui encontravam, incluindo tortura.

De Sighetu Marmatiei a Sapanta é um pulinho de meia hora. E Sapanta é talvez o lugar mais surpreendente de toda a região, embora não seja nenhum segredo. Pelo contrário, durante dois dias não vi turistas por Maramures, mas em compensação em Sapanta parecia ter acabado de chegar charters de chineses. E o que se visita em Sapanta? Apesar do Mosteiro Peri (um conjunto de edifícios religiosos de madeira, incluindo aquela que se diz ser a mais alta igreja de madeira da Europa, com 78 metros de altura), a Sapanta vimos sobretudo visitar o seu cemitério. Estranho? E se dissermos que o nome deste cemitério é “Merry”, cuja tradução é “alegre”? Mais estranho ainda, não é? Mas é verdade, Sapanta tem um cemitério digno de visita e este é um lugar alegre. E a alegria aqui tem cor, azul da cor da esperança e da liberdade e, já agora, do céu.

Já se disse que Maramures é terra de artesãos e um deles, certamente dos mais brilhantes e criativos, de nome Stan Ioan Pătraș, decidiu nos anos 30 do século passado começar a esculpir cruzes de madeira com figuras e poemas dedicados a cada um dos mortos a enterrar no cemitério Merry de Sapanta. Até 1977, ano da sua morte, terá criado quase 1000 destas verdadeiras obras de arte, arte esta continuada hoje por um seu discípulo, Dumitru Pop. Neste cemitério-museu caminhamos pelas sepulturas observando demorada e detalhadamente as cruzes azuis de cada uma delas com figuras – um pastor, um padre, uma tecedeira, um polícia -, lamentando não saber romeno para poder ler a história de cada um deles contada sob a forma de epitáfio. Esta forma descontraída, alegre e viva de encarar a morte vem dos Dacias, o povo ancestral donde os romenos descendem, os quais entendiam que a morte significava apenas uma passagem para uma vida melhor. E, saídos deste cemitério com um sorriso enorme, duas certezas tomam-nos, a de que a vida deve ser celebrada e a de que a nossa última morada pode ser colorida.

Bucareste

Em apenas dois dias não é fácil apaixonar-nos por Bucareste, a capital da Roménia, região da Wallachia. A cidade é algo contraditória na sua arquitectura, reflexo do decurso do tempo. O princípio do século XX foi a sua época dourada, tendo aí ficado conhecida como a “Pequena Paris” pela profusão de edifícios em estilo neoclássico. Mas os bombardeamentos durante a II Grande Guerra Mundial e o terramoto de 1977 destruíram muito.

A megalomania de Ceausescu trouxe à cidade as largas e intermináveis avenidas, os monstruosos edifícios públicos e os monolíticos edifícios de habitação. Assim, na mesma cidade, em pleno convívio, temos hoje o Boulevard Unirii, pouco amigo dos pedestres, e a Calea Victoriei, irresistível para um passeio; o brutal Palácio do Parlamento e o delicado Ateneo Romano; um rio que atravessa a cidade mas não se chega a perceber e uma série de aprazíveis parques com lagos; bairros elegantes com edifícios modernistas e bairros cuja marca do tempo é avassaladora nos seus edifícios em estilo bizantino. O que mais me surpreendeu em Bucareste foi perceber na sua arquitectura esta marca otomana numa cidade que tomava como plenamente europeia. E, sobretudo, ver um centro histórico que leio e oiço restaurado feito ainda de muitos edifícios em ruína e abandonados.

Comecemos, ainda assim, pelo centro histórico de Bucareste. Aqui ficava o Velho Palácio do Principiado, datado do século XV e hoje sob restauro. O seu estado de ruína não deixa perceber muito do que terá sido. Este era o coração da cidade, que ficava nas rotas comerciais mais importantes da época. Ao seu lado, a igreja do Palácio, que dizem ser a mais antiga da cidade. E à sua frente, o Hanul Lui Manuc, ao estilo dos antigos caravançarai. Hoje não é mais estalagem, apenas restaurante, certamente um dos mais antigos da cidade, datado de 1806. Mas o restaurante que quase todos aconselham é o também centenário Caru’ cu Bere, não só pela experiência gastronómica, mas também pelo seu interior em madeira e vidro decorado. Em ambos os espaços somos transportados para uma outra era. E a viagem no tempo e pelas outras culturas continua com a visita à igreja Stavropoleos, datada de 1724. Mínima na dimensão mas grande em ambiente.

A rua principal do Centro Histórico é a Lipscani, onde ficam muitos bares e restaurantes e, sobretudo, aquela que vem sendo considerada como uma das mais bonitas livrarias do mundo, a Carturesti Carusel. Instalada num edifício renovado, o interior com 6 pisos é cheio de luz, o que realça ainda mais a sua escadaria branca. Uma outra filial desta livraria, a Carturesi Gradina Verona, não muito distante da primeira, também é de visita obrigatória, pelos livros espalhados nas diversas salas do que foi uma antiga residência e pelo seu café num pátio ajardinado.

Voltando ao Centro Histórico, outros dos atractivos são caminhos como Hanul cu Tei e passagens em forma de arcadas cobertas de vidro onde o sol dá à luz natural, como o Macca-Villacrosse, ambos repletos de esplanadas.

Saindo deste Centro Histórico, vale a pena caminhar ao longo da Calea Victoriei, com os edifícios mais majestosos da cidade, hoje quase todos eles edifícios públicos e hotéis. A Praça da Revolução foi tornada histórica por ter sido onde em 21 de Dezembro de 1989 Nicolae Ceausescu fez o seu último discurso da varanda do edifício do Comité Central do Partido Comunista à multidão inflamada e teve de fugir para pouco tempo depois acabar por ser executado.

Junto à Praça fica o Ateneo Romano, a sala de música por excelência da cidade, onde tocaram grandes nomes como Richard Strauss, Igor Strawinsky e George Eneuscu, o maior compositor romeno. Construído entre 1886 e 1889, a fachada exterior feita de colunas neoclássicas é imponente e bela, mas diz que é o seu interior que nos arrebata, experiência que não tive ocasião de confirmar, uma vez que o Ateneo estava fechado à minha passagem.

Do outro lado da rua fica o Palácio Real, hoje Museu Nacional de Arte, onde se expõe arte romena e arte europeia. Mas não serão tanto as pinturas que recordarei, antes a escadaria fantástica da ala da galeria de arte europeia deste palácio do princípio do século XIX.

Após um desvio até ao tranquilo Parque Cismigiu, as distâncias podem atemorizar, mas vale a pena voltar e continuar a caminhar mais uns dois quilómetros pela Calea Victoriei, a rua mais antiga da cidade, até à enorme e disfuncional Piata Victoriei. Daqui em diante o mais avisado será percorrer de autocarro a longa avenida que se segue, bordejada ora de um parque ora de edifícios em estilo otomano ou modernista que são hoje maioritariamente embaixadas ou estão abandonados. E eis que surge algo que já todos vimos, só não sabíamos é que era aqui que ficava: aquilo não é o Arco do Triunfo? Pois é, Bucareste, a “Pequena Paris”, também tem o seu Arco do Triunfo. Esta réplica do de Paris, é um símbolo da cidade e foi erguido em 1936 em celebração da participação da Roménia na I Grande Guerra Mundial.

O Arco do Triunfo abre-se para grandes avenidas, mas para lá de uma delas fica o Parque Herastrau, um grande espaço de jardim virado para um lago donde se avista ao fundo um daqueles edifícios cuja arquitectura é familiar a todos os países que viveram o comunismo. A curiosidade da situação é que este edifício em estilo estalinista é a Casa Presei Libere, ou seja, a “casa da imprensa livre”.

Junto ao Parque Herastrau fica um dos bairros mais elegantes da cidade, o Bairro Primavera. Zona residencial por excelência, calma e com ruas com divisórias ajardinadas e até com frutos caídos das árvores no chão, aqui fica o Palácio Primavera, mais conhecido por ter sido a residência de Nicolae e Elena Ceausescu nos seus últimos 20 anos de vida que coincidiram com os anos em que o casal governou o país. Enquanto se discute em Portugal a relevância e a sensatez da criação de uma casa-museu de Salazar, o nosso ditador, faz todo o sentido visitar esta casa em Bucareste. As visitas são exclusivamente guiadas e mesmo se o percurso pela casa não nos é contextualizado através de informação escrita, os comentários irónicos do guia deixam perceber a uma pessoa minimamente informada pela História a desproporcional extravagância da vida palaciana do casal em relação à vida de racionamento e penúria que impunha ao comum dos seus súbditos do povo. Aqui viveu o casal com os seus 3 filhos adolescentes, cada um com o seu quarto individual sempre com um espaço de antecâmara, closet e casa de banho. Mas nem aqui os ocupantes da casa eram tratados de forma igual. A casa de banho de Elena, por exemplo, era (é) banhada a ouro. Não se pense, no entanto, que nos esperam momentos kitsch. Pelo contrário, o bom gosto do estilo francês “maria antonieta” impera e não falta sequer um jardim interior e uma piscina também interior com o seu hall decorado com mosaicos.

Custa assumir que a casa é linda e que estes ditadores comunistas pudessem ter bom gosto. Na casa veem-se ainda muitas fotos de família, objectos pessoais e mobiliário do dia-a-dia, como o tabuleiro de xadrez montado numa mesa, segundo o qual o guia informou que Ceausescu ganhava todas as partidas porque ninguém se atrevia a ganhar-lhe com medo das consequências, ou a estante com livros à qual o guia se questionou se a formação de sapateiro do ditador lhe terá permitido ter lido algum deles. É com este tipo de comentários mecanicamente irónicos que percebemos que este Ceausescu já não mete medo, mas as marcas do seu desgoverno ainda cá andam.

E marca maior não há do que aquela que impõe a presença do Palácio do Parlamento. Ceausescu sonhou construir um cento cívico, uma “Casa do Povo”, e determinou a sua construção, comandando as obras e providenciando os melhores materiais. A obra começou a ser construída em 1984, mas o ditador não a chegou a ver concluída, porque foi apeado do poder e fuzilado antes. Na verdade, a obra inicialmente por si imaginada e projectada nunca chegou a ser completada por inteiro por falta de recursos financeiros, ou melhor, pela canalização destes recursos para outros projectos que a queda de Ceausescu e o fim do comunismo tornaram mais prementes. Ainda assim, o edifício do Palácio do Parlamento é o segundo maior edifício administrativo do mundo, apenas atrás do Pentágono, mas é o mais pesado e caro de sempre. Em termos de área apenas é superado pelo Cabo Canaveral e a pela Pirâmide do Sol de Teotihuacan. A visita a este símbolo de Bucareste é obrigatória e apenas pode ser efectuada através de visita guiada. Ao longo de quase uma hora passamos por diversas salas que representam apenas cerca de 5% das mais de 1000 salas existentes em todo o complexo.

Há até um teatro, passível de ser alugado para certos eventos, com um lustre majestoso, o maior de todos os existentes no edifícios. Abundam as colunas, o mármore, as carpetes. Passamos pelo salão onde num fórum histórico em 1994 Shimon Peres e Yasser Arafat se encontraram e por um outro salão onde Nadia Comaneci foi autorizada a casar. Tudo de uma opulência e majestosidade absolutamente desajustadas da restante cidade que a circunda. Usualmente, a visita termina do balcão donde se obtém uma panorâmica para o centro de Bucareste. Infelizmente, um meeting que decorria na altura da minha visita levou ao encerramento desse balcão.

De qualquer forma, se não tive direito a essa vista, pude ao menos conseguir a vista para ocidente desde o terraço do café do Museu de Arte Contemporânea, o qual ocupa uma ínfima parte do complexo do Palácio do Parlamento. Inaugurado em 2004, vale a pena conhecer este espaço único na cidade pelo invulgar acolhimento de obras contemporâneas num espaço que na sua génese não pode deixar de se considerar austero. Deste balcão, se não se vê a cidade construída, a histórica e a das grandes avenidas, vê-se ao invés um enorme vazio, correspondente àquilo que ficou por construir. Parece uma boa forma de nos despedirmos de Bucareste, uma cidade ainda em transformação.