Sibiu, a cidade com olhos

Sibiu foi a mais bonita das cidades romenas que visitei. A Capital Europeia da Cultura de 2007 é apaixonante e qualquer apreciador de urbes com praças monumentais, edifícios coloridos e ruas de pedra ficará por ela arrebatado.

E, depois, Sibiu tem uma característica especial: em que outra cidade nos sentimos vigiados e não nos incomodamos com isso? Começo por aqui, pelos olhos de Sibiu. Podem ser dois, cinco ou infinitos os olhos que saem dos telhados das casas de Sibiu, olhar para nós de forma directa ou de esguelha, mas estão sempre lá, atentos. Não é a Transilvânia uma terra de lendas e ficções? Pois deixemos que a imaginação flua e vejamos nestes olhos algo mais do que a sua original função, a de janelas nos telhados dos sótãos que serviam de ventilação à carne, queijo e grão que aí eram armazenados sem que a luz solar neles incidisse em demasia.

Sibiu foi fundada pelos colonos saxões em 1191 e desde logo se tornou uma das mais importantes cidades da Transilvânia. As 19 guildas que chegou a acolher atestam bem o seu desenvolvimento económico e como era procurada pelos mercadores. Alemães, húngaros e romenos sempre partilharam a cidade, que ainda hoje possui uma pequena comunidade de descendentes de alemães, os saxões, donde provém Klaus Johannis, o actual presidente romeno. Compositores como Strauss, Brahms e Liszt tocaram na cidade no século XIX. E a importância de Sibiu revela-se ainda no facto de ter sido pioneira na região da Transilvânia ou até da Roménia em muitos aspectos. Esta foi a primeira cidade electrificada do país, em 1897, e foi aqui que abriu a primeira farmácia também do país, em 1494. E Sibiu foi ainda o lugar da primeira tipografia da Transilvânia, em 1525, e o lugar do primeiro museu da Transilvânia, aberto ao público em 1817 no Palácio de Brukenthal.

Para além dos olhos e do pioneirismo, Sibiu possui ainda outra característica curiosa, a de desenvolver-se em dois níveis, desdobrando-se assim na cidade baixa e na cidade alta, uma a 419 e a outra a 431 metros de altitude. A baixa foi onde a ideia de cidade começou e a alta era uma fortificação que acabou por se expandir e ser incorporada na urbe. Ambas possuíam muros ao seu redor e estavam ligadas por torres e bastiões. Hoje, passagens estreitas e escadarias ligam-nas. A Sibiu mais monumental é a cidade alta, onde historicamente os saxões mais abastados viviam, deixando a cidade baixa para os camponeses nas casas mais pequenas e coloridas. Não podemos deixar de caminhar por estas ruas, descobrindo vestígios da antiga fortificação.

No Parque da Cidadela, no flanco sul da cidade, encontramos também bem visíveis os muros da antiga Sibiu. Num espaço verde aprazível e bem gizado, algumas das antigas torres e bastiões seguem levantados. Outra das curiosidades de Sibiu é que a cada torre correspondia uma guilda da antiga cidade medieval. Assim, para além da função de protecção, cada uma delas estava ligada a um tipo de actividade comercial diferente.

Se as torres pertencentes à fortificação da antiga cidadela possuíam – e possuem – um carácter marcadamente militar, as torres intra-muros da cidade alta de Sibiu que pululam um pouco por toda a parte são mais distintas e delicadas. Refiro-me, claro, às torres das igrejas e à Turnul Sfatului (Torre do Concelho), lugares privilegiados para uma panorâmica belíssima de Sibiu. As fotografias seguintes foram captadas, a primeira, da torre da Igreja Luterana, e as outras da Turnul Sfatului.

A Turnul Sfatului é uma das imagens de Sibiu e serve de passagem para ligar a Piata Mare à Piata Mica, literalmente, a Praça Grande à Praça Pequena. O termo “pequena” é completamente enganador, uma vez que ambas as praças são enormes. Estas são as tais praças monumentais que arrebatam mesmo qualquer ser desprovido de emoções. Só para as ver, só para nelas estar, já merece a pena a viagem até Sibiu. De forma irregular, acompanham-nas uma série de belos edifícios. São, enfim, duas praças abertas aos sentidos.

Este é desde há muito o coração de Sibiu e tudo aqui está cuidado com extremo bom gosto, criando uma perfeita atmosfera medieval em pleno século XXI.

Nestas duas praças existe uma série de restaurantes e cafés, com esplanadas inspiradoras. Sempre foram e são ainda espaços privilegiados para acolher eventos e festividades. Por altura da minha visita a Piata Mica estava ocupada com bancas de artesanato e a Piata Mare tinha um palco para algum concerto.

E em ambas as praças temos uma série de outros edifícios e estruturas, para além da já citada Turnul Sfatului, a que vale a pena dedicar não só o nosso olhar como também o nosso tempo. A Ponte das Mentiras, na Piata Mica, é ideal para se perceber o desnível entre a cidade baixa e a cidade alta. Este é um dos pontos mais populares de Sibiu e conta a lenda que esta ponte tem ouvidos e percebe quem dos que a atravessam é mentiroso, rangendo à sua passagem.

O Palácio Brukenthal, onde está instalado o tal primeiro museu da Transilvânia, é outro dos lugares de visita obrigatória, agora na Piata Mare. Construído para o Barão Samuel von Brukenthal, governador da Transilvânia no século XVIII, este edifício de arquitectura barroca tem um jardim interior tranquilo e salas de exposição de arte europeia e romena. Mas vale, sobretudo, pela sua arquitectura interior e pelo mobiliário palaciano exposto.

E da Piata Mare sai (ou entra, conforme a perspectiva) a Strada Nicolae Balcescu, a rua pedonal por excelência da cidade. Os edifícios que a ladeiam possuem motivos decorativos bastantes para nos continuar a entreter para além da magnificência das praças anteriores.

Umas palavras mais para uma obrigatória visita à Igreja Ortodoxa, com o exterior em estilo bizantino inspirado na Hagia Sofia de Istambul e o interior com uns frescos celestes, e para voltar à Catedral Luterana, da qual já vimos o panorama desde a sua torre. Em estilo gótico, esta construção do século XIV é altiva e a sua torre com 73 metros domina os céus de Sibiu. As quatro pequenas torres à sua volta eram um sinal para os visitantes de outros tempos de que a cidade possuía o direito de condenar à morte os criminosos. É tão grande esta Catedral que o terreiro à sua frente parece exíguo. As casas que a rodeiam são, como não podia deixar de ser, também bem antigas e algumas encontram-se em restauro.

Em épocas festivas, por aqui instala-se uma feira e, por fim, descobrimos por onde andam os roma da Roménia.

Castelo de Bran

No post anterior acabámos a admirar o panorama desde o topo do monte de Tampa. Mas Tampa, já se sabe, não é o único monte em terra de montanhas. Os Cárpatos estendem-se longe e reproduzem-se em elevações, cada uma mais bonita do que a outra.

O destino é agora a povoação de Bran, a 30 kms de Brasov. Pelo meio da viagem passamos por Rasnov e a experiência em Bran haveria de fazer com que lamentasse não ter deixado tempo para a sua fortificação.

Bran, então. Bram Stoker criou o personagem ficcional Conde Drácula em 1897 e fez situar a sua história na Transilvânia. Desde aí, como se de uma bolinha de neve se tratasse, muitas ligações da obra a Vlad, o príncipe da Wallachia, foram tentadas, sem que haja qualquer realidade nos esforços para fazer coincidir o personagem de Stoker com Vlad ou sequer com Bran e o seu castelo. Já se disse aqui, apesar de Vlad ter nascido na Transilvânia (Sighisoara), o real castelo de Vlad não está sequer nesta região, antes na Wallachia, em Poienari, o tal encerrado pela colónia de ursos que presentemente ocupa as suas imediações. Vlad era efectivamente conhecido como dracul mas essa palavra em romeno significa “filho do dragão”. Ainda assim, a cultura popular gosta de lendas e insiste em encontrar nelas um elo com o real. Vai daí, o Castelo de Bran foi o único lugar pejado de turistas que encontrei na minha viagem pela Roménia, mas de tal forma que se tornava insuportável percorrer as salas do castelo sem encontrões. Veredicto final: não gostei.

Foram os Cavaleiros Teutónicos quem em 1212 construíram a primeira fortaleza num castro em Bran. Os saxões chegaram século e meio depois e tomaram o controlo da fortaleza, dando-lhe a forma actual, para a utilizarem como protecção da rota comercial até Brasov, procurando controlar e evitar os tártaros e os otomanos. Tendo a protecção da fortaleza deixado entretanto de ser uma prioridade, esses saxões acabaram por abandonar a aldeia no século XVII, sendo então o local ocupado por pastores vindos de Brasov. Esta breve história da povoação e seu castelo fecha com a doação efectuada à Rainha Maria da Roménia em 1920, tendo a família real aqui residido até 1947. Tornado museu, nos últimos anos a história passa a folclore, com muitas bancas de souvenirs, todas com alusões a Drácula, a terem de ser superadas para se chegar aos jardins que nos deixam face a face com o promontório onde o Castelo de Bran está instalado.

Pese embora todo o descrito, o lugar é lindíssimo e o castelo idem.

Realce para as suas torres e telhado vermelho, caindo em vários níveis e direcções, resultando num efeito visual delicioso, pormenores acrescentados já no século XIX. Em estilo gótico, o seu interior teria piada de ser percorrido – não fosse a companhia de magotes. São inúmeras salas pequeninas com chão de madeira, zigzagueando de forma aleatória, ideais para nos perdermos, todas elas decoradas com o mobiliário da família real. E, depois, quando alcançamos uma janela e a vista fica desimpedida, reconciliamo-nos com a história, o folclore e a realidade e agradecemos por, ainda assim, termos vindo até ao “Castelo do Drácula” e podermos admirar aquelas montanhas.

Brasov

Brasov é uma das cidades mais amadas e visitadas pelos romenos. Carismática e bela, é a sua implantação geográfica que primeiro seduz, rodeada das montanhas pejadas de floresta. Foi neste cenário que os saxões resolveram instalar uma das suas primeiras cidades quando no século XII vieram ocupar a Transilvânia, embora o lugar já tivesse tido ocupação desde o Neolítico. Nessa época ainda não havia por perto o Castelo de Bran nem o Castelo de Peles, nem se caminhava por prazer pelo ar da serra nas montanhas Bucegi. Estes são alguns dos atractivos que tornam inevitável uma passagem por Brasov. Mas acontece que a própria cidade obriga a que nela se fique sem pressas, mergulhando nas suas ruas para admirar os edifícios e igrejas de arquitectura gótica, barroca e renascentista e os bastiões que nos recordam ter sido esta uma cidade-fortaleza medieval.

Cheguei a Brasov ao fim do dia, ainda a tempo de assistir ao por do sol desde a Cidadela, parte do sistema de fortificação exterior e instalado num monte sobranceiro ao centro histórico com vistas amplas e privilegiadas para a tal implantação geográfica de luxo da cidade. Nessa noite ainda deu para sentir o pulso e atmosfera da cidade, com ruas cheias de cafés e restaurantes e animada pelos muitos visitantes.

No dia seguinte, manhã cedo, tinha a cidade quase só para mim e parti a explorar o seu centro histórico. A povoação é cénica, com um ar medieval burguês, quase altivo até. E essa postura virá dos tempos antigos, daqueles em que Brasov estava na intersecção das rotas que ligavam o Império Otomano à Europa Ocidental, o que fez com que os mercadores saxões enriquecessem e ganhassem influência política na região. Daí o seu então nome germânico, Kronstadt, ou seja, “cidade da coroa”. E daí, também, a necessidade de a proteger através de um sistema defensivo de fortificações, com muitas torres, muros e portas, construído sobretudo durante os séculos XV e XVII.

Parte desse sistema está ainda preservado e pela Rua Dupa Ziduri, literalmente “para além dos muros”, conseguimos juntar ao ambiente medieval umas pitadas de bucolismo, caminhando à beira de um fio de água de um ribeiro e sob as frondosas copas das árvores de passagem pela Torre Branca e pela Torre Negra. Delas obtemos boas panorâmicas do centro histórico, com o enorme corpo da Igreja Negra em destaque, e da montanha de Tampa, com o letreiro “Brasov” ao estilo Hollywood por entre os caracóis da vegetação.

Contornada a cidade pelo seu lado ocidental, é agora o momento de entrar por uma das suas portas sul, a bela Porta Catarina ou a Porta Schei.

A palaciana Porta Catarina foi construída em 1559 e era então a principal entrada, sendo a única das portas originais da cidade medieval que ainda resiste.

Já a Porta Schei foi construída em 1827 em estilo neoclássico e era a única que os habitantes do bairro de mesmo nome estavam autorizados a usar para entrar no centro histórico. Era no bairro Schei que viviam os romenos, proibidos pelos saxões de terem propriedades no interior da cidadela, e para a ela acederem não só tinham horários definidos como tinham de pagar portagem. Agora os tempos são outros e podemos livremente caminhar por qualquer rua de Brasov. Incluindo por aquela que é conhecida como uma das ruas mais estreitas da Europa, a Strada Sforii, com uma largura entre 1,1 e 1,3 metros. Originalmente uma passagem entre ruas para os bombeiros, hoje foi transformada num lugar onde os artistas de rua intervêm na pintura das janelas nas fachadas dos edifícios que a sustentam e onde o visitante comum pode deixar o seu apontamento.

Chegamos, enfim, ao coração do centro histórico de Brasov, onde estão a Igreja Negra e a Praça da Câmara.

A Igreja Negra, do século XIV, é a maior igreja gótica da Roménia – aliás, o maior edifício religioso entre Viena e Istambul – e deve o seu nome não ao facto de ser escura – não o é – mas sim a um grande fogo que a atingiu em 1689 e que fez com que as chamas e fumo escurecessem então a sua fachada.

A Praça da Câmara deve ser bonita. E digo deve porque à minha visita estava vedada – o acesso e a vista – para preparação de algum evento. Este é um daqueles factos que me impedirá de ter Brasov para sempre como cidade preferida na Roménia, sentindo que não a conheci na sua plenitude. Mas, enfim, está sempre a acontecer chegar a um lugar e vê-lo entaipado para restauro ou para qualquer outra actividade, restando-nos a expectativa de que um dia voltaremos para completar o serviço.

De qualquer forma, deu para perceber que a Piata Sfatului, o seu nome romeno, é não apenas bonita como está acompanhada de belos edifícios com pormenores deliciosos, ou não constituísse a praça do mercado dos bem instalados saxões.

Continuo, em seguida, a caminhar pelas ruas de Brasov em direcção a montanha de Tampa, sem deixar de admirar a forma dos seus elegantes edifícios.

Passamos mais umas estruturas defensivas, muros e bastiões, e agora é a natureza a grande protagonista. Para se alcançar o topo de Tampa podemos fazê-lo a pé (cerca de uma hora) ou através do teleférico. Mesmo chegando ao cimo de teleférico ainda teremos de caminhar por uns 5 minutos totalmente envolvidos na floresta para alcançarmos o letreiro “Brasov” que já se tinha avistado ao longe: é aqui, a 960 metros de altitude, que todos queremos estar para levantar o prémio da panorâmica mais fabulosa sobre a cidade, o infinito e mais além.

Sighisoara

Sighisoara é uma daquelas povoações que vem em todas as listas das mais bonitas aldeias, vilas e cidades da Roménia. Não há que desconfiar, a unanimidade é merecida. O charme e romantismo medieval da Transilvânia está cá todo, com o bónus de vir acompanhado de um argumento decisivo para muitos: foi aqui que Vlad Tepes nasceu. E o turismo mais comercial aproveita estes dois factos, mas como estamos na Roménia nada é de massas.

Foi muito antes do mito de Vlad, o Empalador e da ficção do Conde Drácula que Sighisoara foi fundada pelos saxões, uma das sete cidades iniciais criadas por estes colonos alemães no século XII. A cidade foi entretanto crescendo para além dos muros da sua fortificação, sendo hoje como que duas, mas o seu centro histórico continua preservado e um mimo. É este pedaço que está distinguido pela Unesco e é este que mais nos encanta.

A cidadela de Sighisoara está instalada num terreno altaneiro. Cá em baixo, junto ao rio, percebemos que é feita mais de torres do que de muralhas. Eram 14 as suas torres e 5 os seus bastiões. Hoje restam 9 e 2, respectivamente.

Subimos por qualquer um dos lados da cidade e entramos por uma das torres que servem de portas. Logo pisamos a pedra das suas ruas estreitas e irregulares com casas coloridas de ambos os lados, quase um arco-íris.

Muitas destas casas pertenciam aos antigos mercadores da então cidade medieval. Situada nas rotas comerciais da Europa Central, a Sighisoara de então era uma das mais importantes cidades da Transilvânia e para aqui vinham artesãos de todo o lado. Pensa-se que entre os séculos XVI e XVII eram cerca de 15 as guildas e 20 as lojas de bens diversos. Hoje grande parte destes edifícios foram transformados em cafés, restaurantes e lojas de souvenirs. Quando na praça principal da cidadela é fácil sentirmo-nos transportados para essa época.

O charme de Sighisoara está em caminhar pelas ruas e admirar as suas torres. Uma das mais famosas é a Torre do Relógio (atente-se aos seus bonecos em madeira), do século XIV, a antiga entrada principal da cidade onde está hoje instalado um museu. Mas a ela subimos sobretudo pelas vistas fantásticas que do seu topo se alcançam.

A envolvente de Sighisoara é floresta e esta foi tomada pelo edificado que daqui de cima mais não se vê do que telhados ocres sobre telhados ocres, numa harmonia perfeita com a natureza.

Imediatamente abaixo é o recorte da pitoresca e colorida praça principal que se destaca na perfeição.

E da Torre do Relógio percebe-se ainda que a cidadela se expande monte acima, com as torres da Igreja no Monte a dominarem o cenário. Para se chegar aqui desde o centro histórico há que subir os 176 degraus da escadaria de madeira coberta.

A saída deste túnel escuro deixa-nos naquilo que é uma espécie de terceiro patamar da cidade e oferece-nos o verde da floresta protegida pelos muros fortificados. A fortificação da cidadela, muros e torres, já se sabe, tinha como objectivo guardá-la dos ataques turcos. Turcos que, sabe-se igualmente, terão sido as maiores vítimas de Vlad Tepes, o Empalador.

Junto à igreja dos dominicanos a cidade faz questão de lembrar o seu filho mais conhecido, num busto tão assustador como as histórias que dele se contam. Não deixa de ser, no entanto, irónico que tal personagem tenha vindo ao mundo precisamente num ambiente tão bonito.

Transilvânia, a terra das aldeias com igrejas fortificadas

As viagens têm destas coisas. Na preparação desta pela Roménia estava ansiosa por conhecer Maramures e Bucovina, as duas regiões que me fizeram querer viajar até à Roménia. Da Transilvânia, por todos a associarem a Drácula e eu não ter qualquer qualquer interesse por histórias de vampiros, não tinha criado quaisquer expectativas. Pese a ignorância, isso, descobri-o uma vez mais, é o primeiro passo para que as viagens nos surpreendam. Esta região acabou por ser a que mais me impressionou e seduziu, de tal forma que voltava já amanhã.

A Transilvânia está rodeada pelas montanhas dos Cárpatos e fica situada bem no centro da Roménia. No entanto, apenas se juntou ao reino após a I Grande Guerra Mundial. Até aí a região era parte da Hungria e foram os magiares quem no século XII convidaram os colonos saxões para aqui se estabelecerem na tentativa de fazer face às investidas turcas, protegendo as suas fronteiras. Nem sempre o conseguiram e muitos outros povos, incluindo os mongóis, atravessaram a região – já dá para ver o cruzamento de povos que por aqui historicamente deambularam.

Foram esses saxões que acabaram por conferir o carácter arquitectónico e cultural que ainda hoje podemos admirar na Transilvânia, sobretudo nas povoações por si levantadas – originalmente sete (Bistrita, Sibiu, Cluj-Napoca, Brasov, Medias, Sebes e Sighisoara), dando origem ao nome alemão da região, Siebenbürgen. O regime comunista que governou a Roménia no século XX e as dificuldades económicas que o país enfrentou após a sua queda fizeram com que aquele grupo étnico alemão abandonasse o país em massa a partir de 1989. Felizmente, não puderam levar consigo as suas aldeias.

É no sudeste da Transilvânia que encontramos a maior parte das 150 aldeias saxãs, sete delas classificadas pela Unesco como Património da Humanidade (Biertan, Calnic, Darjiu, Prejmer, Saschiz, Valea Viilor e Viscri), tendo como elemento distintivo o facto de serem igrejas / aldeias fortificadas. Tudo isto num cenário belíssimo e num ambiente pré-industrial. A ruralidade é cativante. Nas estradas secundárias os carros são substituídos pelas carroças – e foi aqui que dei de caras com a tal senhora a falar ao telemóvel enquanto era transportada pelos cavalos. Vêem-se campos de milho, salpicando de amarelo uma paisagem maioritariamente verde, e a palha está empilhada artisticamente em rolinhos. Para além dos cavalos que servem de meio de transporte, vemos vacas, ovelhas e até patos. As montanhas estão sempre lá, embora muitas das vezes discretas, com elevações suaves.

Vida simples, já se vê, que parece não ter mudado desde há séculos. E, para comprová-lo, eis que surgem amiúde as tais aldeias fortificadas. À semelhança do nosso Alentejo, onde as povoações mantém uma coerência arquitectónica entre si, mas sempre muito própria, também as povoações da Transilvânia possuem elementos que facilmente a identificam, embora não sejam de todo iguais. Ou melhor, iguais apenas na sua pacatez, tranquilidade e qualidade pictórica, poéticas, até. Um pequeno rio sempre a correr por perto serve um ponto no mapa cruzado por uma estrada com casinhas típicas de ambos os lados, numa arquitectura simples colorida em tons pastel. E às vezes é mesmo apenas isso, uma estrada ou um rio a dividir a povoação. Isso e a tal igreja fortificada.

As igrejas fortificadas da Transilvânia são cidadelas erguidas pelos saxões entre os séculos XIII e XVI. A expansão da aldeia era feita a partir da sua igreja, uma interpretação muito própria da arquitectura gótico-vernacular, e através das fortificações a aldeia inteira poderia sobreviver durante uns tempos em caso de ataque e cerco inimigo. Ou seja, estas igrejas tinham um propósito quer religioso quer defensivo, mas estas fortificações são diferentes de castelos, uma vez que apenas pretendiam defender uma comunidade pequena. À aproximação destas aldeias, que ainda hoje preservam o secular sistema de organização e uso de terra por parte das famílias, percebe-se logo o seu carácter defensivo, vendo-se desde ao longe as torres e os muros erguidos na Idade Média.

Para se conhecer a paisagem da Transilvânia e as suas diversas igrejas fortificadas é essencial lançarmo-nos ao caminho de carro. As distâncias são longas e há que fazer uma série de desvios por estradas estreitas de uma só faixa, as tais que raramente partilharemos com outros carros ou sequer tractores, apenas carroças e manadas ou rebanhos. Dá vontade de visitar todas as aldeias, mas o tempo e a sensatez obrigam a escolhas.

Em seguida, um passeio por algumas destas aldeias, começando por aquela que mais me fascinou, Viscri.

Chegar a Viscri vale qualquer viagem. É a Transilvânia no seu melhor e mais autêntico. As paisagens são belíssimas e no caminho avistamos outras aldeias fortificadas.

A aldeia de Viscri é basicamente duas ruas de terra batida com campos de cultivo ao seu redor. As suas casinhas têm tonalidades várias, mas todas suaves. Destaque, no entanto, para o azul. Os telhados ocres mais parecem um chapéu, o chapéu típico das casas da Transilvânia. E Viscri tem, como não podia deixar de ser, a sua igreja fortificada. Diz-se que esta igreja será a mais antiga da região, construída pela comunidade Székely em 1100 e depois fortificada pelos saxões no século XIII. É uma pequena fortificação de paredes brancas, guaridas de madeira e telhados cores. Do exterior parece quase que uma fortaleza de brincar e no seu interior confirma-se esta impressão. Podemos visitar a sua igreja e caminhar quer pelo piso baixo da fortaleza como pelo piso superior. O ambiente medieval é total, incluindo as madeiras periclitantes a ranger. Viscri é a mais poética e romântica das aldeias da Transilvânia, puro charme.

Biertan, à semelhança de Viscri está também classificada pela Unesco. Um dos primeiros assentamentos dos saxões na região, as suas casas são igualmente um deleite para os nossos sentidos. E a sua localização geográfica é fantástica, com os telhados a sobressaírem no meio dos campos verdes encostados a um pequeno monte.

A igreja fortificada de Biertan não é, no entanto, nada pequenina. Pelo contrário, esta que é uma das mais visitadas e reconhecidas fortificações é imponente e tem várias torres que protegem a igreja gótica. Ultrapassada a entrada somos transportados através de uma escadaria coberta em túnel de madeira que nos deixa num plateau superior. Vagueamos por este espaço inspirador a que não faltam sequer belas vistas da paisagem que circunda a fortificação. A sua igreja é uma das poucas que ainda preserva o altar original datado do século XVI.

Malancrav é uma das povoações que tem vindo a atrair cada vez mais visitantes. Um fio de água, que o atrevimento poderia chamar rio, divide as duas estradas da aldeia, cada uma ladeada das típicas casinhas que não me canso de gabar.

A torre da igreja fortificada surge elegante como vigia nas suas costas. Como curiosidade, esta aldeia era propriedade de uma família, os Apafi, e os habitantes seus servos. A servidão terminou apenas no século XIX e Malancrav é hoje a aldeia com a maior comunidade de saxões na região.

Alma Vii é a mais remota das aldeias fortificadas que visitei, de tal forma que afirmar que é uma viagem no tempo que nos espera não é cliché. Passamos por pedaços de floresta que surgem de rompante para logo darem lugar a prados, ultrapassamos com respeito as carroças com os agricultores locais que retornam do dia de trabalho e eis que mais uma fiada de casinhas de tons pastel nos aguarda. Um pouco mais elevada na paisagem aí está a igreja fortificada. Infelizmente, ao fim da tarde a fortificação já estava encerrada, restando-me apenas contorná-la no seu exterior. Não é a mesma coisa, mas chegou para me tornar mais feliz.

De passagem avistei ao longe Rupea e Saschiz, o que chegou para me maravilhar. Lamento até hoje a falta de tempo para uma certamente merecida paragem nestas e em muitas mais igrejas fortificadas da Transilvânia.

Estrada Transfagarasan

A vontade de conduzir a Estrada Transfagarasan foi o motivo que me fez ir adiando a visita à Roménia. Devido ao clima, esta estrada de montanha apenas está aberta no verão, daí que para nela rolar se tenha de estar atento não apenas ao calendário mas também ao boletim meteorológico.

E qual a piada de conduzir nesta estrada? Serve dizer que a Transfagarasan foi considerada pelo programa de TV Top Gear como a melhor estrada do mundo?

Esta estrada atravessa as montanhas Fagaras, as mais altas da Roménia, as quais constituem a fronteira tradicional entre a região da Wallachia e da Transilvânia. Havia e há outras estradas que atravessam de forma menos abrupta os Cárpatos e ligam estas duas regiões, mas nos anos 70 Ceausescu decidiu levar adiante o projecto desta estrada. Foram quase cinco anos de construção, toneladas de dinamite para rebentar as rochas da montanha, muitos trabalhadores mortos por acidente, tudo isto porque o ditador temia uma invasão inimiga e com esta estrada – a mais alta asfaltada da Roménia – teria uma ligação militar mais directa entre o norte e o sul no país.

A Transfagarasan é fabulosa.

São 92 épicos quilómetros que atravessam um castelo, florestas, montanhas, lagos e cascatas, desde a povoação de Arefu, no condado de Arges, até Cartisoara, no condado de Sibiu.

Do aeroporto de Bucareste até Curtea de Arges, a antiga capital da Wallachia no século XIV, são pouco mais de duas horas, grande parte delas em auto-estrada. A partir daqui com pouca demora passamos pelo Castelo de Poienari, o verdadeiro castelo de Drácula, o príncipe Vlad Tepes, ou Vlad, o Empalador, que dele fez fortaleza e prisão neste já então lugar estratégico como Passo entre as duas regiões. E digo “passamos” e não “visitamos” porque uma colónia de ursos deambula por aqui, tornando o caminho de subida até ao castelo perigoso – para os ursos, que se assustam com as pessoas – e, por isso, encerrado temporariamente. Diz-se que Ceausescu adorava ursos e proibiu a sua caça. Em resultado, eles tornaram-se tantos que na Roménia vivem 80% dos ursos de toda a Europa.

Após o Castelo de Poienari começamos a perceber o porquê da viagem. A paisagem é maravilhosa, com a montanha cortada a meio pelo rio que corre ao fundo. Subimos bem, sempre a baixa velocidade, não só pela pendente mas também pelas curvas fechadas que se sucedem. E eis que surge o primeiro lago, o Vidraru, uma barragem onde uns barcos navegam nas tranquilas águas sob o recorte das montanhas.

A velocidade mantém-se baixa, sempre atentos à beleza da estrada, aproveitando para fazer de Fittipaldi nas breves rectas. Ao redor do lago Vidraru a floresta é densa, interrompida aqui e ali pela agua a escorrer à beira da estrada, vinda não se sabe muito bem de onde.

Continuamos a subir e a temperatura vai descendo – cerca de 13° entre o início da subida e o ponto mais alto da estrada – até chegar a uns 15° e não se conseguir imaginar a quanto baixará no Inverno.

Parece perto mas ainda demora até se chegar ao Lago Balea, o tal ponto mais alto da estrada, a 2034 metros de altitude. Antes passamos uma cascata, uma pequena capela, um refúgio de montanha e vemos os picos a aproximarem-se e a ficarem mais afiados a querer rasgar o céu. Curva contra curva, a estrada de asfalto encaixada num vale estreito de verde raso a preencher as paredes montanhosas. Já estamos bem no alto, ainda que não no ponto mais alto, e já completamente rendidos a este cenário.

Há-de vir o mais longo túnel da Roménia, quase um quilómetro, e então sim, eis o Lago Balea com os tais 2034 metros de altitude. O lugar mais famoso da Estrada Transfagarasan é também o mais concorrido. O lago é bonito, fácil e agradável de se contornar, mas o que querermos agora é procurar assento na montanha para contemplarmos a imagem com que havíamos sonhado. É uma incrível descida vale abaixo onde a estrada de asfalto se vai contorcendo. Parece o traçado de um circuito de Fórmula 1 ou até, gosto de lembrar, uma daquelas pistas de carros que montava no hall de casa quando era criança.

Chega, então, o momento de descer esta pista, igualmente a baixa velocidade pelos cotovelos apertados e pela vontade de fazer com que o tempo não passe. A cabine do teleférico vermelho voa sobre nós, rasgando o azul do céu rumo ao verde da montanha. A Cascata Balea está mais abaixo, perto da entrada da estação do teleférico, mais um lugar muito concorrido, e logo voltamos a ficar rodeados de floresta e em breve a Transfagarasan terminará.

E o bom desta aventura é que não é preciso nem um carro como os da Fórmula 1 ou do Top Gear ou as suas loucas velocidades para nos divertirmos a valer na condução desta enormíssima estrada. Aqui, a velocidade cruzeiro é a mais prazerosa.

Bucovina

Mais uma vez, foram as imagens e palavras de outros que me inspiraram no desejo de visitar a região de Bucovina. Um artigo na revista Fugas, há três anos, com uma capa com um mosteiro com uns frescos de um azul encantatório fez com que desde aí sonhasse mas por qualquer razão fosse adiando a viagem à Roménia. Até este ano e, claro, Bucovina tinha de constar do itinerário.

Bucovina fica situada na histórica Moldávia, o principiado independente que a par da Wallachia se juntou no século XIV para formar a primeira noção de estado romeno. Foram séculos de luta para não se deixar subjugar aos otomanos, mas o território moldavo acabou por ser separado – em 1775 Bucovina, região mais a norte, foi anexada pelo império austro-húngaro e em 1812 o que é hoje a República da Moldávia (antiga Basarabia), mais a leste, foi anexada pela Rússia. Restou a Moldávia província romena. Uma grande confusão, está visto, ainda mais se dissermos que a Bucovina tradicional incluía territórios hoje da Ucrânia e fazia fronteira com a Polónia.

História à parte, Bucovina é uma região bucólica, terra de montanhas e de mosteiros medievais. O nome “bucovina” significa, literalmente, “terra da faia”. E são enormes manchas de arvoredo de faias o que vemos desfilar pela nossa vista, imaginando que talvez a nossa ilha Faial pudesse assemelhar-se a Bucovina caso ainda mantivesse a sua plantação autóctone original.

Suceava é maior cidade de Bucovina e um bom ponto de partida para se visitar o maior símbolo da região: os seus mosteiros. Apesar de a cidade ser servida por um aeroporto com ligação a Bucareste (e até a Londres e Bolonha), o turismo não abunda, de tal forma que estive até à última para tentar reunir um grupo de 3 para seguir num tour de um dia, senão teria de arcar com o seu custo na totalidade. Suceava foi em tempos uma cidade real, capital do principiado da Moldávia por mais de 200 anos, mas acabou por crescer e desenvolver-se como uma cidade industrial. Nas últimas décadas fez questão de restaurar as ruínas da antiga Cidadela Real, do século XIV, de cujo topo se obtém uma panorâmica larga. Já cá em baixo, na cidade, encontramos uma série de igrejas, incluindo a do Mosteiro de São João o Novo, classificado pela Unesco e um aperitivo para o que veremos em seguida.

Stefan cel Mare (Stefan, o Grande), príncipe moldavo do século XV, é um herói romeno e uma enorme figura de Bucovina. Guerreiro, lutou grande parte da sua vida contra os invasores otomanos, mas para nós, visitantes da Bucovina do século XXI, o seu legado manifesta-se em termos culturais. Foi por sua iniciativa ou com o seu apoio que foram erguidas uma série de comunidades monásticas, e os seus descendentes acabaram por dar continuidade a esta ideia. Nesse sentido, nos séculos XV e XVI foram erguidos diversos mosteiros com uma arquitectura muito especial, mesclando características locais com elementos bizantinos e góticos. Mais distintivo, cada um destes mosteiros foi preenchido quer na fachada quer no interior por uma infinidade de frescos com a representação de temas religiosos – o que faz com que hoje conheçamos as igrejas de Bucovina como os “mosteiros pintados de Bucovina”.

E são oito os Mosteiros Pintados de Bucovina distinguidos pela Unesco como Património da Humanidade: Arbore, Probota, Patrauti, St George, Humor, Voronet, Moldovita e Sucevita. Visitámos os últimos 5 e pudemos constatar como todos eles chegaram incrivelmente bem preservados desde a época medieval até aos nossos tempos, com as pinturas bem vivas. Cada um destes mosteiros está mais associado a uma determinada cor e as pinturas da sua fachada sul estão sempre mais bem conservadas do que as da fachada norte, cortesia dos ventos agrestes de norte. Todas as pinturas que admiramos nestes mosteiros foram apenas limpas e restauradas, mantendo-se os frescos originais, não tendo voltado a ser pintados. E cada um destes mosteiros está mais associado a um determinado motivo bíblico. Estas podem ser algumas diferenças, cor e motivos bíblicos, mas a motivação para a construção destes mosteiros e criação dos frescos foi a mesma: a de promover a religião cristã ortodoxa ao mesmo tempo que se procurava educar os iletrados, dando-lhes a conhecer a história da cristandade através das imagens das pinturas – daí as pinturas e o simbolismo nelas representado também nas fachadas exteriores, para que todos as pudessem ver e entender. Como resultado, a fé aliada à arte, marca identitária de toda uma região.

A qualidade artística destes frescos é soberba, de uma beleza, originalidade e carácter único surpreendentes, gabados não apenas pela sua composição e interpretação, mas sobretudo pela inventiva aplicação da cor e harmonia. A cor é, aliás, a grande sedutora e causa igualmente surpresa como se pôde manter ao longo da passagem do tempo e do clima.

Já se disse, cada mosteiro possui uma cor dominante e em cada um deles o pintor-artesão responsável interpretou as cenas bíblicas à sua maneira, embora respeitando o programa iconográfico. Em seguida, um breve tour por alguns destes mosteiros, instalados no campo, fora das povoações, ainda hoje habitados por freiras integralmente vestidas de preto que fazem questão de deixar os jardins que os circundam impecavelmente verdes e com rosas a desabrochar.

O Mosteiro de Humor foi construído em 1530 e é um recinto fortificado com uma torre donde se alcança um bom cenário para a pacatez do campo.

A sua igreja é atípica, uma vez que não possui a costumeira torre que se observa nas demais igrejas da região. A razão será o facto de ter sido mandada construir por um nobre e não por um príncipe reinante. A cor dominante da igreja do Mosteiro de Humor é o vermelho acastanhado. Os frescos na fachada sul exterior mostram a história de São Nicolau e a Anunciação – e é brutal constatar a enorme diferença de conservação dos frescos nas fachadas sul e norte, devido ao já mencionado factor vento.

O Mosteiro de Voronet é azul. Um azul tão luminoso e intenso, de uma distinção tal que foi mesmo criado o termo “azul de Voronet”.

Mandada construir por Stefan, o Grande em 1488, há quem diga que esta é a mais famosa das igrejas romenas. O seu telhado parece um chapéu de elegantes abas, mas este é apenas o primeiro elemento que retém a nossa atenção. A obra de pintura da fachada exterior é considerada a Capela Sistina do leste. Na fachada oeste da igreja encontramos pintada uma incrível cena do Juízo Final, uma interpretação poderosa da Bíblia por parte de um artista completo, versado e talentoso não apenas na pintura, mas também um estudioso. A escolha desta representação do Juízo Final na fachada oeste não é alheia ao facto de ser aqui que o sol se põe, despedindo-se do dia, pretendendo-se assim que esta cena bíblica que representa o fim da vida esteja também associada ao fim do dia. Na fachada sul vemos representados diversos filósofos, como Aristoteles, Platão e Sócrates, o que não é assim tão comum em temáticas religiosas. O interior da igreja de Voronet é igualmente deslumbrante (como o de todas as outras igrejas visitadas). Decorado interiormente, de alto a baixo, temos a primeira sala do calendário, com 365 pequenas pinturas com alusão a factos e cenas de cada um dos dias, uma segunda sala com a história de São Jorge (o nome desta igreja) e uma terceira sala com o altar. Curiosamente, em Bucovina as igrejas possuem 3 salas, ao contrário das de Maramures que possuem apenas 2 salas, embora em ambas as regiões as igrejas sejam cristãs ortodoxas.

O Mosteiro de Moldovita foi construído em 1532 e aqui estão as pinturas mais bem preservadas de todas as igrejas de Bucovina.

Situado bem no meio da floresta, a cor dominante das pinturas da sua igreja da Anunciação é o amarelo. A cena com a representação da tomada de Constantinopla é superior. Nas igrejas destes mosteiros anuncia-se a proibição de fotos no seu interior, mas no de Moldovita elas são toleradas.

Entre o Mosteiro de Moldovita e o de Sucevita passamos pelo Passo de Ciumarna. O tour por mim escolhido foi fantástico, com informação e simpatia preciosas por parte do guia, com muito tempo para a visita a cada mosteiro, mas com poucas paragens para se poder admirar a paisagem e, logo, para fotografias. A excepção foi este Passo, a 1109 metros de altitude, lugar de uma icónica escultura de uma mão gigante e onde estão montadas umas bancas de comida e souvenirs, para além de um parque aventura com uma zip line. Não perdi nem um segundo com estas atracções, ávida de olhar só para este pedaço das montanhas dos Cárpatos.

Depois do almoço, veio a visita ao último dos mosteiros do dia, o de Sucevita.

Também fortificada, a igreja da Ressurreição foi construída em 1583 e pintada por volta de 1595, ou seja, cerca de 50 anos após as demais, sendo considerado o último exemplar destas maravilhas. A partir daí não mais se criaram estas autênticas obras de arte, uma vez que então os otomanos já marcavam presença forte na região e para além do tributo a pagar-lhes ficava muito dispendioso gastar recursos financeiros com estas peças religiosas e artísticas. A cor de Sucevita é o verde e o seu maior destaque é o fresco com a representação da Escada do Paraíso, com os anjos a ajudar os virtuosos a lá chegar e os pecadores a serem derrubados para o inferno.

Inferno, porém, é algo que não parece conjugar com Bucovina, seu ambiente e sua arte. É tudo tão bonito e belo que olhando o céu azul dava-me vontade de arriscar voltar no Inverno inclemente, só para poder ver a cor branca brilhante da neve lado a lado com as cores reluzentes das pinturas dos mosteiros.