Bucareste

Em apenas dois dias não é fácil apaixonar-nos por Bucareste, a capital da Roménia, região da Wallachia. A cidade é algo contraditória na sua arquitectura, reflexo do decurso do tempo. O princípio do século XX foi a sua época dourada, tendo aí ficado conhecida como a “Pequena Paris” pela profusão de edifícios em estilo neoclássico. Mas os bombardeamentos durante a II Grande Guerra Mundial e o terramoto de 1977 destruíram muito.

A megalomania de Ceausescu trouxe à cidade as largas e intermináveis avenidas, os monstruosos edifícios públicos e os monolíticos edifícios de habitação. Assim, na mesma cidade, em pleno convívio, temos hoje o Boulevard Unirii, pouco amigo dos pedestres, e a Calea Victoriei, irresistível para um passeio; o brutal Palácio do Parlamento e o delicado Ateneo Romano; um rio que atravessa a cidade mas não se chega a perceber e uma série de aprazíveis parques com lagos; bairros elegantes com edifícios modernistas e bairros cuja marca do tempo é avassaladora nos seus edifícios em estilo bizantino. O que mais me surpreendeu em Bucareste foi perceber na sua arquitectura esta marca otomana numa cidade que tomava como plenamente europeia. E, sobretudo, ver um centro histórico que leio e oiço restaurado feito ainda de muitos edifícios em ruína e abandonados.

Comecemos, ainda assim, pelo centro histórico de Bucareste. Aqui ficava o Velho Palácio do Principiado, datado do século XV e hoje sob restauro. O seu estado de ruína não deixa perceber muito do que terá sido. Este era o coração da cidade, que ficava nas rotas comerciais mais importantes da época. Ao seu lado, a igreja do Palácio, que dizem ser a mais antiga da cidade. E à sua frente, o Hanul Lui Manuc, ao estilo dos antigos caravançarai. Hoje não é mais estalagem, apenas restaurante, certamente um dos mais antigos da cidade, datado de 1806. Mas o restaurante que quase todos aconselham é o também centenário Caru’ cu Bere, não só pela experiência gastronómica, mas também pelo seu interior em madeira e vidro decorado. Em ambos os espaços somos transportados para uma outra era. E a viagem no tempo e pelas outras culturas continua com a visita à igreja Stavropoleos, datada de 1724. Mínima na dimensão mas grande em ambiente.

A rua principal do Centro Histórico é a Lipscani, onde ficam muitos bares e restaurantes e, sobretudo, aquela que vem sendo considerada como uma das mais bonitas livrarias do mundo, a Carturesti Carusel. Instalada num edifício renovado, o interior com 6 pisos é cheio de luz, o que realça ainda mais a sua escadaria branca. Uma outra filial desta livraria, a Carturesi Gradina Verona, não muito distante da primeira, também é de visita obrigatória, pelos livros espalhados nas diversas salas do que foi uma antiga residência e pelo seu café num pátio ajardinado.

Voltando ao Centro Histórico, outros dos atractivos são caminhos como Hanul cu Tei e passagens em forma de arcadas cobertas de vidro onde o sol dá à luz natural, como o Macca-Villacrosse, ambos repletos de esplanadas.

Saindo deste Centro Histórico, vale a pena caminhar ao longo da Calea Victoriei, com os edifícios mais majestosos da cidade, hoje quase todos eles edifícios públicos e hotéis. A Praça da Revolução foi tornada histórica por ter sido onde em 21 de Dezembro de 1989 Nicolae Ceausescu fez o seu último discurso da varanda do edifício do Comité Central do Partido Comunista à multidão inflamada e teve de fugir para pouco tempo depois acabar por ser executado.

Junto à Praça fica o Ateneo Romano, a sala de música por excelência da cidade, onde tocaram grandes nomes como Richard Strauss, Igor Strawinsky e George Eneuscu, o maior compositor romeno. Construído entre 1886 e 1889, a fachada exterior feita de colunas neoclássicas é imponente e bela, mas diz que é o seu interior que nos arrebata, experiência que não tive ocasião de confirmar, uma vez que o Ateneo estava fechado à minha passagem.

Do outro lado da rua fica o Palácio Real, hoje Museu Nacional de Arte, onde se expõe arte romena e arte europeia. Mas não serão tanto as pinturas que recordarei, antes a escadaria fantástica da ala da galeria de arte europeia deste palácio do princípio do século XIX.

Após um desvio até ao tranquilo Parque Cismigiu, as distâncias podem atemorizar, mas vale a pena voltar e continuar a caminhar mais uns dois quilómetros pela Calea Victoriei, a rua mais antiga da cidade, até à enorme e disfuncional Piata Victoriei. Daqui em diante o mais avisado será percorrer de autocarro a longa avenida que se segue, bordejada ora de um parque ora de edifícios em estilo otomano ou modernista que são hoje maioritariamente embaixadas ou estão abandonados. E eis que surge algo que já todos vimos, só não sabíamos é que era aqui que ficava: aquilo não é o Arco do Triunfo? Pois é, Bucareste, a “Pequena Paris”, também tem o seu Arco do Triunfo. Esta réplica do de Paris, é um símbolo da cidade e foi erguido em 1936 em celebração da participação da Roménia na I Grande Guerra Mundial.

O Arco do Triunfo abre-se para grandes avenidas, mas para lá de uma delas fica o Parque Herastrau, um grande espaço de jardim virado para um lago donde se avista ao fundo um daqueles edifícios cuja arquitectura é familiar a todos os países que viveram o comunismo. A curiosidade da situação é que este edifício em estilo estalinista é a Casa Presei Libere, ou seja, a “casa da imprensa livre”.

Junto ao Parque Herastrau fica um dos bairros mais elegantes da cidade, o Bairro Primavera. Zona residencial por excelência, calma e com ruas com divisórias ajardinadas e até com frutos caídos das árvores no chão, aqui fica o Palácio Primavera, mais conhecido por ter sido a residência de Nicolae e Elena Ceausescu nos seus últimos 20 anos de vida que coincidiram com os anos em que o casal governou o país. Enquanto se discute em Portugal a relevância e a sensatez da criação de uma casa-museu de Salazar, o nosso ditador, faz todo o sentido visitar esta casa em Bucareste. As visitas são exclusivamente guiadas e mesmo se o percurso pela casa não nos é contextualizado através de informação escrita, os comentários irónicos do guia deixam perceber a uma pessoa minimamente informada pela História a desproporcional extravagância da vida palaciana do casal em relação à vida de racionamento e penúria que impunha ao comum dos seus súbditos do povo. Aqui viveu o casal com os seus 3 filhos adolescentes, cada um com o seu quarto individual sempre com um espaço de antecâmara, closet e casa de banho. Mas nem aqui os ocupantes da casa eram tratados de forma igual. A casa de banho de Elena, por exemplo, era (é) banhada a ouro. Não se pense, no entanto, que nos esperam momentos kitsch. Pelo contrário, o bom gosto do estilo francês “maria antonieta” impera e não falta sequer um jardim interior e uma piscina também interior com o seu hall decorado com mosaicos.

Custa assumir que a casa é linda e que estes ditadores comunistas pudessem ter bom gosto. Na casa veem-se ainda muitas fotos de família, objectos pessoais e mobiliário do dia-a-dia, como o tabuleiro de xadrez montado numa mesa, segundo o qual o guia informou que Ceausescu ganhava todas as partidas porque ninguém se atrevia a ganhar-lhe com medo das consequências, ou a estante com livros à qual o guia se questionou se a formação de sapateiro do ditador lhe terá permitido ter lido algum deles. É com este tipo de comentários mecanicamente irónicos que percebemos que este Ceausescu já não mete medo, mas as marcas do seu desgoverno ainda cá andam.

E marca maior não há do que aquela que impõe a presença do Palácio do Parlamento. Ceausescu sonhou construir um cento cívico, uma “Casa do Povo”, e determinou a sua construção, comandando as obras e providenciando os melhores materiais. A obra começou a ser construída em 1984, mas o ditador não a chegou a ver concluída, porque foi apeado do poder e fuzilado antes. Na verdade, a obra inicialmente por si imaginada e projectada nunca chegou a ser completada por inteiro por falta de recursos financeiros, ou melhor, pela canalização destes recursos para outros projectos que a queda de Ceausescu e o fim do comunismo tornaram mais prementes. Ainda assim, o edifício do Palácio do Parlamento é o segundo maior edifício administrativo do mundo, apenas atrás do Pentágono, mas é o mais pesado e caro de sempre. Em termos de área apenas é superado pelo Cabo Canaveral e a pela Pirâmide do Sol de Teotihuacan. A visita a este símbolo de Bucareste é obrigatória e apenas pode ser efectuada através de visita guiada. Ao longo de quase uma hora passamos por diversas salas que representam apenas cerca de 5% das mais de 1000 salas existentes em todo o complexo.

Há até um teatro, passível de ser alugado para certos eventos, com um lustre majestoso, o maior de todos os existentes no edifícios. Abundam as colunas, o mármore, as carpetes. Passamos pelo salão onde num fórum histórico em 1994 Shimon Peres e Yasser Arafat se encontraram e por um outro salão onde Nadia Comaneci foi autorizada a casar. Tudo de uma opulência e majestosidade absolutamente desajustadas da restante cidade que a circunda. Usualmente, a visita termina do balcão donde se obtém uma panorâmica para o centro de Bucareste. Infelizmente, um meeting que decorria na altura da minha visita levou ao encerramento desse balcão.

De qualquer forma, se não tive direito a essa vista, pude ao menos conseguir a vista para ocidente desde o terraço do café do Museu de Arte Contemporânea, o qual ocupa uma ínfima parte do complexo do Palácio do Parlamento. Inaugurado em 2004, vale a pena conhecer este espaço único na cidade pelo invulgar acolhimento de obras contemporâneas num espaço que na sua génese não pode deixar de se considerar austero. Deste balcão, se não se vê a cidade construída, a histórica e a das grandes avenidas, vê-se ao invés um enorme vazio, correspondente àquilo que ficou por construir. Parece uma boa forma de nos despedirmos de Bucareste, uma cidade ainda em transformação.

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