As vilas amarelas do Alto Alentejo

É típico da paisagem alentejana o casario caiado de branco, quase sempre com riscas coloridas nos rodapés e a envolver as portas e janelas. Há-as de todas as cores, dando uma alegria singular e marcante à passagem por qualquer aldeia ou vila do Alentejo.

Mas em três vilas que destacaremos em seguida, Nisa, Crato e Alter do Chão, é o amarelo a cor que quase sempre sobressai no branco das casas e edifícios públicos. Daí o epíteto que agora lhes damos, o das “vilas amarelas”.

Nisa está instalada entre serras, a Serra de São Miguel, onde fica o ponto mais alto do concelho a 463 metros, e a Serra de São Mamede, a mais alta do distrito de Portalegre a 1025 metros (e a mais alta a sul do Tejo). Antes de passearmos pelo seu casario, um nota histórica curiosa. Foi D. Sancho I quem em 1199 doou à Ordem dos Templários a Herdade da Açafa, que incluía os territórios que hoje conhecemos como Nisa, Castelo de Vide e Marvão. O objectivo desta doação era o de povoar e defender este território até aí despovoado e desde aí perto da raia onde reinavam os “infiéis”. A partir de então foram chegando colonos do sul de França que trouxeram consigo as ideias de morfologia urbana das regiões de sua origem, a “bastide”, uma cidade medieval fortificada instalada junto a uma fortaleza. Assim foi criada Nisa junto à fortaleza erguida pelos Templários. A origem do seu nome vem da cidade francesa de Nice. Assim como as povoações vizinhas de Arêz (Arles), Montalvão (Montauban) e Tolosa (Toulouse) se inspiraram em outras cidades do sul de França.

Da fortaleza Templária e das muralhas do antigo burgo não resta praticamente nada. Excepção para uns poucos panos de muralha a que foram adossadas habitações e duas portas da antiga Nisa. A Porta da Vila é a mais monumental delas, com duas torres com ameias em cada lado e a apresentação de dois escudos a encimar o arco de entrada, um correspondente às armas de Portugal antigo e outro à Cruz de Cristo, uma espécie de eles e nós.

A pitoresca Torre do Relógio fica mesmo junto à Porta da Vila, bem como a Igreja Matriz. Ambas pontuadas a amarelo, como convém para este texto. Subindo alguns degraus da Torre do Relógio o amarelo deixa de dominar e o ocre dos telhados substitui-o. É uma confusão de casas que parece que mal deixa espaço para as ruas. E ao fundo a Serra de São Miguel com a sua forma pouco comum de terminar com o ponto mais elevado.

Descemos e confirmamos que, sim, as ruas são super estreitas criando uma intimidade entre os edifícios. A esmagadora maioria deles tem as tais listas amarelas e alguns preocupam-se em possuir portas e janelas de cor verde. Aqui e ali encontramos ainda detalhes decorativos nas cantarias das porta.

O compacto centro histórico de Nisa percorre-se facilmente até à outra porta que sobreviveu até aos nossos dias, a Porta de Montalvão, virada, precisamente, para a povoação vizinha de mesmo nome. Pelo meio, eis a pequena Praça do Município, onde fica o jardim com Pelourinho, a Câmara Municipal, a Capela da Santa Casa da Misericórdia e o palacete Lopes Tavares. Disse pequena praça, mas pelos vistos cabe muito nela. E para além de pitoresca, aqui ficamos a tentar perceber onde será a entrada principal da Câmara. E antes de atravessarmos o túnel que rasga o edifício em direcção à já referida Porta de Montalvão, apreciamos mais um momento da história, desta vez nossa contemporânea, que nos conta que o último proprietário do palacete Lopes Tavares tendo ficado viúvo deu ainda em vida cumprimento ao desejo de sua mulher de ajudar os pobres e aqui fundou um asilo, sendo hoje esta casa propriedade da Santa Casa da Misericórdia.

Nisa continua para lá do seu centro histórico, procurando ir ao encontro do que se espera das urbes do nosso tempo, de que é exemplo a sua ampla Praça da República. Mas não é isso que procuramos nestas vilas, pelo que seguimos para o Crato.

A caminho, porém, é obrigatória uma paragem para rever a sua aldeia de Flor da Rosa, lugar de mais casinhas pitorescas e do monumental Mosteiro de mesmo nome.

Se Nisa foi doada à Ordem dos Templários, já o Crato foi doado à Ordem dos Hospitalários. Mais tarde, a construção do dito Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa em 1356 fez do Crato a sede desta Ordem em Portugal. E, claro, conta-nos a História que ao Crato está desde aí ligado o nome de D. Álvaro Gonçalves Pereira, o primeiro Prior do Crato e pai de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, que aqui nasceu. Sobre este mosteiro que parece uma fortaleza e é hoje uma Pousada de Portugal, adaptada de forma magnífica para o efeito pelo arquitecto Manuel Graça Dias, já tínhamos escrito em tempos aqui.

Do passado glorioso do Crato restam alguns elementos para além do Mosteiro. Desde logo, ainda hoje é na vila que se realizam as cerimónias de investidura dos novos Cavaleiros da Ordem de Malta. Do antigo castelo medieval mais tarde adaptado a fortim abaluartado, implantado numa cota mais alta, não restam mais do que ruínas e um baluarte. Mais abaixo, no centro da vila encontramos o seu símbolo mais bonito e elegante, a Varanda do Grão-Prior sustentada por três arcos de volta perfeita, o que resta do antigo palácio do século XVI. Nesta Praça do Município ficam ainda os serenos edifícios dos Paços do Concelho e o Palácio Sa Nogueira, para além do Pelourinho. Junto a ela, um antigo palácio barroco, hoje transformado em museu municipal onde se pode conhecer a história do concelho do Crato desde a pré-história até ao século XX.

No mais, caminhando pelas ruas estreitas e empedradas, com edifícios revestidos pelos “nossos” frisos amarelos, encontramos as costumeiras Torre do Relógio e Igreja Matriz, ambas bem bonitas. Umas janelas com cantaria decorada, muitas cruzes (de Cristo, que da Ordem de Malta não cheguei a perceber) e até apontamentos contemporâneos.

Esta é uma região de presença pré-histórica, como o atestam as diversas antas espalhadas pelo campo. Não desviámos para as visitar e seguimos adiante pela estrada que é uma das mais bonitas do Alentejo.

Alter do Chão é famosa pela sua Coudelaria Real, cujos edifícios, por sinal, têm as cores típicas deste post. À semelhança, claro, do centro histórico da vila, para onde rumamos agora. Apesar da ocupação da região desde os tempos dos romanos, Alter cresceu sobretudo a partir de 1359, data da construção do castelo por iniciativa de D. Pedro I. Inicialmente, este castelo em granito começou por desempenhar funções residenciais, sendo utilizado pelos monarcas da dinastia de Bragança aquando das suas deslocações à região. Mais tarde foi alcaidaria, prisão, loja de ferrador, oficina de carpintaria, celeiro, cavalariças, lagar de azeite e até lixeira. Restaurado no século passado, hoje está aberto a visitas por onde podemos apreciar a sua arquitectura e história.

Não há melhor lugar para perceber a sua implantação geográfica do que uma subida às muralhas e torre de menagem. Erguido num sítio plano, o casario branco e amarelo estende-se aos seus pés. Mais distante na paisagem vemos ao fundo no alto de um pequeno afloramento rochoso o Castelo de Alter Pedroso que, diz a lenda, chegou a estar ligado ao Castelo de Alter do Chão por um túnel. Outra estória dá-nos conta da existência nas proximidades de uma “cova da moura encantada” onde todo o homem que se aproximasse ficaria preso aos encantos da moura, enquanto que as mulheres teriam de saltar o buraco – se não caíssem, a felicidade amorosa estaria assegurada, se caíssem, seriam infelizes.

De volta à realidade e à actualidade, a Praça da República para onde dá o castelo é um espaço tranquilo com um coreto e bancos de jardim. Ao seu redor destaca-se o Palácio do Álamo, um solar barroco do século XVII que é hoje museu municipal. O seu jardim, diz que igualmente digno de nota, estava fechado para restauro aquando a minha visita.

O coração da vila estende-se para as traseiras do chafariz renascentista em mármore de Estremoz na Praça da República. As ruas, mais uma vez, são estreitas e sinuosas. Passamos por diversas casas brasonadas e igrejas e atentamos na decoração das entradas dos edifícios com esculturas de cavalos.

Uma última palavra para o Convento de Santo António, exemplo do barroco alentejano, hoje parte igreja e parte hotel. Ideal para uma noite bem dormida e um acordar relaxado na serenidade da planície do Alentejo.

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