Marvila

Marvila é uma freguesia de Lisboa situada na zona oriental. A 4ª maior em área e a 2ª em número habitantes, não basta dizer que Marvila é uma freguesia muito diversa. É quase missão impossível tentar referir tudo o que cabe neste pedaço de território que abriga lado a lado terrenos agrícolas, industriais e habitacionais. Que tem um rio como uma das suas fronteiras naturais e que é recortada por um longo vale. O vale de Chelas e o rio Tejo definiram desde sempre a sua personalidade, dando-lhe, um, o carácter rural que nunca perdeu e, outro, os bons ares que aqui fizeram estabelecer uma série de fidalgos.

A Marvila que até meados do século XIX era apenas um arrabalde da capital Lisboa, da qual restam alguns exemplos de quintas e palácios, transformou-se desde aí num dos pólos industriais da cidade, com consequências na paisagem urbana visíveis até hoje. Os gasómetros da Matinha são uma das suas imagens mais fortes e, também, exemplo paradigmático do que as estruturas agora desactivadas e / ou abandonadas podem representar num determinado território: uma memória ou um novo uso? Marvila e sua vizinha Beato são talvez as zonas de Lisboa onde estas perguntas mais se colocam. Mas a transformação de Marvila não terminou com a chegada das fábricas. A decadência deste sector acabou por coincidir com a chegada dos novos núcleos habitacionais que se foram criando no âmbito do Plano de Urbanização de Chelas e que, embora à partida não tivessem esse sentido, nos anos 70 acabaram por se tornar praticamente por inteiro em bairros de habitação social. Casos de estudo como o Pantera Cor-de-Rosa e o Cinco Dedos, no Bairro dos Loios (da autoria dos arquitectos Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita e Vítor Figueiredo, respectivamente) ou a Zona J, no Bairro do Condado (do arquitecto Tomás Taveira). Mas se parte da antiga Quinta do Palácio dos Marqueses de Abrantes foi transformada em mais um bairro de habitação social, já a sua vizinha Quinta dos Alfinetes foi reconvertida em biblioteca municipal, numa propositada intenção de dotar um lugar socialmente desqualificado e carente de equipamentos culturais de infra-estruturas que sirvam como um suporte educativo que contribua para um futuro de novas e melhores oportunidades aos seus habitantes.

A piada de Marvila está, precisamente, em poder observar uma série de realidades inesperadas a conviver lado a lado. Uma biblioteca num bairro de habitação social carregado de empenas pintadas pelos maiores artistas de arte urbana, enquanto as ovelhas se arrastam pela rua devidamente guiadas pelo seu pastor.

Mais abaixo, do outro lado da linha do comboio, surge a Marvila mais típica, protegida do rio por uma longa linha de armazéns. É nesta faixa que tudo parece estar a acontecer, mudando não apenas o rosto da freguesia, mas também o de Lisboa, fazendo com que Marvila esteja em alta como a zona mais trendy da capital.

A enorme escultura de José de Guimarães, inaugurada a 25 e Abril de 1999, exactos 25 anos após a Revolução dos Cravos, uma homenagem aos construtores de Lisboa, recebe-nos de braços abertos à entrada desta nova cidade. Aqui na Matinha segue em construção um dos maiores projectos residenciais de Lisboa, o empreendimento de luxo Jardins de Braço de Prata, da autoria do arquitecto Renzo Piano, nos terrenos da antiga Fábrica de Material de Guerra. Ao lado, permanecendo ao abandono e ruína, o edifício ocre da antiga fábrica A Tabaqueira. Atrás, muitos armazéns, um dos quais serve de casa à Galeria Underdogs, de Vhils. À frente, o mais recente jardim de Lisboa, o Parque Ribeirinho Oriental, a devolução aos lisboetas de um espaço de Tejo desimpedido.

A Doca do Poço de Bispo segue vigilante. Não apenas do Tejo, mas de toda a transformação da zona. No entanto, as memórias dos tempos áureos de Marvila estão mesmo ali do outro lado da rua, protegidas no interior. A Praça David Leandro da Silva é o centro histórico e acomoda dois dos seus edifícios mais emblemáticos, a Casa José Domingos Barreiro e os Armazéns Abel Pereira da Fonseca (projecto do arquitecto Norte Júnior). As suas fachadas art deco têm elementos decorativos suficientes para nos deixar especados a olhar para cima, em especial os dois enormes olhos de vidro do Abel Pereira da Fonseca. Ambos antigos armazéns onde se produzia, comercializava e distribuía produtos vinícolas, um construído em 1896 e o outro em 1917, aproveitando a verdadeira auto-estrada que são as águas do Tejo à sua porta para transportar as mercadorias. Observe-se o barquinho assente no rio no emblema do Abel Pereira da Fonseca nas duas fachadas. Este empreendimento era tão grande e importante que chegou mesmo a ter nas suas instalações uma vila para habitação dos funcionários. Aliás, para além das fábricas, a memória histórica de Marvila é também feita de vilas e de pátios operários. A Vila Pereira, com a sua fachada encimada por inúmeras chaminés, e o Pátio Beirão são dois exemplos, ali mesmo na Rua do Açúcar. Rua do Açúcar, não deve haver nome de rua mais doce em Lisboa e, pelos vistos, no lugar onde houve em tempos indústrias de material de guerra, sabão, curtumes, cortiça, fósforos, entre muitos outros, havia também uma refinaria de açúcar.

E a Marvila não falta, é claro, um convento. Construído no século XVII, o Convento de Nossa Senhora da Conceição foi entregue à Ordem das Brígida. Muito destruído com o terramoto de 1775, com a extinção das ordens religiosas no século seguinte o espaço conventual acabou por ser transformado em asilo, mantendo-se a sua igreja – Igreja de Santo Agostinho de Marvila – aberta ao culto até hoje. Não conheço o seu interior, mas a ver pelos azulejos na fachada, o espectáculo deve prolongar-se lá para dentro.

Marvila tem, ainda, mais quintas e palácios para além dos já referidos anteriormente. O Palácio da Mitra, bem conservado, apesar das várias vidas que teve desde a sua construção no século XVII (residência de prelados, fábrica de metalurgia e fundição, fábrica de licores, asilo, Museu da Cidade e, hoje, serviços da Câmara Municipal de Lisboa onde, entre outros, é usado para recepções oficiais. O Palácio dos Marqueses de Abrantes, igualmente propriedade municipal, hoje lugar popular ocupado por diversas colectividades – é aqui que se ensaia a marcha de Marvila – e pelo Pátio do Colégio. E a Quinta do Marquês de Marialva, de que resta apenas a sua formosa torre, conhecida como mirante. Conta-se que foi deste mirante, colado à linha férrea, que em 1856 D. Pedro V assistiu à passagem do primeiro comboio. Mas a partir de 1919 parte dos seus enormes terrenos passaram a ser ocupados pela Fábrica Nacional de Sabões e o restante da Quinta foi votado ao abandono. Parece que em Marvila nada é perene, tudo se transforma e tudo se reconverte e, está visto, nos anos 90 já a Sociedade Nacional dos Sabões tinha deixado de ser uma das maiores empresas do país, falindo e deixando consigo um rasto de abandono e terrenos expectantes.

A questão é mesmo essa, o dos terrenos e edifícios abandonados e, logo, à espera de novos negócios e oportunidades. E, nisso, Marvila é rainha. O quarteirão da Casa José Domingos Barreiro, na praça principal de Marvila – Poço Bispo, foi vendido recentemente e não se conhece ainda o projecto para a sua reconversão urbanística. Já o edifício dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca foi reconvertido no Lisbon WorkHub e dispõe de vários espaços criativos, de coworking e restaurante.

A ideia de espaços multifacetados chegou à zona em 2007, com a abertura da nova vida (de parte) da antiga Fábrica de Material de Guerra como Fábrica de Braço de Prata, uns 200 metros mais adiante. Um centro cultural com livrarias, cafés, galerias, ateliers e escritórios que teria, à partida, uma vida breve, até ao loteamento e urbanização dos terrenos onde está instalada. Desde aí, não pararam de chegar novidades. Armazéns reconvertidos em galerias de arte, ateliers, cafés, restaurantes, lojas com ideias fora da caixa, ginásios, escalada indoor, salas de música ao vivo, empresas tecnológicas e teatro (o Teatro Meriodinal, um dos meus preferidos). Até fábricas de cerveja artesanal, logo três de seguida, a Dois Corvos, a Lince e a Musa, tendo sido muito a propósito criado o Lisbon Beer District. Quanto a restaurantes, só a Rua do Açúcar tem duas mãos cheias deles. Fica aqui a indicação de alguns: Dinastia Chang, o meu preferido, El Bulo Social Club, o mais mediático, Aquele Lugar que Não Existe, o mais excêntrico, e Entra, o mais surpreendente.

Mas este era o cenário até à entrada do ano 2020. Nada a ver com Covid-19, portanto. O que acontece é que tudo o que mexe dá nas vistas e atrai a voragem de outros. A maioria dos barracões das antigas fábricas de Marvila há décadas que ali estavam esquecidos, alguns deles alugados há poucos anos por uns trocos a uns então visionários. Mas, agora, tudo parece ter mudado novamente. De repente os terrenos e imóveis tornaram-se apetecíveis e valorizaram exponencialmente, pedindo-se rendas insuportáveis a quem havia vindo para aqui precisamente em busca de preços mais acessíveis. Ou seja, o Dinastia Tang já encerrou definitivamente e outros se seguirão e dirão adeus a Marvila.

Ao mesmo tempo que aguardo com expectativa e apreensão o futuro da Marvila minha vizinha, não posso deixá-la sem acrescentar mais duas das suas instituições: o Clube Oriental de Lisboa, um dos históricos de Lisboa, do qual até já fui atleta, e o Parque da Belavista, um reduto verde numa encosta que nos permite, precisamente, belas vistas de uma outra Lisboa.

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