Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 2ª etapa – Vila Real – Lamego (61 km – 104 km)

“Numa curva da estrada, o Douro apareceu.” – Miguel Torga, in Vindima

De todas as seis etapas da nossa jornada pela EN2 esta é a mais curta, apenas 43 kms. Porquê? Precisamente porque “numa curva da estrada, o Douro apareceu” e sabemos que se dela desviarmos mais Douro teremos a inundar-nos.

Apesar de curta, esta etapa tem dos mais belos metros de toda a viagem.

Antes de deixarmos Vila Real passeámos pelo Jardim da Carreira, construído no século XVIII como jardim público da cidade, e conhecemos o Parque Corgo, a grande zona de lazer criada já neste século. Aqui espreitamos o Corgo, afluente do Douro a quem se irá juntar no Peso da Régua. A EN2 atravessa o coração de Vila Real, Sé de um lado, Paços do Concelho do outro, Casa de Diogo Cão à espreita, e à saída atravessa uma pequena ponte sobre o Rio Cabril antes de se fazer acompanhar pelo Vale do Corgo à sua esquerda. A situação geográfica de Vila Real, dominada pelo vale deste rio, é um pouco esquisita, fazendo com que ela ganhe altura e não seja fácil vencer os desníveis do território, com prédios encavalitados na encosta, não se podendo dizer que a cidade nova seja bonita. Mas depois de voltarmos a atravessar novo afluente do Corgo, desta vez o Sordo, este vale torna-se grandioso, e nem o enorme viaduto da A4 prejudica esta imagem.

A partir daqui o cenário entra num crescendo de panorâmicas épicas. As curvas sucedem-se e os montes invadem-se uns aos outros, tornando-se siameses, dando movimento à paisagem. Já se veem os famosos socalcos do Douro. E veem-se aldeias empoleiradas na encosta, como a bela Cumieira. A EN2 ainda atravessa mais um afluente do Corgo, o Aguilhão, antes de chegarmos a Santa Marta de Penaguião. A conjugação de montes e vales cravados por cursos de água moldou este território, fazendo dele um dos pedaços mais bonitos do nosso país.

Atravessamos Santa Marta de Penaguião e as suas esculturas públicas não enganam: esta é terra da vinha e da vindima.

Incrivelmente, a descida para a Régua consegue ser ainda mais bonita. As encostas, carregadas de vinha verde no princípio de Julho, estão dispostas em socalcos com linhas de vinhas que parecem uma obra de arte. Um cenário delicioso. Dá vontade de parar em cada berma da Estrada para com tempo melhor o apreciarmos, e felizmente vamos tendo espaço para o fazer. Pelo contrário, começamos a ver Peso da Régua ao longe, bonita com o Douro a enquadrá-la, mas aí já não temos a mesma sorte.

Estes breves 25 quilómetros de Vila Real à Régua são, não nos cansamos de repetir, beleza pura. Mas não chega. Da Régua desviamos da EN2 durante 19 kms para irmos ter com o Miradouro de São Leonardo da Galafura.

“O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir […] A beleza absoluta.”

A Galafura deixa-nos sem palavras, mas felizmente Torga, sempre ele, dá-nos uma ajuda para tentar compreender o arrebatamento que nos tocou. Da Galafura ao Pinhão pela margem norte do Douro são quase 40 kms, num sobe e desce constante pela ruralidade da região, feita de aldeias e de quintas. Nos últimos quilómetros da descida para o Pinhão os artísticos socalcos voltam a acompanhar-nos. É tudo demasiadamente belo. O Pinhão é extremamente turístico, aqui param os barcos e o comboio, mas merece todos os elogios. A paisagem que envolve a vila é de uma serenidade tocante.

De volta à Régua, seguimos desta vez pela margem sul do Douro. São 25 kms pela EN 222, provavelmente a estrada mais romântica do nosso país. Sempre junto ao rio, observando os incríveis reflexos dos seus montes, a condução faz-se lentamente, para melhor aproveitar cada pedaço da tal beleza sublimada.

Já dá vontade para o um mergulho do dia e aqui começa a frustração. Temos um rio imenso, vilas e quintas carismáticas, mas está difícil escolher um lugar para nos envolvermos na sua água. A Régua não é bonita, cresceu desmesuradamente como eixo central da indústria do vinho, e nem para um mergulho sob a observação do homem da capa, o Sandeman, serve.

Temos de desviar até à Rede, praia fluvial oficial, a caminho de Mesão Frio. São apenas 10 kms sempre a direito, novamente junto ao rio mas agora na margem norte. Passamos pelas Caldas de Moledo, lugar das antigas Termas, hoje decadente e ao abandono. Na Rede também não se vê ninguém, espreito o rio, escolho o lugar e, finalmente, o meu primeiro mergulho no Douro. Só verde e água à volta. Que maravilha.

Daqui voltamos à Régua. As visitas a esta cidade ficam-se normalmente pela sua zona ribeirinha. Mas o seu coração antigo fica mais para o interior e lá para cima – esta é mais uma daquelas urbes que teve de vencer o desnível da sua implantação. Temos o largo da igreja matriz com coreto e alguns edifícios interessantes e, depois, por aí abaixo, o edifício dos paços do concelho até chegar novamente à beira rio. Aqui fica o Museu do Douro, instalado no edifício da antiga “Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”, então detentora do monopólio da comercialização do Vinho do Porto, nesta que foi a primeira região vinícola demarcada do mundo, em 1756. Aqui se procura preservar a identidade e memória da região duriense, paisagem natural humanizada, com a exposição de objectos etnográficos ligados à vitivinicultura.

Até Lamego, última paragem do dia, são apenas 14 kms. Se a parte final da EN2 de Vila Real ao Peso da Régua havia sido sempre a descer, agora até Lamego é sempre a subir. A passagem do quilómetro 100 acontece lá em cima e o centro da cidade 4 kms depois, sendo que a Estrada faz questão de atravessar a sua bela avenida principal. Até lá, muitas vinhas e povoações penduradas na encosta.

À chegada subimos ao Castelo De Lamego – o nosso castelo do dia -, entrando pela pitoresca Porta dos Figos, em arco, a sua entrada norte. Aqui temos o núcleo arqueológico e centro interpretativo de um lugar que remonta à época romana. O Bairro do Castelo é pequeno e logo chegamos à Torre de Menagem. Diz-se que é obra dos mouros, mas terá sido construída no século XII, já a cidade estava sob o domínio cristão. Infelizmente, cheguei ao castelo a bater as 18:00, hora de fecho, pelo que já não pude nem deambular pela sua praça de armas nem subir à torre. Instalado num afloramento rochoso altaneiro à cidade, as vistas devem ser largas, mas tive de me contentar em vê-lo de fora.

De quase qualquer canto da cidade se avista o monte do castelo, como a caminho do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, por exemplo. Mas aqui o interesse é outro, e não necessariamente um de devoção religiosa. Momento brilhante da arquitectura barroca e rococó, a beleza do traçado da interminável escadaria (686 degraus) e os elementos decorativos que vamos encontrando em cada patamar são sublimes.

Já cá em baixo na cidade, a avenida central que prolonga o Santuário prolonga igualmente a sua beleza, pintalgada de mais esculturas e lagos.

Cidade-Património do Douro, muitos são os elementos arquitectónicos de visita obrigatória, como a Sé Catedral com o seu maravilhoso portal, diversos edifícios brasonados, o antigo Seminário e o antigo Paço do Bispo. Em comum, quase todos eles têm fachadas brancas fortemente dominadas pelo seus apontamentos em granito. Esta monumentalidade de Lamego, em especial os solares brasonados dos séculos XVII e XVIII, explica-se facilmente pelo seu passado ligado ao comércio do vinho nesta histórica Região Demarcada do Douro. E para terminar o dia, nada melhor do que compor a barriga com uma vitela arouquesa no literal Manjar do Douro.

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