Trilho das Fisgas do Ermelo – 1° desvio à EN2

“O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. Sem eles, quem daria aos homens o permanente exemplo da sublevação natural que há no espírito da própria vida?” – Miguel Torga

Em territórios de Vila Real e Mondim de Basto, percorrer o trilho das Fisgas do Ermelo é a melhor forma de se conhecer e perceber a Serra do Alvão, sua natureza bruta e modos de vida das suas povoações.

De Vila Real ao Ermelo, a aldeia de xisto onde tem início o trilho, são 30 kms. Mas grande parte deles são percorridos no troço da EN 304 correspondente ao Vale da Campeã, entre as serras do Alvão e do Marão. São cenários grandiosos aqueles por onde rolamos nesta que é considerada uma das melhores estradas da Europa para se conduzir.

Deixamos o carro na aldeia do Ermelo, a quem foi dado foral no século XII por D. Sancho I, passamos pelo seu Pelourinho junto àquela que foi a antiga casa da cadeia e junta de freguesia (extinta), uma fonte aqui, um espigueiro ali e inúmeras casas de xisto com telhado de lousa. E são precisamente para umas placas de lousa que o artista local se orgulha de chamar a nossa atenção. Lemos os textos aí inscritos contando a história do lugar e dedicatórias à sua beleza e encanto (“há (sic) tarde quando anoitece / louco de tanta beleza / o Ôlo não adormece / canta um hino à natureza”) e iniciamos os 12 kms do percurso pedestre (PR3 Fisgas de Ermelo) que nos manterá epicamente ocupados ao longo das próximas quase 6 horas.

O Olo é o rio que nasce no Alvão, um pouco para lá da povoação de Lamas de Olo, e desagua no Tâmega pouco antes de Amarante. É ele a grande estrela deste trilho ao proporcionar, em parceria com as locais rochas quartzíticas, uma queda de água com um desnível de cerca de 400 metros que se desenvolve em diversos patamares, formando lagoas de água cristalina, as “piocas”. No entanto, o primeiro curso de água de que nos aproximamos é a Ribeira de Fervença (que em breve se juntará ao Olo), até onde descemos desde a aldeia do Ermelo e cruzamos a sua ponte de madeira.

A partir daqui iniciamos uma longa subida a caminho das Fisgas e da aldeia de Varzigueto, primeiro protegidos pela vegetação, mas logo a céu aberto – daí que a caminhada em dias de maior calor possa ser ainda mais extenuante. Só que as vistas são absolutamente fantásticas, um emaranhado de serras e penhascos agrestes – um lugar de espanto e terror, como tão bem caracterizou Miguel Torga -, onde ao longe uma espuma branca pinta um desses penhascos, escorregando por ele abaixo. São, precisamente, as Fisgas. Os pretextos para pararmos e deixarmo-nos absorver pela magia do cenário são muitos, fazendo com que nem a subida nem o calor nos detenha.

A Lomba do Bulhão é o primeiro miradouro oficial, mesmo de frente para as Fisgas e debruçada sobre o vale do Olo.

Todavia, durante esta primeira parte da caminhada, a da subida, as Fisgas têm a forte concorrência do Monte Farinha, acompanhado de mais dois ondulantes montes, todos em filinha uns ao lado dos outros. O Monte Farinha é, a par das Fisgas, o grande símbolo do concelho de Mondim de Basto, e tem o Santuário da Senhora da Graça no seu topo, lugar incontornável da passagem da Volta a Portugal em bicicleta. Já o tínhamos subido (de carro) num dia de vento e chuva e havíamos sentido que o ambiente que lá se experimenta era quase místico. Agora ao longe, vendo-o em toda a sua formosura no meio de uma paisagem imensa, não podemos deixar de recordar todo o seu poder.

Estamos em Terras de Basto e a felicidade inunda-nos. Que cenário!

As Fisgas ainda vão longe, por enquanto percebemos pouco mais do que a tal longa espuma branca a pintar a rocha, mas mesmo à distância o barulho intenso da queda da água faz-se sentir. À medida que circundamos o percurso, agora por um trilho com uma subida menos pronunciada, e nos aproximamos das Fisgas, vamos percebendo alguns dos muitos patamares em que vai caindo e as piscinas naturais que vai formando, as piocas. Este é um fenómeno natural onde um acidente geológico originado por uma falha interrompe o curso do Olo em sucessivas quedas de água em desníveis ao longo de centenas de metros.

Logo vemos uma pioca mais larga, vazia de gente, e definimos que é aí que vamos querer mergulhar. Mas não nos podemos distrair com a ansiedade e com o desejo de refrescar porque nesta vertente do trilho as lascas da pedra são usadas para definir o caminho.

Já estafados, finalmente o trilho dá-nos uma recta e até uma leve descida com o bónus de árvores como cobertura, uma espécie de descanso bem antes do meio do percurso.

Mais um miradouro, desta vez quase junto às Fisgas e às Piocas, próximo do Alto da Cabeça Grande, talvez o ponto mais elevado da nossa jornada, a 802 metros de altitude (a aldeia do Ermelo, onde começámos, está apenas a cerca de 420 metros).

É pouco depois que surge o desvio para as Piocas de Cima. Primeiro assistimos ao Olo a correr plano e lentamente. Depois percebemos um desnível seguido de uma piscina natural, mais um desnível e outra piscina, e mais um e outra, e poderíamos estar aqui até ao fim do dia a contá-los.

O lugar é verdadeiramente incrível e a vontade de uma banhoca gelada e refrescante ganha a concorrência de querer perceber como é a piscina que se segue. Controlamos uma vez mais a ansiedade e entramos na água, gentil e cristalina. Boiamos e olhamos o céu, a tentar acreditar que temos toda esta natureza para nós. Ainda dentro de água, espreitamos a próxima piscina. Demoramo-nos. Só então, já fora da lagoa escolhida, vamos caminhar em busca de mais piocas pelos blocos de pedras que as rodeiam que, por não serem escorregadias, não constituem um perigo de maior. Percebemos, com ingenuidade, que a tal pioca mais larga que viramos do miradouro anterior está um bocadão mais lá abaixo, sendo que o abaixo aqui é relativo, porque as verdadeiras Piocas de Baixo estão infinitamente mais abaixo. Digamos que esta lagoa generosa estará no primeiro 1/4 da infinitude da queda de água das Fisgas. Aliás, o nome “Fisgas” deriva precisamente desta forma que a água do Olo encontrou para se acomodar na parede rochosa, como que enfisgando-se.

Mas não vale a pena arriscar demasiado em busca de mais piocas, porque as que temos cá em cima temo-las que chegue. Continuamos, por isso, caminho rumo a Varzigueto, agora sempre junto ao Olo, estreito, quase um fio de agua sereno que vai dando para molhar os pés e a espaços até banhar o corpo todo.

Varzigueto, aldeia de montanha, está belamente implantada a 745 metros de altitude e aqui a ruralidade impera. Também com casas de xisto, palheiros e espigueiros, aqui as vacas pareciam indomáveis, teimando em escolher o seu caminho à revelia do seu domador. Não deixo Varzigueto sem quase tropeçar ou pisar num pedaço de qualquer coisa enrolado no chão. Felizmente que o senhor PAN não anda por aqui e alguém já lhe tinha dado uma paulada na cabeça, ou teria apanhado o susto da minha vida.

Atravessada Varzigueto, retornamos, passamos a ponte e seguimos agora pela margem contrária do Olo. Mesmo repetidas, as vistas continuam bonitas e, saciados, não desviamos novamente para as Piocas de Cima. O som forte da água a cair continua.

Pouco depois passamos pela Cancela do Miradouro com nova panorâmica, e mais próxima, para o Monte Farinha.

E logo chegamos ao mais famoso e acessível miradouro para as Fisgas do Ermelo, aquele onde se chega de carro imediatamente a seguir ao Fojo, com a sua capela, e o mais próximo que podemos chegar delas sem qualquer esforço físico. Há anos tinha aqui estado e é incrível como, apesar de brutal, não se percebe nem um décimo da enormidade das Fisgas. Aqui se lê e confirma com sentimento as palavras de Torga já referidas anteriormente: “Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche”.

Deste miradouro iniciamos uma descida num terreno de pedra. Até aqui o trilho tinha estado sempre muito bem marcado, com indicações amiúde, mas nesta descida perdi-me, voltando no entanto ao caminho com pouca demora e sem esforço de maior.

As Piocas de Baixo são outra das atracções da jornada. E começam por se ver e ouvir desde bem ao alto, logo aguçando a vontade de as espreitar de perto. No Ermelo tinham-nos dito que este era o lugar mais bonito de toda a região. Descemos, desviamos no trilho, descemos mais um pouco e aí estão as lagoas de baixo. Acontece que não esperávamos encontrar aqui tanta gente e, sobretudo, parafernália como colchões de água, bóias com patinho e música a sair demasiado alta de um rádio. Alguém chegou primeiro e tomou o lugar para si. Merecem respeito na mesma, uma vez que tanto para chegar às Piocas de Baixo como às de Cima há que caminhar mais de 1 km, nada é oferecido.

De qualquer forma, já não houve mergulho nestas piocas, antes subimos e seguimos rumo aos últimos 2 kms até à meta na aldeia do Ermelo. Que acabaram por ser um pouco mais, uma vez que alguma distração fez perder nova sinalização num qualquer cruzamento, levando a que se tivesse que saltar uns quantos muros até retomar o trilho. Continuamos a descer e aqui ficamos preocupados, porque sabemos que o casario de Ermelo está mais acima e, cansados, sabemos que teremos de enfrentar mais uma subida.

Cruzamos a ponte da Abelheira e reconheço a água do rio pintalgada de vegetação em forma de pompons que há anos tinha apreciado. Aqui é um bom lugar para descansar, tomar banho e até mergulhar.

E, bom, a partir daqui é mais 1 km sempre a subir. Com o acumulado da caminhada, quase 6 horas, é o que mais custa. Mas, com a chegada às casinhas de xisto do Ermelo todo o cansaço se vai e uma enorme alegria nos inunda pelo feito da conclusão de uma das mais épicas e incríveis caminhadas jamais feitas no nosso país. O coração do Alvão tinha sido atingido, mas eu é que sai conquistada, ainda mais após uma perseguição e espera de alguns anos.

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