Da Maceira a Santa Cruz

Em tempos falaram-me de uma prova de um trail pelas escarpas da Maceira e de como era bonita a região por onde o trail passava. Investiguei, segui caminho até Porto Novo, entrei vale do rio Alcabrichel adentro, para lá por uma margem e para cá pela outra, com viragem no Balneário dos Frades, e fiquei feliz com o curto passeio. Mas com a inauguração em 2019 do Passadiço das Escapas, um quilómetro que une Maceira a Porto Novo, no concelho de Torres Vedras, decidi voltar para percorrer a nova estrutura.

A ideia era que desta vez o passeio fosse mais alargado, com início na Gruta da Lapa da Rainha, na Maceira, e final na Praia Formosa, em Santa Cruz. Para isso, estacionei em Santa Cruz e apanhei um táxi até à Maceira. Só que, pela estrada que liga Porto Novo à Maceira percebi que o percurso do novo passadiço não seria nem um décimo tão bonito como o percurso que havia feito anteriormente junto à margem escarposa do rio Alcabrichel. Talvez deva dar razão àqueles que se irritam com a praga dos passadiços, sobretudo em lugares cuja beleza está em estado bruto e não é difícil de alcançar. É o caso das Escarpas da Maceira e por aqui iniciaremos o nosso passeio de hoje, 11 fáceis quilómetros a caminhar.

A Gruta da Lapa da Rainha fica no alto de um cabeço na povoação da Maceira, perto da entrada das Termas do Vimeiro. Subimos – a única subida do dia digna desse nome – e poucos metros depois espreitamos por esta Gruta classificada como Monumento Nacional. Crê-se que seja uma estação do Paleolítico Superior, testemunho de uma ocupação humana da zona bem antiga. Entramos por uma cavidade na rocha e saímos pelo lado contrário. Este é o Cabeço da Rainha e no cabeço em frente, o Cabeço do Castelo, há mais uma gruta gêmea desta, menos estudada mas igualmente classificada. As vistas do cimo do cabeço são bem bonitas, com a povoação da Maceira imediatamente abaixo.

Caminhando em direcção ao Atlântico, somos totalmente envolvidos pela intensa vegetação de um bosque e assim seguimos durante umas centenas de metros.

Umas abertas deixam-nos ver, encravadas em baixo no vale, algumas das instalações das Termas do Vimeiro, em especial a sua piscina – vazia, uma vez que dada a Pandemia da Covid-19 as Termas do Vimeiro não abriram neste ano de 2020. Não confundir com a povoação do Vimeiro, ali vizinha mas já no concelho da Lourinhã. Há duas nascentes nesta zona termal, a da Fonte dos Frades e a da Fonte da Rainha Santa Isabel. Diz-se que a Rainha Santa residiu no Vimeiro e terá sido ela a descobrir esta última nascente de água que lhe terá curado algum mal de pele. Verdade ou não, o certo é que está comprovado cientificamente possuírem estas águas uma riqueza mineral e medicinal que traz aqui muita gente em busca de terapias ou tão somente para relaxar.

Estamos a caminhar no topo de um maciço rochoso calcário e as vistas tornam-se cada vez mais bonitas. As escarpas que ladeiam o verdejante vale do rio Alcabrichel são muito cénicas e ao fundo já se vê o azul do mar. Uma composição perfeita.

Quando descemos ao Balneário dos Frades e continuamos a seguir pelo vale, mas agora cá em baixo, a visão das escarpas é ainda mais bonita. As Escarpas da Maceira, monumento natural classificado como geossítio, erguem-se apertadas deixando o rio Alcabrichel correr em direcção ao Atlântico, na Praia de Porto Novo. E nós aproveitamos à boleia no carreiro junto ao rio (o Passadiço, esse, segue do outro lado de uma das escarpas, junto à estrada).

Porto Novo, a foz do Alcabrichel, é um antigo porto piscatório onde em 1808 desembarcaram as tropas britânicas que viriam a combater na batalha do Vimeiro, aquando da primeira Invasão Francesa. Hoje é uma praia com hotéis, restaurantes, actividades náuticas e a possibilidade de estender a toalha na areia ora à beira mar ora à beira rio.

Ao seu lado, passando a falésia baixa que se estende até à água por umas rochas negras muito cénicas, fica a Praia de Santa Rita. Esta tem um longo areal, quase 2 quilómetros, e não fosse o costumeiro vento e neblina locais todos aqui gostariam de ficar a apanhar banhos de sol sem preocupações com distanciamentos sociais.

Não desviámos para as ruínas do Convento de Penafirme, para lá da estrada que passa junto à duna, e no final de Santa Rita subimos o monte arenoso para daí passarmos a caminhar pelo topo da falésia até Santa Cruz. São menos de 5 quilómetros com vistas de praia e mar fantásticas. Vamos vendo a Praia de Porto Novo, para trás, a afastar-se cada vez mais e os contornos da costa a ficarem cada vez mais bonitos. O mais interessante é constatar a diversidade da flora dunar – umas vezes abundante e colorida, outras escassa e lunar.

E um dos passatempos é espreitar e fotografar as pessoas que caminham à beira-mar; vistas de cima da falésia parecem meros pontinhos minúsculos na areia.

Para diante passamos pela Praia da Mexilhoeira (para o interior, escondido na duna, há de estar o Areias do Seixo, um hotel de charme multipremiado pelo seu bom gosto e integração com o meio-ambiente onde está inserido) e pela Praia da Vigia, antes de chegarmos a Santa Cruz e suas praias mais urbanas. Na Praia da Física fica o Noah Surf House, hotel, restaurante, loja de surf, irmão do Areias do Seixo, mas mais popular e acessível e visível da estrada na sua arquitectura moderna.

Mas a imagem de marca de Santa Cruz são os seus toldos de praia com listas verticais coloridas. Eles quase que enchem o areal da Praia da Física nos dias de Verão e são também parte do mobiliário urbano na promenade, servindo como lugares de descanso e sombra.

Santa Cruz, uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão, é hoje um lugar concorrido, mas à entrada para o último quartel do século XIX tinha apenas uma meia-dúzia de casas. De porto piscatório transformou-se, entretanto, em lugar de veraneio da gente bem de Torres Vedras, atraindo igualmente escritores que se identificaram com o clima melancólico das praias do Oeste. O Passeio dos Poetas, marginal junto ao mar, é dedicado a três deles: Antero de Quental, João de Barros e Kazuo Dan.

O nosso passeio termina da melhor forma junto ao Penedo do Guincho, imediatamente antes da Praia Formosa. Este leixão é uma enorme e belíssima rocha, reclinada como a Torre de Pisa, pousada na água do mar. Já esteve ligada à arriba, e devido à erosão em algum momento dela se despegou. Não bastasse a sua formosura, tem ainda uma abertura no meio, espécie de túnel onde a água do mar bate quando está mais revolto ou rola tranquilamente em alturas de acalmia marítima. Não exagero se disser que este é um dos lugares mais bonitos de toda a nossa costa e mirando o Penedo do Guincho uma e mais uma vez nos despedimos desta jornada.

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2 pensamentos sobre “Da Maceira a Santa Cruz

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