Tapada da Ajuda

Numa época em que andamos todos ávidos por espaços ao ar livre, eis uma boa notícia para Lisboa: em Janeiro de 2021 a Tapada da Ajuda reabriu com novos percursos pedonais e cicláveis e uma nova ligação a Alcântara e a Monsanto. Este é o resultado da parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto Superior de Agronomia (ISA) no âmbito de Lisboa Capital Verde 2020, estando ainda prevista a criação de dois parques hortícolas cujos talhões ficarão à disposição dos munícipes interessados. E assim tudo se torna mais fácil para partirmos à (re)descoberta do património ambiental, histórico e arquitectónico deste parque botânico com 100 hectares numa tapada que já foi real e que hoje é parte integrante de um campus universitário – são inúmeros os caminhos por entre campos agrícolas, hortas, pomares, prados, vinhas, jardins, arboretos, com diversas espécies domésticas e exóticas.

Os solos desta zona da cidade sobranceira ao rio Tejo e a sul da Serra de Monsanto são de origem calcária e basáltica. Bons para agricultura e senhores de um bom clima. Durante a dinastia Filipina, que governou Portugal entre 1580 e 1640, o que hoje conhecemos como Tapada da Ajuda era utilizado como terreno de caça. Aí perto ficava o Paço do Calvário (ou de Alcântara). Após a Restauração, D. João IV murou os terrenos e como que oficializou a Tapada, fazendo dela lugar de caçadas reais e de recreio. Era então a Real Tapada de Alcântara, tornada Real Tapada da Ajuda quando os reis se mudaram para o vizinho Palácio da Ajuda. Foi ainda no tempo da monarquia que a Tapada começou a abrir-se ao público, como lugar de passeios e exposições – o Observatório Astronómico e o Palácio de Exposições são edifícios construídos na segunda metade do século XIX cujo valor arquitectónico perdura até hoje. Em 1917, após a implantação da República, o ISA foi criado e implantado em terrenos da Tapada, que entretanto deixou de ser real, e em 1956 foi instituído o Parque Botânico da Tapada da Ajuda.

Estes dois factores – escola agrícola e parque botânico – foram fundamentais não apenas para a preservação florestal e ambiental da Tapada, mas também para o seu desenvolvimento, com um incremento na sua vertente paisagística e vegetal. Ou seja, desde a instituição do ISA os elementos existentes na Tapada serviram de fonte indispensável ao ensino, mas a par dos autóctones bosques de zambujeiro foram sendo plantadas diversas outras espécies exóticas.

Comecemos, então, a nossa visita pela Tapada da Ajuda. Com quatro entradas à escolha, optámos pela da Rua Jau, subindo directamente para o edifício principal do ISA. À nossa direita, pomar, à nossa esquerda, vinha. Já lá em cima, tomamos a direita para descer pela Rampa da Asneira, designação curiosa que se fica a dever ao facto de aquando da construção do ISA ter havido um engano na orientação da planta do projecto. E a partir daqui logo nos embrenhamos pela luxúria da vegetação da Tapada. Castanheiro, cipreste, carvalho, araucária, zambujeiro e palmeira são apenas alguns dos exemplos de espécies arbóreas pelas quais nos vemos rodeados.

Até que, quase escondido por entre a vegetação, damos com o surpreendente Anfiteatro de Pedra. Construído na década de 1940, a sua acústica era muito gabada, mas as estradas que foram surgindo nas imediações trouxeram o aumento dos níveis de ruído e essa qualidade perdeu-se. Resta, porém, o extraordinário ambiente cénico do lugar.

Para lá do muro paredes meias com o Anfiteatro fica o estádio da Tapadinha, sede do Atlético Clube de Portugal, mais um símbolo local. Continuamos caminho pela longa alameda que acolhe alguns dos edifícios do campus, como o da biblioteca, e que acompanha o enorme prado verde da Terra Grande. Este é um ponto mais elevado e as vistas para o Tejo, com a Ponte 25 de Abril em destaque, são uma beleza.

Após este excelente aperitivo, entramos no Jardim da Rainha e Jardim da Parada. Volta a exuberância vegetal proporcionada por algumas espécies exóticas, mas aqui temos ainda outros atractivos, como uns bancos revestidos com painéis de azulejos, um lago e um bom pedaço de relva para nos estendermos no meio desta tranquilidade.

É para lá destes jardins que encontramos o mais bonito e admirável edifício da Tapada: o Palácio de Exposições. Construído em 1884 para a III Exposição Agrícola de Lisboa, era então rei D. Luís, o seu projecto ficou a cargo do arquitecto Pedro de Ávila. A época era a dos edifícios em ferro e vidro e este projecto pretendia não ficar atrás de exemplos como o do Crystal Palace, no Hyde Park de Londres, o do Trocadero, em Paris, ou o do Palácio de Cristal, no Porto. O lisboeta é de uma elegância tocante, longo e ligeiramente ovalado no seu corpo em vidro com um torreão central e dois laterais, uma imagem romântica perfeita.

À volta deste Palácio vemos alguns edifícios como a abegoaria, a antiga vacaria e o chalet da Rainha D. Amélia e até algumas casinhas de habitação. Mais adiante, o Auditório da Lagoa Branca, diante da lagoa sem água.

Nesta parte da Tapada encontram-se diversos exemplares de minas de água, alguns deles do tempo de D. João V, quando abasteciam os terrenos agrícolas, a real tapada e as quintas vizinhas. A riqueza em água da Tapada deve-se às suas características geológicas, calcários de Lisboa e basalto de Monsanto.

E aqui fica, também, outro dos pontos mais bonitos da Tapada, a Alameda das Oliveiras. É uma estrada, agora ciclável, ladeada em ambas as bermas por dezenas de oliveiras, tendo como resultado uma imagem que esperaríamos encontrar no campo e não numa cidade. Lá vamos, então, sob as oliveiras e com a companhia da vinha, de um lado, e da mata, do outro.

Ao cimo desta Alameda, um pequeno desvio deixa-nos no miradouro da Tapada. A 134 metros de altitude encontramos um dos marcos geodésicos mais antigos do nosso país. O terraço onde assenta a plataforma do miradouro é mais um pequeno encanto, revestido a azulejos de tons azul e branco. A vista, essa, tem tudo para ser magnífica, mas o muito e denso arvoredo não deixam que seja totalmente desafogada.

Já quase no Alvito, para onde há agora uma ligação com a entrada do Portão de Monsanto, seguimos pela mata e eira, onde cavalos pastam livremente. E antes de retornarmos deixámos-nos estar a apreciar as meninas a jogar rugby – não era o Agronomia, mas era o nosso Sporting.

De volta ao coração da Tapada, a vegetação é quase indomável em certos pontos, como aquele onde está o Tanque de Santo António, que apesar de escondido na erva alta ainda hoje fornece água para as hortas vinda de uma mina. Passamos por mais um lago e pelo Banco de Junot, onde se diz que o militar das tropas de Napoleão gostava de vir ver o pôr-do-sol quando se instalou em Lisboa durante as Invasões Francesas.

E chegamos, enfim, ao Observatório Astronómico de Lisboa, outro dos edifícios mais distintos e importantes da Tapada. Em 1850, os astrónomos Faye, francês, e Strave, russo, sugeriram a D. Pedro V a sua construção, uma vez que entendiam ser Lisboa o lugar ideal e único em toda a Europa para a luneta zenital encontrar a estrela Argelander. E assim se construiu o Observatório, em estilo neoclássico, ainda hoje a instituição de referência para o estabelecimento da hora legal de Portugal. Diante si temos um pequeno jardim com canteiros onde descobrimos um belo dragoeiro. Na verdade, percebemos logo depois, há mais dois dragoeiros à entrada da fachada com colunas do Observatório, dando-lhe um enquadramento pitoresco.

Encaminhando-nos para a saída da Tapada, a tal área de vinha que viramos à entrada estende-se agora de forma larga, com diversas castas plantadas. E, para terminar esta visita de forma grandiosa, eis a imagem do casario de Alcântara com a Ponte e o Cristo-Rei de braços abertos a proteger a Tapada da Ajuda.

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