As Praias do Dia D, Caen e Bayeux

Caen é um bom ponto de partida para o emotivo roteiro pelas praias do Dia D da Normandia. Nos momentos após o desembarque dos aliados, a cidade foi palco de uma batalha entre estes e os alemães, procurando uns tomar e outros manter o controlo deste estratégico lugar perto do mar da Mancha e junto a rios. Entre Junho e Agosto de 1944 foi severamente destruída por bombardeamentos e, à semelhança de outras cidades, a sua reconstrução impôs-se.

O centro histórico de Caen é pequeno, mas monumental e carregado de história. Guilherme, o Conquistador, o Duque da Normandia que se tornou rei de Inglaterra no século XI, fez de Caen sua cidade – diz que era a sua preferida – e ao casar com a prima Matilda tomou uma decisão que até hoje marca de forma magistral a arquitectura do lugar. A relação de parentesco próxima não era bem vista pela Igreja e para obter o seu perdão mandou construir duas abadias, uma para os homens e outra para as mulheres. E cada um deles, Guilherme e Matilda, jaz ainda hoje na abadia respectiva. A Abadia dos Homens, fundada em 1063, tem uma imponente mas harmoniosa fachada em estilo romanesco com duas torres simétricas. Acompanham-na outros edifícios mais tardios em estilos diversos. Hoje é Hotel de Ville e Igreja St Etienne.

À sua frente está a Igreja Saint Etienne La Viex, igualmente grandiosa. E do outro lado da cidade fica, então, a Abadia das Mulheres, fundada em 1066, de nome oficial Igreja Sainte Trinité.

Não se pense que as igrejas terminam aqui. Diante do Castelo temos ainda a Igreja Saint Pierre, também nada pequena ou discreta. O Castelo é de fundação da mesma época das abadias e Guilherme fez dele sua residência. Do alto da Porta Saint Pierre, precisamente virada à igreja de mesmo nome, temos uma vista bestial da cidade.

Caen não é só monumentos. Sendo uma cidade universitária, não espanta que tantos jovens ocupem as suas ruas e praças com esplanadas, incluindo um distrito pedestre. Para além disso, possui uma simpática marina (Quai de Juillet e Quai Vendeuvre) com uns quantos veleiros estacionados, que usam o Canal de Caen, que corre paralelo ao Rio Orne, para ligar ao mar na Mancha.

E é precisamente daqui que saímos rumo às praias do Dia D, tomando como primeira paragem a Ponte Pegasus, a uns 10 kms de distância (cumpre referir que o roteiro pelas praias do Dia D pode ser mais ou menos demorado, ocupando desde um dia a dois ou mais, conforme os infinitos museus, memoriais e cemitérios que se pretendam visitar – nós optámos por não visitar nenhum dos equipamentos pagos). A Operação Overlord é o nome pelo qual ficou conhecida a Batalha da Normandia que opôs as forças aliadas às alemãs. Na sua fase inicial, o objectivo era ganhar controlo de determinadas pontes para proteger as comunicações entre as unidades. Abortada no dia anterior, por condições climatéricas adversas, logo no dia 6/6/1944 os Aliados capturaram a ponte situada em Bénouville, a pouca distância da costa em Ouistreham, onde haviam desembarcado as tropas aliadas. Esta ponte sobre o Canal de Caen foi, então, renomeada Pegasus, o cavalo alado emblema da 6ª divisão aérea britânica. A ponte foi entretanto substituída, em 1994, mantendo-se uma réplica no lugar, enquanto a original faz parte do Memorial Pegasus, aqui mesmo.

Os Aliados desembarcaram e avançaram durante a madrugada, iluminada apenas pela lua, com a maré a encher por uma zona pantanosa que não conheciam. O lugar é hoje de uma tranquilidade absoluta e aqui temos o primeiro murro no estômago. Como foi possível tamanha barbárie e, ao mesmo tempo, tamanho heroísmo.

A ideia de desembarque na costa francesa através do atravessamento do Canal da Mancha era antiga. A primeira fase da Operação Overlord foi denominada Neptuno e consistia num ataque aéreo seguido de um desembarque anfíbio que permitisse o estabelecimento de um ponto de apoio – o Dia D abriu portas ao sucesso de toda a Operação que permitiria a invasão da Normandia e a libertação da Europa. Assim, a faixa costeira onde seria efectuado o desembarque dos Aliados foi dividida em 5 nomes de código, cada uma correspondente a uma praia, que por sua vez seria ainda dividida em sectores. Com isso, os britânicos desembarcaram em Sword e Gold, os canadianos em Juno e os americanos em Omaha e Utah – a primeira onde foi efectuado o desembarque, às primeiras horas do dia 6. Ao longo de toda a Costa desembarcaram cerca de 2 milhões de soldados (mais do que o número de habitantes dos departamentos de Calvados e da Mancha) e não há filme como o Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, ou fotos de Robert Capa que melhor nos aproximem do horror vivido. Omaha, por exemplo, ficou conhecida como “Bloody Omaha”.

Voltando ao nosso itinerário, Ouistreham (Sword Beach) tem um longo areal com vegetação rasteira em tufos marcado por uma roda-gigante e o memorial La Flame.

Daqui seguimos sempre junto à costa, com o mar de um azul intenso, até chegarmos a Saint Aubin, já Juno Beach. As ruínas de um canhão anti-tanques alemão convivem com a vila com casas sobre o mar (então requisitadas pelos alemães para servirem de postos de observação) e diversos painéis com histórias emocionantes vividas e contadas por soldados e locais. Como a de Windsor MacDonald, soldado com 19 anos à época, que retornou à Normandia em 2009 pela primeira e última vez para visitar sepultura do seu irmão, também ele herói do Dia D. Ou a de Paulette Mériel, local com 21 anos na época, que descreve a manhã em que no horizonte não se via senão barcos, ninguém nas ruas, quase todos escondidos nas caves das casas, e onde os canadianos, mais tarde, distribuíram rebuçados e chocolates pela população.

Mais adiante, Asnelles precede Arromanches les Bains (ambas Gold Beach) e aqui não é apenas na areia ou na promenade que encontramos vestígios da história. Os americanos rapidamente criaram nesta baía o Mulberry Harbour, um porto artificial com grandes placas de betão armado manufacturadas no outro lado do Canal que na maré baixa ainda se percebem na perfeição. Hoje boiam tranquilamente no mar. Aqui desembarcaram muitos mais homens para além do Dia D, tanques, material de guerra, mercadorias e suprimentos até que os portos continentais fossem capturados.

A baía de Arromanches é muito bonita e de um sossego apaziguador. Todavia, despertamos deste hoje sossego frente ao memorial instalado em cima da falésia oriental, um jardim inaugurado em 2019, no 75° aniversário do Desembarque. Aqui presta-se tributo aos veteranos sobreviventes e relembra-se aqueles que pereceram, estando inscritas passagens sobre a sua memória e experiência naquele dia e nos seguintes.

Arromanches marca uma mudança na paisagem. Vindo de oriente, a costa é plana e sem declives. Mas a partir daqui vão-se levantando algumas falésias.

Um salto grande e chegamos às praias de Omaha, as últimas por nós visitadas (não fomos a Utah Beach). Em Colleville-sur-Mer fica o Cemitério Americano e Memorial, um dos pontos mais visitados e emotivos de qualquer roteiro pelas Praias do Dia D. Consagrado em 1956, é um dos 14 cemitérios americanos da II GGM em solo estrangeiro, administrado directamente pelo governo americano sobre uma parcela cedida gratuita e perpetuamente pelo governo francês. Tem um espelho de água que se debruça sobre o areal da Mancha, um memorial, 10 parcelas com túmulos, uma capela e duas estátuas representando os EUA e a França. Os túmulos sob um relvado verde imaculado estão representados por uma cruz latina (em número de 9238) ou por uma estrela de David (149), todas em mármore e com o nome e estado americano de origem dos mortos. Há ainda umas tábuas com os nomes dos desaparecidos gravados, num total de 1557. Pelo meio, muitas árvores e arbustos de buxo. Um silêncio carregado percorre toda a visita. Refira-se que este não é o único cemitério com os mortos da Batalha da Normandia, existindo também cemitérios britânicos, canadianos e alemães.

Na vizinha Saint Laurent sur Mer, mesmo junto ao mar, encontramos a escultura “Lês Braves”, criada por Anilore Banon.

Pouco mais adiante e chegamos à nossa última paragem, o Pointe du Hoc. Talvez o ponto de costa do Dia D mais bonito, é uma falésia com 30 metros de altura que os rangers americanos galgaram ao mesmo tempo que iam ao encontro do fogo disparado pelos alemães. No sítio permanecem ainda restos da bateria de artilharia alemã.

Neste longo dia, a visita e homenagem às praias foi intervalada por um salto até Bayeux. À semelhança do restante da região da Normandia, nela a época medieval e a época contemporânea têm o seu lugar na história. Bayeux foi a primeira povoação francesa a ser libertada, tendo os britânicos aqui entrado sem grande dificuldade na manhã de 7/6/1944. Fundada há mais de 2000 anos, a vila é pequena mas muito bonita, com uma catedral imensa e cativante e uma vista idílica do casco antigo enquadrado pelo rio Aure, à qual não falta sequer a nora de um antigo moinho.

Mas o que nos traz a Bayeux é sobretudo a sua famosa tapeçaria. Lembram-se de Guilherme, o Conquistador e sua Matilda, os reis de Caen do início deste post? Pois bem, a epopeia do normando Guilherme na sua invasão e conquista de Inglaterra, em 1066, é-nos relatada por 58 painéis ilustrados num pano de linho com 70 metros de comprimento e 50 de largura. Uma obra-prima hoje guardada num antigo seminário de Bayeux e que esteve em exibição no Louvre em 1804.

Esta é a versão normanda do evento histórico da conquista de Inglaterra e um verdadeiro trabalho de propaganda. Conta a história que Guilherme havia sido designado legítimo sucessor do seu primo Eduardo, então rei da Inglaterra. Mas, ao ver o rival Haroldo tomar posse do reino, Guilherme e o seu exército prepararam os barcos para atravessar o Canal da Mancha e, ao desembarcarem do outro lado, lutaram contra as forças do usurpador naquela que ficou conhecida como a Batalha de Hastings. Os acontecimentos são relatados de forma pormenorizada e detalhada com o recurso a imagens bordadas. Veem-se inscrições em latim, cavaleiros, soldados, marinheiros, nobres e camponeses, É não apenas uma fabulosa crónica, mas também uma peça de arqueologia e etnografia que nos permite perceber o quotidiano de então. Não há certezas de quem terá mandado fazer esta tapeçaria. A lenda gosta de atribuir a sua autoria à própria Rainha Matilda, mulher de Guilherme. Outros defendem que terá sido elaborada em Cantebury poucos anos mais tarde após a conquista. Tenha sido este ou aquele, ali ou aqui, o certo é que a Tapeçaria de Bayeux é um momento grandioso, histórico e artístico de qualquer visita à Normandia.

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  1. Lugares cheios de emoções…

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