Monte Saint Michel

Não vale a pena esconder. Foi pelo Monte Saint Michel que escolhemos a Normandia. Nós e muitos milhões que todos os anos fazem desta ilha-rochedo com uma fortaleza-abadia o sítio mais visitado de França depois de Paris. E, recorde-se, França é “apenas” o país mais visitado do mundo.

Na fronteira entre a Normandia e a Bretanha, o rio Cousenon faz de divisão móvel das duas regiões francesas nortenhas. E como se move o mar por aqui. As maiores marés da Europa acontecem na Baía do Monte Saint Michel, chegando a ter uma diferença de 15 metros, e avançam rapidamente. No entanto, não é assim tão comum apanhar-se o Monte totalmente rodeado de água e existem apenas alguns dias por ano onde a maré alta extrema poderá impedir a visita à ilha. De qualquer forma, seja com maré baixa ou maré alta a vista do Monte é sempre soberba.

Há a possibilidade de se usar o shuttle para seguir até à ilha, mas a melhor opção é percorrer a pé a ponte em forma de passadiço com 2 kms que a liga ao continente e, assim, ir desfrutando cada segundo deste cenário de sonho, como se um castelo se levantasse da água. Mesmo com a maré baixa, como nos tocou, dá para admirar os belos reflexos do Monte sobre a água.

Antes de entrarmos propriamente no Monte, pudemos caminhar junto ao rochedo e captar as diferentes perspectivas que tínhamos diante nós. Com cuidado, porém, uma vez que a areia – e até lodo – engana e facilmente se move e nos enterra (daí que a escolha de alcançar a ilha a pé pelo cordão de areia deva ser efectuada sempre com um guia conhecedor da dinâmica da zona).

E então entrámos, finalmente, no Monte e iniciámos uma viagem pela época medieval. Foi no século VII que uma primeira comunidade de eremitas se estabeleceu no rochedo na Baía então conhecido como Mont Tombe, tendo no século seguinte o bispo Aubert de Avranches ordenado ali a construção de um templo dedicado a Saint Michel. Apoiada pelo Duque da Normandia, em 966 uma comunidade beneditina estabeleceu-se no Monte, deu à abadia as características de fortaleza e o lugar evoluiu tanto que acabou por tornar-se um dos maiores centros de peregrinação da Europa Ocidental. Os beneditinos mantiveram-se no renomeado Monte Saint Michel por 8 séculos, até que a Revolução Francesa levou à expulsão dos monges e transformou o Monte em prisão. Apenas no final da década de 1960 voltou a abadia a receber uma nova comunidade beneditina. Desde 2001 a ordem das Fraternidades Monásticas de Jerusalém faz do Monte Saint Michel a sua morada, com uma pequena comunidade de monges e freiras que prosseguem uma vida comunitária dedicada a rezar e trabalhar, celebrando missas que podem ser assistidas por qualquer forasteiro. Para além deles, poucos mais vivem na ilha.

À entrada tomámos a esquerda, em direcção à Tour Gabriel, subindo demoradamente até à Abadia. À medida que subimos, um largo horizonte de Baía apresenta-se diante nós, uma paisagem imensa que está legalmente protegida como reserva natural, acolhendo diversas espécies de peixes e aves.

Há umas quantas inclinações e escadas para vencer até se chegar à Abadia, de visita obrigatória e de compra antecipada de bilhete aconselhada. Para além de novos panoramas desde o seu Grand Terrasse, visitamos a igreja e La Merveille – é mesmo, como o nome o indica, uma maravilha, com o seu tranquilo claustro, cripta, refeitório, salão de recepções com colunas poderosas e até a nora de um moinho.

A Abadia com ar de fortaleza do Monte Saint Michel é a sua imagem mais famosa e domina grande parte do rochedo. O pináculo da sua torre principal rasga o céu e tem a encimá-lo uma estátua em ouro de Saint Michel, o seu patrono. A ilha e sua abadia percebem-se à distância quer nos aproximemos desde a Normandia ou da Bretanha.

Aos pés da Abadia há uma série de edifícios que com ela se confundem. Seguimos por ruas estreitas e passagens escondidas para aceder a todo e qualquer canto. E há que caminhar pela muralha – o Chemin des Rempants – para mais vistas de encantar.

A Grande Rue é a rua principal, pequena e estreita e cheia de lojas e cafés para turista. Lugar a evitar nos momentos do dia mais concorridos. Mais vale optar por desviar numa nesga que apareça e deixarmo-nos estar a tentar decifrar onde acaba um edifício e começa outro, tão juntos e cúmplices que eles são.

Ou então, procurar a Église Saint Pierre e seu cemitério, mesmo abaixo da Abadia.

E, claro, não deixamos o Monte sem espreitarmos La Mère Poulard, uma instituição não apenas local mas de toda a França. Corria o ano de 1888 quando o casal Annette e Victor Poulard abriram a sua estalagem e restaurante, onde para além de acomodarem peregrinos e outros visitantes confeccionavam bolachas e, sobretudo, criaram uma receita de omelete que cozinhavam de forma rápida para atenderem os muitos clientes. Esta especialidade, a omelete à La Mère Poulard, faz hoje parte da história da culinária francesa e à entrada do restaurante é possível vermos a cozinha a confeccionar este símbolo do Monte, uma iguaria para quem é fã de gema de ovo.

Uma vez que o Monte Saint Michel é muito procurado, impõem-se algumas dicas para que o possamos desfrutar em relativo sossego. Assim, e a não ser que não se importe de apanhar com filas intermináveis e de levitar por ruas apertadas por força de tantos empurrões, diga-se que é muito boa ideia pernoitar perto do Monte – mesmo fora da época alta, só assim conseguiremos visitá-lo tranquilamente às primeiras horas da manhã ou ao final do dia. Em La Caserne, a povoação imediatamente antes do Monte, há uma série de alojamentos com preço acessível, pelo menos fora da época alta. Uma dica mais: leve comida e evite gastar balúrdios – a típica omelete no La Mére Poulard custa “apenas” 38 euros. Os crepes podem não ser tão caros, mas há que desesperar na fila até chegar a nossa vez.

2 Comments Add yours

  1. Um lugar inesquecível!
    Estive duas vezes no Monte de Saint Michel, ainda antes de haver este passadiço e quando os carros iam até à base do monte. Na primeira vez fomos com os tostões contados, pelo que não pernoitamos nem experimentamos as omeletes da Mère Poulard.
    Da segunda vez não só pernoitamos (à noite é um lugar maravilhoso e sem gente!), como já levei dinheiro para ir provar a omelete….que para além de caríssima foi uma desilusão. Muito fofa mas com pouco sabor.
    Diria que foi uma experiência inesquecivel e irrepetível, em todos os aspectos.
    O Mont de Saint Michel ficou no meu olhar e coração. Por isso gostei muito do vosso post.

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    1. Deixemos, por uma vez, que as desilusões gastronómicas ajudem a que as experiências em lugares míticos sejam inesquecíveis 🙂

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