Horta

A Horta é uma cidade com um enquadramento belíssimo. Uma baía dupla à beira do Atlântico guardada por montes e vigiada por uma encosta feita de tapetes verdes e cones vulcânicos à espreita. Podemos vê-la desde o mar, com destaque para as torres das suas igrejas à aproximação da terra, ou desde cima, de um desses vários montes: do Monte da Espalamanca, do Monte Queimado, do Monte da Guia ou até do Monte Carneiro. Mas, por enquanto, percorramos a sua história e as suas ruas.

O nome “Horta” provirá do apelido do colono flamengo que no século XV primeiro povoou a ilha, Van Huerter (uma surpresa para quem dava por adquirido que haviam sido os portugueses os primeiros a ocupar todas as ilhas do arquipélago). Por curiosidade, diga-se que deste nome derivará o apelido Utra e, depois, Dutra.

A Horta é hoje considerada a mais cosmopolita das cidades açorianas, graças à sua localização geográfica, no grupo central do arquipélago. A sua forte ligação ao mar é real e por isso foi sendo procurada ao longo dos séculos para algumas iniciativas que lhe moldaram a história e o carácter.

Desde logo, os jesuítas escolheram-na como ponto de escala e descanso nas suas viagens transoceânicas. Ainda hoje podemos visitar o antigo colégio jesuíta, edifício longo construído no século XVII, actual Igreja Matriz do Santíssimo Salvador que acolhe também o Museu da Horta e a Câmara Municipal.

No início do século XIX instalou-se na cidade o cônsul americano John Bass Dabney e com ele veio o investimento na construção naval, tendo as gerações seguintes desta família expandido os negócios para o comércio de laranjas e vinho do Pico. A casa de veraneio dos Dabney no Monte da Guia é hoje um espaço museológico que recria a herança desta família em termos culturais, históricos e científicos no contexto da ilha.

No fim do século XIX a Horta assumiu um papel fundamental na história das telecomunicações a nível mundial ao ter sido escolhida para lugar de amarração dos antigos cabos telegráficos submarinos que ligaram a Europa à América. À boleia desta actividade vieram para a cidade diversos técnicos alemães e ingleses que aqui se fixaram.

Em 1919 foi a vez de a Horta entrar para a história da aviação mundial como o primeiro porto de escala aérea na primeira travessia aérea do Atlântico Norte por hidroavião.

E, por fim, a partir das décadas de 50 e 60 do século XX a Horta tem sido um centro de iatismo de recreio que continua a trazer à ilha o tal ambiente cosmopolita. A Marina da Horta foi o primeiro porto de recreio dos Açores e são inúmeros os iates e veleiros aqui aportados. Já se sabe, cada um dos visitantes faz questão de provar a sua travessia mítica do Atlântico Norte deixando uma pintura nos murais do molhe, até porque, crê-se, isso dá sorte aos iatistas.

Em resumo, o ambiente da Horta é hoje um de lazer e de reunião, um lugar para onde vem gente de todo o mundo que espera encontrar outros como eles.

O que talvez muitos estrangeiros não saibam é que foi daqui, da Horta, que saiu o primeiro presidente da república portuguesa: Manuel de Arriaga, aprendemos na escola nós, portugueses, e uma estátua à entrada da Marina assim o assinala.

Da Marina da Horta o cenário para a ilha do Pico é privilegiado, como se a Horta assistisse a um filme digno de Óscar da primeira fila. Ou, como escreveu Nemésio na sua obra maior, “a cidade era um camarote de frente para aquele palco de todo o ano”. Por acaso, a vista do meu alojamento era essa mesmo, a da Marina com o Pico em frente. Adormeci com o Pico coberto, na ilusão de acordar com ele inteiro. Mal suspeitava que apesar de os próximos dias ir andar mais próximo dele só o voltaria a ver desde São Jorge, a outra ilha que compõe o Canal do Triângulo.

O café Peter fica neste pedaço da Marina, provavelmente a maior marca da Horta. Hoje é um quase império que deixou de passar apenas pela fama do seu gin. Tem também o Museu de Scrimshaw, fechado nesta minha passagem pela cidade, mas do qual recordo ainda os seus dentes de baleia esculpidos.

O Forte de Santa Cruz, de frente para a Marina, acolhe hoje uma pousada. O Jardim Infante Dom Henrique está totalmente vedado, em obras, mas reparo ainda assim num seu edifício de gaveto em tom verde clarinho com uma pequena estatueta do Navegador no seu topo.

Seguindo pela Avenida Marginal percebemos que esta porta de entrada da cidade não traz com ela os edifícios mais distintos. As igrejas, por exemplo, ficam todas numa segunda linha. A já referida Igreja Matriz (antigo Colégio dos Jesuítas), a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Misericórdia). Também a Torre do Relógio, parte da antiga matriz entretanto demolida.

A arquitectura da Horta não é feita de palacetes. Tudo é pacato e equilibrado. Destaque, no entanto, para as suas janelas e varandas.

E para o edifício em art deco da sociedade Amor da Pátria, projecto de Norte Júnior, com um possante dragoeiro junto à escadaria da entrada.

O Jardim da Praça da República e o Jardim Florêncio Terra são espaços aprazíveis cujos coretos lhe conferem alegria.

Para aqueles interessados em história e etnografia, a visita à cidade da Horta não fica completa sem uma passagem pelo Museu da Horta. Através de vários núcleos expositivos, ficamos a saber mais sobre a já referida centralidade da cidade no tempo da telegrafia por cabo submarino e das colónias estrangeiras que para aqui trouxeram novas dinâmicas sócio-culturais, bem como sobre o papel do porto da Horta na Primeira Travessia Aérea do Atlântico Norte – este ano comemora-se o centenário desta façanha. Mais ainda, ficamos a conhecer a arte do papel recortado em seda branca e a delicada arte da escultura em miolo de figueira, ambas tradições artesanais locais seculares. Desta última, da colecção de Euclides Rosa, artista maior na escultura em miolo de figueira, vemos miniaturas da Sociedade Amor da Pátria, da Torre de Belém, de uma aldeia açoriana, de cenas da vida rural, todas tão perfeitas, trabalhos de paciência que duraram milhares de horas.

Sigamos agora rumo à segunda baía da Horta, aquela que é protegida pelo Monte Queimado e pelo Monte da Guia. Porto Pim é o nome de origem flamenga da baía, cujo significado é porto seguro. E Porto Pim é um lugar absolutamente pitoresco. Tem uma praia de areia de tons aceitáveis, um mar azulão diante si e uns morros elegantes na sua guarda. Ah, e um casario de postal perfeito ao longo da sua avenida marítima. Alguns dos melhores restaurante da cidade ficam aqui.

Percorrida a sua praia, à chegada ao Monte da Guia vemos o antigo edifício onde em tempos funcionou a Fábrica da Baleia de Porto Pim, a Casa dos Dabney e o Aquário de Porto Pim, todos eles espaços museológicos.

No Monte da Guia foi aberto o primeiro trilho dos Açores que conta com sinalética específica para a prática do trail running. Não o percorri nem subi a pé além do Miradouro da Lira, assim chamado pela sua forma em arco a lembrar esse instrumento musical. Instalado acima da Casa dos Dabney, aqui existiam então terrenos de vinha. Hoje resta o miradouro excepcional e daqui se aprecia grande parte da ilha do Faial (e do Pico), com a baía de Porto Pim e Forte de São Sebastião mesmo defronte.

De carro, então sim, subi mais um pouco até ao Miradouro da Guia, onde fica a Ermida e mais uma vista fabulosa, desta vez para o lado sul do cone vulcânico do Monte da Guia onde este vulcão deixou aberto ao mar uma cratera dupla, mais conhecida pelas Caldeirinhas.

O que fiz questão de subir a pé foi o vizinho Monte Queimado. Sobe-se a bom subir mas as vistas, sempre elas, valem todo o esforço. Vistas sempre diferentes para Porto Pim, de um lado, e para a Marina e restante cidade da Horta, do outro. O Monte Queimado é mais um cone vulcânico, e o curioso é perceber que no século XIX era habitado, possuía plantações de vinha e era aqui que a população vinha buscar lenha. No seu topo, por entre densa vegetação e flores, ainda se veem as ruínas da antiga propriedade da família do Duque de Ávila.

Por fim, para aqueles a quem não chega passear pelo Faial, admirar as suas paisagens, percorrer os seus trilhos, observar a sua flora, resta uma visita ao seu Jardim Botânico. O maior e mais importante dos Açores, aqui se percebe ainda melhor a posição geográfica de extremo isolamento do arquipélago, sujeito a factores de instabilidade como vulcões, tremores de terra e tempestades, que tornou a sua conquista pelas plantas numa aventura magnífica. Uma lição de como chegaram as plantas aos Açores e um passeio por entre exemplares das suas plantas endémicas, as quais representam, nas palavras do Jardim, uma “verdadeira Arca de Noé das plantas” pelo cruzamento de espécies vindas de vários continentes que a sua localização proporcionou. Ou seja, até aqui a faceta cosmopolita da Horta se faz sentir.

Faial, volta à ilha pela costa

Faial, “a ilha azul”, como lhe chamou Raul Brandão. Tal foi a influência desta cor na sua passagem pela ilha que o autor escrevia, a dado passo, “estou encharcado de azul”.

E assim é.

Saímos da Horta para dar a volta à ilha, iniciando a jornada pela costa sul no sentido dos ponteiros do relógio, e logo chegamos às piscinas naturais da Laginha. O mar azul invade-nos, mas são as rochas basálticas, tão negras, que nos seduzem. A água entra por elas adentro e ali fica tranquila formando pequenos recantos que nesta altura do ano ainda são exclusivos dos bicharocos marinhos.

Um pouco mais adiante, antes mesmo de chegarmos à Poça da Rainha, na Feteira, estas rochas tornam-se mais altas e a erosão rasgou-as e criou-lhes formas diversas, ficando a zona conhecida como Penedo Furado.

Mas falando em formas e em penedos, o Morro do Castelo Branco é um dos elementos mais distintos da ilha. Esta bela e imponente estrutura geológica, lembra com a sua forma altaneira um castelo medieval. Isso, juntamente com as suas paredes laterais de cor branca, resultou no seu nome: Castelo Branco. Este é ainda um lugar de nidificação de aves marinhas e o cuidado nos arranjos paisagísticos e marcação de trilhos e miradouros que a administração local tem levado a cabo nos últimos anos faz com que aqui tenha sido montado uma espécie de anfiteatro ao ar livre para que possamos contemplar não apenas as vistas para o Morro e Atlântico, mas também deliciar-nos com os cantos das cagarras.

A costa oeste da ilha inicia-se, precisamente, com o Morro do Castelo Branco e segue até ao vulcão dos Capelinhos. Pelo meio, o Varadouro é uma povoação que possui um porto, praia, piscinas naturais e até vinhas. Pela estrada costeira fora até ao Capelo vamos vendo desfilar tudo isso, passando pelo farol do Vale Formoso e parando nos miradouros que se nos atravessam no caminho. Esta zona da ilha era, tradicionalmente, donde os baleeiros avistavam as baleias e saiam para a sua caça. No Porto Comprido, mesmo abaixo do vulcão dos Capelinhos, encontramos a Casa dos Botes como testemunha dessa época.

À semelhança da região do Capelo, também a Praia do Norte, já na costa norte da ilha, foi a que mais sofreu as consequências da erupção do vulcão dos Capelinhos em 1957/58, com o soterramento e a destruição de grande parte das habitações e a consequente emigração para os EUA. Acontece que a Praia do Norte já tinha sido vítima da outra erupção histórica do Faial, aquela que aconteceu em 1672 por conta do Cabeço de Fogo e que levou, então, a uma emigração massiva para o Brasil.

A costa norte dos Capelinhos até à Praia do Norte não é acessível por terra. A estrada que nos transporta até lá envolve-nos numa vegetação luxuriante em ambos os lados da estrada. Poucas habitações há a caminho e até o Bar do Fim do Mundo se encontra encerrado.

Quando o verde dá uma folga, o primeiro lugar que podemos contemplar é a Fajã. E que lugar. Quer visto de baixo, à cota do mar, quer visto de cima, no miradouro da Ribeira das Cabras, a sua implantação é fantástica. Cá em baixo, as ondas fortes rolam sozinhas até à praia sem areia mas cheia de pequenas pedras. E lá em cima, um enorme panorama se abre para esta baía de falésias enormes e para a parte mais jovem da ilha do Faial, a península do Capelo e seus cones vulcânicos.

Cada uma das povoações que atravessamos, por mais pequena que seja, tem a sua igreja, sempre branca com apontamentos a preto que as tornam distintas do que estamos acostumados no continente (esta é a da Ribeira Funda). À hora da missa, os veículos estacionam em fila na estrada, deixando apenas uma via livre. Nada que perturbe as muitas vacas e os poucos condutores que usam as estradas da ilha.

Passamos Cedros e Salão e seguimos directamente para a Ribeirinha, já na costa leste do Faial. O nordeste é a zona mais antiga da ilha e teve origem na primeira fase da sua formação com o antigo vulcão da Ribeirinha. Esta região é belíssima. O Atlântico abre-se novamente para nossa contemplação em todo o seu esplendor, ao mesmo tempo que a encosta da ilha revela as suas muitas formas e mostra os seus tapetes verdes divididos em várias tonalidades.

A crise sísmica de Julho de 1998 provocou graves danos na freguesia da Ribeirinha, tendo cerca de 80% das suas habitações ficado afectadas. Os maiores exemplos da destruição estão nas ruínas da igreja e do farol. O farol da Ribeirinha foi inaugurado em 1919 para auxílio à navegação entre ilhas neste triângulo, tendo sido desactivado e substituído por um farolim. A sua ruína, nesta ponta da ilha, é como que uma síntese do viver nos Açores. O verde dos montes e o azul do mar – “o mar mais belo do mundo”, nas palavras de João de Melo, obra da natureza criadora das ilhas, de origem vulcânica. O sobressalto das diversas crises sísmicas, consequência dessa mesma origem. E, neste caso específico, neste fim de terra com o mar no horizonte, a solidão marítima aplaca-se com a visão da ilha em frente. É aqui, no lugar do farol da Ribeirinha que temos a felicidade de avistar a ilha do Pico e a ilha de São Jorge (e, com muita sorte, até a ilha da Graciosa), as chamadas ilhas do Triângulo. Voltando a João de Melo, “o Faial é o Faial e mais a vista para o Pico e São Jorge que o acompanha, inseparáveis, os três do Canal, a Trindade do Canal”.

Esta visão é ainda mais magnificente desde o miradouro do Cabeço das Pedras Negras, interior verde da Lomba.

Novamente junto ao mar, a praia do Almoxarife, embora de areia negra, é uma das mais famosas da ilha. Mesmo à sua frente, a imagem do Pico rouba uma vez mais a atenção.

Antes da chegada à Horta, que já se pressente, passamos ainda pelos moinhos de vento da Lomba, com uma mimosa baleia a encimar um deles.

E a Horta fica, finalmente, aos nossos pés na Ponta da Espalamanca. Será esta a melhor vista da Horta?

Antes de finalizar esta volta à ilha do Faial pela costa, não resisti a adentrá-la uma vez mais até ao Monte do Carneiro. E, com isso, a dúvida só se adensou: será esta a melhor vista da Horta?

Faial, o centro da ilha

Para além de ir até ao Vulcão dos Capelinhos, ansiava chegar à Caldeira e poder admirá-la percorrendo o seu topo por inteiro a toda a volta. Nos meus piores sonhos, que antecederam o dia da viagem, o nevoeiro instalava-se e fazia ruir os meus planos de passeio pela Caldeira. Felizmente, não houve qualquer nevoeiro e mesmo se o céu não estava totalmente aberto, o passeio foi soberbo.

A grande piada do Faial e, sei-o agora, a de todas as ilhas do arquipélago dos Açores, está na visita ao centro da ilha. Só aí se percebe a paisagem telúrica superior e a origem da ilha. E a Caldeira é o seu exacto centro, diz-se que tão habilidosa na criação da ilha que a deixou precisamente equidistante a todos os pontos da costa.

O caminho até lá segue pela estrada rural (mas perfeitamente transitável por qualquer veículo), de cor ocre a rasgar o verde dos montes e quase sempre sem perder de vista o azul do mar.

As vacas, símbolo incontornável dos Açores, deixam-se estar por estas paisagens altaneiras privilegiadas. Vemos o inigualável Morro do Castelo Branco lá em baixo e, de repente, felicidade suprema, eis a montanha do Pico descoberta bem à nossa frente. Com o Piquinho à mostra e tudo. E com o cume completamente branco, cheio de neve.

E, novamente de repente, zás, um conjunto de nuvens apodera-se do Pico e logo ele volta ao seu normal, escondendo-se. Que geniosa é esta montanha, a mais alta de Portugal.

Está bom de ver que uma ida até à Caldeira já vale a pena nem que seja pelas paisagens que se nos oferecem no caminho.

Mas a vista para a Caldeira, essa, é arrebatadora. Estacionado o carro, saímos a pé e após um pequeno túnel natural, espécie de tela que cobre o palco para melhor preparar a surpresa, eis a Caldeira vista do seu miradouro. Uma enorme bacia com 2 km de diâmetro e com 400 metros de profundidade abre-se diante nós, poderosa. Esta estrutura geológica é resultado da maior erupção entre todas as que ajudaram a moldar a ilha do Faial. Após a sua fase eruptiva, o cume do vulcão sofreu colapsos e abatimentos nas paredes interiores e nos bordos superiores da cratera e, com isso, deu origem àquele vazio imenso a que chamamos caldeira.

Lá em baixo (as visitas ao interior da Caldeira são possíveis, mas limitadas e apenas com guia), prados numa panóplia de tons verdes, a que se junta um jogo de sombras, preenchem o nosso olhar. Percebem-se ainda claramente pequenos charcos e até um pequeno cone vulcânico de uma erupção ocorrida posteriormente. A Caldeira é o mais importante reservatório biológico da ilha e é nestas alturas que lamento não entender nada de flora para conseguir distinguir os vários tipos de vegetação endémica que aqui marcam presença.

O objectivo era fazer o trilho circular pela cumeeira da Caldeira. Saídos do miradouro e subidas umas escadas, direita ou esquerda, tanto faz, são 8 km que se percorrem em cerca de 2:30. Pela direita, seguimos em direcção à pequena Ermida de São João. O trilho é bem perceptível e não é difícil, se bem que a espaços há partes mais estreitas e com desníveis algo acentuados que requerem a nossa atenção para não cairmos ou escorregarmos. Difícil é tirar os sentidos do interior da Caldeira. Aquele charquinho e aquele vulcãozinho são uma beleza e ouve-se o coaxar de uns bichos lá em baixo (rãs?).

Por alturas do Alto do Cabouco o cume do Pico está agora totalmente coberto, mas pouco depois a costa norte da ilha deixa-se ver inteira e clara, numa bela parceria entre o verde e o azul. Raul Brandão chamou ao Faial “a ilha azul”, mas vista aqui de cima ficamos indecisos sobre qual a cor mais dominante.

Poder-se-á pensar se valerá a pena andar à volta da Caldeira por tantos quilómetros, uma vez que ela está ali, a paisagem é aquela, está vista. Mas não. Circundando-a na totalidade vamos percebendo aqui e ali pormenores que de outra forma escapariam. Metade do trilho percorrido, as suas paredes apresentam entretanto umas ravinas rugosas, como se tivessem sido alvo de uns cortes profundos. Descobrem-se outros charcos, outros verdes, outros montes, outras formas.

E, para lá da Caldeira, conseguimos ver bem alinhados diversos cones vulcânicos que se estendem até à costa oeste, onde mora o de Capelinhos.

Já quase no final do trilho, passamos pouco abaixo do Cabeço Gordo, o ponto mais alto da ilha do Faial, a 1043 metros. Grande parte destes pontos até podem ser acedidos por carro, mas a piada de caminhar sempre em contacto com a Caldeira, como se ela estivesse ali só para nosso desfrute, perder-se-á.

Vista a Caldeira, o centro da ilha ali continua para ser explorado. Da Caldeira até ao vulcão dos Capelinhos, o mais recente elemento na paisagem faialense, são mais de 20 os cones vulcânicos, ou cabeços, resultado das várias erupções vulcânicas, os tais que se conseguem ver bem alinhados do alto da Caldeira. Há percursos pedestres bem marcados – só elogios para a sua definição e manutenção – como o “Capelo Capelinhos” (5 km) e o “Dez Vulcões” (20 kms). Mas na falta de tempo para os fazer na totalidade, é possível ir seguindo de carro e ir parando para visitar alguns dos lugares mais emblemáticos e ir percorrendo apenas parte destes trilhos.

Por exemplo, o Cabeço Verde, aquele que está tomado de antenas, a 488 metros de altitude, é acessível de carro. Saímos e caminhamos pelo seu intenso verde. A linda urze arbórea já não escapa à minha identificação. Na descida paramos novamente o carro à beira da estrada e espreitamos a Furna Ruim, um algar vulcânico com 55 metros de profundidade. A janela miradouro, escura e tomada pela vegetação, não permite perceber bem toda a dimensão desta cavidade natural, mas chega para impressionar.

Mais uns poucos quilómetros adiante e nova paragem do carro à beira da estrada e uma breve, cerca de 600 metros, mas íngreme e intensa subida por entre um bosque deixa-nos no Cabeço do Canto.

Esta é mais uma cratera com vista para outras crateras, como a do Caldeirão, abaixo do Cabeço Verde, rodeada de um coberto vegetal esfuziante de urze. Natureza e beleza pura. Daqui do Cabeço do Canto tem-se mais uma panorâmica fantástica para o vulcão dos Capelinhos que nem a luz contra do sol perturba.

Faial, no mais novo pedaço de terra portuguesa

Chegada manhã cedo à ilha do Faial, tinha pressa em pegar logo no carro e seguir para o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, onde tinha visita guiada marcada para as 11:00. Tinha uma hora para lá chegar, mas, conhecendo-me bem, seria difícil não me distrair pela paisagem no caminho e guarda-la para mais tarde. Contra todas as probabilidades, lá consegui.

Mal me lembrava da zona dos Capelinhos e quando lá estive, há muitos anos, ainda nem sequer tinha sido criado o Centro de Interpretação, inaugurado em 2008 por ocasião dos 50 anos da histórica erupção. Mas sempre tive mais sorte do que Raul Brandão: quando o escritor passou pela ilha no primeiro quartel do século passado não havia sequer o vulcão dos Capelinhos e não pôde sequer testemunhar – e disso dar-nos conta no seu livro As Ilhas Desconhecidas – o ambiente lunar do mais novo pedaço de terra portuguesa.

Foi em 27 de Setembro de 1957 que um novo vulcão nasceu no mar e, com isso, mudou a ilha não apenas em termos morfológicos mas também socialmente. Recentemente, em Março deste ano, o Vulcão dos Capelinhos foi classificado como Monumento Nacional, pelos “valores naturais, cénicos, culturais e históricos de relevância incontestável, cuja integridade deve ser preservada”. O Centro de Interpretação explica-nos isso e muito mais, sendo, pois, de visita obrigatória.

Até chegarmos aos Capelinhos o verde domina a paisagem. Mas nesta ponta da ilha a terra passa a ser escura, realçando ainda mais as formas dos novos montes criados pelo vulcão, num contraste perfeito com o azul do mar e do céu. Enterrado na terra, a entrada para o Centro de Interpretação, projecto do arquitecto Nuno Ribeiro Lopes, foi pensada propositadamente para parecer que estamos a entrar dentro do vulcão. Aí – no Centro de Interpretação, não no vulcão – um enorme foyer nos espera, bem como a interpretação in loco de um ponto de vista informativo e científico do que e como aconteceu naqueles 13 meses que durou a erupção do vulcão e do impacto produzido por este fenómeno que mudou para sempre a paisagem e a demografia do arquipélago. Um filme em 3d sobre a formação do planeta e do arquipélago dos Açores, uma exposição sobre o vulcanismo no mundo e nas várias ilhas do arquipélago, em especial, na ilha do Faial, mais outro filme belíssimo com a recriação da erupção do vulcão e, ainda, uma mostra fotográfica dos diversos faróis dos Açores, a lembrar a importância que o farol dos Capelinhos teve como testemunha privilegiada da erupção e do nascimento desta região. Por fim, esta viagem termina com a subida a este farol para contemplar a paisagem fantástica ao seu redor.

Foram o faroleiro e os baleeiros das vigias do noroeste do Faial os primeiros a perceber movimentações estranhas a cerca de 1 km ao largo da ilha. Era uma erupção marítima, a primeira passível de ser observada por todo o mundo. Na verdade, para aqui vieram cientistas de todos os cantos desse mesmo mundo e esta foi a primeira erupção vulcânica a ser completamente documentada e estudada. Também muitos curiosos locais, depois do susto inicial, fizeram questão de presenciar este espectáculo ao mesmo tempo belo e assustador feito de grandes explosões com a emissão de jactos de cinzas negras para o ar. Durante os 13 meses que durou a erupção, a ilha do Faial chegou a aumentar 2,4 km2, tendo primeiro visto formar um pequeno ilhéu, depois um segundo, tendo ambos acabado por submergir; um terceiro ilhéu veio a crescer e acabou por se ligar ao Faial por um istmo. Ou seja, a terra foi rompendo o mar, alargando, encolhendo, desaparecendo, unindo, como se de um jogo se tratasse. Mas não, é apenas a beleza da formação do nosso planeta, privilégio que os nossos compatriotas contemporâneos puderam observar.

Ao fim de 13 meses, a actividade do vulcão foi diminuindo até que terminou em 24 de Outubro de 1958. O cone principal do vulcão chegou a atingir uma altura de 160 metros e dos 2,4 km2 de aumento que a ilha do Faial chegou a ter, restam hoje apenas 0,6 km2, por força da intensa erosão, sobretudo do mar, mas também do vento e da chuva, de que o vulcão dos Capelinhos continua a ser alvo – aliás, a este propósito, já não é possível percorrer o trilho que nos levava ao topo do vulcão.

Pelo meio, para além da beleza do nascimento de um pedaço de terra e da importância científica do fenómeno, apesar de não terem sido registadas vítimas mortais ficou para sempre o êxodo em massa dos açorianos. As cinzas da erupção do vulcão levaram a que milhares de casas ficassem soterradas e à destruição dos campos agrícolas e das pastagens. Os habitantes do Faial viram o seu presente e futuro comprometido. Graças aos esforços do então governador civil António de Freitas Pimentel, foi conseguido que o Congresso dos Estados Unidos da América aprovasse uma legislação extraordinária que alterou a quota de emigração até aí existente. Com isso, e mesmo se a política de ditadura do Estado Novo de Salazar não via com bons olhos a emigração, mais de metade dos habitantes do Faial deixaram a ilha. Mais, aproveitando o sonho americano que muitos ilhéus tinham, estima-se que durante as décadas seguintes cerca de 30% da população açoriana tenha abandonado o arquipélago.

Hoje, não se pode dizer que a população tenha voltado. Mas assiste-se a uma nova dinâmica à boleia do ainda pouco mas crescente turismo.

E a paisagem, essa, feita de lava e de cinza, segue atrativamente desolada, terra negra que vai vendo querer crescer um arbusto aqui e ali, até mesmo umas árvores inteiras. Perto dos Capelinhos até se vai vendo plantações de vinha, na esperança de que o carisma do vulcão dê um sabor também distinto ao néctar dos deuses.

O farol construído em 1903, o primeiro do Faial e o terceiro do arquipélago, continua de pé, embora em ruínas e com o seu primeiro andar soterrado. A sua elegância no meio da paisagem árida é tocante. O topo deste sobrevivente é hoje um miradouro excepcional. Lá em cima percebemos os contornos incríveis do vulcão e do lugar na perfeição, curva sobre curva, ondas a bater na rocha preenchida de areia umas vezes castanha, outras preta, às vezes até vermelha, mas sempre escura. Cabeços negros junto ao mar com vista para cabeços verdes ilha adentro. E cá em baixo, discretamente e solidariamente soterrado, o edifício circular do Centro de Interpretação, parceiro já indispensável deste lugar mágico.

Havia referido que o trilho que nos permitia subir até ao vulcão está interdito, mas muito mais terra resta para vaguear e admirar, caminhando para cima, em direcção a um dos cabeços na nova montanha, ou para baixo, em direcção à Casa dos Botes Baleeiros e à pequena praia do Porto Comprido. E uma dúvida quase certeza nos toma: da próxima vez que voltarmos, esta terra estará diferente, como se de um work in progress se tratasse.