Pôr-do-sol em Santorini

Um dos momentos altos de qualquer viagem a Santorini é, ou deve ser, o pôr-do-sol.

Oia é o lugar para se estar nessa ocasião. O problema é que estamos lá nós e quase toda a Santorini. Não quisemos ser diferentes e marcámos presença. É verdade que a falta de espaço é imensa e só conseguiremos estar sozinhos nesta vila para testemunhar a queda do sol se tivermos a sorte de ter um terraço privado. As pessoas acumulam-se sobretudo junto às ruínas de um antigo castelo, mas se procurarmos bem encontraremos outros locais igualmente fantásticos e ainda conseguiremos escapar com menos de uma dezena de empurrões. De qualquer forma, vale mesmo a pena todo o esforço para merecer este espectáculo.

Uma alternativa em grande estilo é assistir ao pôr-do-sol em Imerovigli. No pequeno adro da igreja por cima do rochedo Skaros também se junta muita gente, mas longe das multidões de Oia. E podemos com mais facilidade encontrar um qualquer lugar vazio nas estreitas ruas que deitam para o mar e para os terraços dos apartamentos. O branco do casario de Imerovigli com as cores do sol a despedir-se do dia sobre o mar faz deste um dos melhores pores-do-sol da Terra.

Um lugar diferente, sem casario e bem de frente para o imenso mar apenas interrompido pelas ilhas que há poucos séculos se formaram na caldeira, é a adega Santo Wines. Uma boa ideia é escolher a hora que coincide com o pôr-do-sol para vir aqui degustar uns vinhos locais na esplanada da adega enquanto se testemunha mais um grande momento em Santorini.

Um passeio pela outra Santorini

Fira é a capital de Thira-Santorini e onde se concentram os restaurantes e alojamentos mais caros. Oia é a mais procurada, em especial ao fim do dia para se assistir ao pôr-do-sol. Mas Imerovigli será a escolha acertada para se viver dos momentos mais belos na ilha, um misto de Fira e Oia mas sem a confusão das duas.

Mas porque Santorini não é só o eixo Fira – Firostani – Imerovigli e Oia, impõem-se algumas informações práticas acerca da ilha.

As deslocações não são totalmente convenientes. Pode-se sempre alugar um carro ou mota, mas fora isso resta-nos o táxi, caríssimo, e o autocarro. Este último não nos leva a todos os pontos da ilha e, pior, temos quase sempre de voltar a Fira para ligar os vários destinos.

Santorini não é a melhor ilha para se fazer praia. Tem praias, sim, mas apenas na costa leste e a sul.

Perissa e Perivolos são um contínuo de areia negra, duas praias coladas uma à outra e com uma grande concentração de restaurantes e bares de praia. Caso se queira passar uns dias de praia em Santorini estes (e Kamari, que não visitámos) são os lugares a escolher.

Também na costa sul, mas a ocidente, fica a Praia Vermelha, perto da antiga Akrotiri. A praia tem um areal mínimo e há perigo de derrocada das suas rochas instáveis. Mas o cenário selvagem, e efectivamente vermelho, deste pedaço de Santorini, bem como a água quente, fazem deste um lugar de visita e mergulho obrigatórios.

Pyrgos é uma belíssima vila. Tem as características mais reconhecidas das suas vizinhas mais famosas, como as casas brancas, igrejas de cúpula azul e ruas labirínticas. Mas ao contrário das outras é uma vila interior instalada num monte. Logo, as vistas fabulosas continuam e Pyrgos é um lugar privilegiado para panoramas largos de todas a ilha.

Mas o seu encanto é caminhar pelas suas ruinhas e descobrir onde elas nos levam. E assim vemos que muitos dos seus edifícios, incluindo o seu antigo castelo veneziano, estão em mau estado de conservação. Concluindo, Santorini parece ter ainda capacidade para crescer ainda mais em termos turísticos, e Pyrgos estará na dianteira para se tornar ainda mais na nova sensação da ilha.

Fora de Thira, mas ainda no arquipélago de Santorini, impõe-se um passeio de barco pela caldeira até Nea Kameni, o ilhéu vulcão. Este pedaço de terra, o mais novo do Mediterrâneo Oriental, nasceu há cerca de 430 anos e foi sendo formado através das várias erupções vulcânicas que aconteceram desde essa data, a última das quais em 1956. Por isso, as mais recentes das suas incríveis formações rochosas de lava possuem pouco mais de 50 anos.

O barco atraca numa pequena enseada e descarrega os turistas que empreendem uma curta caminhada até ao centro da cratera por um cenário pouco comum, um deserto rochoso e poroso onde ainda se vêem fumegar umas fumarolas. Por ora o vulcão está adormecido. Mas mais marcas da sua actividade sentem-se ainda nas águas extremamente quentes a amareladas do enxofre próximas do ilhéu Palea Kameni.

O passeio de barco prossegue rumo à ilha de Thirassia e a beleza natural da paisagem é uma constante. No pequeno porto colocam-se duas hipóteses: ou ficar por ali num dos restaurantes e dar um mergulho ou subir a bom subir até à aldeia e ganhar a oportunidade de nos embrenharmos por mais um pedaço da vida e arquitectura cicládicas. Obviamente que escolhemos esta última e o prémio materializou-se em mais postais soberbos.

Oia

Oia fica situada a norte de Thira-Santorini e é o lugar onde (quase) todos querem estar para ver o pôr-do-sol. Várias excursões pela ilha fazem por coincidir o seu final com esse momento e os outros fazem por lá estar a horas de assistir ao sol a transformar as cores do céu, do mar e das casas.

Mas independentemente do pôr-do-sol e das multidões que o acompanham, Oia é uma vila graciosa. Típica das Ciclades, temos as casas brancas empoleiradas na rocha e umas nas outras, as cúpulas azuis das igrejas, os moinhos, as ruas labirínticas que fazem questão de nos surpreender a cada passo. E o mar sempre ali.

Já tínhamos percorrido um pouco das outras vilas da ilha e perguntávamos-nos como lidariam os hóspedes daqueles terraços abertos com a sua privacidade. Em Oia tivemos uma resposta: ignorando o facto e agindo como se estivessem sozinhos naquele mundo de sonho. Um casal despreocupado fazia amor num terraço ao ar livre, convidando-nos a todos a transformar-nos em voyeurs.

Mas voltando ao que Oia tem, agora em versão decente, Oia tem alojamentos, restaurantes, bares e lojas, tudo com um bom gosto incrível. E tem ainda uma livraria que em tudo acompanha aquele bom gosto. E impõe-se que a palavra “surpreendente” seja repetida. A Atlantis Books é mais um encanto nesta vila encantada. Uma livraria independente criada em 2004 onde mesmo quem não aprecia livros se vai sentir obrigado a procurar um dos títulos em várias línguas e deixar-se estar num dos seus sofás numa sessão de leitura inspirada por aquele ambiente magnífico.

Santorini

Entre as muitas ilhas gregas, e em especial nas Ciclades do Mar Egeu (24 ilhas principais, fora rochedos inabitados), Santorini aparece sempre como a primeira escolha. A escolha de sonho, mesmo.

É provavelmente a ilha mais romântica, a preferida para luas de mel, mas não é preciso viver um romance para se ser feliz na ilha. Um trio de amigas pode divertir-se a valer e deixar-se seduzir pelo branco imaculado das vilas e pelos seus pores-do-sol mágicos.

À partida levava a imagem dos barcos de cruzeiros a descarregarem multidões, acrescentada pelas já esperadas multidões estivais de Agosto, de pouco espaço para circular, dos burros a carregarem turistas velhos e gordos, de preços astronómicos. Nada disso trouxe para casa e nada disso me vem à memória quando penso nos três dias inteiros que passei em Santorini. Sei-o hoje, será uma pena e uma perda se pré-conceitos e pré-juizos nos afastarem de Santorini. Não é a ilha que nos merece. Somos nós que a merecemos.

A beleza de Santorini não está na paisagem natural da sua terra. A principal ilha é conhecida como Thira e esta ilha de origem vulcânica é um autêntico rochedo agreste em toda a sua costa ocidental, chegando os penhascos a tomar 300 metros. Acontece que esse rochedo fica virado para um mar incrivelmente bonito a qualquer hora do dia, terminando com os tais pores-do-sol mágicos, e possui umas vilas absolutamente tocantes.

A história geológica do arquipélago de Santorini é muito curiosa.

Antigamente chamada Strongili, a ilha era uma só e redonda. Uma enorme erupção há cerca de 3600 anos (em 1630 a.C.) fez com que o centro da ilha abatesse e afundasse, desmembrando-a e dando origem a três ilhas: Thira, Thirasia e Aspronisi. Esse centro afundado é hoje a caldeira, para onde os referidos penhascos da parte ocidental de Thira caiem dramaticamente, e aí foram entretanto formadas as ilhas Palea Kameni e Nea Kameni na sequência de novas erupções vulcânicas nos séculos XVI e XVII. Nea Kameni é a ilha-vulcão, a mais recente formação do Mediterrâneo Oriental.

Ultrapassada a era da civilização cicládica, na época daquela grande erupção vulcânica a ilha era habitada por uma civilização próspera similar àquela que ocupava Creta, a Minóica, que com ela possuía relações comerciais. Akrotiri, que não visitámos, é uma antiga cidade Minóica testemunha desse tempo situada a sul de Thira. Pensa-se que esta erupção foi tão grande, provavelmente uma das maiores de sempre, e produziu tais alterações climáticas que terá sido essa a causa que levou ao declínio da civilização Minóica.

Posteriormente e sucessivamente, as ilhas foram tomadas pelo Império de Atenas, pelo romano, pelos venezianos, pelos turcos, até que a Grécia ganhou a sua independência no século XIX. Nos anos 70 do século passado deu-se o boom do turismo e hoje de todos os cantos do globo chegam “invasores”.

Ao contrário do que se possa pensar, a Thira-Santorini de hoje não trata de nos mostrar o luxo. É sobretudo um imenso bom gosto que ela nos oferece. O estilo cicládico de branco e azul está lá, vilas feitas de casinhas empoleiradas desde o topo das encostas vindo por aí abaixo, telhados planos transformados em terraços miradouros com vistas soberbas, ruas estreitas e labirínticas – uma garantia de defesa contra os piratas e elementos como o vento – que se perdem num dos exclusivos apartamentos-cave, muitos deles donos de piscinas infinitas que caem para o mar.

As várias igrejas que nos aparecem no caminho são apenas mais um adereço para tamanho encantamento. Elas lá estão, com as suas cúpulas azuis tradicionais numa linda parceria com as casas brancas que as rodeiam. Ou podem ser elas próprias alvíssimas. Ou até tomar cores em tom pastel. Tanto faz, são sempre belíssimas nesta paisagem idílica.

Não faltam sequer umas buganvílias para compor a paleta.

Em Santorini tudo é simples, elegante e gracioso.

E não há melhor para o comprovar do que caminhar entre Fira, Firostani e Imerovigli, o ponto mais alto da caldeira. As vistas sucedem-se e mesmo que se diga que este percurso demora cerca de 30 minutos de uma vila à outra é bem provável que na verdade gastemos mais de 3 horas para o percorrer, tal é o deslumbre que força a repetidas paragens para a devida contemplação.