Nas Escarpas da Mizarela

O Trilho PR7, nas Escarpas da Mizarela, é considerado o mais fantástico da Serra da Freita. Segue maioritariamente pelo vale encaixado da Frecha da Mizarela, uma queda de água que cai a mais de 60 metros de altura, contornando-a. O lugar é realmente grandioso, belo e selvagem, o coração da Freita. Mas este percurso pedestre de cerca de 10 quilómetros não é nada fácil.

Com início e chegada no Parque de Campismo do Merujal, este percurso oficial do Arouca Geopark vem marcado como tendo 8 quilómetros, mas acabámos por percorrer 10,5 quilómetros, tendo desviado até à base da cascata.

Saindo do Parque de Campismo, atravessamos a Estação da Biodiversidade do Merujal, um caminho plano com diversos painéis informativos acerca da fauna, flora e fungos presentes no lugar. Esta é uma zona de bosque, mato, pinhal e turfeiras onde são os cabeços rochosos que roubam por completo a nossa atenção.

Sem esforço, após 1,5 quilómetros chegamos ao miradouro da Frecha da Mizarela. À distância, parece que apenas um fiozinho de água se despenha da imensa escarpa. O Rio Caima nasce aqui perto, na freguesia de Albergaria da Serra, a mesma da vizinha aldeia da Mizarela, e quando aqui chega cai abrupto por mais de 60 metros por conta deste corte no penhasco. A partir do miradouro vamos descer, ao encontro do curso do Caima no fundo do vale, até à aldeia de Ribeira, onde passaremos para a outra margem do rio para voltar a subir o vale pela encosta contrária.

É precisamente nesta acentuada e interminável descida, sempre coberta pela vegetação, que está a dificuldade do trilho, por incrível que pareça bem pior do que a acentuada e interminável subida, nem sempre coberta pela vegetação. O trilho está bem marcado, com as risquinhas vermelha e amarela da praxe pintadas ora nos troncos da árvore ora nas rochas. O problema é que temos de dedicar tanta atenção à descida – muito perigosa em dias húmidos – que a cabeça baixa pode fazer-nos perder as marcas. Foi isso que aconteceu e descemos demais, ao invés de seguir pelo trilho à direita, e quando o percebemos entendemos que merecia a pena continuar no desvio até à base da cascata (entre ida e volta será cerca de 1 quilómetro a mais). Há enganos que vêm por bem e hoje agradecemos a distracção.

Já cá em baixo, furámos por entre as pedras e percebemos uma lagoa, com uma cascata e tudo. Subindo (não é fácil) pela parede desta piscina acedemos ao patamar seguinte e eis que surge mais uma lagoa, com a devida cascata. Já não arriscámos subir mais, mas o cenário vai-se repetindo. É um sítio poderoso com a natureza em estado bruto.

Depois deste deleite impõe-se a subida, realizada facilmente e em muito menos tempo do que a descida. Com mais atenção, desta vez não perdemos a indicação do desvio e seguimos, então, pelo trilho correcto. O trilho continua sem ser fácil, num carreiro apertado que ora sobe ora desce, quase sempre com vistas soberbas para a Frecha por entre as ramagens dos carvalhos e dos pinheiros. Mas quando cruzamos com a estrada de asfalto e metemos novamente pelo trilho é sempre a descer até à Ribeira.

As vistas continuam impressionantes, com o domínio absoluto das enormes encostas que se levantam do vale quase a direito, cobertas com uma vegetação luxuriante de um verde intenso. Mas devo confessar que nesta altura estava aborrecida com a dificuldade do percurso. Foi, pois, um alívio com comemoração à medida a chegada à Ribeira: um mergulho e um piquenique.

A Ribeira é uma pequeníssima povoação no fundo do vale com casas empoleiradas na encosta em visível mau estado e que parecem todas abandonadas. Percebem-se ainda, no entanto, os socalcos do que foram em tempos terrenos cultivados. E vê-se, também em ruína, um moinho de água que, em conjunto com outros que aqui existiam, trabalhavam para alimentar os habitantes do planalto, carecidos da água abundante na Ribeira.

Depois da pausa para refrescar corpo e mente, atravessamos a ponte da Ribeira e já pela outra margem subimos ao longo do Caima. Esta subida não é tecnicamente nem fisicamente dura, apesar de longa. As vistas continuam de alto nível e por este caminho na outra vertente do vale percebemos que as lagoas e cascatas não cessam no que julgávamos ter sido a base da Frecha da Mizarela, antes continuam ao longo do vale que segue até à bela Ribeira.

Continuando a subida, a dado momento escutamos o som da água e logo depois ela apresenta-se na forma de mais uma ribeira. Mais adiante, nova apresentação, desta vez sob a forma de mais uma cascata, a Cascata da Castanheira. Atravessamos a sua pequena e pitoresca ponte e… continuamos a subir, pois claro.

No topo ganhamos uma vista ao longe para as Pedras Parideiras e para a aldeia da Castanheira e, sobretudo, mais ao longe ainda para uma infinidade de horizonte que em dias de visibilidade máxima chega a permitir avistar o Atlântico para lá de Aveiro.

Durante diversos pontos do percurso já tínhamos percebido os afloramentos quartzíticos nas rochas graníticas, mas agora um enorme bloco branquíssimo surge diante nós. Face a ele qualquer pessoa compreende definitivamente o que é isso de “afloramento quartzítico”.

Parece que já estamos perto da aldeia da Mizarela e do seu miradouro, vê-mo-la quase à distância de um esticar de braço, telhados ocres debruçados na varanda granítica, mas ainda há que seguir pelo trilho que volta a ora descer ora subir, embora já não tão acentuado. Tempo e espaço ainda para passar por altas e inclinadas ravinas, onde até umas cordas estão cravadas na parede da rocha para nos ajudar a ultrapassar um último desafio, mas na verdade este ponto não é tão perigoso nem difícil como parece.

A parte pior há muito havia ficado para trás e de volta à aldeia da Mizarela, e à distância fácil do final do percurso, já só retinha a beleza extraordinária deste vale encaixadíssimo e suas estrondosas escarpas, as quais através de uma solidária abertura permitem que o raio Caima, que até então corria tranquilo, tenha um momento de aventura e se jogue por ali abaixo e no caminho vá nadando em diversas lagoas, fazendo dela a nossa felicidade.

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Drave, a Escondida

Tinha prometido a mim própria que voltaria à Serra da Freita para conhecer a Drave, aquela a que chamam a “Aldeia Mágica”. Os caminhos por vales e montanhas da Freita, em Arouca, são cenários impressionantes, mas também o secretismo e misticismo da povoação da Drave me impressionou. Em tempos tinha tentado percorrer de carro as estradas de asfalto pelas montanhas que lhe são próximas, mas nada de a conseguir vislumbrar.

Parte da atracção da Drave é precisamente esta, a de não se deixar ver nem pisar a não ser caminhando directamente até ela. Encaixada num vale e protegida por montanhas, a este lugar encantado apenas se chega depois de percorrer a pé os 4 quilómetros que a separaram da aldeia de Regoufe (bem marcados pelo PR14 – “Aldeia Mágica”).

Regoufe, a visigótica “rei dos lobos”, é também um lugar que merece ser visitado e explorado. Ao descer de carro até à aldeia percebemos logo a ocupação do vale com terras de cultivo. Um desvio à direita (onde estacionámos) sinaliza as Minas de Regoufe, hoje uma impressionante ruína cheia de ambiente desta antiga indústria de extracção de volfrâmio explorada pelos alemães durante a época da II Grande Guerra Mundial.

Descemos mais um pouco, agora a pé, e a entrada na aldeia permite-nos conhecer um exemplo singular de autêntica ruralidade bem no centro do nosso país. Casas de granito onde o piso térreo ainda é efectivamente usado para guardar os animais são uma realidade. Assim como o é a partilha das suas ruinhas entre os homens e as vacas, cabras e galinhas.

O percurso pedestre que nos leva até à Drave tem início à entrada do casario de Regoufe. São 4 quilómetros para cada lado, cerca de 1h 15m de caminho em cada sentido. É um percurso relativamente fácil, onde na ida a única parte cansativa é precisamente a primeira, aquela que após atravessar a ribeira da aldeia de Regoufe nos leva a enfrentar uma subida inclinada com muita pedra no terreno. Acontece que, na subida somos tentados a olhar para trás, para espreitar a implantação geográfica de Regoufe no vale, e de tão bela que é temos a desculpa perfeita para não apenas caminharmos lentamente como também forçarmos as paragens para descanso ver as vistas.

A chegada ao cimo desta subida dá-nos ainda um cenário maior, a junção das Serras da Freita e da Arada, e mais à frente ainda de São Macário, aquilo que há séculos era designado como o Monte Fuste. E a partir daqui o caminho é quase sempre relativamente plano e em bom piso, com excepção da aproximação a Drave, em que teremos que descer um empedrado.

A vista é fabulosa. As montanhas verdes com rasgões fazem lembrar as do Cáucaso. É impossível deixar de contemplar as enormes paredes montanhosas que se erguem desde abaixo no vale até tocarem no céu. E elas, camaradas, vão nos acompanhando pela nossa caminhada afora.

Começamos a avistar a Drave ao longe quase ao mesmo tempo que percebemos uma ribeira no fundo do vale em curva. Iniciamos a descida e em breve chegamos à Aldeia Mágica.

As casinhas escuras construídas em xisto e lousa confundem-se com as paredes rochosas. Esta é uma zona de transição de granito e xisto, mas o casario de Drave é todo em xisto, à excepção de um ponto branco correspondente à capela caiada. Impressiona como uma povoação implantada a 600 metros de altitude pode estar numa cova, rodeada de montanhas mais altas do que ela.

Esta primeira visão frontal e mais próxima de Drave impressiona ainda porque aqui percebemos de forma esmagadora o seu isolamento. A povoação da Drave tem como referência mais antiga uma dos tempos de D. Dinis, no século XIV, e em 1527 aparecia registada no Cadastro da População do Reino como contando com dois vizinhos e oito pessoas (por comparação, Regoufe tinha oito vizinhos e trinta e duas pessoas). Foi no ano 2000, depois de a linha telefónica ter chegado apenas 7 anos antes e de a electricidade não ter chegado nunca, que o último habitante deixou a aldeia. Era um Martins, descendente da família mais antiga e representativa do lugar, dona do Solar dos Martins, o maior edifício de Drave. Os habitantes de Drave dedicavam-se em exclusivo à agricultura, em especial à cultura do milho e batata, e possuíam algum gado e cabras. Foi a fertilidade do vale, pela confluência de algumas linhas de água, que aqui fez estabelecer as pessoas, mas nas últimas décadas o tempo, “esse grande escultor”, foi afastando os habitantes mais novos, em busca de melhores condições de vida ou tão somente de escolaridade – nunca houve escola na aldeia.

Hoje praticamente tudo está em ruína e não fossem os escuteiros esta seria uma aldeia fantasma. São eles que têm vindo a reabilitar alguma das casas, tendo feito da Drave a Base Nacional da IV Secção do Corpo Nacional de Escutas e é por sua responsabilidade que a Drave ainda não morreu, preservando não apenas o edificado mas também as memórias do lugar com as suas iniciativas.

Um dos prazeres desta caminhada é deambular pelo casario de Drave. Assim o fizemos, primeiro do lado de cá da Ribeira de Palhais e, atravessada a pequena ponte, depois do lado de lá. É uma atmosfera incrível, espreitar pelas portas ou janelas já idas, ou até pelos pedaços de pedra que faltam nas fachadas, e ver a montanha diante nós.

Não se pense que são meia dúzia de casas. Não, a Drave era uma povoação grande e com muitas habitações. Implantadas em pequenas plataformas adaptadas ao terreno, quase como se de socalcos se tratassem, estão construídas em xisto e com telhados em lousa e possuem anexos de apoio à agricultura, como palheiros, currais, azenhas e espigueiros. Podemos ver um espigueiro maior abaixo da Capela, um espigueiro que servia toda a comunidade, exemplo do espírito comunitário destas povoações isoladas.

Um lamento, porém. Ao deixarmo-nos perder por entre as ruinhas e casinhas, percebemos que nem toda a gente que se propõe vir até Drave compreende este legado que mais uma parceria brilhante entre Homem e Natureza nos deixou. Inúmeras casinhas escancaradas pela falta da cobertura e partes da fachada estão repletas de lixo e, sobretudo, de papel higiénico. Está bem que temos de fazer as nossas necessidades fisiológicas, mas como se explica que haja gente que se abale a caminhar esforçadamente durante algum tempo para não respeitar o lugar de destino, por sinal incrível e único? Não desejo que optem pelo depósito deste tipo de resíduos na ribeira – há alternativas – até porque depois do passeio pelo casario de Drave ainda há que mergulhar na Ribeira de Palhais.

Este é outro dos pontos altos desta caminhada. As inúmeras poças e cascatas que se vão formando ao longo do vale. O Verão não é o melhor momento para as ver na sua máxima ou média força, daí que Maio ou Junho sejam os meses mais aconselhados para quem quer caminhar e mergulhar. Não nos tocou essa pujança ribeirinha, pelo contrário, a ribeira estava bem vazia e até dava para caminhar por ela.

Ainda assim, arranjámos um poço sem ninguém e com uma água transparente bem apelativa, para além de um recanto para um piquenique.

Depois de um merecido momento de descanso e reflexão por esta dádiva, iniciámos o caminho de volta. Mais custoso, uma vez que se na vinda havíamos descido, agora haveria que subir. Nada que os momentos relaxantes e de felicidade vividos anteriormente não nos tenham preparado para encarar.

Esta caminhada foi, em conclusão, uma das mais fantásticas que tive oportunidade de percorrer. Trilho com cenas grandiosas de montanha, povoação de construção vernácula em ruína, curso de água com poços cristalinos para tomar banho, tudo reunido, faz deste o passeio perfeito.

Se quiser saber mais sobre Drave pode assistir ao filme “Uma Montanha do Tamanho do Homem”, de João Nuno Brochado, lançado em 2014 e disponível em RTP Play aqui.

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Arouca

Já que estamos pela Serra da Freita e pelos Passadiços do Paiva, vale a pena uma paragem na vila de Arouca, sede de concelho abençoada com uma paisagem natural impressionante.

Arouca cresceu e desenvolveu-se à volta do Mosteiro de Santa Maria de Arouca. Este Mosteiro, talvez datado do século X, foi doado por Dom Sancho I à sua filha, Dona Mafalda. No início era um mosteiro misto, mas a partir do século XII tornou-se exclusivamente feminino, e logo um dos maiores do país, tendo passado a integrar a Ordem de Cister em 1226. O edifício que vemos hoje foi alterado praticamente por completo nos séculos XVII e XVIII. Os seus dormitórios são largos, a atestar a origem aristocrática e o poder das famílias das freiras de Arouca. É por isso que este mosteiro é rico, alimentado pelos dotes das suas ocupantes, e ainda hoje essa riqueza é visível. A visita ao Museu de Arte Sacra neste Mosteiro, incluindo cozinha, claustros, pintura, escultura, mobiliário e prataria, tem como ponto alto o seu Coro Baixo.

Separado da bela igreja rica em talha dourada (de visita livre), para que as freiras não fossem vistas pelos leigos, este Coro é uma pequena maravilha. O belíssimo trabalho do cadeiral é obra de entalhadores portuenses do século XVIII e acima veem-se vinte emocionantes imagens de pedra de Ançã esculpidas por Jacinto Vieira também da mesma data.

Junto ao Mosteiro é o coração de Arouca e nas ruas ao seu redor destaca-se algum casario mais distinto e revestido a azulejo. À frente fica a Capela da Misericórdia com o seu bonito largo com calçada portuguesa. Um pouco mais acima o Calvário. Parece uma terra devota.

Para algo mais terreno, voltemos ao centro, seja para comprar alguns produtos locais na feira dominical no parque verde, seja para uma refeição num dos seus restaurantes de comida típica regional, donde faz parte a incontornável carne arouquesa.

E não esqueçamos de saborear um dos vários doces conventuais regionais, como as castanhas doces, as roscas, as morcelas doces e as barriga de freira. A provar que Arouca é terra de paisagens enormes, mas também de sabores inesquecíveis.

Para terminar em beleza, uma subida até à Capela de Nossa Senhora da Mó, mais um dos pontos de vista soberbos da região para a despedida.

Os Passadiços do Paiva

Os Passadiços do Paiva são actualmente uma das estrelas do turismo português. Numa região de enorme beleza natural, é verdadeiramente uma proeza que um sítio possa recolher a quase unanimidade das preferências dos viajantes.

E então o que é isso dos Passadiços? São épicos oito quilómetros de caminhada ao longo do rio Paiva, pelo meio de uma natureza que começa plácida no Areinho e se vai tornando selvagem logo aos primeiros metros, numa jornada que vai alternando constantemente entre essa feliz combinação entre tranquilidade e inquietude naturais.

Por esse caminho, sempre à beira do Paiva, um dos rios mais bonitos e limpos da Europa, foram construídos uns passadiços de madeira que desde 2015 fazem as delícias de qualquer pessoa que goste de passear. Desde aí os Passadiços têm recebido uma série de prémios nacionais e internacionais, como o de projecto turístico mais inovador. Um arrojo quilométrico que faz com que estas estruturas de madeiras serpenteiem ao longo das enormes paredes rochosas, tentando acompanhar o percurso sinuoso do rio, e se suspendam nos céus. Logo ao início, para quem começa a caminhada no Areinho, vemos os Passadiços encavalitados e a tentar chegar às nuvens, numa escadaria imensa e sem fim. As várias formas que estes caminhos de madeira tomam nesta paisagem belíssima dão imagens irreais, daquelas que ficarão para sempre registadas na nossa memória.

Mas, então, se são oito quilómetros de caminhada isso não é para qualquer um, certo? Não necessariamente. Esta caminhada é considerada como sendo de nível de dificuldade alto e vem anunciada como distando, efectivamente, oito quilómetros entre as duas entradas possíveis: Areinho e Espiunca. Iniciando o percurso no Areinho a subida inclemente fica logo feita, enquanto que se o iniciarmos em Espiunca teremos a dita subida como fim de festa, quando já estivermos cansados – daí que seja aconselhável, a quem não se propõe fazer o percurso de ida e volta, inciá-lo no Areinho. Acontece que é sempre possível sair do percurso a meio, na Praia Fluvial do Vau, pelo que não existem desculpas para, pelo menos, percorrer o fácil – e belo – caminho entre Espiunca e Vau (4 quilómetros, cerca de 1 hora). A subida logo ao início do Areinho só se torna, na verdade, fácil apenas para quem não tenha problemas em subir escadas e se proponha fazê-lo com calma.

E, então, vale a pena fazer o percurso todo de longos oito quilómetros, isso não é sempre a mesma coisa? Não, a paisagem não é sempre a mesma coisa. Há a madeira dos Passadiços, certo, e há o rio e a serra. Mas a serra tem tonalidades e formas diferentes e umas vezes apresenta-se com vegetação e outras com rocha de granito ou xisto. O rio ora segue calmo como, de repente, se torna rebelde, com pedrinhas e relevos que mudam a cada instante. Escutá-lo é todo um outro programa nesta bela caminhada, uma sinfonia absolutamente natural. E, bom, as formas dos Passadiços, essas, já se disse, também vão surpreendente a cada passo, sendo uma merecida estrela criada pelo Homem neste ambiente puro de natureza. Posto isto, sim, há que fazer todo o percurso e se quisermos duplicar o prazer, pois então, que voltemos à casa partida do mesmo modo.

Chegar aos Passadiços do Paiva é fácil. Desde Arouca são cerca de 12 quilómetros por curvas numa densa vegetação até à Praia Fluvial do Areinho. É aqui que temos a maior área de estacionamento. O aconselhável é deixar aqui o carro e após a saída em Espiunca tomar um dos vários táxis que aí se encontram para voltar ao Areinho (o custo da viagem são cerca de 18 euros, daí que seja bom partilhar a viagem).

A Praia Fluvial do Areinho é o primeiro momento de beleza que encontramos. Com um pequeno areal, as árvores e as paredes de rocha produzem belos reflexos nas tranquilas águas do rio. Iniciamos a caminhada aqui por uma curta estrada de terra batida protegidos pelo enorme arvoredo.

Logo adiante começa o caminho de madeira, os Passadiços, e avista-se a Garganta do Paiva. É o primeiro momento selvagem, um desnível na terra por onde o rio vai furando as poderosas paredes rochosas.

E aqui se inicia a tal escadaria interminável. O argumento – verdadeiro – de que a paisagem é belíssima e merece ser contemplada sem pressas dá imenso jeito. Pois, então, subamos vintena de degraus a vintena de degraus e deixemos-nos estar por aqui a admirar o cenário. O cenário da natureza, sim, mas também da obra de construção desta escadaria em madeira, soberbamente intrincada na rocha. É no fim da subida desta formosa escadaria que surge a entrada no Parque (tem de ser previamente comprada na internet – 1 euro – ou no momento na Praia Fluvial do Areinho, mas aí sujeita a disponibilidade).

Após a subida e um momento de planura por nova terra batida com vistas altaneiras, logo nos aparece a descida, não menos intensa e formosa. E vem acompanhada da panorâmica da Cascata das Aguieiras, um fio de água que se distingue na montanha à nossa frente. A altura é enorme e aqui percebemos verdadeiramente a dimensão e força da natureza que nos rodeia.

Em termos de formas dos Passadiços, as vistas sobre as quais nos debruçamos na descida para o outro lado da montanha são as mais fantásticas. Só o rio segue tranquilo na paisagem rebelde de madeira e rocha.

Após esta descida o percurso segue sempre em passadiço de madeira até à Praia Fluvial do Vau e ainda demora. Mas nunca aborrece. Diz-se que a totalidade dos oito quilómetros se fazem, em média, em 2 horas e 30 minutos, mas só até ao Vau – metade do caminho – levei 2 felizes horas. Neste caso, devia haver louros não para os mais rápidos a fazer o percurso mas antes para aqueles que o levam mais tempo a saborear.

O Vau é um dos recantos do Paiva. Pura beleza, passe a repetição. É o lugar ideal para uma paragem, seja para um mergulho na água fria, um snack ou piquenique ou só para ficar a olhar para mais uns irreais reflexos na água. Temos até uma bela cascatinha.

Outra das estrelas do Vau é a ponte suspensa de madeira logo à sua entrada. Sobre o rio, a ponte é de madeira, bem estreita e balança que dói. É um bocadinho aterrador atravessá-la, ainda para mais se o fizermos ao mesmo tempo que um daqueles grupos numerosos e animados para quem a adrenalina é a chave da viagem. Podia chamar-lhes parvos, mas os parvos não sabem o que é bom e não vêm até ao Paiva.

Após o Vau o rio Paiva dá uma curva larga e a paisagem alarga. As emoções sobem e, de repente, a tranquilidade do rio apaga-se por momentos. A rocha continua com as suas formas agrestes, mas agora as pedras vão-se depositando cada vez mais no caminho do rio, estreitando-o, e este vai ficando revolto. O Poço das Golas é um paraíso para o rafting.

O cheiro a rio e a orvalho persegue-nos e acompanha-nos. A paisagem não pára de deslumbrar até Espiunca e já a chegar ao final do percurso não deixamos de olhar para trás uma última vez e guardar a beleza sem fim do Paiva.

Dois dias de carro pela Serra da Freita – o 2° dia

Junto a Arouca uma excelente sugestão de dormida é a Quinta do Toutuço, em Lourosa do Campo. O lugar é pura ruralidade, com vistas lindíssimas para o verde da serra, um recanto de pacatez. Se não houvesse tanto para conhecer pela região não seriam mal passados uns dias de dolce far niente na Quinta, à conversa com os seus simpáticos proprietários e demais hóspedes dos apenas quatro quartos. Imperdível, no entanto, um passeio pelos jardins da Quinta, não apenas para ver uma das inúmeras árvores de fruto, mas sobretudo para apreciar a maior canastra do nosso país.

A manhã do segundo dia pela Serra da Freita começou com a visita aos Passadiços do Paiva, o ponto alto de qualquer passeio pela região (em breve um post sobre esta caminhada).

A minha caminhada de oito quilómetros foi demorada, como acabam por ser quase todos os meus passeios. Muita paragem para observar qualquer coisa, com interesse ou não só o sei depois, leva a que o plano do dia tenha de sofrer alterações e se tenham de fazer opções. Por exemplo, a ideia era almoçar uma das carnes típicas em Alvarenga, mas como já não eram bem horas de almoço e muito quilómetro havia ainda para percorrer, esta refeição ficou para trás.

Do Areinho, uma das entradas dos Passadiços, seguimos até à ponte onde cai a Garganta do Paiva, lugar onde quem se propõe fazer os Passadiços tem de superar a única dificuldade do percurso, uma longa subida por uma épica escadaria. Mas de carro podemos seguir até Paradinha, uma estrada que termina na sua praia fluvial e passa à entrada dos Icnofósseis de Cabanas Longas, outra das paragens com interesse geológico no Geopark de Arouca. Não há lugares para estacionar, por isso não sei bem como se pretende que possamos visitar o sítio. Aliás, não há sequer lugar para dois carros se cruzarem na estrada. Esta estrada é terrivelmente perigosa, estreita e sem visibilidade, curva contra curva monte afora a deixar ver um vale imensamente fundo. A rezar constantemente para não me cruzar com mais nenhum carro. Fui atendida.

E esta estrada é também terrivelmente bela. As formas que os monte tomam, o intenso verde e o isolamento que se pressente faz com que a viagem seja uma verdadeira aventura.

O lugar de Paradinha é um exemplo de tudo isto. Antiga aldeia de casas de xisto, foi totalmente recuperada e hoje não vive lá ninguém em permanência. O ambiente que se sente é misto. Não se vê vida, mas como refúgio parece ideal. Perdida na natureza, mas com arte espalhada pelas suas ruas e casas.

Como tinha dito, a estrada termina em Paradinha e daí há que voltar pela estrada terrível, mas agora felizmente na parte interior junto ao monte. Se tiver que desviar o carro pelo menos bato, não caio. O próximo destino é Janarde, a dois quilómetros de Paradinha em linha recta no mapa e a 22 quilómetros por estrada. O que vale é que a paisagem compensa a distância e a demora.

Pelo meio uma paragem em Meitriz. Faz lembrar Chãs de Égua, no Piodão, até pelo ambiente de abandono. Núcleo minúsculo de casas de xisto com a companhia de umas videiras, esse abandono só faz adensar o clima de mistério.

Em Janarde, um pouco adiante e acima, já vi duas pessoas. Neste ponto perdido no mapa não é apenas o xisto e o clima de mistério que prendem a nossa atenção, é antes a paisagem fabulosa. Pretendia fazer o percurso a pé até à Livraria do Paiva, fenómeno semelhante à mais acessível Livraria do Mondego, riscas nas paredes rochosas que parecem estantes de livros. Mas estes são literalmente caminhos menos batidos e as silvas a roçarem nas pernas ao léu venceram-me pelo cansaço ao fim de pouco tempo.

O pior foi quando tentei seguir de Janarde para Regoufe. O GPS deu-me uma estrada estreita e a subir em terra batida que só a inconsciência me levou a tentar iniciá-la sem um 4×4. Depois do susto, a volta à estrada de asfalto terrível mas bonita fez-me relativizar a coisa e já nem o cruzar com outros carros me atormentava.

Regoufe tem bem mais vida que as anteriores Paradinha, Meitriz e Janarde. E tem também outra história e dimensão.

A aldeia de Regoufe tem um localização geográfica belíssima, na cova de um monte com paredes enormes ora preenchidas do verde da vegetação ora de plantações de milho. Há ainda alguma vida aqui. E a aldeia acaba por ser um museu dos hábitos de vida tradicionais. As ruas tanto são das pessoas como dos cães, bois e galinhas. O cheiro a bosta faz aqui sentido.

Mas Regoufe, cujo significado é “rei dos lobos”, não é apenas aldeia de agricultura e pastorícia. Em tempos foi ainda lugar de umas minas de volfrâmio. As Minas de Regoufe ou Poça da Cadela começaram a sua exploração em 1915 e foram inicialmente concedidas a um francês. Em 1941 os ingleses tomaram a administração das minas e a eles se deveram vários melhoramentos não só no espaço mineiro mas também nos acessos à região. É curioso que em plena II Grande Guerra Mundial os ingleses tinham aqui esta mina de Regoufe e não muito longe os alemães administravam a de Rio de Frades, também dedicada à exploração do “ouro negro”, do qual fabricavam depois armas e munições. O complexo mineiro de Regoufe chegou a empregar mais de 1000 pessoas e apenas cessou a sua actividade na década de 1970. Hoje visitam-se as ruínas dos seus edifícios em granito, como as zonas residenciais, escritórios e oficinas. Vê-se até alguma maquinaria. E por ali afora abre-se um vale e a paisagem dá ainda mais encanto a este lugar abandonado. Não falta sequer um campo de futebol pelado ainda com balizas e redes roídas. Ao mesmo tempo, parece que a mina foi abandonada ontem mesmo.

E é na aldeia de Regoufe que se inicia aquele que deve ser um dos mais incríveis percursos pedestres do nosso país. A caminhada até Drave, a aldeia fantasma perdida nas profundezas da terra que os escoteiros fazem por manter ligada ao mundo, ficou adiada mas não será esquecida.

Ainda tinha esperança que a sua silhueta se pudesse ver de algum ponto da estrada à volta do seu vale, mas nada.

De qualquer forma, a estrada que passa pelo Portal do Inferno e da Garra (que nome inspirado) é certamente uma das mais fantásticas do nosso país. O vale de Drave para um lado, o vale de Covas do Monte para o outro. Não é apenas beleza, é muito mais do que isso e só aqui fincando os pés conseguimos sentir todo o poder da região.

O último capítulo desta viagem pela Serra da Freita e companhia antes de voltarmos para Arouca transporta-nos ainda até ao Santuário de São Macário, no alto da serra de mesmo nome, após atravessarmos um planalto. Não falta sequer uma lenda a este sítio, segundo a qual um homem que acidentalmente matou o seu pai se refugiou aqui até ao fim dos seus dias, alimentando-se de ervas e gafanhotos como penitência. Ficou santo, uma ermida foi construída neste lugar em sua honra e a romaria de São Macário é celebrada até hoje.

Aqui estamos no topo do nosso mundo, a 1054 metros de altitude, e o dia começa a deixar-nos. O vento forte tenta perturbar o momento, mas é impossível desviar a atenção da paisagem majestosa destas Montanhas Mágicas.

Dois dias de carro pela Serra da Freita – o 1° dia

A Serra da Freita não é o mesmo que a Serra da Arada e a Serra de São Macário. E estas, todas juntas, não correspondem exactamente ao Maciço da Gralheira. No entanto, por uma questão prática e uma vez que não existe qualquer controlo de fronteiras por esta região falaremos adiante sobre um território largo.

Que tal começar o passeio de carro pela Serra da Freita por um almoço no restaurante Mira Freita, na aldeia de Felgueira, concelho de Vale de Cambra? Às portas da Freita, este é um dos mais afamados restaurantes da região e a sua vitela confirma que a fama é merecida a cada segundo da degustação da carne local.

Esta aldeia fica num ponto elevado onde as plantações de milho se sobrepõem às vinhas e videiras. Os espigueiros, aqui chamados de canastras, deixam ver o milho amarelinho. E a lenha vai-se acomodando à porta das casas e à beira da estrada, que o Inverno está aí à porta (a viagem foi feita no início de Outubro).

De barriga cheia iniciei então o passeio de dois dias seguindo até ao pico do Espigão, a pouco mais de 1000 metros de altitude, o primeiro dos largos pontos de vista que temos ao nosso dispor. Aqui está instalado o Radar Meteorológico de Arouca, cuja torre se avista desde longe e nos vai ajudando a situar na paisagem. E este é ainda o lugar de uma daquelas torres de arquitectura familiar nas serras portuguesas. Um senhor estava no seu topo e perguntei-lhe se também poderia subir. “Só se me quiser ajudar a avistar um fogo”. Em época, cada vez mais alargada, de alertas de fogo, todo o cuidado é pouco, e lá segui viagem mais segura, sentindo que mesmo que não houvesse fogo alguém olharia por mim.

O bom de viajar sozinha é poder parar o carro para tirar uma foto ou para ficar só a apreciar o cenário sempre que quiser. Mesmo que isso signifique parar o carro de 200 em 200 metros. Até que o subconsciente lá ordena, “pára com isso senão chegas ao fim do dia sem visitar metade do que te propuseste”. E a verdade é que a Freita e redondezas nos obriga a parar muitas vezes.

A paisagem é variada nas suas formações rochosas, mas há algo que é marcante: a história geológica da região. O Arouca Geopark, coincidente com todo o território do concelho, possui um património riquíssimo em valor geológico.

A primeira paragem foi no Campo de Dobras da Castanheira. Está estudado que estas rochas se formaram há mais de 500 milhões de anos nas profundezas de um mar antigo, cujos sedimentos deram origem às rochas que hoje podemos observar. Xisto, metagrauvacoides e até filões de quartzo. Para quem não é especialista ou interessado em geologia, temos sempre a belíssima paisagem deste vale da Castanheira.

Um pouco mais adiante chegamos a um dos pontos altos deste Geopark, as Pedras Parideiras, já na aldeia da Castanheira. Temos um pequeno museu e casa de apoio que nos explica este fenómeno raro de granitização no mundo. Uns passadiços elevados transportam-nos por uma área de afloramento granítico onde podemos conhecer umas curiosas pedras. O nome “parideiras” vem da situação de estas pedras possuírem uns nódulos pretos brilhantes (quartzo no interior e mica preta no exterior) em forma de covinhas que acabam por se autonomizar da pedra mãe e dar origem a novas pedras. Pedras que parem pedras.

Curioso fenómeno, repito, mas a paisagem vizinha destas Pedras Parideiras está à sua altura. O granito é soberano e a vegetação não abunda e é rasteira, feita sobretudo de tojo, urze e carqueja. O colorido pode parecer monótono, mas não o é. Umas vacas pastam amiúde, para compor o cenário. Aliás, a raça arouquesa, delícia gastronómica da região, é deixada livre para pastar nas encostas da serra e alimenta-se de forma natural, daí que depois de servida à mesa possamos confirmar como é tenra a sua carne. E da aldeia da Castanheira, terra de granito com presença também do xisto, avista-se não muito ao longe a Cascata da Frecha da Mizarela.

Da Castanheira até à Frecha são uns poucos mas intensos quilómetros. Os cabeços verdes dão lugar num ápice aos cabeços cinzentos. As formas das pedras cativam-me e nunca olho para duas iguais. Quanto mais não seja porque para lá de um muro de pedras empilhadas aparece-nos um campo de milho.

E já chegados à praia fluvial de Albergaria da Serra uns cavalos fazem companhia às vacas. O rio deste lugar é bem agradável.

A Cascata da Frecha da Mizarela é logo a seguir.

Um fiozinho de água é o que parece cair desde a alta parede rochosa que cai para o rio Caima, um dos muitos cursos de água que nascem ou se desenvolvem na região. Com 70 metros, esta é a mais alta cascata do país. Não é fácil perceber a verdadeira dimensão desta cascata face ao enorme cenário de montanha que cai sobre um vale que vemos desde o miradouro cá de cima, da estrada. Melhor seria se nos propuséssemos a seguir pelo percurso “Nas Escarpas da Mizarela”, um dos muitos percursos pedestres que existem na área do Geopark. O rei destes percursos é, claro, o multi-premiado “Passadiços do Paiva”, mas antes de visitarmos a Freita e suas cercanias é difícil ter noção da quantidade e qualidade dos caminhos que há para percorrer a pé por aqui. O percurso da Mizarela é apenas mais um deles, mas um daqueles que nos deixará bem mais perto de sentir o real poder desta queda de água. A confirmar numa visita futura.

Não havendo caminhada, há que seguir a viagem de carro.

A paisagem continua a encantar. Pedras, claro, e agora umas cabras guiadas por um pastor que nos obrigam a parar na estrada para as ver a brincar umas com as outras. Pura natureza.

O Miradouro de São Pedro Velho, a 1077 metros de altitude, obriga a uma breve mas agradável caminhada. Granito ou xisto à escolha. E já no miradouro norte e sul, este e oeste, igualmente à escolha. Diz-se que daqui se avista meio Portugal.

O mesmo para o Miradouro do Detrelo da Malhada. A 1100 metros de altitude, este é o ponto mais elevado da Freita, e agora temos Arouca e o seu fértil vale aos pés e nos dias bem limpos a costa atlântica entre Espinho e o Porto ao longe. Este miradouro tem uma forma engenhosa, uma plataforma circular suspensa que nos dá a sensação de flutuar no céu perante uma paisagem imensa.

Miradouros e pedras, uma dupla imbatível na Freita. E estradas praticamente desertas que vão rompendo pelas pequenas elevações granítico-amareladas.

Outra das curiosidades da Freita são as Pedras Boroas do Junqueiro. “Boroa”, que palavra é essa? Ainda se fosse pão de broa, ainda vá, mas boroa? Pois é, a Freita tem até uma pedra que ao engano pode fazer crer que é para ser mordida. Mas cuidado, que esta boroa é de granito. Na verdade são duas boroas, ou melhor, dois blocos de granito com cortes tais que se assemelham mesmo a umas broas. E assim fiquei também a saber que broa pode também ser designada como boroa.

Este é mesmo o reino da pedra. Elas ali aparecem, juntinhas, no meio de um prado onde as vaquinhas pastam sossegadamente.

Daqui seguimos para Manhouce, já no concelho de São Pedro do Sul. Terra da Isabel Silvestre, como alguém fez questão de lembrar, não foi a música, no entanto, que colocou esta aldeia no mapa. Foi antes a sua beleza, quer construída quer natural. Em tempos Manhouce chegou a ganhar o segundo prémio num concurso das aldeias mais portuguesas de Portugal. Vale a pena caminhar pelas ruas do povoado feito de casas de granito e telhados de ardósia.

E em Manhouce e ao seu redor existem ainda umas quantas piscinas naturais para descobrir. Também conhecidos como “poços”, junto à ponte romana ficam o Poço da Gola e o Poço da Silha (infelizmente não consegui dar com este último).

Mais incríveis são o Poço da Barreira, para um lado, e o Poço Negro, para o outro. Para chegar até às suas águas há que ser aventureiro e, pareceu-me, arriscar a saúde. Mas mesmo sem mergulhos a visita a estes Poços vale bem a pena pela paisagem e beleza soberbas. O Poço Negro no rio Teixeira, então, é uma imensa piscina redonda com uma cascata com uma dimensão generosa rodeada por uma densa vegetação.

Este primeiro dia pela Freita já ia longo e com o fim da tarde a chegar, mas pela serenidade da estrada desfilavam as canastras com o milho escondido, enquanto as suas folhas descansavam à sua beira. Uma trabalhadora seguia na labuta.

Tempo ainda para seguir pela estrada da Freita que nos permite o desvio para as aldeias de Cabreiros, Tebilhão e Cando, apenas avistadas de longe.

As paisagens da Freita são ainda mais soberbas ao cair do dia quando as cores se tornam irreais, rosas misturados com violetas e laranjas, antes do negro da noite tudo tomar.