Os Passadiços do Paiva

Os Passadiços do Paiva são actualmente uma das estrelas do turismo português. Numa região de enorme beleza natural, é verdadeiramente uma proeza que um sítio possa recolher a quase unanimidade das preferências dos viajantes.

E então o que é isso dos Passadiços? São épicos oito quilómetros de caminhada ao longo do rio Paiva, pelo meio de uma natureza que começa plácida no Areinho e se vai tornando selvagem logo aos primeiros metros, numa jornada que vai alternando constantemente entre essa feliz combinação entre tranquilidade e inquietude naturais.

Por esse caminho, sempre à beira do Paiva, um dos rios mais bonitos e limpos da Europa, foram construídos uns passadiços de madeira que desde 2015 fazem as delícias de qualquer pessoa que goste de passear. Desde aí os Passadiços têm recebido uma série de prémios nacionais e internacionais, como o de projecto turístico mais inovador. Um arrojo quilométrico que faz com que estas estruturas de madeiras serpenteiem ao longo das enormes paredes rochosas, tentando acompanhar o percurso sinuoso do rio, e se suspendam nos céus. Logo ao início, para quem começa a caminhada no Areinho, vemos os Passadiços encavalitados e a tentar chegar às nuvens, numa escadaria imensa e sem fim. As várias formas que estes caminhos de madeira tomam nesta paisagem belíssima dão imagens irreais, daquelas que ficarão para sempre registadas na nossa memória.

Mas, então, se são oito quilómetros de caminhada isso não é para qualquer um, certo? Não necessariamente. Esta caminhada é considerada como sendo de nível de dificuldade alto e vem anunciada como distando, efectivamente, oito quilómetros entre as duas entradas possíveis: Areinho e Espiunca. Iniciando o percurso no Areinho a subida inclemente fica logo feita, enquanto que se o iniciarmos em Espiunca teremos a dita subida como fim de festa, quando já estivermos cansados – daí que seja aconselhável, a quem não se propõe fazer o percurso de ida e volta, inciá-lo no Areinho. Acontece que é sempre possível sair do percurso a meio, na Praia Fluvial do Vau, pelo que não existem desculpas para, pelo menos, percorrer o fácil – e belo – caminho entre Espiunca e Vau (4 quilómetros, cerca de 1 hora). A subida logo ao início do Areinho só se torna, na verdade, fácil apenas para quem não tenha problemas em subir escadas e se proponha fazê-lo com calma.

E, então, vale a pena fazer o percurso todo de longos oito quilómetros, isso não é sempre a mesma coisa? Não, a paisagem não é sempre a mesma coisa. Há a madeira dos Passadiços, certo, e há o rio e a serra. Mas a serra tem tonalidades e formas diferentes e umas vezes apresenta-se com vegetação e outras com rocha de granito ou xisto. O rio ora segue calmo como, de repente, se torna rebelde, com pedrinhas e relevos que mudam a cada instante. Escutá-lo é todo um outro programa nesta bela caminhada, uma sinfonia absolutamente natural. E, bom, as formas dos Passadiços, essas, já se disse, também vão surpreendente a cada passo, sendo uma merecida estrela criada pelo Homem neste ambiente puro de natureza. Posto isto, sim, há que fazer todo o percurso e se quisermos duplicar o prazer, pois então, que voltemos à casa partida do mesmo modo.

Chegar aos Passadiços do Paiva é fácil. Desde Arouca são cerca de 12 quilómetros por curvas numa densa vegetação até à Praia Fluvial do Areinho. É aqui que temos a maior área de estacionamento. O aconselhável é deixar aqui o carro e após a saída em Espiunca tomar um dos vários táxis que aí se encontram para voltar ao Areinho (o custo da viagem são cerca de 18 euros, daí que seja bom partilhar a viagem).

A Praia Fluvial do Areinho é o primeiro momento de beleza que encontramos. Com um pequeno areal, as árvores e as paredes de rocha produzem belos reflexos nas tranquilas águas do rio. Iniciamos a caminhada aqui por uma curta estrada de terra batida protegidos pelo enorme arvoredo.

Logo adiante começa o caminho de madeira, os Passadiços, e avista-se a Garganta do Paiva. É o primeiro momento selvagem, um desnível na terra por onde o rio vai furando as poderosas paredes rochosas.

E aqui se inicia a tal escadaria interminável. O argumento – verdadeiro – de que a paisagem é belíssima e merece ser contemplada sem pressas dá imenso jeito. Pois, então, subamos vintena de degraus a vintena de degraus e deixemos-nos estar por aqui a admirar o cenário. O cenário da natureza, sim, mas também da obra de construção desta escadaria em madeira, soberbamente intrincada na rocha. É no fim da subida desta formosa escadaria que surge a entrada no Parque (tem de ser previamente comprada na internet – 1 euro – ou no momento na Praia Fluvial do Areinho, mas aí sujeita a disponibilidade).

Após a subida e um momento de planura por nova terra batida com vistas altaneiras, logo nos aparece a descida, não menos intensa e formosa. E vem acompanhada da panorâmica da Cascata das Aguieiras, um fio de água que se distingue na montanha à nossa frente. A altura é enorme e aqui percebemos verdadeiramente a dimensão e força da natureza que nos rodeia.

Em termos de formas dos Passadiços, as vistas sobre as quais nos debruçamos na descida para o outro lado da montanha são as mais fantásticas. Só o rio segue tranquilo na paisagem rebelde de madeira e rocha.

Após esta descida o percurso segue sempre em passadiço de madeira até à Praia Fluvial do Vau e ainda demora. Mas nunca aborrece. Diz-se que a totalidade dos oito quilómetros se fazem, em média, em 2 horas e 30 minutos, mas só até ao Vau – metade do caminho – levei 2 felizes horas. Neste caso, devia haver louros não para os mais rápidos a fazer o percurso mas antes para aqueles que o levam mais tempo a saborear.

O Vau é um dos recantos do Paiva. Pura beleza, passe a repetição. É o lugar ideal para uma paragem, seja para um mergulho na água fria, um snack ou piquenique ou só para ficar a olhar para mais uns irreais reflexos na água. Temos até uma bela cascatinha.

Outra das estrelas do Vau é a ponte suspensa de madeira logo à sua entrada. Sobre o rio, a ponte é de madeira, bem estreita e balança que dói. É um bocadinho aterrador atravessá-la, ainda para mais se o fizermos ao mesmo tempo que um daqueles grupos numerosos e animados para quem a adrenalina é a chave da viagem. Podia chamar-lhes parvos, mas os parvos não sabem o que é bom e não vêm até ao Paiva.

Após o Vau o rio Paiva dá uma curva larga e a paisagem alarga. As emoções sobem e, de repente, a tranquilidade do rio apaga-se por momentos. A rocha continua com as suas formas agrestes, mas agora as pedras vão-se depositando cada vez mais no caminho do rio, estreitando-o, e este vai ficando revolto. O Poço das Golas é um paraíso para o rafting.

O cheiro a rio e a orvalho persegue-nos e acompanha-nos. A paisagem não pára de deslumbrar até Espiunca e já a chegar ao final do percurso não deixamos de olhar para trás uma última vez e guardar a beleza sem fim do Paiva.

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