Rabaçal

“É preciso andar mais a pé, para adoecer menos, para melhor conhecer esta terra. Comece pela zona do Rabaçal. […] Prepare o farnel, arranje calçado adequado, ponha na mochila uma camisola e um impermeável.”

Seguindo o conselho do Dr. Raimundo Quintal, na obra citada no post anterior, a escolha para debutar nas caminhadas pelas levadas e veredas da Madeira recaiu sobre o Rabaçal – Risco – 25 Fontes.
A jornada começa cá em cima, em plena estrada no Paul da Serra, onde se estaciona o carro. Se ficassemos por aqui, a paisagem já seria fabulosa. Mas seguimos em busca de mais e é aqui que se iniciam os 2 primeiros km pelo asfalto. Como a estrada até ao Rabaçal (pouco mais do que uma casa de abrigo, lavabos e um parque de merendas) é muito estreita e são imensos os caminhantes que aqui acorrem, para além de “a la pata” apenas existe a possibilidade de se efectuar este trajecto através de uma carrinha posta à disposição dos caminhantes pela Câmara Municipal da Calheta, por módicos 2 euros.
No entanto, e como a ânsia de obra pública não pára na ilha, encontra-se prevista a construção de um teleférico que ligue o Paul da Serra ao Rabaçal. O mais sério da coisa é que há quem consiga pensar esta ideia e afirmar que será mantido o enquadramento com a envolvente criando pouco impacto visual na paisagem sem se rir.
Eis a foto da coisa ainda em projecto.
Enfim… com ou sem esta facilidade de acesso, o certo é que esta é provavelmente a caminhada mais popular e é inacreditável o número de turistas e ilhéus que aqui acorrem para viver um bom momento. Novos ou velhos, em forma ou fora de forma, são aos magotes os turistas quase de bengala. O espírito de descoberta e aventura está bem presente. E o que tem esta zona de tão especial? Decisivamente, o aliar uma caminhada agradável, por vezes nem sempre fácil e, por isso, algo desafiadora, a uma paisagem deslumbrante.
Saindo da casa de abrigo do Rabaçal, começamos por descer por uma escadaria com largos degraus com troncos de madeira. Nada de muito difícil mas ficamos logo com um cenário da estafa que iremos sofrer ao subir na volta. Em breve chegamos a uma placa (os percursos estão sempre bem sinalizados) que nos indica 25 Fontes para um lado, Risco para o outro. Seguimos por este último, cerca de 1km, 15 a 20 minutos, numa vereda larga sem dificuldade, que nos deixará bem defronte de uma queda de água de cerca de 100 metros, vinda da Lagoa do Vento (percurso que não fizemos).

Pela ilha fora vamo-nos deparando com um sem número de quedas de água, umas maiores do que outras, algumas apenas uns fiozinhos de água. Mas a altura desta, escondida por entre a intensa vegetação, é impressionante. Existe um miradouro donde podemos apreciar este cenário em toda a sua plenitude e logo de seguida encontramos um carreiro de pedra que nos leva ainda mais próximo da queda de água. Aliás, não é só desde lá de cima que cai a água. Atravessando este curto carreiro levamos um autêntico banho do qual não temos muita vontade de correr, para melhor apreciarmos as paredes das rochas que nos ladeiam e o musgo que lhe está impregnado, os quais foram sendo esculpidos e moldados pela acção da água e da humidade naquele local.
Aqui chegados, e depois de nos deixarmos estar um bom bocado sem preocupações, há que iniciar a volta pelo mesmo caminho, até à tal placa que indica 25 Fontes e atalharmos por aí. Serão cerca de 2,5 km para lá, mais o mesmo para cá. No entanto, aqui faremos o caminho junto a uma levada.

E o que são estas levadas? Pois bem, não são mais do que canais que trazem a água aos vários cantos da ilha para que esta possa irrigar os terrenos. Todavia, a construção destas levadas foi tudo menos fácil. Mãos humanas tiveram que superar os constantes desníveis da ilha e o seu relevo acidentado (note-se que se chega a atingir facilmente os 1000 metros de altitude em quase qualquer ponto da ilha, sendo que o Pico Ruivo, o mais alto, encontra-se a 1862m, não ficando, pois, a dever muito à altitude da Serra da Estrela a 1993m, só superados pela Ponta Pico, nos Açores, a 2351m).
Muitas das vezes houve até que escavar por entre as rochas, criando túneis, para que a água caminhasse confortavelmente por estes canais – os mais modernos em alvenaria, os mais antigos simplesmente em calhas de madeira. Uns mais largos e profundos do que outros. Uns acompanhados por largas veredas e outros quase que encavalitados nas bermas da rocha, deixando um longo e assustador precipício para quem o construiu ou para quem se aventura a percorre-lo anos mais tarde.
São, enfim, cerca de 1400 km de aquedutos em apenas 737 km2 de ilha.
Resumindo, as levadas são parte do património cultural da Madeira e, nessa medida, não estranha que cada vez mais visitantes, e os próprios habitantes, as queiram percorrer e, assim, descobrir todos os encantos da ilha, indo, literalmente, ao seu mais profundo interior.
Retomando o percurso Rabaçal – 25 Fontes, relembro que havia escrito que aqui o caminho é efectuado junto a uma levada e que este nem sempre era fácil. Isto porque grande parte do percurso tem de ser realizado quase que empoleirado na levada, uma vez que nem sempre resta muito espaço entre a dita e o fim da rocha. Daí que muitos guias não aconselhem este passeio a pessoas com vertigens. Não creio, todavia, que esta situação deva ser desmobilizadora, uma vez que os caminhos estão bem conservados e protegidos.
O percurso em si tem todos os ingredientes para fazer desta jornada inesquecível. Enquanto percorremos os estreitos caminhos onde outrora corajosos madeirenses se empoleiraram para levar o bem essencial água aos seus conterrâneos, rodeados de um manto tão verde quanto o possamos imaginar e sob uma vegetação intensa de loureiros e urzes, é impossível não irmos parando para contemplar toda esta beleza. Daí que os 2,5 km não sejam facilmente contabilizáveis em minutos, dependendo não só da passada de cada um mas também do seu grau de deslumbre ante a paisagem o menor ou maior tempo em alcançar o fim do percurso – uma lagoa para onde escorrem as águas das 25 nascentes que se localizam nas rochas nas suas imediações.
O local ideal para, depois de sentir o “gelo” da água nas nossas mãos, descansar sentada numa das rochas e abrir finalmente o farnel enquanto escutamos o barulho da água a cair. Único senão da conclusão desta aventura? O facto de não podermos saborear esta calmaria sozinhos, mas antes com a multidão de caminhantes que compartilhou o destino connosco. Pensando bem, para que são necessários os portugueses do continente por aqui?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s