Dubai

Dubai é vida em grande, os edifícios mais altos do mundo, os melhores hotéis, os maiores centros comerciais com as melhores lojas do mundo. Infelizmente isso é apenas parte da história; para que tal seja possível, milhares de indianos, paquistaneses e filipinos, principalmente, têm de imigrar para lá sujeitando-se a condições más (mas ainda assim melhores do que nos seus países de origem), trabalhando de sol a sol – e o calor aqui não é brincadeira – sem possibilidade de deixar o país rumo à Europa ou EUA nos meses sufocantes de Junho, Julho e Agosto. Aqui vivem-se assim duas vidas e duas cidades completamente diferentes: a dos locais emirados, que lidam sobretudo com os negócios do petróleo, e a dos expatriados que foram e continuam a construir a cidade do século XXI.

Optámos por ficar umas noites num hotel boutique, como está agora na moda, e outras num hotel de uma cadeia internacional. O XVA fica no bairro Bastaquia, um quarteirão “museu”, perto de uma mesquita e junto ao Creek, onde os barcos fazem monotonamente a passagem de uma margem da cidade para a outra. Do outro lado fica a cidade mais antiga, Deira, dos prédios com uma altura decente, dos souks, do centro financeiro que agora se vai estendendo à medida que também a cidade se estende. Aqui, à semelhança do bairro Bastaquia e do Shindagha, encontramos outro dos poucos exemplares ainda sobreviventes da arquitectura original desta parte do Golfo. Aproveitando antigas escolas e antigas casas de senhores endinheirados dos tempos onde a actividade principal era a pesca da pérola, conseguimo-nos aperceber como era a disposição e alguma da decoração desses edifícios. O pátio não falta nunca, assim como não falta a torre característica em forma de quadrado e que parece ter espinhos. Como o calor é intenso, este desenho permite que o vento entre e circule, sendo depois distribuído para os andares inferiores. Se dá resultado ou não, não o sei, mas que visualmente estas torres são lindas, aí isso são.



Em Deira, do outro lado do Creek ficam os intermináveis souks e há-os para todos os gostos. No souk dos perfumes encontramos pequenas caixinhas a imitar tudo e mais alguma coisa com perfumes de diferentes odores lá dentro. Encontramos ainda um centro comercial / souk com ar condicionado com “n” lojas de perfumes de marcas como “doer”, “flamel”, “dulce gabarra”, já estou a inventar, que eram tantas, com nomes mais ridículos do que os outros, que devia ter apontado num caderninho para a posteridade. Aqui perto e junto à Mesquita fica um restaurante afegão onde para além das mesas podemo-nos sentar num chão com almofadas a comer com os pés à mesma altura das mãos, as quais servem para agarrar todo o tipo de alimentos, desde o pão ao arroz. Só se vêem homens, mas não nos incomodamos de partilhar o espaço com eles. O que ainda não conseguimos desta vez foi comer com as mãos algo mais do que o pão.

Vista Deira de dia e ao fim do dia, onde as suas cores e o bulício dos dhows, os barcos tradicionais, são um autêntico postal, passamo-nos a dedicar à parte oeste da cidade, para onde ela tem vindo a crescer parece que quase até ao infinito. Optámos, então, por um hotel com piscina, na esperança de a aproveitar – sem grande sucesso. Ficámos no mesmo bairro, o Bur Dubai, mas a distância suficiente para que não desse jeito nenhum andar a pé. Um dos problemas do Dubai é precisamente esse: a quase impossibilidade de se andar a pé, seja pelas distâncias loucas, seja pelo calor. O metro é uma hipótese, mas não cobre tudo, e o táxi é, por isso, rei: ainda para mais é baratíssimo.

De Deira até ao New Dubai, para lá ainda da Jebel Ali, são cerca de 30 kms sempre com algo atraente para ver ou fazer.

O Burj Khalifa (o nome é uma homenagem ao actual emir de Abu Dhabi) é actualmente o edifício mais alto do mundo. São 828 metros em altura que fazem dele não apenas uma obra monstruosa de arquitectura, mas também de engenharia, e demoramos mais de uma hora a dar a volta ao local.

Por aí fica ainda o Dubai Mall, o maior centro comercial do mundo. Lá dentro tem um aquário, um ringue de patinagem e muitas lojas, incluindo todas as melhores marcas do mundo, como não podia deixar de ser. No entanto, as minhas preferidas foram as de chocolates e doces, de um charme e elegância insuperáveis e, ainda para mais, com produtos deliciosos. Exemplos? É ver nos sites a Bateel (http://www.bateel.com) e a Patchi (http://www.patchi.com).

Cá fora do Mall e a circundá-lo, bem como ao Burj Khalifa, fica um lago artificial com um azul irreal e que também ele parece artificial. O que acontece é que também a água do mar tem esta cor e parece mentira. Mas aí, não há como negá-lo: é mesmo real. Aos fins de tarde, aqui neste lago existe um espectáculo coreográfico e musical na Dubai Fountain. São poucos minutos mas intensos, onde a maior dificuldade é arranjar um espaço no meio da multidão. Ultrapassado este passo, é relaxar e ver a água a jorrar do lago, como se os seus jactos quisessem alcançar o Burj Kalifa.

No Dubai temos praias públicas e praias privadas com um preço de entrada que pode sair apenas a um euro, como na praia Jumeirah Beach Park, com todas as condições como chapéus, bares, casas de banho e balneários, duches na areia e banquinhos com sombra. Mas a praia pública Jumeirah Open Beach, junto à Mesquita Jumeirah, não lhe fica muito atrás, com uma pista que a atravessa especialmente dedicada para a corrida e para as bicicletas.

Também perto de uma praia pública fica o icónico Burj al-Arab, provavelmente um dos edifícios mais bonitos do mundo e, talvez por isso, dos mais reconhecidos. A nós faz-nos ter quase a certeza de que a nossa Torre Vasco da Gama, na Expo, nele se inspirou.



Um pouco mais adiante fica o Madinat Jumeirah, mais um centro comercial, mas desta vez um bem diferente e, digamos, inspirador. Pretende recriar uma Veneza e não fosse os rapazes que conduzem os barcos não cantarem o “sole mio” e quase que o conseguia.

Uns quantos kms mais e chegamos aquela que é a maior loucura destes emires e sheiks. Da Palm Jumeirah temos uma percepção perfeita apenas do céu (ainda para mais a visibilidade na cidade nos dias em que lá estivemos foi miserável), mas mesmo chegando lá de táxi conseguimos apercebermo-nos da dimensão mirabolante deste projecto. Uma avenida imensa de cerca de 6 kms ladeada de prédios altíssimos, a que se seguem as famosas folhinhas da palmeira, tanto para a esquerda como para a direita, onde estão instaladas uma série de vilas com acesso directo para o mar, depois aparece-nos um túnel subterrâneo e submarítimo, enquanto acima da terra e do mar fica o famoso combóiozinho que também nos permite chegar ao destino final – o hotel Atlantis The Palm e o seu vizinho Aquaventure, um dos maiores atractivos da cidade.

Porque o Dubai é aventura, é difícil escapar a fazer uma qualquer actividade, seja sandboard no deserto, ski num centro comercial, patinagem no Dubai Mall, golf um pouco por todo o lado ou descer uns tobogãs.

A mana experimentou descer uma pseudo montanha dentro do Emirates Mall, no Ski Dubai, e as suas pistas não ficam a dever nada às da Serra da Estrela, com bares / esplanadas pelo caminho, cadeirinhas para transportar os desportistas, material incluído e frio mesmo a condizer.

As duas manas experimentaram o tal Aquaventure, carregadinho de locais e turistas. É um parque aquático com praia privativa e vista para toda a cidade. Não fosse a neblina carregada e veríamos claramente o Burj al-Arab e conseguiríamos apercebermo-nos dos detalhes da Palm Jumeirah. Quando à experiência de descer os escorregas direi que não deve haver nada de mais louco que se possa fazer por aqui do que descer um tubo de cerca de 27 metros, sempre recto em direcção ao fundo da piscina que nos espera, com toda a vista do New Dubai mesmo diante de nós. Infelizmente, este foi o relato da vista do Ziggurat que a mana me fez. Não que eu não tivesse esperado os mesmíssimos 40 minutos para descer o tobogã, não que não tivesse lidado com a mesma ansiedade de estar numa fila para uma queda a pique, não que não tivesse enviado o mesmíssimo berro para o céu quando me vi a cair para o vazio. Acontece que fui o caminho todo com os olhos bem fechados e bem agarradinha ao meu corpo, não fosse ele sair disparado ou corresse o risco de ser comido pelos tubarões que vagueavam no aquário mesmo ao lado do tubo subaquático por onde passamos – diz que foi assim, porque aqui ainda continuava com os olhos fechados.

O resto das atracções, por comparação, não são tão emocionantes, mas são muito divertidas, e há uma nova oportunidade num outro tobogã para se verem os ditos tubarões. E, por fim, a praia de água quentíssima ao final do dia, com as cores a mudarem e o por do sol nas nossas costas foi um deleite.

Estar na água é um dos poucos momentos agradáveis para, nos meses de Verão, se estar ao ar livre. Dai que a opção seja a construção de tantos centros comerciais e não nos reste outra solução se não frequentá-los. Há-os para todos os gostos, todos com algum interesse especial. Das pistas de ski no Emirates Mall já havia falado. Do aquário do Dubai Mall, idem. Mas, continuando a deixar as lojas de lado, que dizer do Ibn Battuta Mall que, em homenagem a este viajante árabe do século XIV, recria pelos seus corredores os espaços da China, da Pérsia e da índia?

Para contrariar este quase monopólio das áreas comerciais fechadas e com ar condicionado, existe o The Walk at JBR. A Jumeirah Beach Residence é uma autêntica cidade, no Dubai Marina, ainda com muito por construir, onde as altas torres residenciais estão todas bem organizadas e, no caminho inferior, ao nível do mar – do outro lado da rua – ficam as lojas e os restaurantes e esplanadas. Nesta altura do ano é penoso passear por elas, mas sem o calor extremo é difícil de perceber como não existem mais espaços destes.

No entanto, e para quem pense que o Dubai é só construção bruta e asfixiante, ai temos os vários parques para o contrariar. No primeiro dia já tínhamos dado uma olhadela ao Creekside Park e no último dia dedicamo-nos a um curto passeio pelo Za´abeel Park, uma ilha de verde mesmo junto à imensa e super movimentada Sheikh Zayed Rd. Para balanço final, o Dubai é isto mesmo, um poderoso contraste entre o tradicional e o moderno; entre o ambiente e o tecnológico; entre a contenção e a desmesura; entre os locais emirados e os expatriados. Dois Dubais para se viverem, haja oportunidade para isso.

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