Guangzhou

Pouco mais de meio dia em Guangzhou pode não ter dado para conhecer ou entender a cidade, mas deu para uma constatação: esta China moderna e urbana é cheia de contradições. E, na minha opinião, estas contradições desta nova China mais não fazem do que resumirem-se a uma ideia: de que no mundo há espaço para todos no mesmo espaço.

Saídas da estacão de comboio, depois de uma agradável viagem desde Hong Kong, por onde vamos passando por uma dupla paisagem – construções novas juntamente com casinhas de beira rio – damos logo de caras com o novíssimo e moderníssimo metro da Cidade. Guangzhou recebeu os Jogos Asiáticos de 2010 e com isso como pretexto acabou por modernizar-se. No entanto, é curioso verificar que as contradições começam logo aqui: num metro ultramoderno, que liga uma grande extensão da cidade, o sistema de pagamento é feito através de umas chapinhas plásticas que parecem do século passado.

Como tínhamos pouco tempo, e o metro dava a possibilidade de chegar a muitos dos locais interessantes, optámos por viajar quase sempre nele. Ou seja, debaixo das ruas da cidade onde a vida se realiza. Com isso, ficou ainda mais prejudicada a percepção da cidade. Não obstante, deu para perceber que as pessoas que utilizam o metro não possuem um ar muito sofisticado. Uma população jovem, a caminho de uma ocidentalização no vestir, mas ainda umas décadas atrasada no que à moda diz respeito, ou deverei optar pelo clássico “gostos não se discutem”?

A primeira paragem foi na Nova Cidade de Zhujiang, uma nova centralidade em Guangzhou surgida há pouco mais de uma mão cheia de anos e já com edifícios icónicos como a Torre de Cantão. Este edifício mais a sua antena possui cerca de 600 metros de altura, todo ele intrincado de elegância junto ao Rio das Pérolas.

Já disse que o meu objectivo era ver o Guangzhou Opera House da Zaha Hadid. Mas qual não foi a minha estupefacção quando subo à terra vinda do metro e deparo-me com uma praça imensa cheia de edifícios de uma arquitectura cuidada e arranjos exteriores apelativos aos nossos sentidos, com a dita Torre de Cantão como observatório de toda esta revolução num espaço que agora se tornou nobre. Ou seja, afinal a Opera House da Zaha é apenas um mero figurante entre a Torre de Cantão, o Museu de Guangdong, a Biblioteca de Guangzhou e as Torres Gémeas de Guangzhou (por enquanto ainda uma só). E, afinal, só nesta área imensa, mas apenas uma pequeníssima parte de Guangzhou, era merecedora de um dia inteiro. Resultado: como queria mesmo ver com atenção todos os contornos e formas do edifício da Zaha, percorrendo todo o seu exterior, acabámos por perder aqui umas horitas do nosso dia.

 


Daqui seguimos para o Museu e Mausoléu do Rei Nanyue, o qual nos mostra o túmulo deste rei que governou por volta do longínquo século II a.C durante a dinastia Han. Para além do túmulo e dos artefactos encontrados junto a ele, o edifício do museu é também ele digno de se ver. O túmulo foi encontrado no principio dos anos 80 do século passado e o museu constituído no final dessa década. É desde aí muito elogiado e considerado um dos melhores museus chineses. Faz lembrar o museu (também em cor de tijolo) e os túmulos do Senhor de Sipan, no Peru, embora pense que os túmulos sul americanos sejam muito mais interessantes.

A próxima paragem, desta vez depois de uns minutos de táxi, foi o Templo das Seis Árvores Banyan, conjunto budista datado de 537. Simplesmente fantástico. São vários templos com estátuas do Buda, entre elas do Buda sorridente. Mas o que mais delicia é a Pagoda Florida, ali no centro, logo uns passos após a entrada. Esta construção de 1097 é belíssima e só dá vontade de ficar ali a olhá-la majestosa. E eu fiquei. Até porque algum local meteu uns papéis nas mãos da minha mãe e levou-a para dentro de um dos templos para assistir à cerimónia. E a mamã lá foi ficando, não me restando a mim outra solução se não esperá-la contemplando saborosamente esta Pagoda.   


Ora bem. Até aqui tínhamos tido experiências, pode dizer-se, de diferentes épocas em Guangzhou. Começámos com o metro dos nossos tempos, seguido da arquitectura futurista, um pouco mais para trás para a arquitectura dos anos 80 do mausoléu e por fim nos templos de mais de mil anos. Havia de se seguir uma visita àCatedral do Sagrado Coração, precisamente no coração da cidade velha de Guangzhou, construção esta do século XIX, influência ocidental no sul da China em consequência das derrotas autóctones às mãos dos estrangeiros.

 


Terminámos, assim, o dia no centro da cidade velha. Confusa, barulhenta, ruas ocupadas por pessoas e objectos de venda ou transporte. Os adereços vermelhos dominavam. Nem sei bem por onde andámos, queria ir para a Ilha de Shamian com os seus edifícios coloniais mas já era tarde.

Ou seja, depois de ter observado o modernismo dos seus edifícios, com alguns dos melhores arquitectos a trabalharem na cidade capaz de celebrar grandes eventos, ao mesmo tempo, não muito longe dali, na mesmíssima cidade, passei a observar um comércio feito de rua e de produtos que diríamos ultrapassados. Mais, nem parecem destinados às mesmas pessoas, aos mesmos chineses. Lado a lado com um centro comercial sóde calçado barato de todo o tipo há uma loja foleira de malas vendidas a milhares de euros. A cidade velha estava completamente em obras e por isso foi ainda mais difícil compreendê-la.

Num balanço final da estadia curtíssima em Guangzhou, dizer que falhámos muito. Fico com pena de não ter espreitado o Rio das Pérolas e caminhado pelas ruas que prevejo calmas da ilha de Shamian ou as mais intensas ruas pedonais como Shangxiajiu. Muito mais haveria para ver. Mas o bom das cidades desta nova China é que muito melhor haverá para ver.

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