Vilas Operárias

Um pouco por toda a Lisboa se construíram vilas operárias, embora fosse em Alcântara e entre Xabregas e Poço do Bispo os locais onde se concentravam a maior parte destes espaços habitacionais, muitos dos quais permanecem ainda hoje com vida.
Nos finais do século XIX e princípios do século XX (entre cerca de 1880 e 1930) a capital assistiu a um aumento populacional motivado pela exponencial migração da província para a cidade, em decorrência do processo de industrialização. A população da cidade cresceu, mas tal não encontrou correspondência nas condições de habitação. Faltavam alojamentos, quer em quantidade quer em qualidade. As condições de habitação eram então muito más e a crescente urbanização a que então se observava, com o rasgar de novas avenidas e a construção de novos bairros, especialmente pensados para a classe burguesa, estava economicamente fora das possibilidades da nova classe operária que mudava a composição social de Lisboa.
A necessidade de acolher estes novos habitantes era uma questão de higiene e saúde pública, estando em causa a sobrevivência da sociedade em geral, pois que se não se criassem condições de salubridade para uns, todos sairiam prejudicados. Seria, então, ao Estado que caberia o providenciar das habitações baratas e salubres? A verdade é que já nessa época o Estado não tinha disponibilidade financeira para tal, pelo que o que se verificou foi que a iniciativa privada (das cooperativas e dos industriais) veio a desempenhar um papel decisivo na construção de alojamento para os novos operários.
Os novos trabalhadores recém chegados à cidade começaram por ocupar pátios, pagando uma pequena renda ao proprietário, ou anexos que os senhorios construíam nas suas casas. Ocuparam, igualmente, as pequenas divisões retalhadas de palácios degradados e de conventos cujas ordens haviam sido extintas.
Mas como a procura de alojamento não cessava, assistiu-se à emergência da construção de vilas operárias. Este negócio, porque de um negócio se tratava, trazia benefícios financeiros aos seus construtores, muitas vezes os donos das empresas para as quais os trabalhadores prestavam o seu serviço. Esta iniciativa de providenciar habitação para os seus empregados mostra ainda uma visão paternalista por parte dos empregadores que, assim, ao manterem os trabalhadores juntos, como se de uma grande família se tratasse, procuravam lançar loas à dignidade do trabalho, ao mesmo tempo que exerciam um maior controlo e pressão sobre os seus assalariados. Daí que não seja de estranhar que muitos dos nomes destas vilas reproduzam o nome dos seus proprietários beneméritos ou membros da sua família.
Ainda, nas vilas operárias são evidentes indicadores de hierarquia social. Com efeito, muitas destas eram construídas nas traseiras ou no interior dos quarteirões de edifícios destinados à burguesia, não raras vezes junto (mas “escondidas”) à casa do industrial, mas à margem dos arruamentos e sem acesso para a via pública. Note-se o que referia um regulamento camarário de 1930 acerca destas vilas destinadas à ocupação dos operários: “grupos de edificações destinados a uma ou mais moradias construídos em recintos que tenham comunicação, quer directa, quer indirecta, com a via pública por meio de serventia”. 
Deambulando pela Graça e Sapadores é, pois, muito fácil deixarmos escapar estas vilas discretamente escondidas das nossas vistas e do olhar da via pública. Nesta zona da cidade existe ainda hoje uma grande concentração de vilas operárias e talvez possua dos melhores exemplos de toda a Lisboa. Tal deve-se ao facto de estes bairros estarem perto da zona oriental de Lisboa, estrategicamente junto ao porto, rio e caminhos de ferro, onde foram despontando fábricas e indústrias ligadas ao tabaco, vinhos e têxteis, ou seja, perto do local de trabalho.
Em seguida, alguns exemplos de vilas operárias nesta zona.

Não haverá melhor forma que não a de iniciarmos estes exemplos logo no Largo da Graça. Aqui fica a Vila Sousa, num amplo edifício coberto de azulejos, cuja entrada é feita por um portão encimado pela sua designação. Ninguém imagina o que está para além e, vendo da rua, não imagina igualmente que ali possa estar uma vila que outrora serviu de alojamento a operários. Na verdade, a Vila Sousa, projecto de ampliação de um antigo palácio cerca de 1889, é uma excepção à ideia de máximo aproveitamento do espaço para acolher o maior número de famílias. O pátio é enorme, quase a perder de vista, embora sem qualquer ornamentação.

Perto da Vila Sousa, ainda no Largo da Graça, outra surpresa: uma vila de que não sei o nome com um patiozinho acolhedor, banquinhos e brinquedos de madeira à porta, casas renovadas, ideal para aí habitar uma família grande ou um grupo de amigos.

Na maior parte das vilas o acesso é efectuado através de um espaço central comum, mas privado,  e as habitações estão agrupadas à volta do terreno. É o caso dos dois exemplos anteriormente vistos. 
Mas a Vila Berta (muito na moda pelos últimos Santos Populares muito in que tem acolhido) é uma excepção. É uma excepção ao nível do acesso, uma vez que a vila é em formato de rua, com entrada em ambos os lados, e é uma excepção também quanto à qualidade das suas habitações e ao seu envolvimento – o espaço aqui não é exíguo. A Vila Berta – nome da filha do industrial benemérito – foi uma construção concluída em 1908 destinada à pequena burguesia e ao operariado, duas bandas divididas por uma via pública, edifícios de dois pisos e cave onde se destacam as escadas e varandas em ferro fundido (material muito em voga na época). Este conjunto está classificado como imóvel de interesse público e o que vemos hoje é, de facto, um dos exemplos mais bonitos, tudo muito arranjado, preocupação constante com a decoração, seja em azulejo seja em elementos florais. E um orgulho muito grande na sua vila e, certamente, um forte espírito de pertença ao local, bem expresso na letra do hino-canção da Vila Berta pintada sob a forma de mural numa das suas entradas.

Pelo contrário, a Vila Rodrigues, na Rua Senhora da Glória, é como um enclave multi-étnico esmagado entre os prédios em altura. A sua construção – duas fileiras de dois pisos, uma frente à outra, ligadas por uma ponte metálica no piso superior, com uma estreita avenida pátio a média-las – é extremamente pitoresca. Varandas em ferro nas quais hoje em dia estão debruçados os lençóis a secar ao vento. Às portas, no piso de baixo, aqui e ali, uma máquina de lavar roupa, um fogareiro para grelhar o almoço, um sofá para se deixar estar. Tudo muito popular, ainda. A velhinha à varanda queixa-se: sou a mais antiga moradora e isto aqui agora já não interessa a ninguém. O cão à entrada não se calava, mas não era contra esse companheiro que ela se queixava.

O exemplo mais valioso de vila operária talvez seja o do Bairro Estrela de Ouro. Está cá tudo: a iniciativa de providenciar habitação para os seus empregados, o paternalismo associado a essa acção, a localização no interior de um quarteirão; e está ainda mais alguma coisa: a inclusão de equipamentos colectivos no conjunto, como é exemplo o cinema Royal Cine. 
Aqui abundam os elementos decorativos, em especial a estrela de 5 pontas que é símbolo desta vila (não é certa a imediata associação à maçonaria). À entrada, para que não deixe dúvidas, a designação da vila segue em painéis de azulejos. Projecto do arquitecto Norte Junior, em 1907 foi concluída a construção deste bairro, da iniciativa de Agapito Serra Fernandes, industrial da confeitaria, o promotor que investiu no bem estar dos seus trabalhadores e de caminho construiu a sua residência também aqui, na vivenda Rosalina (hoje Lar de Nossa Senhora da Vitória). Esta residência apalaçada é todo um mundo à parte das vilas operárias, linda, com lago e pormenores deliciosos e, sobretudo, uma vista soberba para os telhados da nossa Lisboa. 

Voltando à vila operária Estrela de Ouro, esta caracteriza-se por habitação horizontal, vários conjuntos de blocos de edifícios isolados de dois pisos com varandas em ferro, todas as habitações com acesso directo à rua através de escadas. O pitoresco é a disposição destes blocos em U. 

Como já referi, este bairro fica no interior de um quarteirão, ou seja, quem lá chega é porque quer ou porque se perdeu. E é muito bom perder-se em Lisboa. Neste caso, alcança-se um pedaço de sossego que não é muito comum encontrar-se para estes lados. Talvez por isso a ideia de se construir um condomínio privado mesmo paredes meias com esta vila.

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