Segundo dia pelo Alentejo Central


O segundo dia deste passeio pelo Alentejo Central começou com uma curta visita por Reguengos. A sua igreja de Santo António destaca-se, imediatamente, pelo seu estilo neo-gótico, mas sobretudo por ser um estilo pouco comum de se encontrar no nosso país. O edifício da Câmara Municipal, branco com frisos em azul, e uma arcaria mimosa, já é mais fácil de identificar com a paisagem urbana alentejana.



De Reguengos saímos com destino à Amieira, ainda em terras do Alqueva. Nesta época do ano não nos cruzamos com praticamente ninguém nas estradas. A chegada ao Miradouro do Monte, uns poucos quilómetros antes da entrada na povoação da Amieira, mostra-nos algum descuido, ou até descaso, na conservação das infraestruturas – as madeiras das plataformas de observação estavam partidas. No resto, a vista para o lago é fantástica. 



A uns minutos da povoação da Amieira fica a Marina da Amieira, donde saem os cruzeiros turísticos pelo Alqueva. A paisagem continua em alta, mas aqui o cuidado é outro, mais em conformidade com ela.



De volta a Reguengos, esta é uma zona com algumas quintas – os montes alentejanos – e com cenas rurais.




As povoações de São Marcos do Campo e Campinho valem uma visita. Curioso observar que para além das obrigatórias igreja e jardim público de qualquer povoação portuguesa, por aqui há que lhes juntar a praça de touros. Seja singela ou mais imponente, ela não pode faltar numa terra alentejana. E curioso, também, recordar costumes que julgava pertencerem apenas a memórias distantes de aldeia, como observar em Campinho aquelas carrinhas tipo Hiace cuja porta traseira deixa ver para dentro uma autêntica loja, cheia de roupa e tecidos que chegam às populações mais remotas em venda directa.



A próxima passagem foi num dos principais centros oleiros do país, em São Pedro do Corval. São 32 olarias oficialmente reconhecidas, uma delícia para quem gosta desta arte. 


Aqui perto fica a Rocha dos Namorados, um menir no meio de campos de oliveiras que, diz-se, é capaz de medir o número de anos que cada um terá de casamento.




Do Corval a Terena é uma bonita jornada por uma estrada que faz jus ao dito “é sempre em frente, não tem nada que enganar”. A paisagem continua pontuada com campos cultivados de oliveiras, com as cores do Outono majestosas.


Terena é uma das mais bonitas povoações da região. Com castelo que se destaca na paisagem desde longe, o burgo que se foi desenvolvendo à sua porta é extremamente pitoresco. 





Lá estão as casas brancas com listas azuis e amarelas à vez. Para compor o cenário multimedia, de uma delas saiam de um rádio (gosto de pensar que talvez de um gira-discos) os versos de Florbela Espanca cantados na voz de Luís Represas, “E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma, e sangue, e vida em mim. E dizê-lo cantando a toda a gente!”. Que exactidão e que emoção poder ouvir e ser tomada por este sentimento precisamente aqui.





Do castelo, para além da vista privilegiada para o casario temos igualmente uma vista soberba, livre e imensa para a planície pejada de oliveiras.


Terena é ainda conhecida e reconhecida por ser o lugar da Ermida da Boa Nova, já fora da povoação. O seu exterior parece uma fortaleza apalaçada. Possui ameias, escudo de Portugal e uma torre sineira. O interior é igualmente surpreendente, quase todo preenchido com frescos ainda bem conservados.  Elemento peculiar e singular desta Ermida é a sua cobertura em forma de cruz grega – aspecto só visível através de fotografias aéreas -, único no nosso país. 

A história da construção desta Ermida vale a pena ser contada. Em 1340 o imperador de Marrocos invadiu a Península Ibérica para a reconquistar. D. Maria, filha de D. Afonso IV, era casada com Afonso XI, rei de Castela, e tinha vindo a Portugal pedir por socorro ao rei seu pai. Quando chegou perto de Terena, de regresso a Castela, recebeu a notícia por parte de um cavaleiro de que seu pai iria preparar um exército em auxílio às suas preces. O marroquino acabou por ser derrotado, naquela que ficou conhecida como a Batalha do Salado, e D. Maria resolveu mandar construir esta igreja, dando-lhe o nome “Boa Nova” como homenagem à notícia que lhe foi trazida precisamente naquele lugar.
Junto a esta ermida fica o Vale Sagrado de Lucefecit (do deus pré-romano Endovélico) e, no sentido contrário, a Albufeira de mesmo nome.

A hora de almoço coincidiu com à chegada ao Alandroal. O restaurante típico A Maria é uma escolha óbvia. Não se espere simpatia em demasia, insista-se na auto escolha dos pratos e invista-se nas entradas.




Alandroal possui… adivinhe-se? um castelo. E umas muralhas. E uma torre de menagem que hoje está transformada em torre sineira. E uma fonte (das Bicas): “Linda cidade de Elvas, Tem Badajoz defronte, Mais bonito é Landroal, Que tem seis bicas na fonte”. Tem ainda umas casas distintas com adornos em azulejo que faz pensar o Alandroal como uma povoação com alguma importância.


Não é preciso ser apaixonado de castelos e fortalezas para compensar um desvio até à Juromenha. Mesmo na fronteira com Espanha, com o Guadiana a separar os dois países, Juromenha é também conhecida como Nossa Senhora do Loreto. A sentinela do Guadiana foi uma antiga vila e praça-forte dos árabes. Era a então Chelmena. Foi conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques e posteriormente doada à Ordem de Avis. A sua localização é privilegiada quer em termos estratégicos quer paisagísticos. Aqui se viveram episódios históricos na época das guerras da Restauração e Peninsular e aqui se celebraram casamentos reais. No princípio do século XX a sua população abandonou definitivamente o interior das muralhas, estabelecendo-se no arrabalde que constitui hoje a povoação. 






A Fortaleza da Juromenha é, pois, nos nosso dias um lugar abandonado. Desolado, até. Mas, depois, temos aquelas ruínas e aquela paisagem fenomenal que, em conjunto, fazem do espaço um pedaço encantado e misterioso, soberbo, enfim. 
Lugar de contrastes, no meio da imponência militar de outrora, mas ainda sentida, com o rio a correr sereno por debaixo dos seus baluartes, um rebanho passeia-se junto às muralhas, fazendo ecoar os seus “mé, mé” naquela imensa paisagem.


Depois da Juromenha queria passar por Vila Boim, mas evitar Elvas. Segui por Ciladas de São Romão e foi mais ou menos isso, uma cilada por estradas que se transformaram em caminhos rurais. Nada a apontar à paisagem, mas o resultado de caminhos que afinal pareceram não ter saída foi a obrigatoriedade de passar por Elvas. Oportunidade óptima para rever o seu sempre majestoso aqueduto.
Vila Boim é uma típica povoação alentejana, casario branco pontuado com cores várias, jardim público, igreja e praça de touros.

Para o final do dia ficou a visita a Borba.






Terra de mármore, vinhas e olivais, o burgo é interessante. Com alguns solares e palacetes, um pequeno núcleo muralhado com castelo, merecem uma visita mais atenta a Igreja das Servas e o Chafariz de Três Bicas (em mármore, diz a lenda que as três bicas correspondem cada uma a um dos estados civis: casados, solteiros e viúvos). 


A pernoita foi na vizinha Vila Viçosa, a uma curta distância por uma estrada que deixa ver a céu aberto as pedreiras donde se extrai o mármore que dá fama à região. Ainda farta do almoço, a escolha do breve jantar não pôde senão recair no Núcleo Sportinguista de Vila Viçosa, engalanado pela nossa vitória no Bessa. Final de dia perfeito.

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