Um Fim de Semana pelas Serras de Aire e Candeeiros – dia 1

A região das Serras de Aire e Candeeiros está formalmente protegida através do Parque Natural de mesmo nome. São cerca de 39 000 hectares espalhados pelos concelhos de Alcanena, Alcobaça, Ourém, Porto de Mós, Torres Novas, Santarém e Rio Maior. Estamos no centro de Portugal, facilmente acessível de qualquer ponto do nosso país, e nas cercanias não faltam momentos altos a nível arquitectónico, cultural e paisagístico. No entanto, desta vez vamos ater-nos à zona do Parque. Ou a parte dela, já que um número quase infindável de caminhos estão à nossa disposição. Eis, pois, uma sugestão para um fim de semana pelas Serras de Aire (678 metros), a este, e dos Candeeiros (615 metros), a oeste, com o Planalto de Santo António pelo meio.

Paraíso dos geólogos, espeleologistas e paleontólogos, qualquer amante da natureza encontrará aqui emoções bastantes para querer voltar. Integrado no Maciço Calcário Estremenho, são as suas formações calcárias as grandes responsáveis por muitas das maravilhas que observamos, desde nascentes cársicas (e cursos de água no subsolo), grutas e algares, poljes e dolinas até campos de lápias e depressões que resultaram em cenários imensos. Mas também pegadas de dinossauros, testemunhos fósseis, bosques de carvalho e muitas paisagens surpreendentes quer de planalto quer de montanha.

Vindas de Lisboa, entrámos “oficialmente” em território do Parque Natural sob a arcaria do Aqueduto do Alviela, na Louriceira, concelho de Alcanena. Ponto monumental da igualmente monumental empreitada da construção do Canal do Alviela, inaugurado em 1880, ao longo de 120 kms a água da nascente dos Olhos de Água passou desde então a ser transportada até à Estação Elevatória dos Barbadinhos, em Lisboa, dando de beber à capital.

Os Olhos de Água, junto à sua praia fluvial, é a primeira proposta de paragem demorada deste itinerário, lugar idílico e uma autêntica aula de geologia ao longo da sua fácil caminhada, onde envolvidas numa bela paisagem ficamos a conhecer o seu canhão fluviocársico, algar e gruta. Em post anterior contámos melhor a experiência.

Não muito distante fica o Polje de Minde, também conhecido como Polje de Mira (Mira de Aire fica logo ali), bem admirado desde o miradouro acima da povoação de Minde. Esta zona húmida classificada como sítio Ramsar é o resultado de uma vasta depressão de drenagem subterrânea que comunica com duas importantes nascentes, a dos rios Alviela e Almonda. Acontece que os seus níveis de água são de extrema flutuação e só conseguimos perceber o lugar na perfeição após grandes chuvadas, o que não foi o caso aquando desta nossa visita. Assim, desta larga paisagem apenas percebemos uma ou outra lagoa, ao invés de todo o terreno alagado, o que ocorre quando as ditas águas da chuva saturam os solos calcários, não lhes permitindo absorver mais água. Surgem, assim, vários tipos de habitats, animais e vegetais, nestas lagoas temporárias e pastagens húmidas.

Esta região foi em tempos uma de grande actividade agrícola, onde a lã da pastorícia era uma actividade económica central. Restam na paisagem testemunhos dessa época. As estradas que nos levam até à povoação Serra de Santo António pelo planalto de mesmo nome são um verdadeiro encanto. Quer a que sai de Monsanto até Serra de Santo António, quer daqui até ao miradouro do Polje ou daqui até às grutas, a paisagem está inundada pelas quadrículas dos terrenos delimitados por muros de pedra, calcária, claro está.

É um cenário único este que encontramos no Planalto de Santo António, bem no coração do Parque Natural. Os muros humanizam a paisagem e para lá deles tanto vemos vacas a pastar como campos de lápias. As divisórias dos terrenos são feitas de muros formados de pedras sobre pedras, os chousos, e veem-se ainda pequenas estruturas constituídas pela mesma pedra, as casinas, que serviam de abrigo aos pastores.

Por aqui ficam as Grutas de Santo António e dos Alvados. No perímetro do Parque Natural há ainda as Grutas de Mira de Aire (as maiores e mais turísticas de Portugal) e o Algar do Pena, estando ainda identificadas mais de uma centena de grutas. O difícil é escolher qual visitar, mas a nossa escolha recaiu nas Grutas de Santo António, descritas como umas das mais naturais. Descobertas por acaso em 1955, por um par de locais que buscavam um pássaro que havia entrado por uma fenda na rocha, estas grutas possuem uma área de cerca de 6000 m2 e a sua sala maior mede 80 por 50 metros e tem uma altura máxima de 43 metros. Ou seja, não há cá espaço para claustrofobias. A sua temperatura conserva-se durante todo o ano entre os 16° e os 18° e tem como habitantes mais característicos os morcegos, símbolo do Parque Natural. Estas grutas são verdadeiramente monumentais e uma autêntica maravilha.

Mais uma vez, é a natureza calcária das rochas a responsável pelo fenómeno, que se traduz nas salas de estalagmites e estalactites que admiramos. Ao entrar pelas fendas na rocha, a água das chuvas vai escorrendo e infiltrando o calcário, dissolvendo-o lentamente e criando cristais que acumulados resultam em curiosas formações que mais parecem umas esculturas naturais. Quando estas formações crescem de cima para baixo são chamadas de estalactites; quando crescem de baixo para cima são chamadas de estalagmites; quando ambas se juntam formam colunas. Diz que 2 metros destas formações correspondem a 20 mil anos de escorrências. Ao longo de cerca de uma hora de visita guiada deambulamos debaixo da terra por salões que ao invés de produzir medo nos deixam enfeitiçados com tanta magia.

Ainda extasiadas por esta beleza delicada da rocha, a menos de uma dezena de quilómetros a Fórnea de Alcaria oferece-nos beleza de igual tamanho, mas desta vez sob a forma de uma enorme parede rochosa em bruto. Junto ao Café da Bica, em Alcaria, sai uma curta caminhada de dois quilómetros para cada lado que não pode ser perdida.

Lado a lado com a ribeira da Fórnea, infelizmente seca por falta de chuva (este passeio aconteceu antes das intensas chuvadas de há dois meses), e com alguma vegetação ripícola e oliveiras, em breve chegamos à cascata da Fórnea, igualmente seca. Permanece, porém, a sua singular imagem de parede calcária com lascas moldadas pela água que por ela costuma cair em época de chuva. No entanto, é o enorme paredão da Fórnea que impressiona desde praticamente os primeiros passos, até se tornar num cenário esmagador à sua aproximação. Esta paisagem natural é um momento alto de cenário geológico em Portugal. É uma depressão da época do Jurássico inferior e médio que formou uma espécie de anfiteatro natural com 500 metros de diâmetro e 250 metros de altura, resultado do abatimento da crosta terrestre em Chão das Pias, lá em cima, até Alcaria, cá em baixo, provocado pela erosão das chuvas e das águas das nascentes temporárias (no dia seguinte teríamos oportunidade de admirar o fenómeno e paisagem incríveis desde o miradouro acima). A designação “fórnea” vem da semelhança da sua silhueta com um forno, atribuída popularmente muito antes de se perceber as dinâmicas geológicas locais. Uma das nascentes vem da Cova da Velha, uma gruta na Fórnea cuja água – quando a tem – alimenta a ribeira da Fórnea. Chegar até à entrada desta cavidade é a única relativa dificuldade do percurso, não tanto pela leve subida mas mais pela pedra rolada acumulada no piso.

Neste final de tarde, tempo ainda para espreitar a Estrada Romana de Alqueidão da Serra, já no planalto de São Mamede. Na época romana, durante o século I, existia uma rede de vias por onde circulavam os exércitos, as pessoas e os bens, ligando Roma aos restantes domínios do império. Uma das vias principais no que é hoje o nosso país era a que ligava Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), mas havia ainda vias secundárias como esta de Alqueidão, atravessando as Serras de Aire e Candeeiros. Vale a pena caminhar alguns metros por esta via de pedra ainda conservada e perceber a paisagem que a rodeia.

A fechar o dia, não podia faltar a visita ao Castelo de Porto de Mós, inconfundível nas suas torres verdes. Até há pouco tempo não passava de uma ruína – mostrada nas fotos em exposição numa das salas do castelo -, mas hoje está recuperado e reina de forma esbelta no alto de um pequeno monte a 176 metros de altitude. Os dois torreões encimados por cúpulas piramidais revestidas com telhas de cerâmica verde, uma representação da Casa de Ourém, e a sua varanda / loggia são os elementos mais distintos desta fortaleza. Com influências renascentistas e góticas, foi transformado em palacete no século XV e é um dos poucos castelos apalaçados no nosso país. Da sua varanda com delicada decoração obtém-se um belo panorama da vila, rodeada pela Serra dos Candeeiros e pelo vale do rio Lena.

Porto de Mós é uma vila agradável, a “Vila Forte” dos Lusíadas de Camões, associada à figura de Dom Fuas Roupinho. É um lugar de cenários naturais, mas também parte da história da afirmação de Portugal como nação independente. A Batalha de Aljubarrota, momento decisivo na independência do reino, decorreu em 1385 no Campo de São Jorge, em terras do concelho de Porto de Mós. Em agradecimento pela vitória, D. João I, mandou erguer o Mosteiro da Batalha, no concelho vizinho de mesmo nome, um dos monumentos mais bonitos e de nota artística mais elevada do nosso país. Já fora dos limites do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, é, no entanto, um ponto a não perder e ideal para pernoitar.

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