Um Fim de Semana pelas Serras de Aire e Candeeiros – dia 2

Neste segundo dia de visita por terras do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros regressámos a Porto de Mós para iniciarmos a manhã com uma caminhada. A Ecopista da Corredoura – Bezerra, com início no campo de futebol da Bezerra, é um percurso pedestre com 12 kms, cerca de 4 horas de um agradável passeio com paisagens de serra, vale e bosque sob mira, em grande parte por caminhos que correspondiam aos trilhos da antiga linha de caminho de ferro que fazia o transporte de carvão das minas da Bezerra para Porto de Mós.

Entretanto transformada em Ecopista, a primeira metade é sempre plana e sobre piso confortável, ao passo que a segunda metade, embora longe de difícil, possui breves desníveis, algo mais acentuados na parte final, mas em contrapartida oferece-nos uma plena imersão no bosque de carvalho cerquinho do Figueiredo – que já foi maior, substituído por terrenos agrícolas hoje ocupados com pomares e oliveiras.

É aqui que encontramos quase escondida a Cabana do Elias, uma verdadeira instituição local, ideal para um piquenique no meio deste belo pedaço de natureza.

Durante a caminhada pela Ecopista, não faltam as vistas para Porto de Mós e seu castelo, nem a requalificação das paredes de pedra escavadas para construção da antiga linha do caminho de ferro, incluindo um túnel. No fundo, para além da diversidade que observamos neste percurso, acabamos por ser também testemunhas da história e da cultura da região. Terra de indústria de minas de carvão (vide o antigo edifício da Central Termoelétrica de Porto de Mós), mas também de exploração de pedra calcária (vide a Pedreira do Figueiredo) e da pedra para mós (vide o moinho no Alto da Corredoura) – donde vem, aliás, o nome da povoação de Porto de Mós, o lugar onde tradicionalmente se fabricavam e transportavam as mós através do rio Lena que, em tempos, terá sido navegável.

Finda a caminhada pela Ecopista seguimos em busca de novas panorâmicas. O miradouro de Chão de Pias, uma estrutura que lembra um braço estendido na serra, é um dos melhores pontos de vista para Porto de Mós e sua envolvente.

Pouco mais adiante surge aquele que é sem favor um dos momentos altos de qualquer visita ao Parque: o miradouro da Fórnea. No dia anterior havíamos estado lá em baixo, a tocar a imensa parede rochosa da Fórnea de Alcaria, mas desta vez podemos contemplar na perfeição todo o seu poder. Subindo ao Cabeço da Fórnea, então, percebemos ainda com maior exactidão a magnitude deste fenómeno geológico e seus relevos impressionantes.

A vegetação que cobre o cerro é muito escassa e nota-se bem os pedaços de terreno verdejantes delimitados pelos muros de pedra, produzindo um encantador rendilhado da parte superior da Fórnea.

Prosseguindo a estrada altaneira da Fórnea iremos dar à Praia Jurássica de São Bento. Descoberta já neste século numa pedreira de calcário, é uma jazida de fósseis incrustados no solo rochoso, como ouriços do mar, estrelas, lírios-do-mar e serpentes-do-mar. Há milhões de anos, no Jurássico Médio, esta terra era mar, com ondas e tudo. As marcas da ondulação e dos seres vivos que aqui habitavam ficaram para sempre cravados na rocha, fossilizados. No entanto, diz que a zona não só não é de fácil acesso como não é de fácil percepção, para além de que tem estado fechada, pelo que acabámos por não a visitar.

Ao invés, seguimos para o Arrimal e suas lagoas, a Grande e a Pequena. São ambas depressões naturais – dolinas – que acumulam as águas pluviais. Conseguem manter-se quase sempre com água, mesmo sem chuva, uma vez que os seus fundos foram impermeabilizados de forma artificial, garantindo assim água à população local para rega, animais e outros usos. Note-se que dada a natureza cársica da região a água corre sobretudo subterrânea, pelo que a existência destas lagoas é essencial para a economia e sustento das suas gentes. A implantação destas lagoas é muito bonita, com reflexos dos montes e das árvores que a rodeiam espelhados nas suas águas.

Vale a pena uns passos pelo Arrabal, lugar da Lagoa Grande, para perceber a sua intensa ruralidade feita de animais a pastar e casas em pedra.

Ao longo da avenida que liga ambas as lagoas vamos encontrando poços de pedra calcária e no meio do caminho fica a Igreja Velha do Arrimal. Construída em 1775, está hoje em ruína, mas vale a pena empurrar o portão de entrada para o seu adro e sentir o ambiente desta estrutura entretanto tomada pela natureza.

As surpresas em território do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros não cessam, com tempo ainda para conhecer a Jazida de Icnofósseis de Vale de Meios, junto à povoação de Pé da Pedreira, já no concelho de Santarém. Da época do Jurássico Médio, há cerca de 168 milhões de anos, as Jazidas de Vale de Meios são, juntamente com as da Pedreira da Galinha (perto de Fátima), as mais antigas da Península Ibérica. Aqui testemunhamos umas muito perceptíveis e bem conservadas pegadas de dinossauros, umas lado a lado, outras numa fileira, sendo perfeitamente possível imaginar os monstruosos dinossauros a caminharem numa linha recta rumo a um destino incerto. O mais interessante é que estes icnitos permitem aos paleontólogos não apenas perceberem o tipo de dinossauros que pisou esta terra (bípedes carnívoros ou quadrúpedes herbívoros), como também a morfologia dos seus pés e estudar a sua anatomia, locomoção e comportamento.

Para fechar este segundo dia de forma semelhante ao do primeiro dia, eis mais uma visita a um castelo, desta vez ao de Alcanede, embora já (pouco) fora dos limites do Parque. Não obstante ser pequeno, bem aconchegado no cimo de um monte, marca claramente a paisagem e é mais um elemento a descobrir. Uma cobra no topo da sua torre de menagem afugentou-nos de avistar o panorama do seu ponto mais elevado, mas não impediu que explorássemos o restante interior do recinto. Talvez de fundação romana sobre o que teria sido um antigo castro, a estrutura foi posteriormente intervencionada na Idade Média e tomada e perdida aos mouros pelo conde D. Henrique e, depois, novamente e definitivamente conquistada pelo seu filho, D. Afonso Henriques. Entrou para a posse da Ordem de Avis, foi objecto de alterações, o terramoto de 1531 afectou-o irremediavelmente, perdeu importância estratégica e até ao século passado esteve em ruínas. Hoje está um encanto e é um dos que, como admiradora de castelos, mais gostei de conhecer. Uma boa despedida das Serras de Aires e Candeeiros.

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