As montanhas do Montenegro

Depois de uns dias bem passados em Kotor e sua vizinhança, abandonámos a zona costeira do Montenegro e seguimos rumo às montanhas. Balcãs significa montanhas e o Montenegro, um dos países que integra esta região, é isso mesmo: montanhas e mais montanhas.

De carro de Kotor a Cetinje, a capital histórica do país, sobe-se o Monte Lovcen, o berço nacional a 1749 metros, para em seguida o descer. A subida é efectuada sempre com vista para o soberbo Golfo de Kotor, enquanto que na descida da encosta contrária observamos a paisagem a mudar completamente passando a ruralidade a ser a marca. Aproveitámos para comprar umas fatias do presunto local Njeguški, o qual degustámos num piquenique na pacata Cetinje. Centro espiritual do país, Cetinje possui ainda relevância política, uma vez que aqui estão instalados alguns serviços do governo e é aqui também que fica a residência oficial do presidente da república. Nesta antiga capital, de dimensões muito reduzidas, é um prazer caminhar pelas suas ruas através de quintas, mansões, museus e galerias, tomando nos dias de hoje o lugar que antes pertencia às embaixadas. Aqui fica também um mosteiro importante. 

Deixando Cetinje rumo a norte, visitámos o Mosteiro de Ostrog. É um complexo de dois mosteiros, um à beira da estrada principal e o outro num nível elevado. A localização deste último é surpreendente: fica encravado na montanha, a 900 metros de um vale. O branco alvo do mosteiro é vivíssimo e destaca-se da montanha a quilómetros de distância. Construído em 1665 e dedicado a São Basílio, um dos santos mais venerados da igreja ortodoxa, este é o mais importante mosteiro cristão ortodoxo do Montenegro e aqui vem gente de toda a vizinhança em peregrinação, não apenas crentes ortodoxos, mas também católicos e muçulmanos. Observámos a devoção dos crentes e apreciámos os frescos lindíssimos que o mosteiro acolhe. As pinturas são vívidas e de cores fortes, representando momentos da vida do Santo e seus companheiros.
Após deixarmos Ostrog o destino foi Scepan Polje, na fronteira com a Bósnia. A estrada até lá é provavelmente uma das mais bonitas de se percorrer em todo o mundo. Os sentidos têm obrigatoriamente de estar todos alerta, quer pela paisagem estupenda quer pela sinuosidade e estreiteza do seu trajecto. Passamos pelo Canyon de Piva, rio transformado em parte em barragem que alimenta uma hidroeléctrica, de uma cor azul tão intensa tão intensa que faz dele o parceiro ideal para as altas rochas da montanha que acompanham o seu percurso. O Canyon tem cerca de 1000 metros de profundidade e 33 quilómetros de extensão; a estrada absolutamente cénica corre ao longo do Canyon de Piva e possui o incrível número de 56 túneis, ou seja, sai-se de um para logo entrar no outro.
Mal refeitas de tanta beleza dá-se a chegada a Scepan Polje, praticamente nada mais do que uma fronteira e um assentamento de vários campings donde sai a actividade mais atractiva do Montenegro: o rafting. Nós escolhemos o Tara Tour, um conjunto de chalets no meio de absolutamente nada a não ser o rio Tara. Quando o rio Tara se junta ao rio Piva a sua confluência forma o rio Drina. 

O Canyon do Tara não é menos espectacular. A sua profundidade chega a 1300 metros e é considerado o mais longo e profundo da Europa. Fizemos rafting por umas horas, ao longo de cerca de 18 quilómetros entre Brstanovica e Scepan Polje. A adrenalina da aventura dos rápidos praticamente não existe e é muito bem substituída por momentos mais contemplativos, de puro gozo do cenário que temos a sorte de ver. O barco levava 3 portugueses porreiras, 6 parvos montenegrinos e um guia montenegrino mais do que parvalhão. Mas não interessa. Quase todos nos rendemos à natureza soberba e deixamo-nos mergulhar na fria água do Tara.
Esta zona fronteira com a Bósnia está à porta do Parque Nacional Durmitor, uma reserva da biosfera, fauna e flora rica, um dos destinos mais esperados da nossa viagem, não só pelo rafting, mas também pelas caminhadas que esperávamos fazer.
De Scepan Polje para Zabljak, a “capital” do Durmitor, a estrada volta-nos a levar pelo Canyon de Piva e depois segue mais interior para uma paisagem completamente diferente. Um ambiente absolutamente rural, montes de palha elaboradamente equilibrados em forma de cone, uma casinha aqui ou ali, isto num género de curto planalto. Eis que então as montanhas do Durmitor chegam, lindíssimas, talvez parecidas com as Dolomites que nunca vi de perto.

Ficámos a dormir em Zabljak e aqui apercebemo-nos de como os montenegrinos sabem ser simpáticos. A nossa anfitriã Milena não falava uma palavra por nós entendível, sendo o inverso verdade, mas ainda assim foi a custo que parou com as boas-vindas e as suas ofertas de bebida.
Zabljak é uma típica cidade turística de montanha: seja de inverno para o esqui, seja de verão para as caminhadas. Tem umas quantas casinhas coloridas e pouco mais. E não precisa de nada mais, porque o interesse está todo da natureza.

O nome Durmitor significa “água da montanha”. Bem acessível desde Zabljak ficam uma série de lagos belíssimos, sendo o mais popular o Crno Jezero, “lago negro”. Na verdade, este são dois lagos separados: o Veliko Jezero, “grande lago”, e o Malo Jezero, “pequeno lago”. Este último chega a ter 49 metros de profundidade, profundidade não averiguada pela mana, que se ficou apenas por umas quantas braçadas na sua plácida água. É possível  – e devida – uma agradável caminhada à volta destes dois lagos feitos um, havendo uma passagem entre eles caso queiramos colocar as canelas na água para a provar.

O Bobotov Kuk, o monte mais alto do parque, a 2523 metros, está sempre vigilante. A sua ascensão é uma das caminhadas estrela no parque, coisa para umas 12 horas. Não o fizemos.
Caminhamos, antes, até ao Zminje Jezero, o “lago cobra” e Crepulj Polyana. Este último é um vale rodeado de montanhas, a 1648 metros de altitude, com uma vegetação rasteira e duas casas de montanha ali a compor a paisagem. Foi aqui que escolhemos fazer a nossa pausa de almoço. Enquanto trocávamos umas poucas impressões, um senhor que havia passado por nós e retornado resolveu parar ao nosso lado. “Portuguesas? Adoro fado. Adoro a Mariza.” E continuou a sua jornada apregoando “Rosa Branca”. Era um sérvio apaixonado pela nossa língua e foi com emoção que eu, tudo menos nacionalista e admiradora de Mariza me confesso, vivi esta experiência.

Sossego foi a nota dominante nos passeios pelo Durmitor, já que raramente nos cruzámos com parceiros caminhantes para além do Lago Negro.

No Durmitor fica uma obra de engenharia de excelência: a Ponte Djurdevjca sobre o rio Tara. Construída entre os anos 1937 e 1940, tem uma extensão de 365 metros, mas a sua grande distinção e o que lhe dá elegância é o seu enorme arco, a 160 metros do rio. 
As estradas por aqui continuam fantásticas e o Canyon do Tara é agora a estrela.

Daqui seguimos para Podgorica, a capital do Montenegro. Antes, porém, dois apontamentos no caminho: o Mosteiro de Moraca, do século XIII, cuja implantação e frescos que acolhe merecem uma visita; e a estrada completamente louca que segue o Canyon de Moraca. Se um carro cai dali são cerca de 300 ou 400 metros a pique. Os condutores que a utilizam são de um atrevimento sem noção. Bruscos, não hesitam qualquer ultrapassagem em alta velocidade, independentemente de haver uma curva sem visibilidade a poucos metros e três ou quatro carros para passar num ápice. Apesar de a paisagem que acompanha a estrada ser belíssima, dificilmente nos conseguimos concentrar no belo. Medo.

Podgorica é um ponto que muitos aconselham a passar rapidamente. Optámos por aqui almoçar e  passar toda a tarde e noite. Apesar de não haver muito para ver e fazer, não nos arrependemos. Caminhámos pelas suas ruas, edifícios de apartamentos que são autênticos blocos de concreto, fogo à beira da Ponte Milénio, só para juntar cheiro e mais calor aos 40 graus que se faziam sentir. Podgorica, a antiga Titograd, significa “debaixo do monte”, e ficou quase completamente destruída na II Guerra Mundial. Possui uma localização central no país e hoje tem 150 mil habitantes, sendo uma das mais pequenas capitais europeias. Aqui visitámos o centro de arte contemporânea que fica no Palácio Petrovic, do outro lado do rio. As luzes foram ligadas de propósito para nós apreciarmos obras de artistas jugoslavos das últimas décadas. Demos um curto passeio pela zona histórica (?), onde é possível colher figos nas suas ruas. Acontecerá tal no centro de mais alguma capital europeia? A surpresa, porém, veio ao fim da tarde e noite. Todos parecem sair à rua e perto da praça central ficam umas ruas de bares e restaurantes muito modernos e concorridos. Conclusão: afinal estamos numa cidade e na Europa. A vida nocturna é o ponto alto de Podgorica, não tanto para beber a tradicional aguardente Rakija, mas talvez um mojito ou um gin.

Perto de Podgorica fica o Lago Skadar, um dos parques nacionais do Montenegro mais visitados. Este é o maior lago dos Balcãs e é partilhado pelo Montenegro e Albânia (que possui uma pequena parte). Toma a forma de um golfinho e aqui fica uma das maiores reservas de pássaros da Europa. O nosso objectivo não era tanto ver os pássaros, nem fazer provas do vinho local Vranac, antes deambular por aqui. Uma das imagens mais difundidas do Skadar é aquela em que a disposição de dois montes fez os locais lembrarem-se de apelidar o sítio de Sophia Loren.

Por aqui encontramos uma série de vilas de pescadores. Algumas, como Rijeka Crnojevika, são encantadoras com a sua ponte, outras, como Virpazar, servem de ponto de partida para inúmeros passeios de barco pelo lago.

Mais para sul, num território mais remoto a caminho da Albânia, outras vilas de pescadores marcam também presença, mas aqui aparecem uns mosteiros para compor a paisagem. A paisagem, essa, é muito bonita, composta pelas montanhas Rumija e o espelho da água do lago.

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