O Lago Ohrid

O destino era Ohrid, o lago. A ideia era levar apenas esta paisagem da Macedónia.
A Macedónia foi uma das seis antigas repúblicas jugoslavas, mas possuía outras aspirações que não pertencer-lhe e até tinha uma linguagem própria. Foi a única a obter a sua independência através de uma secessão pacífica em 1991. O problema veio depois, quando quis usar o histórico nome “Macedónia” e os gregos mostraram-se contra, por considerarem que este é o nome de uma província sua e nada mais. Daí que seja mais conhecida como FYROM – Former Yugoslavia Republic of Macedonia. Para além disso, o país sofre com uns quantos problemas étnicos com os albaneses que aqui vivem. 
Resumindo, isto é os Balcãs, o caldeirão. 
A nossa chegada ao país foi interminável. Saímos às 6:30 da manhã de Ulcinj, no Montenegro, rumo a Shkodra, na Albânia, e daqui para Tirana, onde apanhámos o carro no rent-a-car onde esperámos por um documento que nos permitisse levar o carro até à vizinha Macedónia. Saindo com sucesso do trânsito louco da capital albanesa partimos em direcção ao Lago Ohrid, atravessando parte da Albânia, estradas demoradas e um bocado monótonas. Na fronteira da entrada da Macedónia ouvimos uns quantos berros e soubemos aí que tínhamos que pagar (mais) 50 euros para poder entrar com o carro no país. Que raio de documento estivemos afinal a aguardar junto da nossa querida Eliane, albanesa de ar angélico que nos embarretou à grande? Deu até direito a um hashtag que passou a marca da nossa viagem: #elianamonamour
Estávamos cansadas física e psicologicamente e eu – que fizera força para desviarmos até Ohrid – não tinha certeza de que o lugar não fosse um grande barrete, decadente e cheio de turistas. A entrada na estrada junto ao lago, para quem vem da Albânia, não parecia melhorar o estado de espírito: praias não tão lindas assim, cenário piorado pela gente que as frequentava. Mais um imenso piscinão, pensámos. Foi então que chegou a tirada da nossa Katarina de que para encontrar pouca gente em Ohrid talvez fosse melhor voltarmos em Novembro.
Mas, num ápice, o ar de Ohrid pôs o desânimo a sair a voar.
Ohrid é o principal destino da Macedónia. O Lago Ohrid – leia-se Orrid – tem 34 km de serenidade absoluta, pontilhada aqui e ali com igrejas bizantinas belíssimas. Este que é o mais antigo lago da Europa (estima-se que tenha 3 milhões de anos) e um dos mais antigos do mundo, é partilhado entre a Macedónia (dois terços) e a Albânia (um terço) e possui 300 metros de profundidade. 
A cidade de Ohrid é o maior povoamento da região e o seu nome significa “cidade no monte”. 
Historicamente, os bizantinos exerceram por aqui influência, tal como os incontornáveis otomanos,  os eslavos búlgaros e os gregos. Os búlgaros, esses, ainda para aqui vêm aos magotes, mas agora de férias. 
O que há, então, para ver e fazer em Ohrid? Desde logo as referidas igrejas bizantinas. E depois, ou ao mesmo tempo, deixar-nos estar a olhar para o lago.
A Sveti Jovan Kaneo é a estrela e é provavelmente a imagem mais difundida da Macedónia. Construída no século XIII, fica altaneira à beira do lago. A sua arquitectura é deliciosa, um intrincado de telhas que torna difícil crer que possa ter sido obra humana. A sua localização, no entanto, absorve quase todos os nossos sentidos. É boa ideia vir aqui a diferentes horas do dia para que se possa tomar conta das várias tonalidades do lago, mas a hora do fim do dia será a melhor. 

Kaneo, o lugar, possui um ambiente inspirador. Quer pela igreja lá no alto, quer pelos recantos que vão fazendo praias cá em baixo. Tem gente, sim, mas não tem aquele ar de subúrbio atulhado de gente em cima de gente. E um bom passatempo para acompanhar uma bebida à beira do lago é ir vendo os típicos barcos a passar.
Para além da suprema Sveti Jovan, não se deve perder a Catedral de Sveti Sofija, cuja acústica é fantástica (tivemos a sorte de a visitar quando um artista tocava ao seu piano) e alguns frescos ainda em recuperação deixam entrever muitas maravilhas. 

A minha preferência, porém, vai para a Igreja e Mosteiro de São Pantaleão, recuperada praticamente por inteiro nos últimos anos. Mais um exemplo do estilo bizantino e mais um exemplo de localização perfeita.

Um pouco por todo o lado vamos encontrando muitas mais igrejas, algumas pequeninas, mais parecendo capelas, todas deliciosamente belas.

A cidade de Ohrid é muito agradável. As suas casas estão dispostas numa encosta do monte e por entre as ruas estreitas e declivosas encontramos vários exemplares típicos de edifícios pintados a castanho e branco. A atenção colocada na decoração das moradias é outra beleza que a cidade tem para nos dar, com as flores no pátio de entrada e às janelas a fazerem lembrar a  Córdoba espanhola.
Para uma esmagadora vista da cidade, lago e arredores a subida ao Castelo é essencial. Aqui confirmamos o título de Ohrid, a cidade no monte.

Um passeio de barco pelo lago vale muito a pena. Até Sveti Naum são cerca de 70 minutos de pura contemplação. Aqui chegadas não é tanto o seu mosteiro que merece a visita, mas mais o enquadramento do lugar. Uma praia calma com cadeiras sobre a água no lado esquerdo do mosteiro e uma zona de restaurantes deitados sobre um lago de água de um verde intenso no lado direito do mosteiro.
De Sveti Naum sai rumo a Ohrid todos anos uma maratona aquática de 30 km, a realizar precisamente no próximo sábado. Mais uma vez a Katarina é que sabe: é sempre o búlgaro a ganhar; pelo menos até que umas portuguesas se dediquem aos treinos e arrebatem o seu ceptro.

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