Albânia

A escolha da Albânia para participar no nosso tour não passava ao início de um adereço, um complemento a algo que julgávamos mais importante. Dava jeito fazê-la parte do programa para que por ela passássemos a caminho do Ohrid, na Macedónia, e como porta de saída para o retorno ao nosso país. Mas como aqueles actores secundários que provam entretanto toda a sua qualidade, arrebatando o protagonismo às estrelas, assim foi a Albânia para nós.
E, no entanto, foi tão pouco o que visitámos, apenas Berat e Tirana; tanto o que ficou por conhecer, em especial as tão desejadas – pela mana – praias do sul. Mas – opinião unânime do trio – foi aqui que melhor nos sentimos e encontramos as pessoas mais dadas e simpáticas (tirando a nossa #elianamonamour).
Não foram poucas as vezes que os albaneses se nos dirigiram para tentar comunicar conosco, mesmo que nada falassem para além do albanês ou não passassem de umas poucas palavras italianas. A senhora vestida toda de preto, igual às viúvas portuguesas, mostrando três dedos da mão, cada um deles correspondendo aos três filhos emigrados; o funcionário / guia da mesquita antiga de Berat, com os seus capisce após cada vinte palavras albanesas e duas italianas. Todos ficarão nas nossas memórias pela disponibilidade e simpatia.
A Albânia é Europa, mas custa a acreditar, sobretudo quando se a visita.
A Shqiperia, como se autodenominam os albaneses, sobreviveu ao comunismo e hoje está ainda muito fora dos circuitos turísticos. O que parece impossível se pensarmos que a sua costa está encravada entre as super populares costas do Montenegro e da Grécia.

 

Cortesia do regime comunista dessa irreal figura chamada Enver Hoxha, o ditador da terra. Não, não é uma figura irreal; aconteceu mesmo e deixou muitas marcas. Como a quantidade enorme de bunkers que vemos pelo caminho, nas estradas ou nas cidades. Eles são omnipresentes e crê-se que o regime terá construído cerca de 750 mil bunkers entre os anos 1950 e 1985. Estas estruturas de concreto e betão eram indestrutíveis e deveram-se à paranóia do ditador depois de se ter incompatibilizado com a Rússia, primeiro, com a China, depois, com o mundo, por fim. Foram muitos os anos de isolamento (até 1991, com o fim do comunismo) e hoje a Albânia tenta voltar à vida.
Antes, porém, à semelhança dos outros países que compõem os Balcãs, a Albânia viu passar pelo seu território os ilíacos, os gregos, os sérvios e os otomanos, bem como os venezianos na costa. No século XV o herói nacional Skanderberg (que dá hoje o nome à principal praça da capital Tirana) liderou a resistência contra os turcos. Bem mais tarde, já no século XX os italianos guiados por Mussolini ocuparam a Albânia. Os italianos ainda hoje têm aqui alguma influência, afinal de contas Itália fica muito perto em linha recta, com o Mar Adriático apenas a separar os dois países. Muitos albaneses arranham umas quantas palavras italianas, uma vez que os canais de Itália emitem também aqui.
Depois da II Grande Guerra Mundial os alemães foram corridos da Albânia e chegou então a vez do comunismo moldar o país. Em 1946 foi proclamada a República Popular da Albânia, com Enver Hoxha como presidente e camarada supremo. A sua morte em 1985 e o ano de 1990, com os acontecimentos pós queda do Muro de Berlim que se deram na Europa de leste, inspiraram os albaneses e as manifestações sucederam-se, levando a uma abertura e eleições democrática no país. Desde aí o parque automóvel albanês, que não passava de 10 mil automóveis (a maioria conduzidos por oficiais do partido), não pára de aumentar, sendo hoje cerca de 300 mil os carros que fazem do trânsito no país uma loucura.
Continuando, então, nos dias de hoje e na nossa viagem, entrámos na Albânia por Shkodra, vindas de autocarro do Montenegro. Às 7 horas da manhã a cidade, uma das mais antigas da Europa, já estava a bombar de movimento nas ruas, indivíduos para lá e para cá, lojas abertas à primeira alvorada.
Daqui teríamos que seguir para Tirana. Uma furgoneta albanesa esperava os viajantes do Montenegro e pediu-nos 5 euros por pessoa pela viagem, preço que considerámos bastante aceitável uma vez que no trajecto anterior, muito mais curto, havíamos pago 7 euros. Sem que nos apercebêssemos, deu-se uma confusão e uma discussão entre os motoristas (o do Montenegro e a da Albânia), num regateio de preço com gritos e quase empurrões, com o preço a ficar estabelecido nos 3 (?) euros para uma viagem de cerca de 2 horas. Não foi a nosso pedido, entrámos no veículo com algumas dúvidas de que ele fosse capaz de chegar ao seu destino, e embalámos num sono ao som de uma conversa entre outros passageiros em que só entendíamos a palavra “máfia”. Durante a estadia na Albânia não vimos nenhuma máfia, mas confirmaríamos que os preços aqui praticados são mesmo muito baixos – refeições completas bem saborosas a 5 euros por pessoa, gelados a 14 cêntimos, enfim, preços que não são da Europa.
Depois de atravessarmos parte do centro do país rumo a Ohrid, na Macedónia, regressámos e estabelecemo-nos em Berat.

 

 

Berat, classificada pela Unesco como património da humanidade, é uma cidade de clara influência otomana, mais conhecida como a “cidade das 1000 janelas”. Oferece-nos uma quantidade infinita de casas brancas de telha ocre escurecida com janelas definidas por um castanho que as realça. Todas estas personagens estão plantadas nas montanhas, uma de cada lado, atravessadas por um rio praticamente seco. Se o rio não é bonito, o nosso olhar dirige-se quase por inteiro para aquele emaranhado de casas e janelas, construídas em ruas empedradas estreitas em que é fácil deixar-nos perder.

 

 

Ao caminhar pelas ruas inclinadas no quarteirão de Magalem fomos convidadas para um jantar familiar. Recusámos mas não deixámos de provar a deliciosa cozinha albanesa, com um sabor muitíssimo bem apurado, a melhor de todos os países balcânicos que visitámos. Talvez também por isso, porque uma viagem não pode ser inteira sem sentir os sabores dos sítios, a Albânia nos cativou.
Para além da beleza da disposição destas casas de janelas peculiares e da sua cozinha, em Berat deixamos-nos seduzir pelas pessoas. O funcionário da mesquita antiga da cidade foi-nos explicando pacientemente que nos tempos do comunismo a mesquita foi uma sala de jogos de pingue-pongue umas vezes e um supermercado noutras. A religião não era, então, bem vista. Apesar de o islão ser a religião maioritária entre os albaneses, cerca de metade deles parece declarar não ter qualquer religião. Curiosamente, a figura albanesa mais conhecida em todo o mundo é a Madre Teresa de Calcutá, cristã.
Voltando à explicação dada pelo nosso amigo, o islão professado na Albânia é um islão de tipo sufi, mais moderado e tolerante aos outros. Ouvi-o com indisfarçável interesse, certamente o meu olhar não enganava, eu que tenho muita curiosidade pelo islamismo, e ainda tremo de emoção só de pensar no momento em que o meu amigo albanês me ofereceu um Alcorão em albanês e em árabe. A simpatia não tem limites.

 

Em Berat há ainda a visitar o castelo, lá bem no alto, uma jornada algo extenuante – para cima porque doem as pernas e a respiração arfa, para baixo porque as pedras de que é feito o chão fazem os nossos passos escorregar. Mas vale a pena, quando mais não seja pela visita ao Museu Onufri, o maior pintor albanês, que entre os séculos XVI e XVII pintou uns ícones belíssimos.

 

Se em Berat, que é uma terra pequena, vêem-se poucos turistas, em Tirana devemos ter-nos cruzado cada uma com uma mão cheia deles. Ficámos alojadas perto do mercado da capital, onde gabámos as azeitonas aos montes. Ainda a salivar por elas, ao jantar pedimos como entrada um prato de azeitonas e qual não foi o nosso espanto quando demos com um prato normal e inteiro delas, uma rodela de laranja a apurar o sabor. Melancias, essas, vêem-se por todo o lado, no mercado, sim, mas também na beira das estradas, enormes.

 

 

Toda a zona a leste da Praça Skanderberg parece ser um enorme mercado. As ruas são tomadas pelos objectos que se pretendem vender, desde bicicletas a sofás, livros, ventoinhas, o que calhar, numa extensão das lojas que ocupam o piso térreo dos edifícios. Estes estão um bocado decrépitos, se não inteiramente em ruínas parece que alguns podem cair a qualquer momento. O urbanismo não é bonito. Muito haverá a fazer na Albânia antes ou ao mesmo tempo do que a conservação do edificado. Mas Tirana possui uma ideia – concretizada – muito bonita e interessante: umas pinceladas aqui e ali em alguns blocos de apartamentos dão-lhe um colorido e uma alegria inesperados.

 

 

 

Tirana é uma cidade segura. O seu centro desenvolve-se ao redor da Praça Skanderberg (tornado herói para defesa de uma causa nacionalista), uma zona bem cuidada onde para além dos hotéis  ficam instalados quase todos os locais de interesse para os forasteiros. Aqui fica a Mesquita Et’hem Bey, o Museu de História Nacional com o fantástico mural socialista a encimar a sua fachada, a Ópera e Teatro Nacionais e diversos edifícios que albergam ministérios. Apesar da arquitectura de inspiração estalinista, não chocam as suas proporções, pelo contrário, é uma zona equilibrada. Aqui perto fica ainda a Galeria de Arte Nacional. O edifício de linhas rectas é bonito e a sua colecção é muito interessante. Logicamente, dominam as temáticas socialistas, algumas grandiosas, com o povo laboriosamente a trabalhar para a construção de uma sociedade comum.

 

 

No jardim do outro lado da avenida encontramos mais uns quantos bunkers, convivendo pacatamente junto a bancos coloridos.

 

Tirana tem vida e ela não é artificialmente criada por umas simples pinceladas de cor, como surpreendentemente constataríamos após uma caminhada pelo quarteirão Blloku. Nos tempos do comunismo este bairro era onde estavam instaladas as moradias dos líderes políticos do país, lugar de acesso vedado ao comum dos cidadãos. Hoje é ocupado pela classe média alta que reside nos seus apartamentos de bom ar e consome nas suas lojas, bares e restaurantes. E, sobretudo, diverte-se nesta zona animada da cidade. A ocupação dos passeios pelas esplanadas e os portões de acesso aos edifícios fizeram-nos lembrar as ruas da zona sul do Rio de Janeiro. Até o calor e noite quente ajudou a essa lembrança.

 

 

Percorrer as ruas deste bairro a oeste da Avenida Skanderberg é, pois, muito agradável. Uma subida ao topo do edifício do Sky Club Bar permite-nos conhecer Tirana por um outro prisma e ter uma melhor noção da sua implantação. As montanhas cercam-na e a amálgama de edifícios coloridos é aqui também evidente.

 

 

 

Antes disso, porém, já tínhamos tido oportunidade de ver a cidade de um outro ponto elevado, embora nem pouco mais ou menos tão alto como o do Sky Club Bar. A estranha Pirâmide, construção de 1988 de iniciativa do ditador Enver Hoxha, cujo projecto ficou a cargo da sua filha e genro, já foi um museu, um centro de convenções e mais recentemente um clube nocturno. Ninguém sabe o que fazer com ela e enquanto isso, votada ao abandono, vai sendo grafitada e os seus vidros vão sendo deixados partidos. O ar é de fim de festa. No entanto, apesar do absurdo desta estrutura no contexto urbanístico, conseguimo-nos divertir por aqui, mais um sinal do bom e descontraído ambiente que se sente em Tirana. À partida a subida até ao seu cume parecia missão só para uns quantos destemidos, como o trio de rapazes que observávamos desde cá debaixo, tal era a inclinação das paredes da pirâmide. Mas, enchendo-nos de coragem, não desdenhámos um desafio e uma aventura e lá fomos por ali a cima, o trio de portuguesas rumo ao pináculo do maior símbolo da decadência do antigo regime na capital da Albânia, a terra da águia.

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