Avô


Avô, tal como Aldeia das Dez, é uma freguesia do concelho de Oliveira do Hospital. E como Aldeia das Dez, também, tem um topónimo curioso. A palavra “avô” derivou aqui da palavra “vau”, cujo significado é baixio, lugar do rio onde se pode passar a pé. E era precisamente isso que se conseguia fazer em tempos remotos nesta que costuma ser considerada “uma das aldeias mais bonitas de Portugal”. A Ribeira de Pomares (rio Moura) possuía um caudal fraco e era por ela que se entrava na povoação. Esta ribeira junta-se ao rio Alva e os dois formam uma deliciosa praia fluvial que mais parece um lago. Melhor. A sua união deixou que se formasse uma ilha no meio, a ilha do Picoto.


Era para aqui que vínhamos dar um mergulho no rio quando éramos pequeninas e os pais estavam connosco na Beira. A mãe até hoje não se cansa de lembrar que foi ali, naquele género de areia à beira do rio, que tirou a fotografia em que estamos enroladinhas na toalha. A água era fria, mas isso nunca fez diferença. Como é mais distante do que a Ponte das Três Entradas desde Aldeia das Dez, para Avô vínhamos também sobretudo aos fins-de-semana com os primos. Olhando hoje o minúsculo ringue que fica na ilha até custa a acreditar que algum adulto lá pudesse jogar à bola, mas é disso que me lembro. Disso e de se comer os meus detestados peixes do rio. Nisso continua tudo igual.


Avô é, pois, o rio e, claro, a sua ponte. A ponte é muito alta mas pouco comprida. Ainda recordo os rapazes a saltar lá de cima, o que parece impossível hoje, tão juntas estão as pedras lá no fundo da água claríssima.



A entrada em Avô para quem vem das Vendas de Galizes tem início uns quilómetros antes de se chegar efectivamente à povoação. Antes de começarmos a descer, há que parar nas Varandas e perceber Avô e toda a sua envolvente. Aqui deparamo-nos com os primeiros dos muitos versos que iremos ler em toda a vizinhança. Avô é terra de poetas e um dos seus maiores, Doutor Vasco Campos, partilha connosco:

“D’estas varandas se alcança 
A Serra montes a fio…
E lá no fundo Avô, 
Velhinha sempre criança 
A espelhar o seu brio
Nas águas mansas de um rio 
Onde o meu sonho ficou.”

Avô é a sua ponte, o seu castelo e a sua igreja. 
Já tínhamos pensado nisso, mas outro poeta, já não nosso contemporâneo, Brás Garcia Mascarenhas, confirma-nos:

“Os bosques, em que está, vê deleitosos
A ceres loura, e a flora jardineira;
Vê nascer entre os rios caudalosos
Nobre vila em península guerreira,
Que com três edifícios sumptuosos,
Ponte, castelo, igreja. Honrando a beira
Enobrece Diniz, segundo brigo, 
Novo restaurador do reino antigo.”

A história de Avô é remota e teve início antes mesmo dos romanos aí se estabelecerem e aí fazerem passar a Via Imperial. Os romanos, esses, terão sido atraídos pelo ouro e chumbo que existiam nas margens do rio Alva. No século VIII vieram os muçulmanos e no século XI os cristãos. Avô foi couto de D. Afonso Henriques antes mesmo da criação do Reino de Portugal e sobre umas ruínas romanas o nosso primeiro rei aqui mandou edificar o castelo de que hoje sobram ruínas e uma muito bem perceptível muralha. Altaneiro, daqui se obtém uma vista bem bonita para o verde da paisagem e os telhados ocres do casario. 




O caminho até ao castelo faz-se subindo por ruas estreitas e cheias de cotovelos que não escondem o traçado medieval da povoação. O edificado está não só bem conservado como bem cuidado. Esta também é uma aldeia das flores.




De volta à parte baixa de Avô, deparamo-nos com os antigos Paços do Concelho. Praça bonita, uma vez mais bem cuidada, lembra-nos que Avô foi sede de concelho até ao século XIX, quando passou a estar integrada no concelho de Oliveira do Hospital.


Restam algumas capelas antigas pitorescas por Avô. Para além da Capela de São Miguel, à entrada do Castelo, destaque para a Capela de Santa Quitéria, um pouco escondida à entrada da ponte sobre o Alva. Do outro lado da estrada fica a igreja matriz de Avô datada do século XVI, embora tenha sido posteriormente reedificada, e à qual foi construída no lugar em que D. Afonso Henriques havia fundado uma igreja.


História, beleza e lazer, é o que Avô nos tem para oferecer.

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