Volta à ilha do Pico

Nunca tinha visto chover e ventar tanto, mas mesmo assim saí estrada fora para uma volta de carro pela ilha do Pico. Em dois dias, foram cerca de 300 os quilómetros percorridos nesta que é a segunda maior ilha do arquipélago dos Açores. Em alguns dos locais abaixo descritos o clima venceu-me por KO e apenas os visitei uma vez; em outros recuperei e não consegui resistir a repetir a visita.

Saindo de São Roque, a primeira paragem foi na frente marítima, junto às suas piscinas naturais. O mar estava alteroso e o vento furioso. Quando coloquei os pés pela primeira vez fora do carro ia literalmente voando, daí que não tive coragem para me aproximar muito da água. Por aqui vi pela primeira vez a cor vermelha dos moinhos e dos portões a contrastar forte com a pedra escura de que é feita a ilha.

A chegar ao centro da povoação vemos numa pequeníssima encosta com vista para o mar o edifício longo do Convento de São Pedro de Alcântara. Antigo retiro dos frades franciscanos, hoje acolhe a Pousada da Juventude e vale a pena conhecer os seus claustros.

De São Roque segue-se rumo à Madalena pela estrada regional, mas optei por seguir pela estrada secundária que corre sempre junto ao mar tormentoso com a sua beira de lava petrificada. Cabrito, Arcos, Lajido, Cachorro e Vila Barca são as pequenas povoações na zona norte que se encontram dentro dos limites da área de Paisagem Protegida da Cultura da Vinha distinguida pela Unesco (ver post anterior).

Em Vila Barca fica um dos mais recentes símbolos da ilha, o Cella Bar, o bar mais bonito do mundo. Distinguido pelo portal de arquitectura Archdaily como “edifício do ano 2016” na categoria “hospitalidade”, este bar tem uma forma que apela à nossa múltipla imaginação. Contemplando-o, bem como o lugar onde está implantado, à beira do Atlântico com vista para o Faial, ficamos na dúvida se estaremos perante uma pipa, uma baleia ou um vulcão. O seu nome parece levar-nos para uma das celas conventuais dos frades que se estabeleceram na ilha. Seja como for, este lugar é único quer na paisagem, quer na arquitectura e no imaginário para o qual remete.

A primeira vez que passei pelo Cella Bar mal consegui abrir a porta do carro, tal era o vento (e chuva). E a primeira vez que passei pela Madalena nem me apercebi que a montanha do Pico estaria mesmo nas suas costas. Mas assim é. A igreja da principal povoação da ilha do Pico tem um guardião fabuloso e genioso, que se deixa ver apenas quando quer.

Na Madalena fica o Museu do Vinho. Para além da história do vinho no mundo e na ilha e uma explicação multi-sensorial das castas que aqui são produzidas, bem como um miradouro belíssimo para os currais de pedra, neste espaço que foi em tempos o Convento do Carmo, onde os frades carmelitas se dedicaram desde séculos ao fabrico do vinho, podemos admirar sem nos cansarmos um grande bosque de dragoeiros, alguns destes exemplares centenários. Esta espécie típica da Macaronésia é espontânea no Pico e a resina desta planta tintureira é conhecida como sangue de dragão. Eis uma planta verde que alude a dragões na terra de pedra negra que vê passar as baleias.

Junto à Madalena fica a Reserva Florestal de Recreio da Quinta das Rosas, mais um recanto verde na ilha para contrariar a sua fama de negrume. Como fã de jardins, não podia perder a hipótese de conhecer e passear por mais um deles. Este parque é uma espécie de mini jardim botânico, com uma boa diversidade de espécies vegetais, algumas algo raras até, uma zona de merendas, uma ermida, um pequeno lago com uma mimosa ponte vermelha, um roseiral e um miradouro com vista para o Faial.

Voltando à Madalena, no seu jardim temos um exemplo de maroiço, os quais vemos com mais insistência no lugar vizinho de Valverde. Os maroiços são um dos enigmas do Pico. Também conhecidos como as “pirâmides da vinha do Pico”, estas estruturas de pedras amontoadas na vertical, chegando a atingir quase os 10 metros de altura, terão tido como objectivo a obtenção de uma maior área de cultivo. No entanto, prospecções e estudos efectuados já nesta década levaram alguns arqueólogos a analisar estes montes de rocha e a avançar com uma tese de que poderiam estar ligados a usos funerários e que datariam de antes da chegada dos portugueses à ilha em 1427. Esta tese é polémica, claro está, uma vez que com base em fontes históricas credíveis está assente que quando os portugueses aqui chegaram as ilhas estavam desabitadas. Ou será esta mais uma manifestação do poder místico do Pico?

Passamos a Criação Velha, zona da vinha do Pico com todos os exemplos da arte e arquitectura popular ligadas a esta tradição secular, com a vista enorme para os típicos currais da vinha do Pico.

E logo chegamos ao Pocinho, com a sua piscina natural (medo!) e o elegante turismo rural do Pocinho Bay.

Passamos a Candelária e São Mateus, com as suas não menos elegantes igrejas com a inscrição na fachada do nome do orago a quem são dedicadas.

E já na vertente sul da ilha saímos, então, da área da Paisagem Protegida da Cultura da Vinha distinguida pela Unesco. Nos lugares do farol de São Mateus e do moinho da Ponta Rasa avista-se um horizonte de mar infinito (clima assim o permita). Nesta zona da ilha não encontramos nenhuma outra ilha nem nenhum outro pedaço de terra que nos faça companhia.

Em seguida tinha a intenção de ficar a saber o que é isso dos “mistérios”, mais uma expressão típica do dicionário local. O clima não deixou e a zona do Mistério de São João foi atravessada sem se ver mas com lamento.

O mesmo para a vila das Lajes do Pico, porto baleeiro por excelência. É daqui que é usual saírem os barcos para o mar para as visitas turísticas às baleias, agora que a sua caça está proibida. E nas Lajes fica o Museu dos Baleeiros, encerrado às segundas-feiras. Bingo.

De volta a São Roque, visitada toda a costa ocidental da ilha do Pico, o dia seguinte seria dedicado à restante costa e centro da ilha.

Antes, porém, uma vista ao seu Museu da Indústria Baleeira. A par com o Museu do Vinho, na Madalena, e com o Museu dos Baleeiros, nas Lajes, este é um dos três polos museológicos do Museu do Pico. Instalado na antiga Fábrica da Baleia Armações Baleeiras Reunidas, Lda, constituída em 1942, e que se dedicava à pesca da baleia (cachalote) e à produção dos seus derivados, bem como à sua comercialização, este foi o primeiro museu industrial público dos Açores. Nele vemos sobretudo a maquinaria e o modo como se processava o desmancho e a transformação dos cachalotes de forma a aproveitar a sua matéria – ossos para farinha e óleo para tudo e mais alguma coisa. Indivíduos mais sensíveis na forma como os animais são tratados poderão não gostar da exposição. Mas a verdade é que a caça da baleia foi uma actividade tradicional e central e fonte de emprego no arquipélago e, em especial, na ilha do Pico. Raul Brandão escreveu sobre os homens do Pico: “Os picarotos são os mais destemidos homens do Mar do arquipélago, tisnados, secos, graves e leais”. E, antes dele, já Herman Melville, no seu Moby Dick, havia escrito sobre o homem açoriano: “Muitos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde os navios baleeiros de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente para reforçar a tripulação com os intrépidos camponeses dessas costas rochosas. Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias.” Só que, com a entrada de Portugal na CEE a caça à baleia ficou proibida, esta unidade fabril fechou portas em 1984 e o picaroto e o açoriano tiveram que deixar esta actividade que fez a sua fama.

Neste dia o céu já nos oferecia algumas abertas, bem aproveitado para uma visão da costa noroeste da ilha, com São Roque lá em baixo. Visto assim não há dúvida: o Pico não é só negro, é também verde e azul.

A Ponta do Mistério é um dos lugares mais interessante e mágicos da ilha e aqui está o Mistério da Prainha. Mistérios, “lepra que corrói a terra”, como ao fenómeno certeiramente se referiu Raul Brandão, não são mais do que as erupções históricas ocorridas na ilha. Como naquela época os seus habitantes não sabiam explicar a razão das escoadas lávicas vindas das erupções, usavam a palavra “mistério”. O da Prainha é o resultado da erupção histórica de maior duração dos Açores, acontecida entre 1562 e 1564 (temos ainda o já referido Mistério de São João, de 1718, o Mistério de Santa Luzia, do mesmo ano, é o Mistério da Silveira, de 1720). A imagem que a erupção e correspondente lava deixou neste Mistério da Prainha é a de uma substância preta que atropelou e se colou a um terreno verde. Daí as expressões negrume, torresmo e lepra para descrever a ilha do Pico. Mas o mais interessante é ver que aqui, das duas uma, ou a lava não chegou inteiramente ao mar ou a capacidade regenerativa da Terra já lhe trouxe novamente vida materializada em alguma vegetação.

Na Ponta do Mistério existe um agradável Parque Florestal de Recreio da Prainha, mais uma zona de merendas. Despido de gente, o lugar é pura floresta cerrada, o que só adensa o clima de mistério. E da Ponta do Mistério, ponto elevado, obtém-se um belo panorama da Baía de Canas, logo abaixo, e da ilha de São Jorge, do outro lado do Canal.

Logo após passarmos o desvio para Santo Amaro, povoação que era o centro da indústria da construção naval na ilha, passamos pelo miradouro da Terra Alta, lugar privilegiado para se ver desfilar a silhueta de dragão que parece ser a alongada ilha de São Jorge. Acontece que neste ponto do passeio estava num estado de quase pânico com o vento e mal me aproximei do dito miradouro. Momentos antes, a subir de Santo Amaro pela zona de frente de mar da Terra Alta, levei com uma estrada estreita e em curva de terra batida com sulcos e uma pendente que só de si já metia medo. Por azar o carro parou no sulco e ficou inclinado na subida de terra em curva com o mar lá em baixo e o vento por todo o lado. Ainda hoje acordo no meio da noite a pensar na situação e um suor frio me invade. Resultado, para além do vento que me abanava levei também as pernas a tremer para o miradouro da Terra Alta.

Ala, que se faz tarde.

Antes de chegar à Calheta de Nesquim passei ainda pela Ponta da Ilha, na Mantenha, onde existe ainda em funcionamento um farol e onde é suposto avistar-se bem São Jorge. Esta é mais uma região de vinha e de pedra, muita pedra e lava. E esta é a costa mais a leste da ilha, logo, o lugar onde o sol nasce primeiro.

Para se baixar à Calheta de Nesquim percorremos umas canadas íngremes mas com vistas fabulosas para o dolce far niente à aproximação do Atlântico. Esta povoação foi o primeiro centro baleeiro da ilha e daqui saiam em tempos os botes para a caça à baleia. O seu pequeno porto continua pitoresco, bem acompanhado por alguns edifícios, como a Casa dos Botes, a igreja, o coreto e um império do Divino Espírito Santo e ainda, mais adiante, uma zona balnear. O curioso nome Calheta de Nesquim dever-se-á ao facto de no século XVI a esta pequena enseada – calheta – numa noite de tempestade terem chegado três náufragos de um barco à deriva guiados pelo seu cão de bordo de nome Nesquim.

Da Calheta de Nesquim às Lajes do Pico são quase uma vintena de quilómetros, os únicos da estrada regional circular que não percorri. Era chegada a hora de ir ter com o centro da ilha, na certeza, porém, de que as vistas de mar me acompanhariam.

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