Viseu

Viseu, distrito e cidade, fica bem no centro de Portugal. Da capital da Beira Alta chega-se num pulinho ao Porto e parte-se para com pouca demora visitar aldeias históricas, castelos, montanhas e rios. Dito isto, a cidade de Viseu tem de ser uma centralidade a ter em conta. Amiúde considerada a melhor cidade de Portugal para se viver, Viseu tem história e soube transportá-la para os nossos dias, mantendo-a viva lado a lado com a modernidade.

A chegada a Viseu mostra-nos a cidade erguida no alto de uma colina, a praticamente 500 metros de altitude. A melhor forma de a começar a explorar é, ainda cá em baixo no planalto, estacionar o carro no parque de estacionamento onde entre Agosto e Setembro se planta a Feira de São Mateus. Esta feira franca, que decorre ininterruptamente desde 1392, é o cartão de visita por excelência da cidade tradicional que soube atravessar os tempos, adaptando-se. A Feira de São Mateus do antigamente representava um ponto de paragem obrigatório na cidade que estrategicamente se encontrava no caminho das rotas comerciais, e hoje permanece como um lugar de encontro que continua a atrair gente de todo o país, quer pelas suas inúmeras bancas de venda de produtos regionais quer pelos espectáculos de grandes nomes da música portuguesa que acolhe.

Junto ao recinto da Feira de São Mateus encontramos a Cava de Viriato, um sítio arqueológico mas também um dos muitos espaços verdes da cidade. Viseu é o centro do país e no imaginário português é também a terra de Viriato, o guerreiro mítico que liderou as tribos lusitanas nas suas batalhas face aos romanos. Sobre um bloco de granito, uma estátua de Viriato na Cava de Viriato homenageia o nosso herói, mas, na verdade, não está provado que algo neste espaço arqueológico lhe esteja ligado. Pelo contrário, este octógono de 38 hectares rodado por muros de terra batida e um fosso das águas do rio Pavia terá correspondido a um antigo acampamento-fortaleza usado pelos romanos no século I a.C. e mais tarde aproveitado pelos muçulmanos, não se sabe ao certo, constituindo esta até hoje uma das mais enigmáticas questões da romanização da Península Ibérica.

O que é certo é que a ocupação da cidade vêm da época castreja, no ano de 569 já Viseu era sede episcopal e, nos alvores da nacionalidade, D. Afonso Henriques fez questão de conferir importância a esta cidade nobre. Há até historiadores que não descartam a hipótese de o nosso primeiro rei ter nascido em Viseu, precisamente nos paços condais da sua família que existiam no lugar onde está hoje a Catedral.

Subamos, então, até o centro histórico de Viseu, a Cidade Velha, em tempos muralhada e com sete portas de entrada, de que restam hoje a Porta de Soar e a Porta dos Cavaleiros. Desde o recinto da Feira de São Mateus podemos subir à parte alta da cidade por teleférico ou a pé pela Calçada Viriato, uma rua efectivamente muito declivosa, ignorando o shopping que fica no sopé da colina, mas apreciando o espaço verde e o canal que o circunda.

No final da Calçada Viriato logo adentramos no coração de Viseu pelo Adro que recebe a alva Igreja da Misericórdia e a escura Sé Catedral de Viseu, com o pelourinho pelo meio. O granito da região faz-se representar num dos maiores símbolos da cidade, a Sé. Objecto de diversas alterações arquitectónicas ao longo dos tempos, a fachada actual é a terceira versão e data de 1635. O interior é monumental, com altar em talha dourada, e podemos ainda visitar o seu tranquilo claustro renascentista.

Mas uma das maiores atracções deste Adro e de toda a cidade é o Museu Nacional Grão Vasco. Instalado no antigo Paço Episcopal que está adossado à Sé, aqui fica uma das melhores colecções de pintura portuguesa desde o século XVI até ao presente, com destaque, claro está, para as obras do pintor Vasco Fernandes, o Grão Vasco, o maior expoente da Escola de Viseu. A sua obra maior é o retábulo criado para a Sé e que aí esteve durante séculos até ter sido transferido para o já centenário Museu. São 14 tábuas, incluindo a obra prima “Adoração dos Magos”.

Contornada a Sé, nas suas traseiras percebemos com surpresa a forma como este edifício assenta num maciço granítico.

A Praça Dom Duarte, que se abre num dos flancos da Sé, é um dos pontos mais pitorescos de Viseu. Ao redor da estátua do rei que aqui nasceu em 1391 veem-se prédios antigos com varandas em ferro forjado formando uma malha arquitectónica desalinhada mas atractiva. Nos pisos térreos destes edifícios, lojas de restauração moderna lado a lado com outras mais tradicionais. Na Praça Dom Duarte desembocam sete ruas, ou seja, daqui irradia a vida da cidade de traça medieval feita de ruas estreitas e sinuosas e de palacetes junto a edifícios de cariz mais popular. Não podemos, porém, deixar de observar a quantidade enorme de edifícios em muito mau estado de conservação neste centro histórico.

A Rua Direita e a Rua Formosa são as artérias comerciais por excelência. Mais uma vez, uma de comércio mais histórico e popular e outra mais moderna e elegante. A contemporaneidade expressa-se ainda pela edição do primeiro festival Vegan que ocupava o Mercado 2 de Maio por ocasião da minha passagem pela cidade.

E assim, caminhando ao longo da Rua Formosa, chegamos ao Rossio, a actual Praça da República onde ficam os Paços do Concelho. Esta é uma praça verde com esplanada coberta de tílias, o coração da cidade moderna. Impossível deixar de notar o muro de suporte do Jardim das Mães com um painel de azulejos a azul e branco com cenas do quotidiano das gentes da região que frequentavam a praça.

Já se disse, Viseu é uma cidade com muitas zonas verdes. Para lá da Igreja dos Terceiros de São Francisco, elevada sobre uma escadaria que lhe dá um ar atraentemente tropical, fica o Parque Aquilino Ribeiro. É um dos mais bonitos, com uma grande variedade de plantas e árvores muito antigas, como o exemplar de carvalho do século XVII que lá podemos admirar.

Para além deste parque temos ainda o Parque do Fontelo, o maior espaço verde de Viseu, com o Solar do Dão, campos desportivos e uma mata. E não podemos esquecer a Ecopista do Dão, uma ciclovia criada em 2011 que segue por quase 50 kms ao longo da antiga linha férrea do Dão que ligava Viseu a Santa Comba Dão. Pode-se pedalar ou tão somente caminhar pela totalidade ou parte deste(s) percurso(s) que nos transporta para cenários mais rurais da Beira, lembrando ainda que o Dão é região vitivinícola demarcada de Portugal.

Uma nota final para a cena cultural de Viseu, muito gabada pelas iniciativas artísticas que acontecem na cidade, com destaque para o já falado Museu Nacional Grão Vasco, mas também pela programação do Teatro Viriato, pela sua arte urbana espalhada pelas ruas e, sobretudo, pelo festival Jardins Efémeros. Este festival acontece desde 2011 e é um momento alto da cena cultural não apenas de Viseu mas do país pelas iniciativas culturais de carácter multidisciplinar, como música, arte e intervenções no espaço público, que preenchem a cidade, envolvendo a população. Infelizmente a edição deste ano foi cancelada por falta de verbas, mas espera-se que volte em 2020 e com ela mais uma demonstração da vitalidade de Viseu.

Mas, então, encerra-se um texto sobre Viseu sem passar por uma rotunda? Dizer, apenas, que impressiona sair da cidade em direcção a Nelas: quantos dedos das mãos serão precisos para as contar? Apesar de tudo, Viseu não escapa da fama (merecida) de ser a terra das rotundas.

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