Ucanha

Ucanha é uma povoação única na paisagem portuguesa. Afinal, que outra aldeia ou vila no nosso país possui uma ponte fortificada?

A meio caminho do Mosteiro de Salzedas, de cujo couto monástico fazia parte, e não muito longe do Convento de São João de Tarouca, esta aldeia do Douro Vinhateiro está situada na encosta do tranquilo e fértil vale do rio Varosa, afluente do Douro. Com muito verde ao seu redor, um rio a correr criando nas suas margens duas povoações, um património construído medieval interessante e bem conservado, é no entanto a singularidade da sua ponte com torre-fortaleza que a torna especial. Esta era a entrada monumental para o tal Couto de Salzedas e servia para protecção e controlo das pessoas e bens, para além de permitir atravessar o rio. Para esta passagem obrigatória era cobrada portagem – determinada por documento régio de 1315 -, constituindo assim uma fonte de rendimento dos monges cistercienses de Salzedas e factor de desenvolvimento da povoação. Construída por estes no século XII e classificada como monumento nacional, José Leite de Vasconcelos, filólogo e etnólogo, o maior vulto da terra, acreditava que a ponte tinha sido construída para servir três funções: a de defesa do couto, a de ostentação senhorial e a da cobrança fiscal -. Em 1504 a portagem foi extinta e a partir daí, apesar de a ponte ter continuado a servir como passagem para a outra margem do Varosa, a torre foi perdendo parte da sua importância. Após uma intervenção de restauro já no século XX, segue bem conservada.

A torre de Ucanha tem cerca de 20 metros, forma quadrangular e três pisos e balcões de matacães em cada uma das faces do último deles. Pode subir-se os seus vários andares, ocupados no interior por espaços expositivos, incluindo uma homenagem a Leite de Vasconcelos, e a vista desde cima proporciona um cenário bem bonito.

Já cá em baixo na Vila da Ponte, como também era conhecida a povoação de Ucanha, podemos caminhar pela Rua Direita (única rua), perpendicular ao rio e com cerca de 500 metros de extensão e uma inclinação acentuada em ambas as suas extremidades, passando sob a torre e atravessando a ponte com arco central bem maior do que os demais, formando um cavalete e trazendo mais um sobe e desce à curta caminhada. Do outro lado ergue-se um outro núcleo urbano, agora o de Gouviães.

Os edifícios de Ucanha são maioritariamente em granito e destacam-se o pelourinho, a igreja matriz e a casa da câmara e da cadeia. As casas de dois pisos têm por vezes escadas exteriores e varandas de madeira coloridas.

Junto ao rio, entre a ponte velha e a ponte nova, temos uma pequena praia fluvial. Perto da ponte velha de Ucanha, onde por entre salgueiros e amieiros apreciamos com mais detalhe os seus quatro arcos, ainda se veem algumas azenhas. E cobras. Único susto no meio do sossego desta pacata de povoação de cerca de 400 habitantes cuja principal ocupação é a agricultura, nomeadamente o cultivo do milho e da vinha.

Por curiosidade, diga-se que segundo Leite de Vasconcelos o algo estranho nome de Ucanha derivará de “Cucanha”, a forma antiga do nome da povoação, usada até ao século XVII. E que a palavra “cucanha” significaria, em português antigo, casebre ou lugar de diversão.

Pelas redondezas de Ucanha vale ainda a pena um passeio até ao Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e ao Mosteiro de São João de Tarouca para conhecer estas construções cistercienses, ambas do século XII, e cuja comunidade de eremitas transformaram esta região do Vale do Douro quer paisagisticamente quer num espaço de cultura e saber. O Mosteiro de São João de Tarouca, em especial, foi a primeira construção cisterciense em Portugal, iniciada em 1154, e tal facto esteve intimamente ligado quer à fundação da Ordem em 1140 quer à nacionalidade portuguesa e à figura de D. Afonso Henriques. Apesar de se encontrar grande parte em ruínas, segue como um dos melhores exemplos do ideal de construção da Ordem de Cister.

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